Autobiographia de
C. B. Ottoni

VII - 1855-1865

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§ 4º — Construcção da primeira secção: contracto Price

Na minha critica do contracto de Londres, publicada no Jornal do Commercio e a que já me referi, notára-lhe os seguintes defeitos e inconvenientes:

1º Não existião estudos technicos serios nem orçamento: referirão-se a uma planta que com tal ou qual exactidão apenas assignalava os pontos extremos. O perfil longitudinal dos planos de Londres era imaginario porque Austin, o engenheiro que lá se associou a Price, ou antes o alliciou para embaçarem o Conselheiro Sergio de Macedo, apenas tinha feito um reconhecimento a cavallo, com bussola portatil e barometro de algibeira. Era, aliás, um habil engenheiro. Estipularão no art. 10 do contracto a apresentação de planos definitivos; mas o emprezario não executou esta clausula.

2º O custo kilometrico excedia ao triplo do termo médio de grande numero de linhas semelhantes.

3º O declive de 1:45, tolerado no contracto, era absurdo em terreno tão fracamente accidentado. Não se empregou tal declive.

4º Faculdades excessivas de mudar o alinhamento, escolher materiaes, planejar estações, etc., sem submetter plano algum.

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5° Fiscalisação nulla: só erão permittidas objeções no progresso da construcção; e dada divergencia, só poderia ser arbitro um ex-presidente do Instituto de Engenharia civil de Londres!...

Na execução que durou quasi tres annos, Price e seus Agentes usarão e abusarão daquellas faculdades anomalas; e para augmentar seus lucros, que ainda em uma construcção regular serião avultados, derão-nos uma linha defeituosissima, que quasi toda foi necessario reconstruir: nivel sujeito a inundações; esgotos insufficientes; construcções de pessimo tijolo, que na humidade se desfazia, e secco, pulverisava-se os fragmentos entre os dedos, o que eu proprio verifiquei; emprego de madeiras brancas, sem escolha; para estações miseraveis pardieiros, etc.

Objectei, resisti, luctei, mas fui bigodeado em tudo e por tudo. Não somente o contracto desarmava a fiscalisação; mas ainda mais me exautorava a funesta confiança do Conselheiro Pedreira no seu engenheiro, e as tergiversações com que me entretinha.

No primeiro anno de construcção, não tendo engenheiros nossos, nos louvavamos na supposta fiscalisação do tal Lane, então ainda não apreciado devidamente. Exigiu a Directoria apenas installada, a apresentação dos planos do que rezava o art. 10 do contracto: Lane os dispensou em nome do governo imperial. Objectavamos a cada obra mal feita; e a resposta invariavel era "Mr. Lane approvou".

Não tinha taes poderes o engenheiro do governo, pois que este transferira á Companhia os direitos e deveres derivados do contracto de Londres: mas, em falta de engenheiros nossos, e crendo o governo igualmente interessado na bôa construcção, iamos fechando os olhos á intervenção indebita, sem aliás medir bem o alcance e a natureza das relações officiaes entre Price e Lane.

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Tirou-se este ponto a limpo, á chegada dos nossos engenheiros em meado de 1856. Declarando a Price, em officio, que por conta do Coronel Garnett, nosso Engenheiro chefe, correria dalli em diante a fiscalisação, tive em resposta, tambem official, que só reconhecia a fiscalisação do Sr. Lane, nomeado por Decreto de 10 de Outubro de 1855 Superintendente da estrada de ferro e engenheiro chefe por parte do governo.

Tal Decreto não fôra publicado, nem communicado á Companhia; nem havia direito de promulgal-o. Pedi copia á Secretaria do Imperio, que me respondeu — Não existe Decreto com tal data, relativo a negocios da estrada de ferro.

Entendi, pois, sinceramente, que Price forjava um embuste, e não foi sem ironia que lhe pedi a apresentação da copia do acto alludido, do qual ninguyem no paiz tinha conhecimento.

A replica foi que não tinha copia, mas vira o Decreto original em mão do Sr. Lane que o apresentou para autorisar-se como fiscal unico da construcção.

Existia com effeito o famoso Decreto, lavrado no gabinete do Ministro, entregue a Lane depois de assignado pelo Imperador, não mandada copia para o registro da Secretaria, nem communicado a pessoa alguma. Segredo entre Pedreira, Price e Lane.

