Autobiographia de
C. B. Ottoni
I - Porque e para que escrevo
p. 8
— Em que não crês? nos principios? — Isso não; sempre
fui democrata. — Nas instituições vigentes? — Sim, senhor,
não tenho nellas fé. — Nos homens? — Ainda menos.
(...)
A situação presente do Brazil, a meu ver, se resume nestes
pontos: 1º uma divida de oitocentos mil contos, cujo serviço
absorve quasi metade da renda publica; 2º receio de grandes complicações
no Rio da Prata, resultado da Guerra do Paraguay e do Tratado da triplice
alliança; 3º falta absoluta de immigração e
de braços livres; 4º necessidade indeclinavel de libertar
os negros, o que desorganisará o trabalho, prejudicando a poducção;
5º falta de capacidade e de patriotismo nos homens publicos, para
affrontar os perigos imminentes.
(...)
Rio, 1 de Junho de 1870
II — A casa de meu pae
p. 12
Meu pae não era rico; trabalhava muito para manter a familia,
e suas occupações o conservavam a maior parte do tempo fóra
de casa: por exemplo, foi alguns annos arrecadador de dizimos, por contracto
que fez com a provincia, o que o obrigava a continuas viagens.
p. 13
Fomos onze irmãos os que chegamos á virilidade: 1[Teve
minha mãe mais uma menina, que morreu em tenra idade] com meus
paes, duas irmãs e duas sobrinhas do velho, solteironas pobres
que viviam de seu amparo, prefaziamos 17 pessoas de familia. Eramos servidos
por cinco escravos.
p. 16 - a mãe
Era economica sem vileza, e não queria em casa ociosidade, dando
o exemplo ella, que tinha necessidade natural de estar occupada. Emquanto
teve boa vista, cozia; depois fiava e fiou até morrer: temos toalhas
de fio de furo da boa velhinha, fiado aos 82 annos de sua idade, vespera
da morte.
Nos ultimos tempos, já no Rio de Janeiro, fiava, ennovellava,
e quando reunia certa quantidade de fio, mandava a algum parente que tivesse
thear: vindo as toalhas, distribuia, uma a cada filho, a cada nora, a
cada neto, e conservava fielmente em memoria quem não ganhou para
ser contemplado na seguinte distribuição. Lá no Serro,
bem me lembro do aspecto de trabalho que a casa offerecia ordinariamente:
thear, fusos, costura, rocas, lavagem de roupa etc. etc.
p. 17
(...) Para pequenas travessuras havia um castigo, de que ainda hoje me
lembro com certo susto retrospectivo. Sentava-se o travesso n'um banco,
pés dependurados que não alcançavão o chão,
descalço: entre os dous primeiros dedos de um pé mettia-se
a ponta inferior de um fuso cheio de linha; davão-lhe um caroço
de algodão para nucleo de novello; e toca a ennovellar, 1º
fuso, 2º fuso, 3º, conforme a gravidade do caso, ás vezes
até fazer um novello do tamanho de uma laranja selecta. Terrivel
aborrecimento! que fadiga dos braços! que somno!
p. 19
Já se vê que em uma familia tão religiosa, no mesmo
espirito havia de ser dirigida a educação dos filhos. Esta
porém carecia absolutamente de methodo, em nossa casa, como em
todas naquelle tempo.
O ensino religioso consistia, 1º em fazer decorar certas orações,
e repetil-as em horas certas; 2º em ouvir missa nos dias de guarda,
sem explicação alguma, sem nada entender da cerimonia; 3º
em ir ao confissionario depois de certa idade: só ahi ouvia-se
alguma doutrina, si o padre não fazia como a maior parte delles,
confissões de carregação.
Não havia em casa ensino de religião; nas escolas nem ao
menos leitura de historia sagrada, nem nas parochias explicação
do catechismo ou do Evangelho: decorar rezas materialmente, mais nada.
Estas praticas, o habito, o exemplo substituiam o conhecimento e convicção;
e em quem não cultivava a intelligencia, podiam produzir resultados,
como o que viamos em minha mãe e vejo em minhas irmãs, muita
fé. Mas em um moço que estuda, cujo raciocinio se organisa,
que tende naturalmente a submetter tudo ao exame da razão e que
a robustece nas primeiras leituras que o acaso lhe depara, como se conservará
em sua fragil base o edificio da fé?
