Glicério: – Em defesa da sua gestão na Agricultura
Qualidade do imigrante

O Sr. Beaulieu diz que "a colonização se forma pela experiência, se aperfeiçoa pelo abandono dos métodos condenados pela aplicação e pelo ensaio dos processos que a observação sugere." Tem-se dito e escrito à saciedade que a imigração a tanto por cabeça, o que chamam le trafic des blancs, é processo condenado e que outra coisa não fez o orador.

Qual é então a imigração que querem, exclama o orador; a imigração dos sábios, dos burgueses, dos capitalistas? Os que assim arrazoam não são homens práticos, mostram conhecer bem pouco o assunto que mais se impõe à meditação e ao estudo dos homens que têm a responsabilidade da administração pública.

Esta frase — imigração a tanto por cabeça — não tem nenhum valor moral para determinar o repúdio do sistema seguido pelo orador; é menos sábia do que leviana.

Em verdade, tratando-se da introdução de imigrantes é claro que o transporte deles deve ser regulado pela soma de despesa que cada um deles fizer, tanto como qualquer outro passageiro por via marítima ou terrestre. A censura parece antes dirigir-se à qualidade pessoal do imigrante, suposto que pretenda-se excluir da imigração subvencionada, os indivíduos maus ou incapazes pela idade ou por doença.

Mas, não fez outra cousa o ato de 28 de junho, que expressamente instituiu: — 1º a exclusão dos indígenas da África e Ásia; 2º a preferência para as famílias constituídas, e a estas preferindo-se as que forem agricultores; 3º a exclusão dos criminosos, dos mendigos e indigentes, dos enfermos ou com defeitos físicos.

Para sobrelevar a face humana que o orador imprimiu a todos os atos que instituiu em relação ao serviço de imigração, basta aludir ao prêmio de 100 mil francos, que criou na disposição 16, da Lei de 28 de junho, em favor da empresa de navegação que transportar durante um ano 10.000 imigrantes pelo menos, sem ter havido reclamação a respeito das bagagens e do tratamento a bordo.

Os que aludem tão superficialmente ao que chamam tráfico dos brancos, estão em verdade bem longe das noções elementares que conduzem à solução do problema do povoamento, consagradas pela observação secular e continuada até hoje, se, como parece, opinam pela seleção dos indivíduos que devem vir povoar os desertos do Brasil. Conhecem provavelmente a imigração de puritanos que se dirigiram da Europa para a América inglesa e imaginam que esse agrupamento de homens e famílias, submetidas a uma organização eclesiástica especial, foram os únicos povoadores da União Americana.

A esses homens moralizados, que diziam: "se alguém há entre nós que ame a religião como doze e ao mundo como treze, não tem o espírito de um novo inglês", — seguiram-se as imigrações recrutadas na Europa sem a menor atenção às qualidades morais dos indivíduos.

A imigração espontânea, posto que já notável, não bastava às necessidades crescentes para tornar a mão-de-obra abundante.

A deportação dos criminosos e a imigração por engajamentos foram empregadas alternativamente.

Cromwell imaginou vender os condenados políticos aos plantadores, e Jacques II seguindo este exemplo vendeu por 10 ou 15 xelins os descontentes comprometidos na conspiração de Monmouth. A deportação dos criminosos na América, no correr do século XVIII, tomou forma regular, e em 1750 o Maryland era então a mais importante colônia penal, contando com cerca de 2.000 Condenados. Milhares de imigrantes penetraram na Virgínia e Pensilvânia por contratos de engajamentos, com passagens pagas naquele tempo na taxa de 7 a 8 libras, e os historiadores economistas que tratam deste assunto, narram o aviltamento imposto aos colonos, principalmente alemães, pelos famosos contratos de locação de serviços, tão conhecidos ainda da moderna geração dos brasileiros.

A Austrália foi povoada por criminosos remetidos da metrópole. De 1787 a 1836 ela recebeu 102.957 condenados, e a média dos últimos anos desse período era de 5.500 transportados com a regularidade de uma sã imigração. Só depois que grandes subvenções foram feitas, é que a imigração de gente melhor se encaminhou para aquele país.

Entretanto, ninguém dirá que as duas grandes civilizações fundadas nesses dois países modelos, a União Americana e a Austrália, tiveram a menor filiação aos condenados da mãe-pátria.

A própria América do Sul, cujas nacionalidades e instituições políticas testemunham o desenvolvimento moral de suas sociedades, foi povoada por deportados, civis, por criminosos e por aventureiros ávidos de metais preciosos.

No Brasil, observa notável economista, reservado pelos portugueses para deportação dos condenados e judeus, as colônias povoadas por elementos irregulares, dissidentes e criminosos, prosperaram muito mais depressa do que aquelas que foram pela metrópole dirigidas com cuidado desde a infância.

O mesmo economista, estudando as causas da decadência do norte do Brasil, e das minas de diamantes do sul, assim se exprime: "os mineiros mais intrépidos e opiniáticos foram os paulistas, raça oriunda de condenados deportados e de mulheres índias, possuindo todas as qualidades e todos os defeitos dos dois elementos que descendiam: uma energia quase selvagem, gostos de aventuras, e independência levados ao extremo, e costumes republicanos.

Estabeleceram-se em São Paulo, no sul do Brasil; escaparam durante um século à ação da metrópole; não reconheceram o governo do Brasil senão em 1730, e conservam, mesmo em nossos dias (1886), no ponto de vista intelectual e físico, uma fisionomia diferente dos brasileiros em geral."

O orador, que é paulista, traz em si a prova de que a transmigração produz a seleção, pois que descendendo daqueles maus elementos, passa por ser tão generoso que deu todas terras devolutas.

A verdade é que a transformação do forasteiro europeu em proprietário agrícola, opera a transformação moral ainda mesmo na primeira geração.

Mas o orador, no ato que expediu, regulando o serviço de imigração, excluiu os indígenas da Ásia e África, os mendigos, os doentes, os criminosos, e até os velhos que não forem chefes de uma família, preferiu expressamente as famílias, e entre estas as que vierem dos campos.

Ora, imaginai a localização de um milhão de famílias camponesas, em suas propriedades agrícolas no Brasil, e respondei se o orador merece por isso a condenação dos seus contemporâneos.

  

Anais da Câmara dos Deputados, sessão em 6 de outubro de 1891.
Idéias políticas de Francisco Glicério.
Senado / Casa de Rui Barbosa / MEC, 1982

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