Autobiographia de
C. B. Ottoni
VI - 1848-1855
p. 72
Como já notei, os vencedores de 1831 se tinham dividido em moderados
ou monarchistas, e exaltados ou democratas; os primeiros conseguirão
apoderar-se do governo e dominar a sociedade do tempo.
Em 1834 , como observei á pag. 50 os moderados fizeram-se um pouco
mais liberaes do que erão por convicção, para attrahir
a alliança dos exaltados contra a então projectada restauração
de D. Pedro I.
Contra essa conspiração ligarão-se todos (...).
Morto D. Pedro I tudo aqui começou a barulhar-se, e a reacção
contra as conquistas liberaes recrutou logo bons contingentes (...).
p. 73
Esta reacção foi ganhando terreno e produzio forte partido
conservador, que subio ao poder em 1837 com o 2º Regente P. de Araujo
Lima, e que com algumas modificações tem vivido até
hoje e actualmente governa.
Cumpre observar que os governos da menoridade até a queda de Feijó
erão, em geral, governos honestos e patriotas. Monarchistas, os
ministros d'então não se descuidavão de consolidar
a instituição monarchica: mas, constitucionaes sinceros,
governavão por si (...).
Com a elevação de Pedro de Araujo Lima, depois Marquez
de Olinda, inaugurou-se nova politica, delle 2º Regente, a quem aliás
não faltarião adhesões. O simbolo visivel do novo
espirito foi o acto aviltante do Regente, pondo em terra os dous joelhos,
á porta da Igreja da Cruz dos Militares, perante grande e solemne
concurso de pessoas de todas as classes, para restabelecer o beijamão,
abolido desde 1831.
p. 74 - [1824 - Araujo
Lima pede para ser demitido por incompetencia]
Agora, o porque embirrava em sahir, a epocha e o seu caracter explicão
perfeitamente. Campeava então a Confederação do Equador,
dominando algumas provincias do Norte, e conspirava-se no mesmo sentido
nesta Côrte, na Bahia em diversos pontos. Ganhassem os revolucionarios
uma batalha, e estava em terra a monarchia: o exito era muito duvidoso.
Ora, o meu Araujo Lima queria achar-se com os vencedores, realeza ou republica:
não podia comprometter-se na crise.
p. 75
O partido conservador era numeroso em 1837, quando subio com o 2º
Regente; mas não poude organisar-se e affirmar na legislação
as suas tendencias, senão depois que eliminou de sua direcção
aquelle typo de duplicidade e feio egoismo, e inspirou-se nas idéas
dos Uruguay, Euzebio, paraná, Itaborahy, etc., e mais tarde Cotegipe,
Rio Branco, João Alfredo e outros. A fortissima organisação
deste partido data de 1841.
Em 1840, os liberaes em minoria no parlamento conquistarão o poder
conspirando com o Imperador menino para a antecipação inconstitucional
da Maioridade: forão assim os fundadores do governo pessoal e da
omnipotencia do Monarcha. Em verdade, um menino de 14 annos, recebendo
em segredo os emissarios de homens da estatura politica de Limpo de Abreo,
Andradas, Hollanda, Jequitinhonha, Theophilo Ottoni etc., chamado por
elles como um salvador para reddibar o governo legal, por força
considerou-se um genio: e não faltarão ministros que o confirmassem
na presumpção.
O partido conservador contribuiu para o mesmo fim, quer alguns individualmente
curvando-se aos caprichos imperiaes, quer o partido collectivamente dando
ao poder uma força incontestavel que avassalou o parlamento. Com
as leis que promulgarão todo e qualquer ministerio podia dissolver
a Camara e tinha a certeza de fazer eleger outra que unanimemente o apoiasse.
E como o Imperador nomêa os ministros, foi para elle a omnipotencia
organisada, não para o partido que a organisou.
O imperial e imperioso moço, em 1841 despedio caprichosamente
os ministros da maioridade e chamou os conservadores, os quaes com igual
capricho abateo em 1844, chamando ministros que alliciassem os liberaes
então proscriptos. Acreditou talvez que os conservadores, tendo
vencido as rebelliões de Minas e S. Paulo (1842), estavão
por demais poderosos; e S. M. I. que não é cruel, para não
ter de abater cabeças de papoulas, gosta de impedir que ellas cresção.
