Autobiographia de
C. B. Ottoni
VII - 1855-1865
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§ 7º — Moralidade da gestão
No fim do cap. precedente expuz uma imputação infamante
a mim dirigida por um miseravel, que não se atreveu a assumir na
imprensa a responsabilidade da sua aleivosia; e disse eu quanto basta
para reduzir a torpe calumnia ao seu justo valor.
Nem uma outra accusação semelhante me foi dirigida em tempo
algum: mas a que levantou Viriato de Medeiros em 1864 contra o engenheiro
em chefe da companhia Major A. Ellison Junior, virtualmente me compromettia.
Era eu responsavel pelos abusos que não cohibisse, podendo; e até
certo ponto me fiz solidario com o engenheiro autorisando por despacho
meu o pagamento das contas de construcção organisada sob
sua direcção technica e por elle rubricadas.
Concluio-se em 1863 a empreitada de Roberts, Harvey & Cº da
construcção da linha desde Belem até (exclusive)
o grande aterro que precedeu o tunnel grande ¹[Este
fôra em 1861 separado da empreitada e adjudicado a J. Humbird, individualmente].
Durára o trabalho mais de cinco annos, tendo-se todos os mezes
avaliado approximadamente o serviço feito para os pagamentos mensaes
na forma do contracto: fez-se afinal a medição geral e conta
total para liquidar e pagar o saldo.
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Subia a importancia total, si bem me lembro, a cerca de oito mil contos
estando por pagar um saldo de trezentos e tantos. Em toda a duração
deste trabalho, com excepção do primeiro anno, foi engenheiro
fiscal do governo o Capitão Viriato de Medeiros, que nunca fez
o menor reparo sobre o modo como erão organizadas as contas de
construcção, seu processo, fiscalisação e
pagamentos.
Entretanto, concluidas em 1864 as medições e contas fiscaes,
que dependião da approvação do governo, porque o
Estado garantia os juros do capital empregado, oppoz-se Medeiros a esta
approvação, e affirmou que se tinhão pago de mais
e abusivamente cerca de trezentos contos de excavações imaginarias.
Fundava-se na falta que accusou de perfis transversaes que representassem
aquellas cubações, estando exactos os calculos, dizia, das
que constavão dos perfis apresentados.
Formulou a accusação contra o engenheiro, erguendo ao setimo
céo a minha probidade e pondo-me no papel de illudido em bôa
fé pelo supposto malversor: pretendia que eu me fizesse neutro
entre o accusador e o accusado. Sobre os caracteres de ambos direi o que
penso, antes de desenvolver a questão suscitada.
Viriato de Medeiros
era um moço de bôa educação, talendo mediocre,
alguma pericia como engenheiro, orgulhoso, irascivel e de caracter profundamente
sceptico: ouvi-lhe por vezes com desgosto esta declaração:
"não creio em nada, trabalho só para ganhar dinheiro".
Todavia não o tinha eu, nem o tenho, por improbo.
O Major Ellison era malcreado; mas immensamente superior a Viriato em
talento e experiencia, tino profissional e conhecimentos technicos: igualmente
orgulhoso e irascivel, mas sabendo dominar-se quando convinha, emquanto
o outro, sempre que se irritava era estouvadissimo.
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Entre os dois se estabeleceu pouco a pouco uma inimizade que chegou á
ultima exacerbação, chegou até a ameaças de
desforço material. Começára por ciumes de profissão
e se aggravára por mil incidentes, cujos principaes expuz em um
folheto com a epigraphe — Um Brazileiro em Londres — de que tenho um
exemplar na minha gaveta: não foi contestado.
O odio figadal entre os dois é ponto perfeitamente averiguado;
e a explosão, dados os caracteres descriptos, devia ser violenta.
Seria Ellison venal e corrupto, como lhe imputou o seu inimigo? Era aqui
homem novo; viéra ao Brasil só para ganhar dinheiro; e nunca
me descuidei de observar e fiscalisar seo procedimento; direito sobre
elle todas as minhas impressões.
Antes da accusação, no decurso do serviço que o
Fiscal do Governo julgava sempre justo e perfeito, por tres vezes tive
de estudar factos delle Ellison que precisavão de exame e syndicação.
O primeiro facto é o que se referiu ao contracto em globo com
Carneiro Leão V. Humbird, como expuz no § antecedente, episodio
J. Leia-se o que escrevi (Pag. 138 e 139) e se verá que a queixa
do empreiteiro não envolvia imputação séria.
O segundo facto occorreu por esse mesmo tempo 1861. Tratando-se da novação
do contracto com Roberts, Harvey & Cº que estavão em más
circumstancias, exigio a Directoria a apresentação do balanço
dos emprezarios, e nelle encontrou o Major Ellison credor de 30 contos
que dizia ter emprestado aos patricios em hora de apuro. Foi por isso
muito censurado e eu mesmo recommendei em officio que o facto não
se repetisse. Mas, si fosse um acto de improbidade, é claro que
Ellison não comprometteria o seu nome: e de mais Carneiro Leão,
já então seu inimigo dizia saber da transacção
que tinha sido leal e honesta.