Estas, dizem alguns, volta na velhice: eu não o creio; a intelligencia
que chegou a repudiar a crença no sobrenatural, não a readquire
mais. Em todo o caso a modicade dirigica como eu o fui necessariamente
se extravia da religião.
Nos ou nas que ficam devotas, esta aprendizagem que consiste em rezar,
rezar, rezar tem um grande inconveniente: inutilisa as melhores indoles
para muitas cousas boas que podiam fazer. A missa e o officio, e a novena,
e o Te-Deum, e o caminho da cruz e o mez de Maria, occupando quasi todo
o tempo, sequestrão a devota da sociedade, dos amigos e dos parentes.
As sobras e ás vezes parte do necessario de que se privam, em
vez de soccorrer familias pobres lá se empregão em uma capa
para Nossa Senhora, resplendores para os santos, ornatos de egreja e cousas
semelhantes. Escrevendo esta critica com pezar a estou applicando mentalmente
a pessoas que estimo e respeito.
Si não tivemos na infancia verdadeiro ensino religioso, tambem
a educação litteraria foi quasi nulla até os meus
quasi 17 annos, com que deixei a casa paterna. Nosso mestre de primeiras
letras ensinava materialissimamente: o de latim sabia a lingua, como a
póde saber um homem de boa memoria, sem talento. Forão meus
unicos professores até vir para o Rio de Janeiro.
Meu pae, que tinha pouca cultura mas muito talento, estava quasi sempre
ausente; minha mãe e tias não tinham instrucção
alguma; que educação podião dar-nos? Derão-nos
a do exemplo, a pratica dos deveres moraes, o espectaculo de uma vida
tranquilla, inoffensiva, dada ao trabalho e aos cuidados da familia.
p. 21
Não faltava em nossa casa o elemento ordinario de desmoralisação
nas familias do Brasil, a escravidão: mas o trabalho, a vigilancia,
o benefico influxo de minha veneranda mãe attenuava muito o effeito
dessa peste.(...)
De 5 escravas chegarem 4 a ter cabellos brancos é o maior testemunho
da humanidade com que eram tratadas.
A vida dos negros entre nós em geral é mais curta, maxime
nos dominios do café e do assucar. A facilidade da venda dos productos,
fazendo crescer nos senhores sede de riqueza, leva-os a tirar do escravo
o maior lucro possivel, extenuando-o de fadiga e não raro prejudicando
pelo excesso o proprio fim que têm em vista. No interior de Minas,
como em casa de meu pae, o escravo é menos infeliz, vive mais e
é por isso menos inimigo dos senhores: a maior parte dos libertados
conservão-lhes o respeito e a dedicação.
Esta questão — disposição de animo dos negros —
é muito importante, hoje que a idéa da emancipação
ganha terreno. Se fosse em toda a parte igualmente suave a condição
delles, a suppressão seria somente crise economica, que não
affectaria a segurança dos brancos e se attenuaria pela facil volta
delles ao trabalho. Infelizmente onde são os negros mais mal tratados,
é onde mais abundam, e o trabalho excessivo os leva naturalmente
a considerar a liberdade como direito á ociosidade; o que ha de
aggravar a crise e desde já nos ameaça com insurreições
parciaes.
III - Minha infancia até 1828
p. 23
Da aula de primeiras letras, mestre Manoel da Costa, recordo-me de um
estylo curioso. O Mestre emittia bilhetes com a sua rubrica, chamados
perdões, e dava-os em premio a quem os merecia: com esses perdões
se remiam faltas futuras; e como erão innominaes e transmissiveis,
o bom estudante podia obsequiar os camaradas mais fracos, ou fazer com
os perdões o seu pequeno commercio.
Jorge, meu irmão, tinha sempre perdões para escapar á
palmatoria; e tarde soube eu como os botinha. Tia Anna Ignez, sua madrinha,
affagando e brindando a mulher do mestre, conseguia que ella furtasse
os perdões da vasta algibeira do jaquetão do honrado Manoel
da Costa e este creio que nunca descobrio tal abuso de confiança.