A ninguem permite S. M. que se erga em influencia acima de certo nivel.
O programma de Alves Branco, em 1844, exprime bem aquella idéa:
era, disse o presidente do Conselho, parcere subjectis et debellare superbos.
Com effeito nessa occasião o Deos de S. Christoão deposuit
potentes de sede, et exaltavit humiles.
p. 76
Durou de 1844 até 1848 uma situação que se disse
liberal, mas em que o Imperador reinou, governou e administrou, como recentemente
disse no Senado o Visconde de Itaborahy. Os partidos luctavão,
olhos fitos em S. Christovão, a espera de um aceno que lhes entregasse
as pastas.
Em principio de 1848, estando eleita uma Camara, em grande maioria liberal,
o Imperador parece que a temeu e começou a fazer negaças
á situação com ministerios hybridos que proclamavão
— moderação, justiça e tolerancia etc., tendencia
que oscillou um pouco com a proclamação da Republica em
França e no fim do anno firmou-se chamando ao poder os conservadores.
Tal era, si bem a apreciei, a direcção da nossa politica,
quando pela 1ª vez tomei assento na Camara, Maio de 1848.
Para uma das mistificações houve idéa de alliciar-me,
ou logo depois ou ainda antes de 3 de Maio, não me lembro bem.
Limpo de Abreu chamado para o ministerio, e indo apresentar-se ao Imperador
em Petropolis, ao embarcar disse a Theophilo: "previna seu irmão,
que eu não aceito pasta sem tel-o por collega." Mas voltando
Ministro não fallou mais em tal e pouco depois offerecerão-me
o logar de Inspector Geral do Thesouro. Parece que o Imperador não
me julgou apto para Ministro, no que tinha razão; mas o que foi
tolice foi julgarem-me despeitado e quererem engambellar-me com o emprego
do Thesouro, que recusei.
p. 77
Sinceramente eu não me julgava preparado para altos cargos politicos
ou administrativos. Com excepção da minha especialidade,
mathematicas elementares, eu era e me reconhecia muito ignorante (...)
A tribuna me intimidava tanto, que estava resolvido a ser deputado mudo,
proposito de que a custo me demoveo Theophilo. E nunca esquecerei a principal
razão que me allegou: dizendo eu que me sentia pequenino perante
as intelligencias superiores, com quem ia concorrer, accudio: "Ahi
está o teu engano! que estás dizendo? as intelligencias
superiores somos nós mesmo..." Assim informado que eu era
uma dellas resolvi estreiar na tribuna.
Os conservadores estavão representados, mas os liberaes tinham
grande maioria. Eu tinha sido eleito por Minas, em chapa do partido e
escrutinio d lista; e pois me julgava no dever de acompanhar a deputação
mineira. Luctava partido contra partido, e nem um dos dous repellia a
omnipotencia imperial: a opposição suspirava sempre por
um capricho do rei, que mudasse a situação. O thema principal
dos debates era as franquezas provinciaes e a compressão organisada
pela lei de 3 de Dezembro de 1841.
(...) tornei-me tagarella (...). Discorredor logico, eu o fui certamente:
domina-me o espirito geometrico, mas faltava-me a base de conhecimentos
solidos sobre os assumptos debatidos. (...)
p. 79
O ministerio Paula e Souza, como se sabe, pouco durou, e teve de entregar
o poder aos conservadores. (...) Referiram-se na Camara actos de descortezia
praticados em S. Christovão pelo Dr. Jobim, Medico do Paço,
contra os Ministros: illogicamente se queixarão de Jobim, não
do Amo. Tomei a defesa do Doutor. "Não acreditava procedesse
elle como se dizia: si pudesse crel-o, não o censuraria, mas pediria
aos meus amigos Ministros conta da dignidade do Poder Executivo".
