Autobiographia de
C. B. Ottoni

VII - 1855-1865

p. 122

§ 6º — Custeio e administração: episodios

Com a conclusão da primeira secção, e abertura do trafego, a harmonia entre nós, membros da Directoria, que já andava abalada, soffreu grande quebra e foi pouco a pouco desapparecendo. Os directores julgavão-se humilhados porque até alli todos os negocios tinhão corrido pelas minhas mãos, e quiz cada um delles mostrar que a casa cheirava a homem.

Já em principio de 1856, propondo-se na assembléa de accionistas um augmento de gratificação para os membros da Directoria, foi combatida a proposta (e cahiu) allegando-se que sómente seria justificavel o augmento para o presidente que era só quem trabalhava. Primeiro germen de ciume.

Installado o custeio, para cuja gestão todos se julgavão aptos, quiz cada um a sua quota de exercicio administrativo, o que aliás era seu direito á vista dos Estatutos.

Demais, ia ser nomeado um batalhão de empregados, e cada director tinha a sua lista de afilhados. A este respeito a impossibilidade de nos entendermos foi tão completa que afinal adoptámos o seguinte expediente: formada a lista do pessoal a nomear para sete estações e para a conservação da linha, escolheu cada um de nós um, por ordem, do 1º até o 6º, revesando outra vez do 7º em diante e assim até esgotar a lista.

Sobre o processo da gerencia do trafego, achamo-nos em divergencia radical: eu entendia deviamos installar um gerente, responsavel á directoria, com amplos poderes, nomeando e demittindo livremente o pessoal, continuando emquanto bem servisse, e assim fundando tradições administrativas. Os meus cinco collegas unirão-se em um pensamento diverso: cada mez um de nós regeria a empreza, aliás submettendo á approvação da Directoria todas as resoluções de certo alcance. Systema absurdo: o director de mez, em 30 dias apenas começava a tomar pé nos negocios, e logo tinha de retirar-se para vir outro tactear outros trinta dias: nem tinhão poder bastante; não podião nomear um continuo ou escrevente sem o voto da maioria dos collegas.

p. 123

Achando-me isolado e reconhecendo que pela lettra dos Estatutos estavão elles no seu direito, sujeitei-me, mas protestei nunca servir o meu mez: repartia-se o tempo por cinco, não por seis; e fiquei eu especialmente occupado com a construcção de Belém em diante.

Durou este processo administrativo onze mezes que exhibirão o mais triste espectaculo de anarchia, de patronatos, de contradicções e de estulticies.

Mil incidentes, no decurso destes onze mezes, concorrerão para mais e mais desunir-nos e destruir a confiança mutua: não os narro, bem que tenho minuciosos apontamentos; mas cumpro um dever de consciencia confessando que por vezes reconheci, depois dos conflictos, que me havia faltado a prudencia necessaria para evital-os.

De divergencia em divergencia, em Janeiro de 1859 estavão quatro dos cinco directores pronunciados contra mim ¹[Tres: Teixeira Junior uniu-se a elles no ultimo momento], e excogitando deliberações que me suscitassem embaraços. Nestas vistas, demittirão o Coronel Garnett, o que me causou grave receio de ver desorganisada a direcção technica da construcção; mas pelo que tocava ao individuo, não podia affligir-me, apreciando-o eu, como expuz a pag. 114 deste livro. Conseguindo então segurar os dous irmãos Ellison e mais alguns ajudantes, deixei ir o tal Coronel, que em verdade não nos fez falta.

p. 124

Facto mais grave foi assignarem vencido o relatorio de Janeiro os meus quatro adversarios, simulando duvidas sobre a construcção da segunda secção, sob a minha especial superintendencia.

Era impossivel continuar tal estado de cousas; maioria hostil ao presidente que não tinha poder algum sinão o que lhe delegasse o corpo collectivo. Expondo confidencialmente o meu embaraço ao governo, a quem era eu responsavel, lembrou o Conselheiro Nabuco, Ministro da Justiça, que um accionista propuzesse a eleição de uma commissão especial para exame da administração; e perante ella se chamasse a terreiro a questão do Director do mez. E assim o fiz, prestando-se a propôr a moção, a meu pedido, o accionista Dr. L. de Castro Carreira. No desenvolvimento deste incidente e antes mesmo de installada a commissão, acharão-se os quatro Directores exautorados pela Assembléa Geral e demittirão-se, sendo eleitos os successores, a meu contento.

