Notas e referências sobre
|
||||||||||||||||
Salles, Ricardo. Nostalgia Imperial: A formação da identidade nacional no Brasil do Segundo Reinado. Topbooks, Rio de Janeiro, 1996(...) Em grande parte é o próprio alcance limitado do que poderíamos chamar a obra republicana o grande responsável pela sobrevivência do espectro monárquico entre nós. Com efeito, a República, pelo menos até 1930, mostrou-se incapaz de elevar o país a patamares de progresso material, social e político que ela mesma havia acenado como seus compromissos. p. 20 Uma conjuntura intelectual e cultural muito particular e rica marcou o quadro de expansão do movimento republicano nas últimas décadas do século passado. Então, o regime monárquico, em que pese uma certa simpatia difusa pelo Imperador, era objeto de profundas críticas e era generalizado um sentimento de que um Terceiro Reinado não tinha um futuro muito promissor. Tomara conta da vida espiritual do país a partir da década de 70, o movimento que ficou conhecido como "a Ilustração Brasileira" 8[Roque Spencer Maciel de Barros, A Ilustração Brasileira e a idéia de Universidade, Universidade de São Paulo, nº 2, São Paulo, 1959]. Então, como colocou Sílvio Romero, "... um bando de idéias novas esvoaçavam sobre nós de todos os pontos do horizonte" 9[citado por Roque Spencer etc.] e a noção de atraso em relação aos países capitalistas centrais tomou conta da intelectualidade. Afinados com seu tempo, as idéias de evolução, progresso e atraso e a crença no papel positivo e impulsionador da ciência passaram a povoar a consciência destes intelectuais, que se lançaram à tarefa de modernizar o país. Uma certa simplificação cômoda, a posteriori, associou rapidamente, nesta conjuntura de crise do Império, modernização, abolicionismo, imigrantismo e republicanismo. Não só não havia unanimidade em torno de todas estas idéias, como elas não necessariamente habitavam lado a lado no universo intelectual da época. Machado de Assis, por exemplo, manteve-se cético e descrente das grandes inovações da ciência 10[Cf. Kátia Muricy, Machado de Assis - A razão cética, Companhia das Letras, São Paulo, 1988]. Se o movimento republicano se inseria no contexto da "Ilustração Brasileira", esta, contudo, não se restringia ao mesmo, tomando-o como um dado. Intelectuais "modernizadores" e ocidentalizantes de peso, como Joaquim Nabuco e André Rebouças eram monarquistas e pregavam as reformas sem alteração no quadro político-institucional do país. Tobias Barreto e o próprio iconoclasta Sílvio Romero permaneciam relativamente indiferentes aos movimentos republicano e abolicionista que agitavam a vida política do país. Estes, aliás, em alguns casos, apresentavam-se quase como contraditórios de um ponto de vista prático. p. 21 Mesmo nascendo neste ambiente, a República não contou com o amplo apoio da população. Se, num primeiro momento, foram poucas e dispersas as vozes que se levantaram em defesa do antigo regime, isto não significou de imediato a legitimação da República. Ainda assim, esta, mesmo que não legitimada, nasceu sob a aura do progresso, ao menos se tivermos em conta o discurso de seus fundadores, principalmente intelectuais. Fruto de golpe militar sem apoio popular, em que pese a tentativa de José do Patrocínio de obter respaldo e legitimidade para o novo regime junto à Câmara dos Vereadores, a República não despertou aquela corrente de energia que poderia permanecer por anos após um acontecimento que, ao menos em teoria, deveria mudar profundamente os destinos nacionais. Já se analisou o fracasso da República, em seus primeiros anos, em consolidar seus valores e símbolos no imaginário popular 11[José Murilo de Carvalho, A formação das almas - O imaginário da República no Brasil, Companhia das Letras, São Paulo, 1990]. A República, na verdade, foi uma grande frustração, uma ducha fria nos ânimos que haviam se excitado nos anos mais ricos da "Ilustração Brasileira" 12[Roque Spencer balisa este período de extrema excitação intelectual e crença na possibilidade de reforma e progresso do país entre 1870 e o início da I Guerra