Autobiographia de
C. B. Ottoni

VII - 1855-1865

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§ 2º — Organisação da Companhia Nacional

Chegando a noticia do contracto Price, o Governo Imperial resolveu organisar aqui uma companhia, e a 10 de Maio de 1855 publicou os actos organicos da empreza, estatutos, contracto com o governo, etc., e por editaes convocou subscriptores de acções, declarando que pelo facto da subscripção serião considerados acceitos pelos accionistas os actos publicados, ficando a companhia definitivamente organisada.

O capital decretado foi de Rs. 38.000:000$000, sendo logo emittidos Rs. 12.000:000$000, em subscripção rapidamente realisada.

O espirito publico favoneava muito a nascente companhia, que entretanto erguia-se sob máos auspicios. Recebia logo na origem os onus do contracto Price, defeituoso, onerosissimo, que devia dar e deu logar a grande perda de capital e a muitas luctas e desordens. E as regras de direcção impostas á empreza erão mal combinadas, pagando tributo á nossa inexperiencia.

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Muitos dos defeitos do contracto para a primeira secção forão por mim reconhecidos e assignalados pela imprensa, antes de organisada a companhia: os defeitos organicos desta, só mais tarde a experiencia nos foi revelando.

Não se pode desconhecer que para a facilidade da subscripção das acções concorreu grandemente uma idéa de agiotagem: os accionistas subscriptores, nada sabendo da empreza em que embarcavão os seus capitaes, tinhão de eleger cinco directores, e ninguem havia entre nós bem habilitado para tal direcção.

A melhor cabeça do ministerio, a grande intelligencia do Marquez de Paraná estava paralysada pela descrença delle, que julgava a estrada de ferro uma utopia e com reluctancia cedia á pressão, primeiro dos Teixeira Leite, depois da opinião publica.

Esta descrença era geral entre os nossos Estadistas. Vasconcellos que ainda vivia em 1849, quando já se fallava no projecto, dizia zombando: "construam; os trens carregarão no 1º do mez tudo o que ha no interior para transportar e ficarão ociosos por 29 dias". O Visconde de Itaborahy era tambem incredulo.

Os actos da concessão forão discutidos no gabinete do Ministro do Imperio, Conselheiro Pedreira, entre este, o Presidente do Conselho e a commissão que nomearão para distribuir as acções e considerarão Directoria Provisoria. Commissão composta de negociantes, dentre os quaes só o Dr. Caetano Furquim de Almeida entendia da questão: esse era um espirito cultivado, muito activo e estudando sempre de preferencia questões industriaes.

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Ao Dr. Furquim ouvi dous incidentes do debate, que são caracteristicos da descrença do Marquez do Paraná.

O primeiro referia-se á fixação do capital. Não havia estudos technicos nem orçamentos: mas Furquim que tinha alguma erudição na especialidade, e conhecia praticamente o terreno e as distancias, procurava avaliar, tanto por legua na planicie aquem da Serra, tanto na Cordilheira, tanto além, etc., e todos os calculos excedião a 40.000:000$000. Paraná arbitrariamente e sem base, propunha garantir só 30.000:000$000.

Ás observações até certo ponto autorisadas do Dr. Furquim nada oppunha: passeiou pela casa pensativo; e calado chegou á mesa, escreveo em uma tira de papel Rs. 38.000:000$000 e lançando-a entre os discutidores disse: "ahi está, meus senhores: não dou mais".

Foi, pois, a determinação do capital um puro arbitrio: mas, ou acaso ou adivinhação do grande talento do Marquez, seria elle sufficientissimo, sem os excessos do contracto de Londres, para a primeira secção. Estudos posteriores o demonstrarão.

O segundo incidente, mais importante, é relativo á reversão ao Estado no fim do privilegio. Para isto, creava-se no projecto um fundo de amortisação, dotado com uma annuidade derivada da renda e equivalente a 3/10% do capital: calculou alguem que esta annuidade com juros compostos de 6% reproduziria o capital no prazo de 90 annos da concessão; e assim o declaravão os estatutos, o que bem caracterisa o fundo de amortisação; bem que lhe derão o nome de fundo de reserva.

No debate entre o governo e a commissão nomeada, disse um negociante, membro della: "Como! pois havemos de fazer a estrada com o nosso dinheiro, e depois dal-a ao Estado? é iniquidade!"

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— Está bem, acudio o Marquez de Paraná: deixo-lhes a propriedade plena e perpetua; mas reduzo a garantia a 33 annos: era por 90 no projecto.

— Antes isso, replicou o interpellante.

E assim se fez.

O Marquez, como descrente que era, só cuidava de escassear os favores: por isso commetteu o erro de prescindir do principio da amortisação, que tão util seria para o futuro, si a Companhia perdurasse. A annuencia da commissão foi filha da inexperiencia.

Mais adiante narrarei uma occorrencia curiosa nascida desta suppressão da amortisação. Por ora, só accrescentarei que o calculo, a que se referião os Estatutos, era deploravelmente errado: a annuidade de 3/10% reproduziria o capital, não no prazo de 90 annos da concessão, mas em pouco mais de metade 1[Correctamente, em 52¼ annos] (Juro 6%).