A commissão especial eleita, tendo examinado todos os trabalhos e a administração, emittiu um parecer que esclareceu muitas questões e deu muitos conselhos uteis, entre elles a abolição do tal Director de mez: mas a minha idéa sobre a gerencia, qual a expuz no principio deste paragrapho, não foi acceita. Propoz a commissão e os accionistas approvarão, que em cada semestre a Directoria designasse por eleição um dos seus membros, que como seu Delegado dirigisse o serviço, dobrando-se-lhe a gratificação. Não era difficil tornar-se esta medida em pomo de discordia: elegerem seis homens, por escrutinio um dentre si, a quem os vencimentos se duplica. Tivesse eu a ambição de ser Delegado, e ahi teriamos a desordem em casa.

p. 125

Sujeitei-me ao vencido, fazendo logo proposito de deixar aos collegas a delegação para o trafego: mas a pedido dos novos Directores, com os quaes estava em boa harmonia, servi o primeiro semestre, no qual muito me desvelei por estabelecer praticas uteis e melhorar o serviço: o que pude conseguir consta do relatorio respectivo.

Nos annos seguintes, de 1859 até 1865, em que foi dissolvida a companhia, caprichei em conservar a harmonia com o Delegado e auxilial-o: por isso, apezar das grandes brigas de Marques de Leão com Campos Porto, de Campos Porto com Drummond, de Drummond com o Dr. Galvão e mais tarde commigo, a administração marchou e não fez máo papel.

Devo accrescentar que de muito auxilio nos foi o engenheiro belga Capitão Vlemieux, nomeado Inspector do Trafego, o qual servio com muito zelo, actividade e intelligencia nos seis annos a que me vou referindo.

Nos quasi oito annos que decorrerão desde a inauguração da primeira secção, em Março de 1858, até a minha retirada em Dezembro de 1865, o trafego, a construcção dos prolongamentos, as empreitadas, as relações com o governo e as questões de depositos de fundos derão logar a curiosos episodios: registrarei alguns, o que me dá occasião para apreciar diversos dos nossos homens, com quem tive relações officiaes.

A) Marquez de Olinda. — Foi Ministro, de cujas mãos recebi em Maio de 1857 o titulo de presidente da companhia, como expuz no § 5º. Estive nas suas boas graças cerca de anno e meio; cahi dellas em Novembro de 1858; porque foi condemnado o meu procedimento em um conflicto com Bayliss, representante do emprezario da 1ª secção. Estando em serviço a linha até Queimados, e concluido o trecho dalli até Belem, recusava Bayliss entregal-o, sob pretextos frivolos e para fins de extorsão: e insistindo eu em abrir o transito, trancou a linha com uma cancella, acima da qual içou a bandeira ingleza, e collocou-se pessoalmente abaixo della, entre os trilhos.

p. 126

No receio de conflicto, porque o homem tinha grande pessoal de trabalhadores inglezes, pedira eu o apoio da força publica e foi comnosco (toda a Directoria), no trem, o Chefe de Policia da Provincia com vinte policiaes. Entretanto, temendo reclamação diplomatica, o Marquez deu ordens reservadissimas (depois o soube) ao Chefe de Policia, nestes termos: "Não empregue força em caso algum".

Eu porém, não me resignei a soffrer a desfeita do Godemi; e tal pressão exerci sobre a autoridade que a bandeira foi arreada, a cancella arrombada, e Bayliss arredado da linha para dar-nos passagem.

Parece que Olinda propoz a minha demissão e que o Amo delle não annuiu: o que é certo é que dalli em diante jurou-me odio, e não perdeu occasião de tentar prejudicar-me, até que em 1865, outra vez Ministro, tanto me intrigou com Paula e Souza, Ministro da Agricultura, que surgio um conflicto e tive de retirar-me. Nessa occasião dizia Manoel Felizardo, seu intimo, a José Antonio Ayrosa, que m'o referio: "O Christiano tinha uma conta velha com o Marquez; saldou-a".

Já por vezes me tenho referido á protecção imperial, que alguns annos me sustentou: terei ainda de voltar a ella.