Mundial. Entretanto, considera que os anos mais fecundos foram entre 1870 e 1889]. Suas primeiras vítimas, excetuando-se, é claro, os monarquistas, foram os próprios arautos do novo regime, que cedo constataram que tudo permanecia o mesmo 13["Todos se presumiam e diziam republicanos, na crença ingênua de que a República, para eles palavra mágica que bastava à solução de problemas de cuja complexidade não desconfiavam sequer, não fosse na prática perfeitamente compatível com todos os males da organização social, cuja injustiça os revoltava". José Veríssimo, citado por Nicolau Svecenko, Literatura como missão. Tensões culturais e criação na Primeira República, Brasiliense, São Paulo, 1983]. Positivistas, evolucionistas e cientificistas rapidamente decepcionaram-se com o novo regime. Políticos e oligarquias tradicionais terminaram por apossar-se do poder. A fé na ciência e no progresso mostrou-se incapaz de conduzir o grupo de intelectuais muito longe. Raul Pompéia matou-se em uma noite de Natal e Silva Jardim desapareceu no Vesúvio. Sílvio Romero e Euclides da Cunha 14[Para Sílvio Romero, conferir Roberto Ventura, Estilo tropical. Para Euclides da Cunha, conferir Nicolau Svecenko, Literatura como missão] acabaram por render-se às teorias em voga que prescreviam a inferioridade racial de nosso povo mulato, afastando-se dos postulados positivistas de Aníbal Falcão, por exemplo, que viam na miscigenação e na síntese cultural, através da incorporação dos fetichistas negros e amarelos à civilização ibérica, a "fórmula geral do destino da pátria brasileira" 15[Cf. Aníbal Falcão, A fórmula da civilização brasileira, Editora Guanabara, sd.]. (...) (...) Se refletia os avanços democráticos que o liberalismo europeu estava sendo obrigado a incorporar em seu ideário, esta nova vaga liberal não tinha ainda pretensões a uma ampliação social dos direitos políticos ou das benesses do progresso econômico. Somente com a campanha abolicionista a extensão da cidadania seria tema dos debates públicos. Tavares Bastos foi o precursor deste novo liberalismo. Joaquim Nabuco, que com seu engajamento abolicionista incorporaria um forte componente social à sua visão política, e Rui Barbosa, em quem predominou uma interpretação clássica, seriam seus representantes da nova geração 233[A distinção entre o liberalismo tradicional do Império e o novo encontra-se em Roque Spencer Maciel de Barros, A ilustração brasileira. Ver também Alfredo Bosi, Dialética da colonização]. p. 173 Mas a crítica ao edifício ideológico imperial não vinha apenas do novo liberalismo. A mentalidade cientificista que passava a predominar na Europa também chegava ao Brasil e ganhava adeptos no novo ambiente intelectual. A fase inicial da "Ilustração Brasileira", além do liberalismo triunfante, revelou um "programa" cientificista com forte influência do positivismo e do darwinismo. Havia, em primeiro lugar, a exigência de transformação do país. No plano das escolas e modismos literários, contrapunha-se o naturalismo ao romantismo; na ordenação jurídica, o direito positivo ao direito natural; na filosofia, o materialismo ao espiritualismo; na política, a República à Monarquia 234[Wilson Martins, História da inteligência brasileira. Sobre o panorama intelectual dos últimos anos da Monarquia e princípios da República, ver também Roque Spencer Maciel de Barros, A ilustração brasileira e a idéia de universidade, e Florestan Fernandes, A sociologia no Brasil. Contribuição para o estudo de sua formação e desenvolvimento]. Na realidade, estas dualidades nem sempre coincidiam nos mesmos atores e intelectuais. Assim, André Rebouças e Joaquim Nabuco, que abraçavam a causa do liberalismo e do progresso, permaneceram monarquistas. Para Rui Barbosa - talvez o maior exemplo de liberalismo clássico da nova geração — o federalismo era a questão central, com ou sem Monarquia. Tobias Barreto e Sílvio Romero, expoentes do cientificismo, caracterizavam-se por uma grande inapetência política e uma certa indiferença diante do movimento abolicionista 235[Sobre estes dois expoentes da "escola do Recife", conferir Evaristo