(...)
p. 24
A casa era a ultima do povoado ao sul, e ao lado da egreja do Senhor
de Mattosinhos. Seguião-se campos geraes, logradouros publicos,
em que cada um deixava a pastar a sua vaquinha de leite, os seus animaes
de montaria ou de carga, etc. Lembro-me ainda, que esta circumstancia
dava á villa um aspecto particular; cada familia, rica ou remediada,
tinha ao lado ou no fundo da casa um pateo, em que de noite ficava preso
o bezerro da vacca, que seria mugida de manhã. E ao romper do dia,
mesmo nas principaes ruas, a cada porta berrava uma vacca e respondia
de dentro o filho, esperando que, extrahido o leite, os enxotassem para
os campos, donde os iriam buscar á tardinha, para prender o bezerro.
p. 25
Theophilo, o primogenito, cedo fizera ensaios commerciaes, acompanhára
meu pae em viagens, adquirindo habitos e relações mais de
homem que de menino. (...)
Frequentei mais de quatro annos o latim e afinal aprendi, muito imperfeitamente,
a traduzir francez, com Theophilo, que o aprendera com o Ouvidor Placido
Martins. (...)
p. 26
Sem pretender que fosse completamente innocente, minha vida até
os 16 annos foi em geral vida de creança: meus habitos, meus prazeres,
minhas travessuras erão quasi todas de menino. (...)
Nas festas da coroação de D. João VI em 1818, tendo
eu 7 annos, meu pae que era dos principaes da terrinha destinou-me um
papel no programma; queria que eu fosse recitar em publico uma poesia
de sua composição. (...)
p. 27
Si o alfaiate Elias não era então visinho, veio a sel-o:
teve tenda ao lado de uma casa á rua da cadêa, em que meu
pai depois servio um officio de Tabellião.
Minha vaidadesinha teve um segundo alimento em 1820 ou 1821, indo á
Villa do Principe o Intendente dos diamantes M. Ferreira da Camara, depois
Senador.
Aquella magistratura tinha para reprimir o contrabando dos diamantes,
monopolio da Corôa, um poder immenso que Camara, aliás illustrado,
exercia com grande rigor, tornando-se o terror daquelles povos.
(...)
Mais me exalta a imaginação aos 11 annos, uma festa de
arvorada em 1822 ao chegarem noticias da Independencia: a festa, segundo
o uso da terra, consistia em povo reunido, com musica e archotes percorrendo
as ruas, victoriando com discursos ou versos os cidadãos eminentes,
e sendo recebidos por alguns com mezas de doce e bebidas, que fazião
requintar o enthusiasmo patriotico. Na arvorada pela Independencia, fui
o leão da festa: recitava uma poesia que era immensamente applaudida.
(...)
p. 31
A 5 de Janeiro de 1828, addidos a uma caravana de negociantes, partimos
para o Rio de Janeiro eu e o meu inseparavel Jorge. Não tinha uso
algum do mundo; vivera até então aninhado em casa; cada
familia assim se concentrava, visitando-se, ainda as de amisade, rarissimas
vezes. Talvez por causa deste isolamento, o estudo do latim pouco desenvolvera
a minha intelligencia, e a minha educação era defeituosa,
a saber:
Instrucção religiosa. — Nada de solido; noções
vagas, orações decoradas, nada de reflectido ou convencido;
habito e imitação, mais nada. Assim erão todos ou
quasi todos.
Cultura litteraria. — Lia mal; escrevia peior; não sabia escrever
um numero inteiro, dictado; traduzia mal o francez, sem saber a grammatica
propria, entendia um pouco o latim: cego em tudo o mais. Gil Braz e o
Diabo Coxo, em que aprendi os meus dous dedos de francez, e os classicos
latinos que fui obrigado a traduzir, são os unicos livros em que
me lembro de ter posto as mãos até então. Para seguir
uma carreira scientifica não se póde ser mais ignorante
aos 17 annos.
Educação moral. — A do exemplo: tive a fortuna de nascer
e crescer em uma atmosphera de honestidade, de trabalho, de cumprimento
de deveres; e os principaes preceitos do direito natural me ficaram gravados
no espirito, que antes os sentia, do que poderia expol-os.
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