B) Sergio de Macedo. Succedendo este ao Marquez de Olinda no Ministerio, eu não melhorei, porque Sergio se resentira da analyse e criticas que fiz pela imprensa ao contracto de Londres por elle celebrado. A idéa de que o Ministro me era hostil muito animou a dissidencia dos quatro directores de que já fallei, e creou-me mil embaraços.

p. 127

Foi este Ministerio que tentou fazer-me a desfeita de glosar a despeza feita com a inauguração da 1ª secção: ouvio o Conselho de Estado e resolveu o Conselho no sentido da glosa. Eu porém resisti, refutei a consulta, que foi reconsiderada, revogando a resolução o ministerio seguinte.

O que melhor caracterisou a má vontade de Sergio contra mim foi encartar na estrada de ferro, dando-lhe commissões, e depois querer nomear Engenheiro Fiscal, um tal Francisco Primo, meu inimigo, que, havia annos, me injuriava com escriptos anonymos. Chegou mesmo a assignar a nomeação interina: eu porém declarei que nem por uma hora tal homem fiscalisaria meus actos, preferindo demittir-me; e posta assim a questão — ou elle ou eu — o mesmo Sergio o desnomeou e escolheu quem eu indicára. Sempre porque mandou quem podia.

C) Paranhos. Era Ministro de Extrangeiros, com Sergio; e deu-se entre nós um pequeno incidente, cuja succinta narração talvez amenise um pouco esta historia de luctas. Amigo de F. Primo e em boas relações commigo, disse-me um dia S. Ex. quando se agitava a questão da escolha do Engenheiro Fiscal: "É verdade que F. Primo está dominado por impressões desfavoraveis á sua gestão; mas eu posso modifical-o". Eu respondi: "Então, quer apadrinhar-me? Ora, Conselheiro, deixe-se disso".

Antes, e logo que vagára o cargo, tinha eu pedido, em carta ao Visconde de Abaeté, Presidente do Conselho, a nomeação do Capitão Viriato de Medeiros, e nessa carta allegára eu: "O Capitão Medeiros, por cujo conselho o governo approvou os planos da 2ª secção, tem o seu amor proprio interessado em tirar delles bom resultado, e deve por isso ser o melhor Fiscal".

Despedido F. Primo e nomeado o Cap. Viriato de Medeiros, diz-me o meu Paranhos, requintando de amabilidade: "O Imperador fez em Conselho uma observação muito cheia de verdade.

p. 128

— Qual?

— Disse que o Cap. Medeiros... (a phrase textual da mninha carta ao Visconte de Abaethé): não é muito bem dito?

— Sem duvida, respondi, e abundei na homenagem ao bom senso do Imperador.

D) Sayão Lobato ¹[Visconde de Nictheroy]. Em 1861, e já desde o fim de 1860, constava-me de boa fonte que os emprezarios americanos da Serra estavão arruinados e prestes a fallir: fizerão-m'o saber elles mesmos, e tive de considerar si os deixaria quebrar, abandonar o serviço, e adjudical-o a outros, ou si devia vir-lhes em auxilio. O primeiro expediente trazia, além da perda de tempo (com a primeira adjudicação despendemos mais de um anno) enormes prejuizos de dinheiro. Aterros collossaes, não acabados nem preservados das enxurradas, irião pelas grotas abaixo. Tunneis principiados desabarião. Tudo se estragaria, e o simples facto da quebra dos empreiteiros aconselharia a seus successores pedissem mais altos preços. É evidente.

Estudava eu pois o minimo sacrificio a fazer para não parar o serviço, quando subio o Ministerio a 2 de Março. Logo depois fui intimado verbalmente pelo Engenheiro Fiscal, da parte do Ministro da Agricultura, Manoel Felizardo, que S. Ex. não julgava a companhia autorisada a celebrar a novação do contracto, sem prévia licença do governo imperial: sendo clarissimos os poderes que tinhamos pelos Estatutos, desprezei a intimação e prosegui no estudo. Não estava elle terminado, quando encontrei casualmente Sayão Lobato, Ministro da Justiça, que, depois de informar-se das circumstancias, disse-me com a sua ordinaria carranca, e dogmaticamente: "É melhor deixal-os quebrar e procurar outros empreiteiros". Desorganisavão o serviço da estrada de ferro só para prejudicar-me na opinião publica!

p. 129

Calei-me, precipitei o exame da questão, reformei o contracto, concedendo para o que restava fazer do tunnel grande um augmento de preço especifico: passou de 22$620 a 25$000 por jarda cubica.