Ficou então explicada a posição de Lane, o pouco caso que de mim fazia Price e mil anomalias que me atordoavão. E o famoso Superintendente, depois não me restou duvida, estava feito com o patricio para bigodear-nos. Em certa occasião de grave divergencia relativa a avaliação de obras feitas para pagamentos, propuz, por intermedio do Barão de Mauá, que Price apresentasse documento firmado por Lane; e ouvi do Barão, estas palavras: "Price disse-me que as approvações de Lane lhe são onerosas".

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Estava eu assim exautorado: devia demittir-me? Talvez; mas si o fizesse se consolidaria a liga dos dois, que tomarião conta da segunda secção e seguintes; e além de dois ou tres mil contos, que demais nos custou a primeira secção (sem fallar nas reconstrucções) até Belém ensacarião nos prolongamentos mais oito ou dez mil contos de lucro liquido. Demais, tendo conseguido installar a fiscalisação dos meus engenheiros, esperava que as cousas melhorarião. Continuei, pedindo sempre debalde que nomeassem o seu Presidente, repellindo a nomeação que me era offerecida e fazendo estudar a minha segunda secção.

O chefe, Coronel Garnett era um homem intelligente e culto, sabendo da profissão, mas fazendo do cargo sinecura e quasi limitando-se a escrever relatorios. Á frente dos estudos technicos na Serra, ficou o 1º Ajudante Major Ellison, muito habil, activissimo, verdadeiro autor de todo o projecto da estrada de ferro de Belém em diante. Era auxiliado por alguns outros, mais ou menos habeis.

Quanto á fiscalisação da primeira secção a cargo do Coronel Garnett, em nada melhoramos, porque elle era de uma fraqueza deploravel e depois vim a sbaer que se embriagava. Inter pocula, obtiverão os Agentes de Price duas ou tres concessões que me exasperarão; uma dellas foi o pagamento de Rs. 100:000$000 pelo excesso de largura da ponte do mangue, construida para via dupla. Mas não podia eu attribuir o facto a improbidade, e demais muito temia a desorganisação do nosso corpo de engenheiros, sem os quaes Price nos daria a lei, monopolisando a construcção de toda a linha, para o que trabalhou por alguns annos.

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Não tinhamos então no paiz engenheiro nacional capaz de bem resolver o problema da passagem da Cordilheira: e deixal-o entregue a Price e Lane, seria sacrificar enormes cabedaes. Verifiquei depois que só na subida da Serra, 28 kilometros, dos quaes 25 em rampa de 1,8%, a perda seria de 4 a 5 mil contos, cerca de meio milhão esterlino; tal a differença entre os orçamentos inglezes e os nossos.

Satisfeito, pois, com o modo como via proseguir-se no estudo da segunda secção resignei-me quanto á 1ª, aliás procurando sempre estimular e activar o meu Garnett.

Quasi nada consegui: a construcção até Belém ficou uma miseria: mas não me arrependo: defendia interesses de maior importancia e alcance.

Omitto mil incidentes de desordens, luctas, polemicas, a que derão logar este Price e os seus agentes, e que ainda hoje me desgostão. Pelo exposto, póde-se fazer idéa de tudo: passemos para o melhor clima da segunda secção e seguintes.

  

Autobiographia
de C. B. Ottoni
natural da Villa do Principe, depois cidade do Serro, na provincia de Minas Geraes
Maio 1870

Rio de Janeiro
Typographia Leuzinger
1908

A Autobiografia foi escrita entre 1870 e 1871 e permaneceu inédita, recebendo notas e apêndices nas décadas seguintes, até a morte de Ottoni, em 1896.

Índice

  1. Porque e para que escrevo
  2. A casa de meu pae
  3. Minha infancia até 1828
  4. Vida de estudante: 1828 a 1837
  5. 1837-1848
  6. 1848-1855
  7. EF D. Pedro II (1855-1865)
    1. Decretação
    2. Organisação
    3. Direcção
    4. Contracto Price (1ª secção)
    5. Serra e prolongamento
    6. Custeio e administração
    7. Moralidade da gestão
    8. A protecção imperial
    9. Procedimento politico no decennio
  8. 1865-1868
  9. 1868-1871
  10. Julho 8 de 1872
  11. Novembro 11 de 1873
  12. Junho de 1875
  13. Agosto 31 de 1876
  14. Abril de 1877
  15. Maio de 1880
  16. 1885
  17. 1886
  18. 1887
Nota G - Decretação e construcção
             de estradas de ferro

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