Autobiographia de
C. B. Ottoni
VII - 1855-1865
p. 104
§ 3º — O espirito da direcção
Já disse no § 2º que a experiencia me foi mostrando
os defeitos com que foi organisada a companhia. O maior delles foi confundir-se
a deliberação com a acção: creou-se uma directoria
de seis membros, um nomeado pelo governo e cinco eleitos pelos accionistas;
e a este corpo collectivo forão distribuidos todos os poderes de
direcção e de administração. A deliberação
e a execução, as grandes e as pequenas questões,
uma emissão de acções, a nomeação do
engenheiro chefe ou a escolha de um continuo ou a compra de uma vassoura,
tudo ficou dependente da maioria de votos da directoria. Seria difficil,
si não impossivel a uniade de vistas entre os seis: e quando exigisse
cada um quinhão igual na administração, como era
seu direito, seria infallivel a desordem, maximè estando todos
cegos quanto ao mechanismo que ião pôr em acção.
Deu-se o facto em 1858 e produzio quasi um anno de administração
ridicula e anarchica: mas isto pertence ao paragrapho do custeio.
p. 105
Nestes ultimos annos tenho formulado a pedido tres projectos de Estatutos
para emprezas de caminhos de ferro, uma das quaes (o ramal de Valença)
está em actividade. Estabeleci systema muito diverso: deixo aos
directores a deliberação, a disposição dos
fundos, a suprema fiscalisação, as grandes questões:
a execução, a livre nomeação e demissão
do pessoal, o impulso aos trabalhos, o custeio pertencem a um gerente,
com amplos poderes, continuando indefinidamente emquanto bem serve, e
de nomeação e demissão da assembléa dos accionistas.
Os Directores eleitos não tinhão habilitações
especiaes; mas, com excepção de Haddock Lobo, parecerão
animados do mais sincero desejo de acertar. Por isso, na primeira phase
da nossa administração, emquanto só presidiamos ou
antes assistiamos á construcção da primeira secção,
contractada anomalamente em Londres, achavamo-nos os cinco quasi sempre
em boa harmonia: e sendo eu, como já notei, o torto em terra de
cegos, os collegas quasi sempre louvarão-se em mim, que assim me
achei no centro da administração e carregando com a principal
responsabilidade. Nesta posição procurei executar lealmente
os Estatutos, nunca prescindindo do parecer dos collegas.
p. 106
(...)
A boa harmonia em que eu vivia com os outros durou com algumas sombras
até as vesperas da installação do trafego na 1ª
secção, em principio de 1858: ver-se-á em um dos
§§ seguintes como se rompeu tal harmonia.
Por emquanto, nossa missão era: 1º Fiscalisar a execução
do contracto Price; 2º Fazer estudar, orçar e construir os
prolongamentos através e além da Cordilheira; 3º Mais
tarde, custear a linha e o trafego.
Quanto á 1ª secção, estavamos unidos e firmes
no proposito de fiscalisar a construcção e obter obras solidas,
pelas quaes pagavamos o triplo do que valião: luctámos muito
e nada conseguimos; o contracto nos desarmava.
Para a continuação dos trabalhos além de Belém
forão acceitas as seguintes bases por mim propostas:
1º Contractar de preferencia engenheiros americanos, conhecedores
das grandes linhas de fortes declives, noa Alleghanys.
2º Não empreitar obras, sem estudos definitivos e orçamentos
prévios, concluidos sob a nossa direcção.
p. 107
3º Proscrever o contracto em globo e adjudicar as construcções
por séries de preços especificos.
4º Abrir concorrencia em hasta publica.
Os contractos em globo, sem estudos definitivos, com faculdade de alterar
as condições technicas, como os têm feito os inglezes
para obras no Brasil, de ordinario duplicão o custo: os da nossa
1ª secção o triplicarão. A hasta publica, além
das suas sabidas utilidades, devia livrar-nos de imposições
de Price. Tinha este, pelo seu contracto, preferencia para ser encarregado
dos estudos de traço em toda a linha: foi-me preciso grande esforço
e alguma astucia para annullar aquella estipulação, que
seria sem duvida alguma ruinosa.
No futuro custeio da linha, em verdade nem pensavamos nos primeiros dous
annos e meio, de Agosto de 1855 até Fevereiro de 1858, quando se
inaugurou a primeira secção.
A possibilidade da subida da Serra em limites razoaveis de certo estava
nas sombras da duvida: eu mesmo era quasi incredulo, o que não
pouco concorreu para rejeitar por anno e meio a presidencia effectiva:
sómente a acceitei e ainda com condições, depois
de traçada e orçada a segunda secção, e approvados
os planos pelo governo imperial. Era Ministro, quando acceitei, o Marquez
de Olinda.
Nossa gestão nos primeiros annos foi muitas vezes embaraçada
pela tibieza e falta de apoio do governo, cujas tergiversações
só mais tarde consegui comprehender e explicar. Era Ministro do
Imperio (não estava creada a pasta da Agricultura) o Conselheiro
Pedreira, e tinha a seo lado o engenheiro inglez Lane, em quem depositava
grande confiança. Ora, este lane, depois tornou-se claro, estava
feito com o patricio Price, para bigodear-nos. Parece que era plano delles,
assenhorearem-se os dois da estrada de ferro, um como engenheiro, outro
como emprezario geral, eliminando a Directoria. Parecia dizer um ao outro
como o Boticario ao Medico no epigramma de Bocage: "Unamo-nos, meu
Doutor, e demos cabo do mundo".
p. 108
Pedreira, todo fé no seu Lane, não podia confiar em mim,
que em verdade tacteava, embaraçado pela minha inexperiencia. Lane
chamava-me, não sem fundamento, engenheiro amador.