O meu acto foi approvado pelo governo sem reparo algum: mas Sayão Lobato desde então declarou-se meu inimigo.

O Imperador, apenas informado, mandou chamar-me ¹[Em Juiz de Fóra, por occasião da inauguração da E. União e Industria] e interrogou-me por uma bôa hora sobre o negocio, evidentemente preparando-se para a sabbatina em que fez calar as objecções dos dois. Não me perdoarão elles.

E) Manoel Felizardo de Souza e Mello. Já comecei a aprecial-o: era um homem todo meluria, de trato ameno e delicadissimo; mas parece que não me tinha perdoado o desaforo de recusar ser seu collega no ministerio, em 1848 (V. cap. 6º). O facto que muito bem caracterisou a sua duplicidade foi o da adjudicação da 3ª secção, da Barra do Pirahy até Entre Rios. Estavão os planos submettidos á approvação do governo imperial.

Esta linha, previa-se, faria concurrencia ruinosa ás estradas União e Industria e Mauá, e daria prejuizo á de Cantagallo; pelo que, unidas as tres emprezas ao então poderoso Banqueiro Souto, credor da primeira por cerca de 2.000:000$000 pleiteavão a suppressão da 3ª secção: a E. de F. de D. Pedro 2º não devia dar um passo além da Barra do Pirahy.

Além do empenho dos quatro potentados — Souto, Ferreira Lage, Barão de Mauá e Visconde de Barbacena, recommendavão a medida certos temores financeiros: julgavão alguns, e entre elles o illustrado Visconde de Itaborahy, que a empreza era grandiosa de mais para os nossos recursos.

p. 130

Ou porque entrasse sinceramente nestas vistas acanhadas, ou porque tambem quizesse pregar-me peça, Manoel Felizardo, Ministro da Agricultura, annuio aos desejos dos quatro, resolveu a mutilação pedida, e chegou a annunciar-me verbalmente a deliberação: não devia eu lançar um trilho mais além da Barra do Pirahy.

Resisti, declarei que me retiraria; S. Ex. escolhesse o meu successor para executar a medida que eu julgava funesta.

Estava a questão por decidir, e os planos sem approvação, quando occorreu um incidente muito notavel. O Imperador, encontrando-me em Macacos, chamou-me a um gabinete em que se achava com seus Ministros Paranhos e Manoel Felizardo, e entre estes e mim estabeleceu debate e controversia que durou quasi duas horas...

Tres dias depois fui autorisado a encetar a construcção, dizendo-me então o Ministro: "A opinião que eu tinha externado era individual: fiz o meu parecer da maioria do ministerio, que é da sua opinião".

Eu engoliria esta pilula, si não tivesse havido a sabbatina de Macacos. Mais uma vez, mandou quem podia ¹[É este o terceiro grande serviço a que alludi na pag. 140: 1º Emprestimo de Londres; 2º eliminação dos contractos inglezes; 3º resistencia á mutilação da estrada de ferro decretada].

F) Os Teixeira Leite. É familia numerosa, rica, muito influente no municipio de Vassouras e circumvisinhos: a pressão que exercerão sobre o partido conservador e seus chefes foi o que mais contribuiu para ser decretada a estrada de ferro.

p. 131

Um dos activos propugnadores da decretação foi o Conselheiro Sayão Lobato, ou convencido pelos Teixeira Leite ou a elles subserviente, por causa do grande numero de votos que lhe davão nas eleições politicas. Prestou esta familia ao paiz assignalado serviço que segunda vez commemoro com prazer, lamentando que fosse mal considerada pelo governo, como fiz ver no paragrapho da decretação.

Honrarão-me os Teixeira Leite, sustentarão-me em todas as minhas luctas; e sou-lhes tão reconhecido que dando-se depois motivos para esfriamento de relações com alguns d'elles, houve-me com prudencia para evitar, e evitei, conflictos ou polemicas.

Com pezar causei-lhes um grande desgosto. Da sahida do tunnel grande para a margem do Parahyba traçarão os engenheiros duas linhas: uma, tocando a cidade de Vassouras, com subidas e descidas, tres pontos culminantes e obras mui pesadas; outra, a que se executou, descendo sempre pelos valles do ribeirão de Sant'Anna e rio Pirahy, mais curta, mais barata, de custeio mais economico.

