Ottoni, 1865
Despedida aos acionistas
na última Assembléia Geral da EF D. Pedro II,
em 25 Jul. 1865

[cf. Memoria historica da EFCB]

p. 48-50

Reunida a 25 de julho a ultima Assembléa Geral dos accionistas para leitura do relatorio findo e communicação aos accionistas do contrato de encampação, que seria assignado no dia seguinte, a Directoria, em mais de um topico daquelle relatorio, manifestou quanto sentia não ultimar a passagem do tunnel grande, satisfazendo-se, entretanto, em deixar quasi concluida aquella obra.

É assim que, annunciando a excursão do Imperador pela Estrada no dia 17 de abril daquelle anno, exprimiu-se por este modo:

(...)

« A Directoria não solicitara, ha mais tempo, a honra desta visita, porque, luctando o trabalho em muitos logares com desabamentos, que mais de uma vez fizeram em pedaços revestimentos provisorios de vigas de dez pollegadas em quadro unidas face a face, offereciam taes logares perigos a que sómente se deviam expor os immediatamente responsaveis pela obra; comtudo, desde o começo deste anno os pontos perigosos estavam revestidos de alvenaria em arcos, e para o dia escolhido se tomaram as especiaes precauções que eram do nosso dever. Em taes circumstancias, a Directoria não podia deixar de agradecer e applaudir a visita imperial, sendo manifesto que o incommodo pessoal nada era em comparação com o interesse que o Monarcha tem demonstrado por este grande beneficio publico.

(...)

A Directoria sente o mais profundo pezar de não presidir á inauguração desta obra monumental, por alguns annos objecto de tantas incredulidades, de tantos erros e avaliações encontradas de tempo e de custo, que quasi privaram o paiz da sua mais esperançosa estrada de ferro; mas os directores e os accionistas se curvam perante interesses mais altos.»

Ao encerrar a sessão, o conselheiro Ottoni, dirigindo a palavra de despedida aos accionistas, pronunciou o seguinte discurso:

« É a ultima vez, Srs. Accionistas, que tenho a satisfação de dirigir-vos a palavra desta cadeira; tolerae a vaidade com que accrescento, desta cadeira em que só eu me sentei.

Srs. Accionistas, de todas as estradas de ferro decretadas com o proposito de um dia se incorporarem numa rede geral de communicações internas, fluviaes e terrestres, a unica a quem coube a sorte de ser inaugurada e em sua maior parte construida por associação nacional, é a Estrada de Ferro de D. Pedro II.

E a unica associação brazileira até hoje fundada para fins tão altos foi a Companhia da Estrada de Ferro de D. Pedro II.

E, pois, Srs. Accionistas, eu, que devo a apreciações benevolas a grande honra de haver sido o unico presidente desta sociedade, que com profunda magua vejo dissolver-se, não posso reprimir o desejo de saudar-vos neste momento, de agradecer-vos as provas de confiança e de apreço com que sempre me honrastes, bem como aos collegas, que por vossa delegação se collocaram ao meu lado.

A nossa Companhia, senhores, não conseguiu levantar os fundos necessarios para completar a sua empreza; e, pois que o Governo do paiz assume o compromisso de desenvolver as nossas linhas, de tornar em realidade pratica as promessas da Lei de 26 de junho de 1852, bem inspirado é o vosso patriotismo, transferindo-lhe a empreza, apenas manifestas foram as vistas da Administração Publica.

E entretanto, senhores, devemos deplorar o desfallecimento do espirito de associação que entre nós tentou erguer-se, e devemos empregar nossos esforços para um dia restaural-o.

Se o Governo é absoluto, disse um celebre parlamentar francez, faça tudo por si, teme e deve temer o espirito de empreza; se é constitucional e principalmente se é novo e tem de amoldar á nascente doutrina os costumes e o espirito politico do paiz, anime e desenvolva as industrias e a associação: só por ellas poderá viver e tornar-se poderoso.

Eu não pretendo, Srs. Accionistas, nem seria proprio deste logar, instituir a investigação das causas por que as primeiras tentativas do espirito de associação entre nós não têm sido coroadas de successo; muito menos ainda me animaria a aventar neste momento proposições que pudessem encerrar censuras ou queixas. Todos erramos, e os erros de todos nós são filhos de nossa inexperiencia; á historia economica do Brazil nos ultimos quinze annos compete assignalar os factos e as deliberações que fizeram expatriar-se e ir desenvolver os recursos de uma nação irmã os capitaes brazileiros que se recolhiam de arriscadas especulações transatlanticas.

Capitaes brazileiros, porque eram o producto da terra fecundada pelo suor dos incolas que a conquistaram; capitaes que fixados na terra fixariam tambem os homens laboriosos que os recolheram, capitaes que immobilisados ganhariam no chão da patria novas forças como o gigante da fabula.

Se, porém, senhores, não foi dada á nossa associação a honra e a gloria de concluir a Estrada de Ferro de D. Pedro II, esse verdadeiro tronco da arvore futura de communicações entre a Capital e as Provincias do Imperio, se tendo a felicidade de dominar a grande cordilheira e avassallar as margens do Parahyba, não pudemos estender mais longe nossas aspiraões, em demanda das aguas do rio Grande e do S. Francisco, façamos votos para que Deus inspire os nossos governantes, para que da Administração Publica receba o paiz os beneficios que em diversas circumstancias deveria ao capital e á associação.

Difficeis são os tempos, senhores, não ha desconhecel-o; mas além de que é proprio da nação que aspira a ser grande, cultivar simultaneamente com os louros da guerra as flores da industria e da paz, não me parece insensata a esperança de que os infelizes, que presentemente arrastados pelo Despotismo se apresentam como nossos inimigos, em breve purificados ao contacto de nossas legiões, esclarecidos acerca de seus direitos e verdadeiro interesse, hão de reconhecer que seus inimigos reaes são os ferros que os opprimem; civilisados pela guerra externa, fundarão a liberdade interna, que é o que mais inspira a cada povo o respeito aos direitos e soberania dos outros.

Esperemos, pois, senhores, que o Brazil não terá de parar no caminho de melhoramentos em que da parte da Capital do Imperio nos coube a honra de dar os primeiros passos; e permitti que vos informe para vossa satisfação que a memoria da Companhia Estrada de Ferro de D. Pedro II será tão perduravel como a das obras ousadas e monumentaes que emprehendemos.

É a maior dessas obras a immensa abobada subterranea que vence sem derrubal-os os membros superiores do gigante de granito com que luctamos, monumento que já se póde affirmar receberá a sua ultima de mão em dias do anno corrente. Pois bem, senhores, á esquerda da entrada dessa soberba galeria está escripto em marmore eterno o titulo da nossa associação; e á direita, no logar de honra que lhe compete, o daquelle que lhe deu seu nome, e o facto da protecção nunca desmentida que outorgou aos nossos trabalhos.

Á direita do portão do maior tunnel da Serra lerão os vindouros esta inscripção singela, mas expressiva:

Reinando o Senhor D. Pedro II
E sob seus auspicios
Foi começada esta obra em 1858
E terminada em 1865

Eu vos repito, senhores, minhas cordiaes saudações.

E levanto a sessão. »

 

Memoria historica da Estrada de Ferro Central do Brasil
Manuel Fernandes FigueiraRio de Janeiro - Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, 1908

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