Os ministros presentes, silenciosos, fitarão as vistas nos bicos
das botinas. (...)
p. 80
Com a quéda de Paula e Souza, ascenção dos conservadores,
dissolução da Camara, revolta de Pernambuco, repressões
exageradas, a minha fama politica passou a ser de Imprensa e achei-me
collaborador do Correio Mercantil dirigido por Paranhos que por algum
tempo depois da mudança de situação continuou a ser
liberal.
(...) O Mercantil prestou muito bons serviços e eu não
entibiei, sinão depois da amnistia de Pernambuco, quando a repressão
moderou-se e começaram os primeiros symptomas da celebre conciliação.
A conciliação foi o meio de ir abatendo o partido conservador,
como a justiça e tolerancia tinha sido em 1848 agua na fervura
dos liberaes; mas cessando as violencias e esfriando a lucta, foi-se apagando
o meu enthusiasmo, e de todo me retirei da politica, para a qual em verdade
tenho pouco geito.
p. 82
Ensinava-se pelos livros do velho Bezout, notaveis no seu tempo, mas
ora imprestaveis, em vista dos progressos da sciencia.
De tudo o que eu conhecia da bibliographia mathematica, o que mais me
satisfazia era a Arithmetica e Algebra de Bourdon, e a Geometria de Vincent:
erão as tres materias que eu ensinava.
Compilando-os e modificando a exposição e os methodos no
sentido de minhas observações no tirocinio do magisterio,
emprehendi escrever novos compendios para o meu 1º anno, e n'elles
trabalhei desde 1849 até 1853 ou 1854.
Prestei, sem duvida alguma, bom serviço ao ensino das mathematicas
elementares; mas não me ficou orgulho de Autor: já disse
que compilei Bourdon e Vincent. Entretanto, não exaggeremos a modestia:
quem confrontar a compilação com os escriptores compilados
ha de encontrar algumas differenças de exposição
e methodo, que me parecem melhoramentos. Exemplo, a theoria dos triangulos,
§§ 54 a 61 da Geom., 21 a 36 da Trigonometria (3ª edição).
Eu era enthusiasta dos autores a que me acostei; e de Vincent era e sou
profundo admirador. Aquella abundancia na deducção de cada
theoria, aquella lucidez logica me causarão estremecimentos de
prazer.
Formulando os novos compendios, estava eu longe da idéa de colher
d'elles vantagens pecuniarias: assignalo este ponto por um sentimento
que as almas nobres hão de comprehender. Não cria mesmo
que a extracção chegasse a dar-me lucros, como deo: por
isso, nada quiz despender com a publicação dos primeiros
mil exemplares (só da Arithmetica) e acceitei para isso a proposta
da Casa laemmert, que se appropriou da maior parte dos lucros da edição:
pagou-se da impressão pela venda, e do resto deo-me a metade do
producto liquido. As edições seguintes derão-me excellente
remuneração.
p. 83
Conservo ainda a propriedade 1[Alienei-a
mais tarde, depois de vender 9.000 exemplares de cada uma] da Algebra
em 2ª edição e da Geometria em 3ª, e o motivo
porque em 1862 vendi a propriedade da Arithmetica, tendo esgotado a 2ª
edição de 5.000 exemplares, constitue um episodio que não
é sem interesse.
O Imperador tem muita ambição de glorias litterarias, e
bastante propensão para pedagogo: dizem alguns que tambem tem ciume
de toda a pessoa que sobressahe em qualquer especialidade. Ora, meus compendios
forão bem acceitos e adoptados em quasi todos os estabelecimentos
de instrucção secundaria e superior; da Arithmetica esgotou-se
em 1861 a venda de 6.000 exemplares de duas edições e era
tempo de dar 3ª. Mas na mesma occasião soube que a alguns
moços, em audiencia de S. Christovão, S. M. I. notava defeitos
nos meus livros. E considerando o pezo official desta critica, ponderando
a subserviencia com que entre nós se pende dos labios imperiaes,
receei a abolição do uso dos meus compendios, e pelo de
Arithmetica acceitei Rs. 4:000$000 que me offerecia Laemmert.