Defendendo a sua cidade, os Teixeira Leite sustentavão devia preferir-se o primeiro traço, embora mais oneroso: mas eu opinei pelo segundo e o fiz adoptar, crendo que o excesso de custo e a maior despeza de custeio seriam um onus perpetuo sobre o paiz, em favor sómente de Vassouras. Contrariei-os com pezar, mas cumpri o meu dever.

A proposito consignarei aqui um dito do Commendador F. J. Teixeira Leite ¹[Depois Barão de Vassouras], que me faz honra e a elle ainda mais. Observarão em uma palestra: "O Ottoni pronuncia-se tanto pela linha do Pirahy, que adoptada a de Vassouras, terá de retirar-se.

p. 132

— Nesse caso, accudio o Commendador, dispensamos a estrada de ferro em Vassouras".

Nem todos os membros da familia tinham igual longanimidade: ficarão alguns resentimentos, mais tarde aggravados por outras causas; mas não fizerão explosão; e, tudo ponderado, a recordação destas relações tem para mim muito mais de agradavel do que de penosa.

G) Barão de Mauá. Tomou parte na campanha contra a 3ª secção, de que fallei no episodio E e trocamos na imprensa alguns artigos de polemica, que nada teve de odiosa nem de virulenta. Minhas relações pessoaes com o Barão limitarão-se sempre a uma cortezia benevola, e nem um obsequio lhe devi em tempo algum. A Theophilo fez grandes finezas e erão ligados em intima amizade.

Relações officiaes tambem não as tive, salvas as que tinham por objecto o deposito dos fundos da companhia em C/C no banco Mauá, Mac Gregor & C. Para a preferencia deste deposito figurarão os empenhos, como figurão mais ou menos em tudo entre nós; e eu mesmo não fiquei isento da critica, sendo o Theophilo o meu empenho. Aliás, o banco parecia muito solido, e em verdade não nos deu prejuizo.

De 1855 a 1858 as chamadas feitas sobre as acções emittidas erão recolhidas ao banco contra o qual saccavão para os pagamentos.

Em 1858, passando o Brasil os fundos do emprestimo de Londres, não foi sem apprehensões que deixamos ir tão grandes sommas para o Barão de Mauá, que começava a mostrar-se muito aventuroso em especulações. Ficarão no Thesouro Rs. 2.000:000$; forão Rs. 3.000:000$ para o Banco do Brasil; e ainda restarão 7.600:000$ recolhidos á nossa C/C no Mauá. Não estavão dissipadas as apprehensões, quando em Dezembro do mesmo anno (1858) deu-se um facto mui digno de ser narrado.

p. 133

Souza Franco, Ministro da Fazenda, escreveu-me que o Thesouro não devia garantir 7% de fundos que vencião menos em certos depositos, havendo outros que abonavão os mesmos 7%. O Banco do Brasil pagava 6¼, o Mauá 7% e estes juros erão creditados ao Governo á encontro da garantia.

A vista deste aviso a Directoria resolveu passar os 3.000:000$ do Banco do Brasil para o de Mauá; mas os Directores fizerão em sessão mil protestos, que a segurança não era igual, mas que lavavão as mãos porque erão compellidos pelo Governo. Si não me falha a memoria forão esses protestos consignados na acta da sessão.

Entretanto, a verdade era que cedião a empenhos.

Tomada certa noite esta resolução, annunciarão de manhã os jornaes a queda do Ministerio; pelo que, tomado de zelo pela liberdade de espirito dos coactos, com toda a ingenuidade suspendi a execução do resolvido, e convoquei sessão extraordinaria da Directoria para de novo deliberar visto que cessava a coacção. Ninguem compareceu: "já está assentado, diziam, que impertinencia!"

Cerca de um anno depois, no fim de 1859 ou principio de 1860, soubemos de grandes perdas soffridas pelo banco Mauá em algumas fallencias da praça, e nos sobressaltamos: constou mesmo que o Conselho Fiscal desapprovava algumas operações do Banco.