Entretanto, causando-me por vezes difficuldades, consequencia das inspirações
do seu homem, o Ministro não era franco, simulava confiança,
e fallava em nomear-me presidente effectivo, nomeação que
repelli até a sahida de Pedreira do Ministerio. Daqui nascião
tergiversações que mais de uma vez me desesperarão.
O negocio do fundo de reserva, que comecei a expôr nas pags. 101
e 102 offereceu um verdadeiro typo de leviandade.
Resolvendo Paraná, como expuz, prescindir da reversão ao
Estado, mandára supprimir no projecto de Estatutos as disposições
correlativas; mas, por equivoco da Secretaria,q ue escapou a Pedreira,
deixarão subsistir o artigo que creava um fundo de reserva, dotado
com a annuidade de 3/10% do capital, para reproduzil-o no prazo da concessão.
Com esta estipulação forão publicados os Estatutos
com o edital chamando subscriptores de acões e declarando que ficavão
elles (Estatutos) approvados pelo facto da subscripção.
Entretanto, na copia authentica mandada á Directoria apenas installada,
omittirão caladamente o artigo do fundo de reserva.
Eu ignorava então as circumstancias anteriores: mas era claro,
á vista do Edital, que os accionistas havião adquirido o
direito de derivar da renda a dotação annual do fundo de
reserva, igual a 3/10% do capital.
p. 109
Reclamei; trocarão-se explicações; arredada a idéa
da amortisação sustentou a Directoria que subsistia o direito
a um fundo de reserva, que por transacção com o governo
consentiamos em reduzir á terça parte 1/10%.
Durou mezes a reclamação; Pedreira não atava nem
desatava; mas quando nos resolvemos a tratar directamente com o Marquez
de Paraná, Presidente do Conselho, obtivemos o nosso fundo de reserva.
Annunciando ao Ministro do Imperio a promessa que acabava de fazer-nos
o seu collega, vim a saber que a reluctancia nascia de um erro de algarismos.
— Ora, meu amigo, disse elle, os Srs. queriam uma contribuição
para fundo de reserva que depois de emittido todo o capital, subiria a
quasi oitocentos contos por anno!
— Como oitocentos contos? 3/10% de 38.000:000$000 são 114:000$000;
tal seria o maximum.
— Oh! como póde ser isso? eu calculei por vezes com o Imperador
e achámos sempre Rs. 798:000$000. Venha cá, meu amigo, mostre-me
como se faz a conta!
Em vez de 3/10% do capital, calculavão 3/10 do rendimento, orçado
em 7% do mesmo capital.
Miserias! O Ministro do Imperio nem soube calcular a annuidade para amortisação,
nem sabia o que quer dizer 3/10% de uma quantia determinada.
Mas não admira: o governo entre nós, todas as posições
politicas estão nas mãos dos legistas, que em geral não
são fortes em Arithmetica. (...)
p. 110
Mas, si a duvida era que julgavão o fundo de reserva exaggerado,
porque não me fazia Pedreira esta objecção? Calava-se,
ladeava, não dizia sim nem não, até que nos resolvemos
appellar para o Presidente do Conselho. Esta falta de franqueza nascia
de não ter confiança em mim: não podia tel-a, jurando
nas palavras do seu Lane.
Mas então, porque teimava em conservar-me na Vice-Presidencia?
Porque queria a fina força nomear-me Presidente effectivo? quando
eu todos os dias lhe pedia: "nomeie o seu presidente e deixe-me no
logar de simples membro da Directoria!..."
O Conselheiro Pedreira é um homem talentoso, illustrado, honesto;
mas de caracter summamente leviano, e, segundo a expressão do Visconde
de Inhomerim, de dedicação sem limites ao Imperador. A explicação
das suas tergiversações é simplesmente esta: S. M.
o Imperador lhe aconselhava que me conservasse! S. M. I., disse no Senado
o Visconde de Itaborahy, Presidente do Conselho, reina, governa e administra.
Mas, porque me sustentava o Sr. D. Pedro 2º? Creio poder assignalar
as causas depois de diuturna observação e reflexão:
1º Por falta de melhor: ninguem tinhamos bem apto para o cargo; e
os meus artigos, bem como os meus primeiros passos na direcção
inspirarão confiança; a opinião publica me proclamava
o homem para a estrada de ferro. 2º porque não gostando o
Imperador das minhas opiniões democraticas, aprazia-lhe que eu
continuasse alheio á politica; a empreza absorvia-me todo. 3º
Mais tarde, era eu tambem affagado para servir de figa a meu irmão
Theophilo Ottoni, a quem S. M. I. se mostrava desaffecto.
p. 111
Sem prestar-me para figa, ostentando sempre solidariedade politica com
meu irmão, mas dedicando-me á minha occupação
official, cresceu-me verdadeira ambição de atravessar a
Serra e acabar o tunnel grande, principalmente quando se propagou a crença
da sua impraticabilidade. Por isso permaneci no posto, a despeito de todas
as contrariedades.
Passo ao desenvolvimento pratico da nossa gestão.
|