Autobiographia de
C. B. Ottoni

V - 1837-1848

p. 65 - O beija-mão

"Minha opinião a respeito desta formalidade anachronica coincide com a de T. Ottoni neste ponto que é o essencial:

"O estylo é reprehensivel e deve ser abolido.

"A regencia e o regente Feijó o extinguirão depois da revolução de 1831; mas o segundo regente o restabeleceu, praticando um acto que eu não conheço palavras capazes de qualificar devidamente. Encontrando o Imperador em logar de grande concurrencia e publicidade, prostrou em terra ambos os joelhos e beijou-lhe a mão!

"O regente do Imperio!

"Mas em seguida todos os homens que tinham posições officiaes, ou para não condemnar o acto do chefe do poder executivo, ou temendo que a differença de procedimento parecesse descortezia para com o monarcha, ou por outros motivos, adoptaram o estylo, que pouco a pouco generalisou-se.

"Nenhum homem de sentimentos nobres, comtudo, deixou de condemnar o acto do regente; e esta opinião é tão geral que em verdade causa espanto não tenha ainda um ministerio aconselhado a S. M. I. que se recuse ao beija-mão.

p. 68

Em 1842, por causa das rebelliões de Minas e S. Paulo, estive preso a maior parte do anno. O Governo conhecendo minhas opiniões e minha intimidade com Theophilo julgou-me compromettido nos movimentos politicos de Minas. Enganava-se: eu persistia em concentrar-me na vida privada; mas desdenhei justificar-me.

Em 1843, tendo cahido os rebeldes, e estando perseguidos meu pae, meus irmãos, meus amigos, agitei-me, auxiliei quanto pude a reacção em favor dos vencidos, quer escrevendo para a imprensa, quer prestando informações a alguns Deputados e Senadores que querião protestar contra os abusos da victoria que em verdade forão clamorosos. Trabalhei até a amnistia de 1844, e de novo me recolhi á minha obscuridade.

A minha prisão, para a qual procurarão pretexto em um excesso de licença de poucos dias, aliás justificado devidamente, causou-me grande irritação contra o Ministro da Marinha, Marquez de Paranaguá, o mesmo casmurro que em 1830 me privára de ir estudar direito em S. Paulo. Por isso houve quem attribuisse a sentimento de vingança um Juizo critico que sobre a Geometria delle publiquei em 1845 e que, modestia a parte, matou o livro. Não duvido que fosse a vingança um dos meus motivos: mas não foi o unico nem o principal. Escrevi conscienciosamente o que pensava do tal compendio que em verdade tinha pouco merito e fora imposto á Academia, onde em 1844 fui empossado na cadeira do primeiro anno. Este Juizo Critico foi a minha primeira publicação scientifica (...).

p. 69

Dei ao prélo em 1846 segunda memoria scientifica — Theoria das maquinas de vapor — escripta por encommenda do Ministro Hollanda Cavalcanti, depois Visconde de Albuquerque, e adoptada para o ensino. Eu nada sabia do assumpto, nem tinha visto uma maquina de vapor em acção: mas, aceitando a encommanda, estudei, cingindo-me, principalmente, á obra de Tredgold.

Este opusculo hoje não tem valor algum: para não vexar-me de o ter composto, preciso recordar a epocha — 1846 — quasi a infancia das maquinas modernas.

No mesmo anno, 1846, fui chamado por Hollanda Cavalcanti, Ministro da Marinha e da Fazenda, para auxilial-o no gabinete, e conservei a posição em 1847 e primeiros mezes de 1848 com o Ministro da Fazenda Alves Branco, Visconde de Caravellas, e o seu successor.

Não tinha eu ingerencia alguma na politica; minha missão era de estudo administrativo: examinava os negocios que o Ministro tinha de resolver, relatava o pro e o contra, emittia o meu parecer e submettia tudo á decisão, ou verbalmente, ou deixando na pasta relatorio escripto.

Estes dous annos de gabinete ministerial derão-me boa reputação (...) e os Ministros que auxiliei, bem como outros depois, fizeram menção honrosa de meus estudos adminsitrativos.

p. 70

O apreço em que Hollanda tinha a minha coadjuvação, o bem que de mim dizia nas rodas politicas, concorreo, juvante Theophilo, para a inclusão do meu nome na lista dos deputados liberaes de Minas em 1848, o que inaugura nova phase em minha vida, objecto do seguinte capitulo.

  

Autobiographia
de C. B. Ottoni
natural da Villa do Principe, depois cidade do Serro, na provincia de Minas Geraes
Maio 1870

Rio de Janeiro
Typographia Leuzinger
1908

A Autobiografia foi escrita entre 1870 e 1871 e permaneceu inédita, recebendo notas e apêndices nas décadas seguintes, até a morte de Ottoni, em 1896.

Índice

  1. Porque e para que escrevo
  2. A casa de meu pae
  3. Minha infancia até 1828
  4. Vida de estudante: 1828 a 1837
  5. 1837-1848
  6. 1848-1855
  7. EF D. Pedro II (1855-1865)
    1. Decretação
    2. Organisação
    3. Direcção
    4. Contracto Price (1ª secção)
    5. Serra e prolongamento
    6. Custeio e administração
    7. Moralidade da gestão
    8. A protecção imperial
    9. Procedimento politico no decennio
  8. 1865-1868
  9. 1868-1871
  10. Julho 8 de 1872
  11. Novembro 11 de 1873
  12. Junho de 1875
  13. Agosto 31 de 1876
  14. Abril de 1877
  15. Maio de 1880
  16. 1885
  17. 1886
  18. 1887
Nota G - Decretação e construcção
             de estradas de ferro

Outros textos de Ottoni

O futuro das estradas de ferro do Brasil

Parecer

Discurso ao imperador

Despedida aos acionistas

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