Ramos Caiado, 1924
Título

Anais do Senado Federal, 1924, vol. III, p. 400-409,
sessão de 4 de julho de 1924 [cf. AH2:155-164]

O sr. Ramos Caiado — Sr. presidente, a Constituição brasileira dispõe no art. 3°:

(...)

Antônio Carlos, enviado às Côrtes portuguesas, já propugnava com fervor pela realização desse esplendoroso ideal; José Bonifácio, o velho, José Bonifácio, o moço, foram outros grandes condoreiros, que deixaram em fúlgidos traços de inteligência e de saber as vantagens decorrentes dessas aspirações nacionais, hoje felizmente engastadas no art. 3° da nossa Constituição.

(...)

Haverá vantagens nesse empreendimento?

Sim, respondia na Constituinte o senador pela Bahia Virgílio Damásio. As vantagens, dizia ele, da mudança da capital da República são óbvias. Suponhamos, por um momento, que fosse assentada em território do Estado de Goiás (como mais de uma vez se tem dito), na Vila Formosa da Imperatriz, por exemplo, ponto que é proximamente eqüidistante do Pará e do Rio Grande do Sul, e um pouco mais arredado para leste, distando apenas do Atlântico 160 léguas, ao passo que pouco mais do que isto ainda de Cuiabá e umas 250 e tantas da fronteira da Bolívia. Em primeiro lugar facilitar-se-ão as comunicações para o centro e a disseminação do progresso, por isso que, acompanhando este a ida da capital para essas paragens, acorrente cujo centro é hoje aqui o Rio de Janeiro, caminhará para lá e, portanto, derramar-se-ão com muito mais facilidade com muito mais rapidez, as conquistas da civilização em torno da nova capital, (...)

Só com a mudança da capital os governos poderão administrar livremente o país, aliviados das masorcas das ruas, das influências das bernardas, dos levantes militares, das greves, dos motins, da ação demagógica e demolidora dos anarquistas, do fermento socialista, das desordens dos comunistas, dos inimigos do capital e do Estado, dos parasitas que infelicitam o Rio de Janeiro e de todas as ameaças perigosas para a estabilidade das instituições republicanas. Os poderes da República, longe das influências perniciosas do ambiente do Rio de Janeiro, que abate e enfraquece o senso moral e aniquila o prestígio dos mais eminentes patriotas, terão, no exercício da sua, então, legítima soberania, capacidade de outorgar melhores e mais fecundos frutos à coletividade brasileira. São de nossos dias e do conhecimento de todos as provações e os sofrimentos dos muitos dos nossos homens públicos que com excepcional patriotismo e abnegação, governaram o país. (...) Não é só o Executivo que, no Rio de Janeiro, sofre a ação dos demolidores e das influências permiciosas, dos desordeiros, dos inimigos da sociedade, dos inimigos da ordem e das instituições, também, diz Carlos Maximiliano: « no Brasil, a grande cidade que serve de capital do país, faz pressão sobre o Congresso, por meio da imprensa, dos meetings, dos aplausos das galerias, indo às vezes a população até à vaia, à ameaça e ao tumulto. Ora, os deputados e os senadores representam a Nação; é possível que, traduzindo o pensamento conservador dos seus eleitores, contrariem profundamente as aspirações e também os interesses dos habitantes da metrópole cosmopolita, grande porto de mar, de população adventícia, dominada, no alto comércio e nos bancos, por estrangeiros e deles também composta a coorte dos desocupados e desordeiros que constituem a clientela permanente de todos os agitadores. | Isto tem feito mal enorme às finanças nacionais; impressiona-se o Congresso com a opinião da capital, treme diante da imprensa, por sua vez também forçada a agradar as paixões dominantes para ter circulação remuneradora, e decreta, com freqüência deplorável, medidas de favor a operários do Estado, obras adiáveis e dispendiosas, dia a dia, onerando os compromissos do Tesouro ».

Se, como vimos, para segurança da República e do governo [ainda não falou de ataques externos] é de toda a eficiência a mudança da capital para o planalto central, não o é menos conveniente, como acabamos de ver, sob o ponto de vista financeiro.

E quanto ao aspecto econômico?

É o que se desenrola mais promissor, mais cheio de atrativos, mais cercado de seduções, que enebriam e fascinam aos verdadeiros patriotas, que conhecem as riquezas prodigiosas que aguardam medidas protetoras para fazer raiar horizontes novos na economia brasileira.

A inconteste e assombrosa fecundidade do Brasil central só exige o silvo da locomotiva para se transformar em grande celeiro da União, e efetivamente colaborar para felizes dias das finanças nacionais. Para que não se suponha um hiperbólico eufemismo, o entusiasmo e a confiança que em mim despertam a capacidade produtiva das prodigiosas planícies da minha terra (...) ofereço ao julgamento dos meus pares e da Nação o que Goiás já exporta pelo sul, onde existem apenas alguns quilômetros de estrada de ferro.

Estes dados são da última mensagem do sr. presidente do Estado ao Congresso goiano:

[exportações de Goiás e impostos arrecadados em 1923; não inclui riquezas do norte]

(...) julgo de eloqüência impressionante a estatística que acabo de ler sobre produtos da pequena zona servida pela Estrada de Ferro Goiás.

Sabem todos os que me ouvem, espíritos esclarecidos, que sem estradas de ferro, sem meios de transporte, é impossível exportar os produtos do centro, oeste e norte do Estado, produtos cujos valores seriam consumidos pelos fretes elevados em costa de muares.

Mudar a capital seria fazer viação em Goiás e enriquecer o país.

Ainda não falei, sr. presidente, nas possibilidades das minas de meu Estado. Ali se encontram riquezas fantásticas. (...)

[diamantes, pérolas, manganês, carvão, petróleo, cobre, esmeraldas, alumínio, platina, mica, cristal, ouro etc.; abundância de água cf. Pimentel; Pitt, Hipólito, cons. Veloso de Oliveira, Andradas, aditamento; carta de Glaziou]

Sr. presidente, depois disto, para que me estender mais sobre o clima, a beleza da região escolhida, as vantagens da mudança da capital, a seqüência admirável de harmonia de opiniões dos nossos maiores estadistas, desde o período colonial até hoje?

Entretanto, sr. presidente, a despeito de tudo que acabo de demonstrar, dorme no seio das Comissões do Senado desde 29 de novembro de 1919, o projeto do nosso ilustre colega senador Justo Chermont, que manda abrir concorrência para construir, sem ônus para a União, a nova capital federal, e repetimos — sem ônus!

Sabemos que muitos capitalistas aguardam apenas a transformação desse projeto em lei para concorrer para a execução desse grande empreendimento, que por si só, realizado, constituirá a glória de um governo.

E aproveitamos, sr. presidente, este momento histórico, em que temos à frente dos nossos destinos um estadista de rara envergadura de civismo, que vem remodelando os nossos costumes, encarando frente a frente, com a maior serenidade, sem vacilações, o bem da pátria, na majestade dos nossos problemas para as grandes realizações.

Transformar em lei aquele projeto é ato de patriotismo e o patriotismo, no dizer de Clemenceau, é um dever elementar; e é triste que sejamos obrigados a justificá-lo e a discuti-lo!

Eis o que eu tinha a dizer. (Muito bem, muito bem)

   

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Referências

 

Brasília nos planos ferroviários (DF)
Ferrovias concedidas do plano de 1890 | EF Tocantins | Cia. Mogiana | Ferrovia Angra-Catalão | EF Goiás | Ferrovia Santos - Brasília
O prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil | A ferrovia da Cia. Paulista | Ferrovias para o Planalto Central | Documentação
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