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O terceiro facto, que um momento me agitou, foi uma certa hesitação
por elle mostrada quando tratei de impôr á firma Roberts,
Harvey & Cº uma multa de 120:000$ por demora das obras. A questão
pendia de um laudo de Ellison, que algum tempo pareceu tergiversar: mas,
instado por mim deu o parecer que salvou os 120:000$.
Nunca tive noticia de outro algum facto, que o expuzesse á censura
de quem quer que fosse.
Si o meu engenheiro fosse venal... não hesito em modificar a phrase,
si o meu engenheiro era venal, o unico meio que teve de prevaricar, unico
mas segurissimo, era abonar-lhe o empreiteiro Humbird, de quem era amigo,
uma porcentagem dos seus lucros. Si o fizesse, como verifical-o?
A falsificação das contas e cubações, denunciada
por V. de Medeiros era claramente impossivel. A linha empreitada estava
dividida, e cada divisão de cerca de kilometro e meio tinha o seu
engenheiro residente, morando no logar, acompanhando diariamente o trabalho,
fazendo as medições, organisando as contas que erão
obrigados a escrever de seu punho. Remettidas ao escriptorio da direcção
technica, erão examinadas e conferidas pelo 1º Ajudante do
Engenheiro Chefe, por elle asignadas e rubricadas pelo chefe. Entregues
aos emprezarios, recebião estes o dinheiro: directamente da companhia,
nunca pelo intermedio dos engenheiros. Das cubações se dava
copia (na Secretaria da Companhia) aos sub-empreiteiros para seus ajustes
de contas com os empreiteiros principaes. Logo, o viciamento das contas
e cubações exigia cumplicidade de todo esse povo, algumas
dezenas de pessoas. Destes, alguns sub-empreiteiros quebrarão e
sahirão brigados com engenheiros e empreiteiros; alguns engenheiros
residentes se retirarão tambem mal com Ellison que era muito arrogante
com os subordinados; e de uns ou de outros nada transpirou; a inverosimilhança
não póde ser mais completa ¹[Poucos
annos depois V. de Medeiros, engenheiro chefe da estrada de ferro paulista,
foi accusado de malversações pela Directoria nos mesmos
termos em que elle accusára o Major A. Ellison Junior: e a sua
defeza pela imprensa, de que guardo um exemplar, consistiu nas allegações
supra: copiou o nosso methodo de direcção technica. Si a
defeza vale para um valia para o outro].
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Demais, sendo a base da accusação a falta de alguns perfis
transversaes, releva notar que Viriato de Medeiros não tinha exigido
que os guardassem; e reunidos na ultima hora (muitas centenas) a collecção
acaso se achou truncada. Quasi todos os que faltavão apparecerão
depois: representavão excavações que estavão
á ista, não contempladas nos primeiros perfis: mas porque
vinhão tarde, Medeiros embirrou em recusal-os. Em suas respostas,
o engenheiro da companhia explicou satisfactoriamente todas as differenças
pelo que me ficou robusta convicção de que o Cap. Viriato
de Medeiros calumniou o Major A. Ellison Junior. Assumi pois lealmente
a defesa do accusado.
Não appareceu entre os Directores e accionistas uma só
voz que echoasse a do Cap. Medeiros: a Assembléa Geral da Companhia
approvou sem debate as contas da construcção. Mas o Governo
Imperial precisou de um anno para pronunciar-se; e antes de fazel-o tentou,
ao menos tentarão dois ministros, illudir a questão. Eu,
porém, consegui compellil-os a ser explicitos. Repare-se o que
têm de curioso e anomalo os seguintes incidentes.
D. Leite Ribeiro ¹[Depois Visconde
de Araxá], Ministro da Agricultura, em 1864, disse-me um
dia na Camara dos Deputados: "Examinei a papelada da estrada de ferro:
Viriato não provou nada; mas o Ellison não me satisfez com
as suas explicações".
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— E V. Ex., perguntei, pretende exigir do accusado que prove a innocencia?
— Oh! não... a prova incumbe ao accusador; mas...
Ficamos na reticencia: pouco depois o Ministro adoeceu e retirou-se para
Juiz de Fóra, havendo então jornal que diagnosticou a molestia
uma Ellison-Ottonite.
Succedeu-lhe na pasta Jesuino Marcondes, que depois de longa procrastinação,
mandou chamar-me um dia á sua casa e disse-me:
— O Ministro quer decidir a questão de modo que importe a demissão
do accusador e do accusado, mas signifique plena confiança no presidente
da companhia: redija o aviso.
— Obrigado, Sr. