Autobiographia de
C. B. Ottoni
VII - 1855-1865
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§ 5º — Linha da Serra e prolongamento além della
Em Janeiro de 1857 consegui apresentar ao governo os planos (planta,
perfil longitudinal e transversaes, orçamento) dos 28 km. que transpõe
a Serra, de Belém até a sahida do grande tunnel. Eu não
teria aptidão para fazer por mim este trabalho technico; mas possuia
as luzes precisas para aprecial-o; e tendo presidido ao trabalho, acompanhado
os engenheiros, passando muitas vezes o dia com elles nas picadas de exploração,
podia attestar que aquelles desenhos não erão papel pintado,
mas representavão fielmente os accidentes do terreno, como na execução
foi verificado.
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Com este resultado cahirão as minhas apprehensões quanto
á subida da Serra: adquiri fé. Mas nas minhas relações
com o governo só via difficuldades; e muitas me suscitou o amigo
lane.
Entretanto, pouco depois, estando eu ausente, em visita de inspecção
dos estudos além da Serra, o Ministro Pedreira, sem consultar-me,
atirou na imprensa o Decreto que me nomeava presidente effectivo da companhia.
Grande embaraço para mim: por um lado servia eu desde a installação,
tinha assumido grandes responsabilidades e feito planejar a parte principal
da segunda secção, chave da estrada de ferro, sendo assim
natural que presidisse á execução; por outro lado,
nada obteria sem forte apoio e confiança inteira do governo; e
com esta não podia contar, continuando Pedreira a jurar nas palavras
e ver pelos olhos do seu Lane.
Estava muito hesitante e perplexo; quando uma pergunta do meu Theophilo
rompe a tréva das minhas duvidas.
— Tem a companhia capital emittido sufficiente para a segunda secção?
Não tinha. Dos Rs. 12.000:000$000 da primeira emissão,
o contracto Price tinha absorvido grande parte e era destinado a absorver
mais da metade. Os 28 km da Serra deviam custar oito a dez mil contos;
e tendo as acções baixa na praça era difficillima
uma nova emissão.
Requeri, pois, que a terça parte do capital decretado, isto é,
Rs. 12.666:666$666 fosse levantada por emprestimo em Londres, em nome
do governo que destinaria a juro e amortisação os 7% que
offerecera em fórma de garantia, não havendo assim augmento
dos onus do Estado.
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As bases da operação devião ser estas (e foram):
Valor real arrecadado: Rs. 12.666:666$ (o equivalente em lib. sterlinas);
Juro e taxa de emissão: o que se ajustasse;
Amortisação: a differença entre 7% e o juro convencionado;
Valor nominal e prazo da extincção da divida: o que resultasse
dos dados precedentes.
Continuei a assignar-me Vice-Presidente, e disse ao Ministro: "Irei
agradecer ao Imperador a assignatura do Decreto; mas pedir-lhe-ei licença
para deixar o titulo na secretaria até que se resolva o emprestimo
pedido".
Deu-me S. Ex. esta resposta typica: "Vá, vá; mas como
amigo lhe previno que o Imperador não gosta que lhe ponhão
condições".
O Ministerio de então nada resolveu: mas os seus successores,
Marquez de Olinda e Souza Franco, em Maio do mesmo anno, 1857, assumirão
para commigo o compromisso, e só então acceitei a presidencia
effectiva.
Parece evidente que sem este emprestimo a estrada de ferro não
transporia a Cordilheira: pelo que seja-me licito accentuar este, um dos
maiores serviços que prestei no decennio da minha gestão.
A lei passou nas Camaras e só teve execução no anno
seguinte: podia mesmo soffrer maior demora; o capital da primeira emissão
não estava esgottado.
Souza Franco, Ministro da Fazenda, louvou-se em mim para minutar as instrucções
á Legação em Londres; o que fiz com inteira lealdade:
tenho por timbre não abusar da confiança em mim depositada.
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Por isso, e por ser Souza Franco um homem instruido, muito espanto me
causou uma pergunta delle nessa occasião. Acabavamos de assignar
o contracto entre a companhia e o governo, e elle as instrucções
para a operação financeira, e disse-me: "Ora bem; agora
que tudo está feito, diga-me com franqueza si o thesouro não
foi sacrificado em alguma clausula?"
E esta!...
Entre a approvação dos planos pelo governo e a adjudicação
das obras, em Março de 1858, medeiarão 14 mezes, que forão
agitadissimos por incidentes curiosos, intrigas e luctas.
As obras erão pesadissimas: dos 25 kilometros em rampa, quasi
6 k. erão em 13 tunneis, tendo o maior 2.236 metros e havendo no
resto aterros e cortes colossaes. Disse destas obras o engenheiro Law:
"Só o systema de derivações de aguas pluviaes
e nativas é bastante para estabelecer a reputação
de um engenheiro".
Emprezarios não tinhamos com a pericia pratica necessaria.
A empreitada por serie de preços era novidade: de seus resultados
não podião fazer idéa, por inexperiencia, alguns
homens energicos e activos, que poderião aventurar-se.
Nestas circumstancias remettemos cópias de nossos planos para
New-York, Lisboa, Pariz e Londres, convocando de toda a parte concurrentes
para a nossa hasta publica que teve logar em Agosto e mallogrou-se: não
tivemos proposta acceitavel.
Price conhecia os planos, quer daqui, quer em Londres, para onde se retirou:
mas não fazia proposta porque a sua idéa fixa era matar
a pretenção da adjudicação no Rio de Janeiro
e avocar o negocio para Londres onde estava certo de contractar em globo,
á moda da primeira secção, sem concurrentes. Contra
esta aspiração assestei todas as minhas baterias, declarando
sempre que si a trica vingasse eu abandonaria a empreza.
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Annunciada segunda hasta publica para Fevereiro de 1858, fizerão
os meus engenheiros diligencias para attrahir, como attrahirão,
a firma Roberts, Harvey & C., de que eram socios Harvey, empreiteiro
antigo e perito, Roberts ¹[O mesmo
que muitos annos depois estudou a expensas do governo alguns dos nossos
portos e o rio de S. Francisco], engenheiro habil, e J. Humbird,
preciosa especialidade em construcção de tunneis. Mas eu,
receiando imposições, mantive para a hasta publica a minha
liberdade, só promettendo imparcialidade e justiça; animei
outros proponentes e pedi ao Barão de Penedo diligenciasse para
que nos viessem propostas inglezas.
Sciente Price desses passos e julgando ver nelles o mallogro da minha
idéa de adjudicação cá, escreveu ao nosso
Ministro uma carta, que elle me remetteu em original, e cujo transumpto
era este: "A obra que o Sr. Ottoni quer executar deve custar dois
milhões esterlinos: pelo Morro Azul se póde transpor a Serra
com despeza de milhão e meio: estou prompto a emprehender este
trabalho si despedirem os engenheiros americanos, com os quaes não
posso entender-me". (Deixei-a no archivo da Companhia).
O traço por Morro Azul (feitos pelos meus engenheiros, dizia Price)
não existia; era um méro embuste: o contracto por milhão
e meio ou dois milhões, em globo, era o seu sonho: a despedida
dos americanos era a minha expulsão, e deixaria a estrada nas mãos
do Medico e Boticario a que alludi na pag. 108.
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Recolhidas as propostas em Fevereiro de 1858 e constando que os directores
estavam propensos a tratar com os americanos, todos os interesses que
se agrupavão ao redor daquelle milhão e meio ou dois milhões
de Price, erguerão-se voz em grita, fizerão gemer os prelos,
moverão mil intrigas e fizerão agitar por todos os cantos
da cidade a questão da segunda secção da estrada
de ferro. Forão os principaes auxiliares:
Lane, que em relatorio official aconselhára ao governo não
approvasse os nossos planos, porque o projectado tunnel grande não
se faria em 20 annos (concluiu-se em 7) nem pelo dobro do orçamento.
Haddock Lobo, que nada sabendo da questão, gritava — Morro Azul
— por toda a cidade como meio de eliminar-me.
A redacção do Jornal do Commercio que em artigos editoriaes
representou um papel inconveniente.
A obra foi adjudicada, concluida, e custou cerca de dez mil contos em
logar dos dois milhões esterlinos do heróe Price; era sómente
os 28 kilometros de Belem á sahida do tunnel grande, sem desappopriações
nem estações, nem telegrapho. Quem quizer póde verificar
o custo na escripturação da estrada de ferro.
A empreitada por serie de preços, por mim inaugurada em 1858,
foi depois applicada ao resto da segunda secção, 18½
km. da sahida do grande tunnel até á Barra do Pirahy e mais
tarde aos 89½ km. da Barra até Entre-Rios, que tambem adjudiquei.
O mesmo systema continúa até hoje, com razão, a ser
preferido.
Proseguiu o trabalho agitadissimo por mil incidentes ora de desgostos,
ora de luctas ou de prazeres do amor proprio. Narrar todos esses incidentes
seria longo e hoje sem interesse.
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No fim de dez annos, em 1865, tinha eu construido o seguinte:
| Linha provisoria sobre o grande tunnel |
5 kil. |
140½ km. concluidos e em trafego. |
| Primeira secção |
61 '' |
| Linha da Serra |
28 '' |
| Resto da segunda secção |
18½ '' |
| Terceira até Desengano |
22 '' |
| Ramal de Macacos |
5 '' |
| Terceira secção, do Desengano a Entre-Rios |
67 km. leito construido faltando a superstructura das
pontes e assentamento de trilhos |
Tal o estado em que deixei a estrada de ferro quando em Dezembro de 1865
fui obrigado a deixar o cargo que me parecia exautorado por um acto do
Governo.
Hoje, depois que se julga com calma, crê-se em geral que estas
obras ficarão baratas, tal é a magnitude das difficuldades
vencidas: fui mesmo censurado mais de uma vez por sacrificar a solidez
á economia; mas tal não ha. Os preços da terceira
secção, da Barra a Entre-Rios, me satisfazem; é a
linha de bitola larga mais barata que existe no Brasil, e não creio
que possa alguem fazer por menos trabalho igual. Os preços da segunda
secção forão manifestamente onerosos: pagamos tributo
á ignorancia em que jaziamos, á falta de pessoal perito
e á minha inexperiencia. E querião os Inglezes mais meio
milhão esterlino!... por isto, póde-se fazer idéa
do custo das obras que elles executão em nossas provincias com
seus contractos em globo, celebrados em Londres.
Antes de proseguir, seja-me licito consignar que o meio milhão
poupado na Serra foi o segundo dos meus grandes serviços (desculpe-se
a immodestia) prestados á estrada de ferro de D. Pedro 2º,
tendo sido o primeiro o emprestimo de Londres. Houve terceiro, igualmente
ponderoso, de que depois me gabarei.
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