A questão foi agitada na minha Directoria, já a segunda, não me lembro por iniciativa de quem, e o debate foi notabilissimo. Todos tinhão vivissimas apprehensões, mas ninguem concordava em tomar medida alguma: dizião que qualquer pressão sobre o Banco, prejudicando a o seu credito, podia comprometter, em vez de salvar, os nossos capitaes.

p. 134

Daqui surgio uma lembrança que tudo conciliava: pedirmos ao governo imperial, reservadamente, que para as urgencias do Thesouro fosse reclamando dinheiro da estrada de ferro, para diminuir o deposito. Mas, confessando todos que estavam assustados, todos recusarão esta como outra qualquer medida. Nem um dos ratos ia collocar no pescoço do gato o guizo que julgavão necessario.

Nesta situação, salvei a minha responsabilidade, propondo a medida só em meu nome, em officio reservado; e em parte annuio o Governo. Mauá soube-o e ficou resentido, bem que não fizesse explosão; mas eu cumpri o meu dever, indubitavelmente.

H) J. Teixeira Junior. É actualmente Ministro da Agricultura, e no jogo da politica nos proximos annos tomará de certo posição notavel: é o que mais me estimula a consignar aqui o papel que representou na estrada de ferro: foi membro da primeira Directoria, seu Secretario e depois Vice-Presidente. Nos tres annos e meio decorridos da installação até a crise descripta á pag. 118 a 120 esteve sempre em harmonia commigo nas votações: provão-o as nossas actas, registradas em um livro, primeiro por elle mesmo, como Secretario, depois por seu successor João Baptista da Fonseca. Ainda na sessão ultima, quando assignarão vencido o relatorio, esteve a meu lado.

É certo que nas grandes questões, que podião determinar crise, ninguem conseguia saber a opinião delle, antes que os outros se pronunciassem: antes de votar queria saber quem tinha maioria. Teixeira Junior unido aos outros dois fazião commigo maioria de quatro, e assim vivemos. mas logo que viu tres votos pronunciados contra mim, ajuntou-lhes o seu como coup de grâce, certo que me derrotava. Perdeu no jogo e teve de demittir-se como os outros.

p. 135

O Visconde de Inhomerim, informado desta attitude do meu homem, comparava-o com o urso dos gelos da Russia, que segue indefinidamente o viajante, emquanto póde galopar; si cahe, devora-o.

Ao retirar-se, Teixeira Junior praticou para comigo um acto de suprema deslealdade. O homem que por tres annos e meio me dera o apoio do seu voto (quem duvidar póde ir ver as actas da Directoria) no acto de demittir-se assignou um manifesto recheado de improperios em que dizião que desde a installação da Companhia eu atraiçoava os collegas.

Passados tres annos, em 1862, unindo-se a Drummond que dizia ter queixas de mim, e a todos os adversarios que me suscitavão jogo de interesses contrariados, pretendeu Teixeira Junior ser de novo eleito Director da companhia, dizendo ter por fim averiguar de abusos que lhe constava terem-se introduzido na administração.

Consegui derrotar a pretenção: mas, não querendo embaraçar o exame dos abusos, pedi aos accionistas, publicamente, em sessão, que nomeassem a elle, Teixeira Junior e os seus dois melhores auxiliares na cabala para a commissão de contas:

Forão eleitos e recusarão!

Sem meu conhecimento, porque o livro das transferencias estava no Banco Mauá, tinhão conseguido simular compra de mais de 4.000 acções improvisando accionistas que na Assembléa Geral lhes darião ganho de causa. Mas, dizendo os Estatutos — Só tem voto quem era accionista trinta dias antes da convocação — antecipei-a, de modo que o prazo fatal abrangesse as transacções imaginarias, que assim inutilisei. Gritarão muito, derão muito dinheiro a ganhar ao Jornal do Commercio, fizerão-me dar outro tanto ao Correio Mercantil: mas o meu acto passou em julgado, e era estrictamente legal.

p. 136

Levantou-se, em seguida, na Camara dos Deputados, a que ambos pertenciamos, um debate sobre as questões expostas; mas alli o Dr. Teixeira Junior desmoralisou a sua propria acção, confessando que a minha firmeza por occasião da empreitada para a segunda secção salvára quatro a cinco mil contos: pelo que muito o censurarão os alliados da cabala derrotada.

Desde então cessou entre nós toda a hostilidade; salvamos a cortezia; mas não nos reune estima reciproca. Do meu caracter faz elle talvez juizo desfavoravel, sabe Deus si com razão em algum ponto: eu o reputo o typo do egoismo e da ambição, essencialmente desleal. Deus me perdoe, si estou em erro.