Enganei-me na previsão; ou o Imperial critico mudou de parecer,
ou delle não fizerão caso; pelo que está o comprador
extrahindo a 5ª ou 6ª edição e tem arrecadado
boas patacas que lhes fação bom proveito. Fui punido de
minha desconfiança, mas era logica. Conta-se que um Director da
Faculdade de Medicina, vindo de conferenciar com o Imperador sobre uma
reforma de estatutos, dissera embasbacado: — E esta! O Imperador sabe
mais medicina do que eu!
p. 84
Pelo mesmo tempo, encetei outra ordem de estudos, que depois me forão
uteis. Reflecti que se approximava o anno da minha jubilação,
1854, deixando-me no vigor da idade, 43 annos; e que nunca tinha utilisado
as noções de engenharia adquiridas no curso de pontes e
calçadas, aliás muito incompleto, da antiga Academia Militar.
E como já então tomava corpo a idéa da construcção
de uma estrada de ferro do Rio de Janeiro para o interior, volvi para
ella o meu pensamento e desde 1850 mandei vir da Europa livros sobre caminhos
de ferro, dos quaes fiz minha principal leitura nas horas vagas dos deveres
domesticos e officiaes. Do resultado destes estudos darei noticia no capitulo
seguinte, destinados aos dez annos que empreguei na direcção
da estrada de ferro D. Pedro II.
(...)
(...) Infancia, vida de estudante, primeiros annos de casado, agitações
revolucionarias de 1831 a 1834, parlamentares de 1848, o decennio da estrada
de ferro, as luctas posteriores, os prazeres do amor proprio, — nada iguala
a paz d'alma, a intima satisfação em que vivi aquella meia
duzia de annos de tranquilla obscuridade. (..)
p. 85
Meios e recursos. Não é consideração para
desprezar-se: não eramos ricos, mas viviamos na fartura e sem preoccupação
alguma sobre a educação dos filhos, ou o pão da velhice.
(...) - bem estar
Era elle completo: o dia se me deslisava suavissimo, principalmente antes
de começarem as lidas da estrada de ferro (1855).
p. 86
O decennio seguinte foi muito agitado, fundou-me alguma reputação,
obrigou-me a extensas relações, fiz muita bulha; mas esta
lembrança não me affaga a alma deliciosamente, como a daquelles
felicissimos 6 a 7 annos. Com o de 1858 começarão as grandes
luctas, invejas, cruzamentos de interesses, que muito me atordoarão,
para o que talvez concorreo o meu temperamento exaggerando a reacção.
Lá chegarei.
Fecharei o capitulo com um post scriptum para definir e desenvolver o
pensamento a que alludi nas primeiras linhas da pag. 61. Sinto necessidade
de determinar com exactidão o estado de minha pequena fortuna em
1855, quando fui collocado na direcção da estrada de ferro
D. Pedro II: tenho para isso os mais sérios motivos.
Desenvolvendo aquella empreza, tive de immobilisar, em dez annos, cerca
de 24 mil contos de capital, tendo estado sempre individualmente á
frente da construcção com poderes delegados pela Directoria:
para as empreitadas, encommendas de machinas, de trem rodante, de trilhos,
meu voto foi sempre preponderante, e tive nesta administração
todo o arbitrio de que precisava.
Pelo que si eu fosse corrompido ou mesmo pouco escrupuloso em receber
obsequios dos empreiteiros e commissões dos fornecedores (quanta
gente de gravata lavada as recebe!) teria fundado uma grande fortuna.
Mas quero que meus filhos fiquem bem certos que o pouco que lhes deixarei
é dinheiro bem limpo, resultado unicamente de meus recursos honestissimos
e de meus habitos de economia.
p. 89
No 5º capitulo desta autobiographia dei uma idéa da fazendinha
que em 1837 foi o dote de minha mulher e á qual em 1847, por morte
de meu sogro, reunio meu cunhado Joaquim o que lhe tocou em terras e escravos,
celebrando commigo uma sociedade. Do protocollo do Advogado Rebouças
ha de constar a consulta que lhe fiz para celebração do
contracto; e o parecer delle assim como a escriptura talvez existão
entre meus papeis velhos. Joaquim ficou com a gerencia do estabelecimento,
sendo dono de um terço e pertencendo-me os dous terços.
p. 90
A propriedade prosperou; em 1852 tinhamos uma fazenda com 300.000 braças
quadradas de boas terras; cerca de 90.000 pés de café, metade
produzindo; 47 escravos; casa, engenho de pilões e as mais dependencias
necessarias. A producção nesse anno foi de 2.653 arrobas
de café.
