Glicério: – Em defesa da sua gestão
na Agricultura
Discurso na Câmara, 1891
O Sr. Francisco Glicério — Não
vem propriamente discutir o orçamento do Ministério da Agricultura;
vem expor e justificar os seus atos, quando, ministro da ditadura, geriu
essa repartição e, em relação aos dois pontos
capitais de sua administração: imigração e
colonização, e estradas de ferro.
Não vem pleitear perante a Câmara a aprovação
de seus atos, vem defender a sua administração, sem preocupação
pessoal, sem ódios, sem ressentimentos a vingar, visando menos
a absolvição de seus erros, do que a justiça para
o Governo de que fez parte.
Declara antes de tudo que em assuntos de imigração, colonização
e viação férrea, procedeu sempre com a maior liberdade
de ação no governo, tendo tido de seus colegas e do chefe
do Governo a mais completa soma de autonomia para fazer tudo quanto foi
feito pelo orador.
Se errou, seus erros não vão além da pessoa do orador,
em quem seus colegas confiaram em boa fé.
Repete que não se defende por interesse partidário, porque
já não é mais chefe político, e, por enquanto,
a não ser a defesa da República, não está
filiado a partido algum.
Seus serviços, se algum valor tiveram, foi no período anterior
à revolução, período em que não é
lícito destacar uns mais do que outros, porque foram muitos os
que trabalharam pela causa comum. Sente-se feliz por poder desempenhar-se
dos deveres de deputado pelo Estado de São Paulo, sem ódio,
sem paixões, sem ambições, e, o que é mais,
sem mesmo disposição para articular queixas contra ninguém.
Não tem a responsabilidade do Governo da União, não
a tem do governo de seu Estado; só é responsável
pelo seu mandato de deputado. Nesse posto cumprirá o seu dever
de acordo com o seu passado, guardando possível harmonia de vistas
entre os seus colegas de representação e da Câmara.
Quando entrou para o Ministério da Agricultura em 1º de fevereiro
de 1890, anteviu desde logo que a ditadura ocuparia os seus serviços
por mais de um ano, pois o orador sabia bem quanto era mister manter a
disciplina governamental no interesse da consolidação das
instituições, e se dispusera a transigir com as circunstâncias
que cercam todos os governos revolucionários, para chegar a esse
resultado em harmonia com os seus ilustres colegas. Entretanto, não
podia ser indiferente ao maior problema que se impunha às atenções
do Governo Provisório, qual o que se refere ao povoamento do território
nacional, e dedicou esforços, estudos constantes e perseverantes,
para resolvê-lo, pondo sem dúvida nenhuma tanta firmeza e
previdência na avaliação das forças orçamentárias
e produtivas do país, quanto audácia para afrontar a maledicência
dos pretendentes e invejosos, a ausência de critério na opinião
pública, e os desfalecimentos dos que sinceramente se empenham
pelo desenvolvimento da grandeza moral e material da República,
mas que recuam diante das injustiças dos contemporâneos.
Foi assim que o orador resolveu, a risco mesmo de ser apreciado com injustiça,
utilizar o interesse individual, único móvel de todo
o progresso humano, no desenvolvimento industrial e agrícola
de sua pátria.
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