I) Domingos Theodoro de Azevedo Paiva. — Typo opposto ao precedente. Tive muitos collegas na Directoria da estrada de ferro: com alguns briguei: com outros vivi em boa harmonia; de certo numero delles fui amigo: mas entre todos sobresahe Domingos Theodoro de Azevedo Paiva, um velho liberal de Minas, que havia já alguns annos residia na Côrte. Eleito Director em uma vaga, foi dos que servirão até a encampação: sustentava-me nas maiores luctas; dava-me optimos conselhos de moderação e prudencia; auxiliava-me em tudo e por tudo. Sabia em todas as circumstancias demonstrar firmeza, sem que jámais attrahisse odios: tal era a sua bondade, seu humor sempre igual, sua cortezia e affabilidade para com todos, sua probidade, seu caracter inoffensivo, seu desinteresse.

Verdadeiro typo do homem honrado e sincero; do amigo leal, do cidadão desinteressado e patriota; ter conquistado a confiança de tal varão é uma das minhas glorias.

J) Carneiro Leão e Humbird. A estes, associados, foi adjudicada em hasta publica a construcção dos 18½ km. do grande tunnel até á Barra do Pirahy.

p. 137

Nicoláo Neto Carneiro Leão, irmão do Marquez de Paraná, era um fazendeiro imortante, cujas terras a linha adjudicada atravessava na extensão de alguns kilometros: do seu caracter tinha e tenho a melhor idéa.

Jacob Humbird era o imprezario do tunnel grande, industrial de uma pericia, de uma energia, de um tino, que o constituião, a meu ver, um empreiteiro-typo.

Quando abrimos concurrencia para os 18½ km., a obra do tunnel estava em meio, si é que tanto: e sendo esta a chave de toda a empreza, considerava eu de muita importancia fixar no paiz o Humbird, interessando-o em outra empreitada. Sorriu-me tambem vel-o associado a Carneiro Leão, por ser um brazileiro notavel por sua intelligencia, posiç~´ao, fortuna e caracter.

As apprehensões sobre o famoso tunnel não estavão de todo dissipadas: tinha elle 2.200 e trinta e tantos metros e exigio quatro poços de 37, 101, 73 e 107 metros, tudo em granito, ora massiço, ora decomposto ou estratificado; ora secco, ora com terriveis infiltrações. A associação entre os dois foi muito bafejada pelo Major Ellison, nosso engenheiro chefe, amigo de ambos, e agradou-me pela razão exposta. mas logo que tive certeza de que entrarião em licitação comecei a receiar que a amizade entre os dois e o engenheiro os fizesse considerar-se homens necessarios e exaggerar os preços especificos da sua proposta.

Contra este perigo acautelei-me com alguma astucia: tendo ouvido que alguns membros da familia Teixeira Leite tinhão idéa de licitar, mas hesitavão, escrevi reservadamente ao Dr. Joaquim Teixeira Leite, chefe da familia, pedindo a sua intervenção para que não deixasse de vir a proposta dos seus parentes. Não lhe fiz mysterio dos meus motivos: "desejava preferir Carneiro Leão e Humbird; mas temia que em falta de concorrencia me impuzessem elles preços altos". Isto feito, insinuei por meias palavras soltas em palestras deante dos interessados, que os Teixeira Leite tinhão direito á preferencia, tanto por tanto; attribuo a esta cautela terem sido os preços especificos deste contracto, que foi o segundo, menores que os da Serra. Os da 3ª secção forão ainda menores: effeito da concorrencia e da lealdade com que nos haviamos na adjudicação.

p. 138

Preferida a série de preços da firma Carneiro leão e Humbird, nas negociações das clausulas do contracto occorreu um incidente de importancia para uma apreciação ulterior: por isso o exponho.

Circumstancias topographicas, dizião-me os engenheiros, permittião modificações do alinhamento que devião reduzir o orçamento, em algumas centenas de contos. Bem o sabia o habilissimo emprezario Humbird, que por isso pedia um contracto em globo, calculadas as cubações do orçamento pelos preços da sua proposta.

O Major Ellison não repellia a idéa e observava que o contracto em globo dá menos trabalho aos engenheiros e diminue a despeza da direcção technica; o que é exacto.

