Ottoni, 1859
O futuro das
estradas de ferro do Brasil
Trechos transcritos por J. B. da Fonseca
em sua proposta à diretoria da EF D. Pedro II, em 1861
(proposta combatida por C. B. Ottoni)
[cf. Agricultura, 1861]
« Para que possa esta grande empresa desempenhar a sua missão,
que é sem duvida alguma, a do principal tronco das communicações
entre as Provincias e a Capital do Imperio, deve necessariamente estender os seus
braços através da Provincia de Minas em direcção ao
Norte; o braço esquerdo transpondo a Mantiqueira, alcançando as
aguas de S. Francisco, procurando ligar-se á navegação deste
rio, do Norte, o braço direito, atravessando longitudinalmente a facha
de mattas virgens parallela á costa até entroncar-se algum dia na
estrada de Joazeiro. De um lado a unidade, a grandeza e a segurança do
Imperio: do outro a agricultura, a venda de terras,
o trabalho livre, a colonisação.
Eis os grandes principios representados pelas duas linhas indicadas. E se estas
illações são logicamente deduzidas da configuração
topographica do paiz, como julgo ter mostrado no capitulo precedente, não
menos as reccomendão a natureza das producções e a distribuição
e movimentos da população. Com effeito a linha que deve procurar
o S. Francisco terá primeiramente de atravessar
o rio Grande e servirá as comarcas de Baependy,
Rio Verde, Sapucahy, Rio Grande, Paraná, Paracatú, S. Francisco,
Rio das Mortes e Rio das Velhas, que são as que vertem aguas para
o rio Grande e S. Francisco; restando da Provincia sete comarcas, situadas a leste
da cordilheira central. Estas justas considerações sobre as quaes
mais de uma vez tenho reflectido, actuão em meu espirito sempre que se
trata da importante questão dos ramaes da via ferrea de D. Pedro II. Quando
attendo para a exiguidade de recursos dos que a Companhia póde dispôr
em relação ao enorme dispendio que obras desta natureza exigem,
e a apreciação economica da direcção que convém
dar á linha ferrea, me parece um objecto de transcendente importancia,
o qual deve ser considerado mais em vistas do futuro para que possa o paiz colher
vantagens solidas e permanentes, que justifiquem os sacrificios que vão
pezar sobre a geração actual. »
(...)
« Por coincidencia notavel, a secção da Estrada
de ferro de Barra Mansa a Rezende está defronte das cabeceiras
do rio Grande e a rumo direito de S. Francisco, e nessa direcção
para Minas se apresenta uma garganta da serra da Mantiqueira, que
tem attrahido a attenção das Assembléas de
Minas e do Rio de Janeiro, estando a primeira a construir por alli
a estrada do Passa Vinte, que tem por fim trazer ao valle do Parahyba
e á Estrada de ferro as avultadas producções
daquelle uberrimo torrão. São estas as informações
que já alludi, autorisadas além de outro pelos distinctos
mineiros, meus velhos amigos o sr. dr. José Jorge da Silva
e o sr. conselheiro Antão, algum tempo Inspector de Obras
Publicas na Provincia. Em uma memoria pelo primeiro apresentada
ao governo imperial a respeito da producção do gado
e do commercio de carnes verdes, encontro o pensamento, que eu já
tivera, mas tão bem desenvolvido, que seria prejudicar os
meus leitores substituir-lhe exposição de minha lavra:
oução a elegante expressão do sr. dr. José
Jorge da Silva. Nunca acharei superflua uma estrada qualquer, seja
qual fôr a sua direcção e ponto de partida;
mas das que descem de Minas para o littoral, e essa sem contestação
são as mais uteis, nenhuma tem a importancia commercial e
alcance politico da estrada do Passa Vinte, que communica o valle
do Parahyba com o rio Grande.
Não sei que na minha provincia, e supponho conhece-la, haja creado Deus
uma zona mais pittoresca, mais fertil, mais sadia do que o
valle do rio Grande. Os terrenos de cultura são de uma fecundidade
inexhaurivel, as mattas crião immensa variedade de madeiras de construcção,
e os campos naturaes, cuja prespectiva repassa a alma de um prazer tão
intenso, como ninguem é capaz de descrever, rivalisão em belleza
com as ricas pastagens da Tartaria que o sr. Lamartine eternizou nas suas — Viagens
ao Oriente. Aquelle valle, que supporta grandes valores, é
quasi o unico exportador de certos generos de Minas para esta Côrte:
bois, carneiros, porcos, toucinho, fumo, queijos, tudo d'alli vem, e algum dia
virá o trigo e as fructas e flores, quando a rotina fôr substituida
por processos intelligentes, e gozarmos das vantagens de transportes que carreguem
depressa, barato e muito.
E é a esse grande centro de producção que
a estrada do Passa Vinte deve abrir sahida para o athlantico, para
a Estrada de ferro de D. Pedro II, para a Capital do imperio. Além
de ser a mais curta, é tambem a mais praticavel; atravessa
terrenos quasi planos e transpõe a serra geral da Mantiqueira
por terrenos pouco pedregosos e de uma declividade tão disfarçada
que póde reduzir-se talvez a 1 em 45 para estradas de ferro.