Nada deviamos.
A empreza do Mucury foi causa de vendermos esta fazenda, com grande prejuizo
de lucros cessantes. Quiz meu socio ir trabalhar na estrada da Companhia;
e não querendo eu ir administrar o nosso estabelecimento rural,
força foi alienal-o. Vendemos ao Visconde do Rio Preto os immoveis,
a diversos o gado, animaes, carros etc., apurando cerca de 25 contos e
retirando a escravatura. Com o producto da venda e um adiantamento feito
pela companhia do Mucury, compramos a escravatura de Firmino Dias Moreira,
de Nicteroy, e vendendo os velhos e as crianças com as mães,
apuramos 100 escravos de flor, com os quaes foi o meu socio para Mucury,
agora socios em partes iguaes. Tinha eu pois 50 escravos em principio
de 1855, além de seis do serviço domestico.
Já consignei o facto de ter edificado em 1852 a chacara e casas
que occupava no Engenho Velho (emprego de cerca de 26 contos de réis).
Tinha mais a minha propriedade litteraria, valiosa além de minha
espectativa. Tenho vendido até o momento em que escrevo:
Arithmetica 6.000 exemplares em 2 edições a 2$000 cada
um; e o direito de reemprimir por 4:000$000 á Laemmert.
Algebra 5.600 exemplares em 2 edições a 2$000 restando
da 2ª 400 1[Mais tarde concluida a
venda da 2ª edição e de mais 3.000 exemplares da 3ª
vendi a Nicoláo Alves o direito de reimprimir por 2:500$000].
p. 91
Geometria 7.000 exemplares em 3 edições a 3$600 restando
2.000 da 3ª 1[Annos depois, concluida
a extracção da 3ª edição, vendi a Nicoláo
Alves o direito de reimprimir por 10:000$000].
Nos preços já estão abatidos os 20% commissão
de venda dos livreiros.
Não menciono entre as minhas posses 100 acções da
companhia do Mucury, porque parece-me que não estavão feitas
todas as entradas, e parte das realizadas era talvez do dinheiro adiantado
pela companhia: ommitindo essas acções, evito o risco de
commetter uma duplicata.
Mas posso considerar muito liquida a posse destes tres artigos: chacara
do Engenho Velho, 56 escravos, propriedade litteraria: avalio tudo em
90 a 100 contos de réis: ninguem me julgará exaggerado.
Mas prometti inventario documentado, e quero indicar onde pode qualquer
S. Thomé ver as provas do que affirmo.
Da chacara e escravos do serviço domesticos, podem verificar na
Recebedoria, que paguei os impostos respectivos.
Da propriedade litteraria reza a escripturação dos livreiros
da Côrte, especialmente Laemmert e Nicoláo Alves.
Dos 50 escravos, naquelle tempo em Mucury, citarei documento official
e insuspeito.
O Commissario por parte do Governo para a liquidação da
Companhia do Mucury apresentou um relatorio que suava por todos os poros
hostilidade á familia Ottoni: obedecia a seu amo Manoel Felizardo.
Nesse relatorio, citado pelo da Agricultura em 1862, e impresso avulso,
lê-se á pag. 91:
p. 92
« Em 1852 fez a companhia um adiantamento de 40
contos ao conselheiro C. B. Ottoni e cidadão J. J. Araujo Maia
pelo serviço de cem escravos por dous annos.