de Morais Filho, Medo à utopia]. Uma parte considerável dos que abraçavam a causa da República mantinha uma atitude dúbia ante a escravidão e é conhecida a posição do manifesto republicano de que esta era uma questão cuja solução dizia respeito ao regime monárquico. Aníbal Falcão pode ser considerado como um exemplo do que poderíamos chamar do novo intelectual completo. Republicano, aderiu por inteiro à campanha abolicionista, subordinando a primeira causa ao sucesso da segunda. Em Recife, apoiava integralmente o monarquista Joaquim Nabuco em nome da unidade do movimento abolicionista. Era de um positivismo clássico, identificando as reformas que deveriam ocorrer na sociedade brasileira com a contribuição que esta deveria dar ao progresso da humanidade 236[Cf. Aníbal Falcão, A fórmula da civilização brasileira. Ver, particularmente, a parte referente à campanha abolicionista em Recife, "Joaquim Nabuco e a Campanha Abolicionista"]. (...) É neste ambiente de desorganização do espaço público que um intelectual, que se formara dentro dos antigos parâmetros do romantismo e do mundo imperial, foi capaz de detectar a natureza profunda da realidade brasileira. Machado de Assis via com ironia, perplexidade e impotência a nova situação de desmoronamento do mundo e da cultura imperiais, de ascensão de novas camadas sociais e de aguçamento do que foi chamado nossa incongruência ideológica 239[Cf. Raimundo Faoro, A pirâmide e o trapézio. Ver também Roberto Schwarz, Ao vencedor as batatas e Um mestre na periferia]. A grandeza e a agudeza de Machado de Assis encontram-se em seu perceber e "retratar" o desgaste e a falência do velho mundo do Império e a fragilidade e impotência do novo que surgia, em especial, a proposta das novas camadas sociais urbanas modernizadoras. A exposição deste momento tornou-se uma revelação da "alma brasileira" imobilizada nesta descontinuidade histórica. O universalismo machadiano está relacionado à sua não inclusão em escolas literárias que são tão características de nossa vida literária baseada na "cópia" de modelos externos. Sua crítica é cética na medida em que parte do passado, isto é, está alicerçada no universo cultural romântico sem, contudo, estar comprometida com ele 240[Sobre a noção de Razão Cética, ver Katia Muricy, A razão cética. Machado de Assis e as questões de seu tempo]. Tampouco está comprometida com o novo. O progresso burguês no Brasil de base escravagista em desagregação deitava raízes no vazio. A força da crítica machadiana está em expressar esta ausência de uma base social e econômica sólida para os modernismos do final do século 241[Sobre o terreno movediço e incerto em que buscavam firmar-se os intelectuais modernizadores, ver Alice Resende de Carvalho, "República brasileira: viagem ao mesmo lugar", in Dados, nº 3, Vértice, Rio de Janeiro, 1898]. Por outro lado, ele não podia se prender ao passado, como Alencar, na medida em que este encontrava-se definitivamente condenado a submergir. p. 176 Durante parte da década de 80 uma questão, contudo, foi capaz de condensar todas as contradições presentes no quadro de desagregação da sociedade escravista e perda de vitalidade do Estado imperial. Neste espaço de tempo, o obstáculo ao progresso do país e raiz de seu atraso teve um nome definido: escravidão. Em torno da luta pela sua extinção congregou-se um amplo espectro de forças sociais e políticas no movimento abolicionista. Segundo Oliveira Vianna: p. 177
Mais que um índice da crise de hegemonia e da inorganicidade do Estado imperial, o abolicionismo lançou uma cunha cada vez mais poderosa, entre este Estado e sua base social, os barões do café. O movimento contribuiu decisivamente para a ampliação e modificação do espaço público para fora do mecenato imperial. Refletiu e, ao mesmo tempo, impulsionou o surgimento de uma nova opinião pública urbana. Tudo isso demonstra a potencialidade de refundação que estava presente no movimento abolicionista. |
|
|
|
|
|
|
|
| Vias | Rodoviária | Centro | Asa Norte | Asa Sul | Cidades | Metrô | Trem | Plano Piloto | História | Livros | Links | Help | Home |