Para calcular-se a importancia daquella estrada basta saber-se que
todo o terreno mineiro do rio Preto para o Oeste, isto é,
mais de 130 leguas, de S. João d'El-Rei, Tamanduá
e Paracatú para o Sul, superficie que abrange mais de vinte
municipios não tem para aqui direcção mais
natural e mais curta. E demais, quando em tempo talvez pouco remoto
houver de destacar-se do valle do Parahyba um ramal da Estrada de
ferro de D. Pedro II para a minha Provincia, creio que naturalmente
deveráõ procurar-se os valles dos grandes rios, e
com especialidade o de S. Francisco, o grande Mississipi Brasileiro.
Ora por uma felicidade extraordinaria de posição
é a estrada do Passa Vinte que resolve completamente o bello
problema de pela linha mais curta ganhar a nascente de S. Francisco
poucas leguas (duas a tres) abaixo da linda cachoeira de Casca d'Anta,
por onde aquelle rio precipita-se de cima da serra da Canastra e
atira-se na planice.
Muito mais profundamente do que eu, apreciará V. Ex. as
vantagens commerciaes e politicas desse systema de communicação
interior do Rio de Janeiro, Minas, S. Paulo, Bahia, Pernambuco,
Sergipe e Alagôas; qualquer consideração que
eu houvesse de aventurar, fôra imperdoavel leviandade. Esta
estrada, cujo alinhamento acompanhei desde Lavras até o rio
Preto, já está nivelada para servir provisoriamente,
e por uma picada de quatro palmos de leito aberto sob a direcção
dos engenheiros de minas, atravessei a Mantiqueira sem o menor incommodo
de descidas ou subidas rapidas; pois a declividade é quasi
sempre inferior a 5%.
Como já tive occasião de informar a V. Ex. a grande
região em que concentra-se quasi todo o gado de exportação
para esta Capital, são os municipios de Formiga, Oliveira,
Lavras, Tres Pontas, Passos, Jacuhy e Caldas. De todos esses pontos
a direcção mais curta para a Côrte é
o Passa Vinte.
Tanto por seus actos, como por cartas que teve a bondade de escrever-me para
Lavras, e para aqui, sei que o exm. sr. conselheiro Carneiro de Campos dedica-se
mui seriamente áquella obra; mas acanhadas como são as rendas da
minha Provincia, não podem habilitar a S. Ex. para executar promptamente
seus bons desejos, ainda ajudado pelos cem contos votados como subvenção
pelo Corpo Legislativo; e por isso espero que o governo imperial proteja efficazmente
aquella estrada, que servindo ás provincias de Minas, Goyaz e Matto Grosso
para esta Côrte, deve reputar-se estrada geral. Um dos meios de protecção
áquella estrada consistirá, segundo me parece, em mandar V. Ex.
proceder a nova exploração do lanço comprehendido entre o
rio Preto e o rio Grande, isto é, a serra da Mantiqueira, para que qualquer
estrada que por alli se abrisse já para passageiros, boiadas ou tropas,
guardasse a declividade que supportão as locomotivas. A despeza de exploração
e novo nivelamento não será grande, pois essa secção
é apenas de cinco leguas e algumas vantagens poder-se-hião colher,
como por exemplo resolver o problema da passagem da serra, e sem despezas especiaes,
pois tem de por alli fazer-se um caminho, adiantar-se serviços á
Estrada de ferro de D. Pedro II que tudo merece; pois abaixo da Independencia
e da Constituição do imperio que nos crearão autonomia e
existencia digna, qual convém a homens, ainda não entrou em cabeça
brasileira pensamento tão grandioso. Vencida a Mantiqueira, o terreno dahi
por diante presta-se a tudo: levemente accidentado por ondulações
suaves de campinas lavradas, facilita as questões de nivelamento, e em
alguns lugares as torna trivialissimas. Supponha-se que a Estrada de ferro de
D. Pedro II vai em demanda de S. Francisco: a linha recta, que lá conduz
é o valle do rio Grande, que a estrada costeará por 50 leguas do
Livramento até o Piauhy [Piumhy];
nessa altura ganha as planicies que separão sem a menor serra ou morro
o rio Grande do de S. Francisco, quasi nas suas cabeceiras, deixando entre elles
apenas a distancia de cinco a 6 leguas; nessas planicies teria a estrada de bifurcar-se,
seguindo para o Norte a do valle de S. Francisco; mas a do rio Grande, continuando
para Oeste, acompanharia o valle do rio Piauhy [Piumhy],
e alcançando por um plano suave o alto da serra da Canastra, teria diante
de si o celebre platô, que por campos limpissimos e planos projecta-se por
mais 70 leguas a terminar ás margens do Paranahyba na divisa de Minas com
a Provincia de Goyaz e Mato Grosso. E como é [á?]
o Passa Vinte, além das vantagens da actualidade, cabe, segundo penso,
a honra de facilitar á posteridade essas grandes
linhas ferreas para o rio Grande, S. Francisco, Goyaz, Mato Grosso e Estados
vizinhos, tenho toda a razão de esperar que V. Ex. se interessará
por aquella estrada com o desvelo e dedicação com que costuma proteger
as cousas de verdadeira utilidade. »
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