Carneiro Leão dizia-se indifferente á forma do contracto, em globo ou por preços: entrava no negocio, affirmava, sem vistas de lucro, sómente para ter acção sobre os trabalhadores nos limites de suas lavouras.

Ouvindo os tres, certo que o contracto em globo nos seria mais oneroso, mas observando que Ellison parecia tergiversar, interpellei-o solemnemente, dizendo: "quero a sua opinião na qualidade de engenheiro em chefe da companhia". Respondeu:

"Ah? si me interroga como engenheiro, não hesito em dizer que o interesse da companhia aconselha de preferencia o contracto por serie de preços na forma da proposta".

p. 139

Assim se fez: as contas finaes demonstrarão uma economia de quasi 600 contos, que, dado o contracto em globo, irião para as algibeiras dos emprezarios.

Muito hesitou Carneiro Leão para assignar o contracto, e declarou-se inimigo capital do Major Ellison, que dizia tel-os trahido: "animára-os para o contracto em globo e na ultima hora opinou contra".

Presumia Carneiro Leão (presumia, não affirmava) que Ellison queria ter parte nos lucros, e recuou, porque isso não lhe foi offerecido. Ficou bem averiguado que entre empreiteiros e engenheiros não houve pacto immoral: mas si eu celebrasse o contracto em globo, o engenheiro iria estudar no interesse dos empreiteiros as reducções de custo e naturalmente receberia paga pelo seu trabalho, eu o creio. Mas, uma vez que me informou com lealdade, ajudando-me a poupar a differença em questão, não posso dar valor á presumpção de que olhasse para as mãos dos contractadores.

A lucta entre os dois durou todo o tempo da construcção e produzio varios incidentes que me incommodarão. Colloquei-me entre elles, fazendo justiça em cada caso a quem a tinha e não fiz esforço para concilial-os: ao Ministro da Agricultura que me interrogava sobre estas brigas, respondi: "... por fim de contas uma inimizade entre engenheiro e empreiteiro não é nenhuma desgraça".

Antes de passar ao § seguinte, gabar-me-ei um pouquito. Acabo de fallar de 500 ou 600 contos poupados, que o meu paiz me deveu a mim e a mim só; sommo este algarismo ao meio milhão esterlino economisado na Serra, e a 120 contos de multas que impuz a Roberts Harvey & C. por demoras de construcção; alguns outros contractos pequenos e varias desappropriações que dirigi salvarão tambem algumas dezenas de contos. Tudo junto, cobre algumas duzias de vezes as gratificações que recebi nos dez annos de minha gestão.

Talvez seja immodestia: mas confesso que commemoro estas circumstancias com grandissima satisfacção.

  

Autobiographia
de C. B. Ottoni
natural da Villa do Principe, depois cidade do Serro, na provincia de Minas Geraes
Maio 1870

Rio de Janeiro
Typographia Leuzinger
1908

A Autobiografia foi escrita entre 1870 e 1871 e permaneceu inédita, recebendo notas e apêndices nas décadas seguintes, até a morte de Ottoni, em 1896.

Índice

  1. Porque e para que escrevo
  2. A casa de meu pae
  3. Minha infancia até 1828
  4. Vida de estudante: 1828 a 1837
  5. 1837-1848
  6. 1848-1855
  7. EF D. Pedro II (1855-1865)
    1. Decretação
    2. Organisação
    3. Direcção
    4. Contracto Price (1ª secção)
    5. Serra e prolongamento
    6. Custeio e administração
    7. Moralidade da gestão
    8. A protecção imperial
    9. Procedimento politico no decennio
  8. 1865-1868
  9. 1868-1871
  10. Julho 8 de 1872
  11. Novembro 11 de 1873
  12. Junho de 1875
  13. Agosto 31 de 1876
  14. Abril de 1877
  15. Maio de 1880
  16. 1885
  17. 1886
  18. 1887
Nota G - Decretação e construcção
             de estradas de ferro

Outros textos de Ottoni

O futuro das estradas de ferro do Brasil

Parecer

Discurso ao imperador

Despedida aos acionistas

A idéia mudancista | Hipólito | Bonifácio | Independência | Império | Varnhagen | República | Cruls | Café-com-leite | Marcha para oeste | Constitucionalismo | Mineiros | Goianos | Projetos de Brasil | Ferrovias para o Planalto Central
 

Sobre o site Centro-Oeste | Contato | Publicidade | Política de privacidade