Autobiographia de
C. B. Ottoni

VII - 1855-1865

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(...) É a historia administrativa dos primeiros dez annos da Estrada de Ferro D. Pedro II, da qual posso dizer sem immodestia, magna pars fui.

§ 1º — Decretação da Estrada de Ferro

A discussão nas Camaras occupou em grande parte as sessões de 1851 e 1852 e terminou pela sancção da lei de 26 de Junho de 1852, que auctorisou a garantia de juro de 5% aos capitaes para uma estrada de ferro partindo da Côrte, bifurcando-se além da Serra, dirigindo um braço para Minas, outro para S. Paulo. E além desta, outras vias ferreas ligando o interior a pontos do littoral.

Antes desta lei não houve projecto serio: ninguem tal considerou um privilegio dado annos antes ao Dr. Cochrane, e que só não foi letra morta para se lhe pagar mais tarde uma valiosa indemnisação.

A idéa dos principaes chefes conservadores era desde 1850 a concessão do previlegio aos Teixeira Leite de Vassouras, os quaes promoverião a organisação da companhia.

Este pensamento envolvia interesse politico: aquella familia garantira ao partido conservador, nos seus annos chamados de vaccas magras, de 1844 a 1848 a unanimidade do collegio eleitoral de Vassouras; cumpria remuneral-os. Mas devemos reconhecer que a preferencia era bem cabida. Foram os Teixeira Leite quem deu mais impulso á opinião para reclamar a lei de 26 de Junho. Erão uma familia rica, influente, considerada e seus creditos concorrerão para facilitar a associação de capitaes. Não parecião animados do simples desejo de ganhar dinheiro; mas possuidos da ambição da gloria de prestar ao paiz um bom serviço. Contando com a concessão fizerão despezas, relacionarão-se com capitalistas inglezes, fizeram vir dous engenheiros, os irmãos Waring, que, á custa delles, futuros concessionarios, instituirão um reconhecimento de córte até a margem do Parahyba.

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Entretanto, o Ministro Gonçalves Martins, depois Visconde de S. Lourenço, os arredou e abriu hasta publica para a adjudicação.

Nunca soube eu em que se baseou esta deliberação. Mauá e Pimenta Bueno obtiverão sem concurrencia a concessão de S. Paulo, Muniz Barreto a da Bahia, outros a de Pernambuco; e todos venderão seus previlegios ás respectivas companhias: só não puderão conseguir o mesmo para o Rio de Janeiro os Teixeira Leite, que entretanto, tinhão mais titulos do que qualquer dos outros!

Na hasta publica fizerão propostas:

  • Dr. Cochrane, que pretendia preferencia por causa do previlegio que annos antes obtivera;

  • O Visconde de Barbacena, fundando-se em um rapido exame de terreno, pelo engenheiro Austin;

  • Theophilo Ottoni associado a J. B. Fonseca. Não tinham estudos: mas propunhão construir a parte facil, 65 kilometros até a raiz da serra, e ir estudar os prolongamentos para o interior.

Não me lembro si houve mais propostas; e das tres que menciono digo o que me diz a memoria, não me recordando si forão publicadas, ou si tive dellas conhecimento por palestras ou artigos de jornaes. Mas creio não ter-me enganado.

O governo desprezou todas as propostas e affectou o negocio á nossa Legação em Londres, que em 1853 contractou com uma mesa de banqueiros o lançamento da companhia no mercado inglez. Esta directoria provisoria mais tarde pedio e obteve a rescisão do contracto, allegando a alta de juros, resultado da guerra do oriente (1855) e desconfio que tambem assustados com as grandes difficuldades da Serra do Mar, que mandarão examinar pelo engenheiro Chappmann. Nasceu-me esta idéa de ter ouvido ao Dr. Joaquim, chefe da familia Teixeira Leite, que os seus engenheiros (os irmãos Waring), regressando do reconhecimento technico que instituiram, haviam dito: "si não fôr possivel na cordilheira um desenvolvimento accessivel ás locomotivas, construiremos uma estrada de ferro athmospherica".

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Este dito prova que fizerão um ligeiro reconhecimento e não estudos definitivos, mas que acharão difficuldades temerosas.

Rescindido o contracto com os banqueiros, adjudicou a nossa Legação em Londres ao emprezario Ed. Price a construcção da primeira secção do Rio a Belém, por conta do Estado, reservando ao governo a faculdade de organisar uma companhia e transferir-lhe os onus e os direitos do contracto derivados.

Este contracto continua clausulas verdadeiramente ruinosas, que habilitavão o emprezario a fazer o que bem lhe parecesse e desarmavão de todo a fiscalisação por parte do governo e portanto da companhia subrogada em seus direitos. Sergio de Macedo, nosso Ministro, era um homem honesto e intelligente, mas não tinha ao seu lado auxiliar technico; e disse depois que procedeu em virtude de declaração que lhe fez o Ministro do Imperio, nestes termos: "o Imperador quer que a questão se resolva, seja como fôr". Price especulou com este empenho de prompta solução.

A este tempo a base da lei de 26 de Junho de 1852 (garantia de 5%) estava alterada. Decretada a Estrada de Ferro da Bahia ao Joazeiro, e tendo sido impossivel organisar a companhia, porque constou que tal linha não tinha futuro, votou a Assembléa Provincial a garantia addicional de 2%; e desde então nenhuma outra companhia dispensou os 7%. Garantia exaggerada que tem feito grande mal ao desenvolvimento dos nossos caminhos de ferro.

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Com tal favor a prosperidade das emprezas torna-se quasi indifferente aos accionistas, bastando-lhes que a renda pague o custeio, para auferirem de seus capitaes um juro impossivel na Europa. Mas os da Bahia nem isto obtiverão: aberto o trafego ha bastantes annos, offerece sempre deficit, preenchido a custa dos 7% que oneravão o Thesouro 1[Annos depois de escriptas estas linhas decretou-se um prolongamento ainda mais esteril: por longo tempo, talvez indefinidamente, a Bahia pesará sobre o Thesouro: cara provincia!].

Com a garantia de 7% forão organisadas as emprezas do Recife, da Bahia, de S. Paulo e afinal a de D. Pedro 2º de que passo a occupar-me.

  

Autobiographia
de C. B. Ottoni
natural da Villa do Principe, depois cidade do Serro, na provincia de Minas Geraes
Maio 1870

Rio de Janeiro
Typographia Leuzinger
1908

A Autobiografia foi escrita entre 1870 e 1871 e permaneceu inédita, recebendo notas e apêndices nas décadas seguintes, até a morte de Ottoni, em 1896.

Índice

  1. Porque e para que escrevo
  2. A casa de meu pae
  3. Minha infancia até 1828
  4. Vida de estudante: 1828 a 1837
  5. 1837-1848
  6. 1848-1855
  7. EF D. Pedro II (1855-1865)
    1. Decretação
    2. Organisação
    3. Direcção
    4. Contracto Price (1ª secção)
    5. Serra e prolongamento
    6. Custeio e administração
    7. Moralidade da gestão
    8. A protecção imperial
    9. Procedimento politico no decennio
  8. 1865-1868
  9. 1868-1871
  10. Julho 8 de 1872
  11. Novembro 11 de 1873
  12. Junho de 1875
  13. Agosto 31 de 1876
  14. Abril de 1877
  15. Maio de 1880
  16. 1885
  17. 1886
  18. 1887
Nota G - Decretação e construcção
             de estradas de ferro

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