« O reembolso parece que se fez em serviço
dos escravos e empreitadas: vi pelo Diario que em Fevereiro de 1855 tinha
sido Maia debitado pela quantia de 11:426$970, que ficava a dever dos
40:000$000 adiantados. »
Em outras phrases, o Commisario pareceo insinuar duvida sobre a ida effectiva
dos cem escravos para Mucury; mas não é difficil verificar
o seguinte, nos registros publicos do tempo.
A 13 de Fevereiro de 1852 partio d'aqui J. Maia no vapor Mucury com 35
escravos, despachados pela Policia.
No mesmo vapor embarcarão outros no porto de Itapemirim onde tinhamos
começado a fundar um estabelecimento rural, dirigido por outro
cunhado meu.
A 10 de Dezembro do mesmo anno embarcou neste porto a escravatura que
fôra de Firmino Dias Moreira, com passaporte da Policia de Nicteroy
e visto da da Côrte.
Estas parcellas devem sommar mais de cem, porque ião tambem escravos
de minha sogra.
Na liquidação do negocio com a companhia figura só
J. maia, porque nessa occasião separamos a sociedade, vendendo-lhe
eu a minha parte na escravatura.
Provada a posse da minha pequena fortuna em 1855, nem precisaria ter
explicado a origem della, porque até então nunca tinha gerido
propriedade alheia: mas, tendo depois assumido grandes responsabilidades,
quero tudo muito claro e limpido; por isso desci ás explicações
expostas.
Assumindo a direcção da estrada de ferro, meus rendimentos
forão d'ahi em diante, termo medio:
p. 93
Gratificação da companhia........................... 9:600$000
Minhas aposentadorias............................... 2:200$000
Renda da propriedade litteraria, mais ou menos...... 1:500$000
Dita de outros bens, cerca de....................... 3:000$000
Rs. 16:300$000
Ora, as minhas despezas, de que tenho assentos, sendo anteriormente de
5 a 6 contos annuaes, com o augmento de recursos naturalmente crescerão,
tendo em um anno excedido a 12 contos. O termo medio no decennio foi de
Rs. 8:700$000: existem na minha gaveta os cadernos.
Toda a cidade é testemunha da modestia do meu tratamento: ninguem
pode crer que eu despendesse mais.
Poupava pois quasi metade de minha renda; e passo a inventariar a minha
fortuna, no momento em que escrevo, Janeiro de 1871:
Apolices geraes, valor nominal........................ 26:400$000
Ditas do emp. nacional de 1868, idem.................. 15:000$000
130 acções do Banco do Brazil.........................
26:000$000
Casa da r. Conde d'Eu 101, seu custo.................. 31:000$000
Dita da r. Bella Vista 49, seu custo.................. 26:000$000
Dita da r. S. Pedro, Cidade Nova 42, seu custo........ 11:000$000
Propriedade litteraria (estimação)....................
10:000$000
Terras no Mucury, seu custo........................... 4:600$000
Tres escravos, valem.................................. 4:500$000
Rs. 154:500$000 1
1[Si ler isto algum malevolo S. Thomé
e duvidar, pode recorrer aos registros da epocha, Janeiro de 1871, publicos
e de companhias: não encontrará em meu nome mais uma apolice,
acção, escravos, alem dos mencionados: capitaes em giro,
nunca os tive, sabe-o esta praça]
p. 94
Não tenho credores nem devedores. É justo sommar ao algarismo
supra os prejuizos que tenho soffrido.
Perdi na venda do sitio do Rodeio.......................... 13:000$000
'' na quebra do Banqueiro Gomes............... 11:000$000
'' com uma fiança de M. C. da Rocha........... 5:500$000
'' tres escravas moças que morrerão........... 4:500$000
Rs. 34:000$000
É pois certo que nos meus dez annos de estrada de ferro, quasi
dupliquei a pequena fortuna que antes tinha: mas confrontando os resultados
com os recursos, o que me admira é que não tenha capitalisado
maior somma. Evidentemente, não tive tino para fazer fructificar
as minhas sobras de renda. O que possuo hoje é provavelmente o
que meus filhos hão de herdar: é pouco, mas é dinheiro
muito aceiado; perdôo aos miseraveis que me calumniarão.
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