A companhia organisou-se; e reunidos os accionistas, elegerão a seguinte Directoria:

Christiano Benedicto Ottoni

Dr. Roberto Jorge Haddock Lobo

Dr. Jeronymo José Teixeira Junior

Dezembargador Alexandre Joaquim de Siqueira

Commendador João Baptista da Fonseca

Devia accrescer um presidente de livre nomeação do governo; escolherão o Visconde do Rio Bonito (João Faro) que rejeitou o cargo; ficou este vago; e tive eu de assumir a presidencia, por ter sido designado para Vice-Presidente: era tambem attribuição do governo.

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Nenhum de nós cinco tinha habilitações sufficientes para dirigir uma empreza de caminho de ferro; mas não ha vaidade em dizer que só o meu nome tinha uma certa significação: era eu o torto em terra de cégos; reinei.

Alheio a todos os debates anteriores e ás decretações de 1855, concentrado no feliz asylo domestico de que dei idéa nas pags. 56 e 61 a 62; mas lendo, estudando e tendo adquirido algumas luzes theoricas, logo que o projecto começou a ser realidade, quiz apresentar-me, e para isso publiquei no Jornal do Commercio uma série de artigos, sob as iniciaes C. O., analysando o contracto de Londres, em verdade defeituosissimo: este trabalho produzio a minha eleição, não solicitada.

Resisti mesmo algum tempo á apresentação que faziam do meu nome: sendo militar activo, como tal inelegivel, assim o declarei pelo Jornal do Commercio. Mas, afinal a pressão dos amigos e o meu amor proprio lisongeado fizerão-me requerer reforma e acceitar a candidatura. Os meus collegas desde o principio cabalavão, principalmente o Haddock Lobo. Fui o mais votado.

Rememorando a minha esquivança e a espontaneidade da minha eleição, não é meo fim ostentar modestia e desinteresse. Eu desejava trabalhar na estrada de ferro (já estava jubilado como Lente da Escola de Marinha) e obter remuneração do meu trabalho: mas a posição a que aspirava era a de engenheiro. Tinha os conhecimentos theoricos mais necessarios, mas nenhum tirocinio: queria ir praticar nos estudos da segunda secção, fazer-me especialidade e mais tarde assumiria posição na direcção technica da empreza. Elegendo-me os accionistas, designando-me o governo para Vice-Presidente, e não provendo o cargo de Presidente, contrariarão a minha vocação, dando-me o primeiro logar, para o qual estava mal preparado.

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Mas cultivando a consciencia do dever, fiz tudo o que pude para bem desempenhar as obrigações da minha nova posição, occupada a principio interinamente, mais tarde sendo nomeado presidente effectivo. Servi até a encampação da empreza em Julho de 1865 e mais seis mezes por delegação exclusiva do governo imperial.

Um facto occorrido na eleição dos directores é caracteristico da cegueira dos accionistas. No primeiro escrutinio ficarão sem maioria absoluta Caetano Furquim de Almeida e João Baptista da Fonseca, entre os quaes correu o segundo escrutinio. Era o primeiro muito intelligente, instruido, representante da familia Teixeira Leite que com elle promoverão mais do que ninguem a decretação da estrada de ferro; o segundo era um negociante probo mais sem instrucção. Foi eleito João Baptista da Fonseca!!! 1[Aliás, cavalheiro muito digno da estima dos homens de bem]

Das circumstancias expostas resultou que, installada a Directoria, todas as esperanças se concentrarão em mim, que assim assumi grande responsabilidade. Era completamente inexperiente; minhas leituras e noções principalmente technicas: a organisação, a direcção, a administração erão lições por aprender. Si commetti erros, si prejudicarão elles o capital da companhia devo ser desculpado: puzerão-me, segundo um dicto vulgar, na posição do barbeiro novo que aprende na barba do tolo.

  

Autobiographia
de C. B. Ottoni
natural da Villa do Principe, depois cidade do Serro, na provincia de Minas Geraes
Maio 1870

Rio de Janeiro
Typographia Leuzinger
1908

A Autobiografia foi escrita entre 1870 e 1871 e permaneceu inédita, recebendo notas e apêndices nas décadas seguintes, até a morte de Ottoni, em 1896.

Índice

  1. Porque e para que escrevo
  2. A casa de meu pae
  3. Minha infancia até 1828
  4. Vida de estudante: 1828 a 1837
  5. 1837-1848
  6. 1848-1855
  7. EF D. Pedro II (1855-1865)
    1. Decretação
    2. Organisação
    3. Direcção
    4. Contracto Price (1ª secção)
    5. Serra e prolongamento
    6. Custeio e administração
    7. Moralidade da gestão
    8. A protecção imperial
    9. Procedimento politico no decennio
  8. 1865-1868
  9. 1868-1871
  10. Julho 8 de 1872
  11. Novembro 11 de 1873
  12. Junho de 1875
  13. Agosto 31 de 1876
  14. Abril de 1877
  15. Maio de 1880
  16. 1885
  17. 1886
  18. 1887
Nota G - Decretação e construcção
             de estradas de ferro

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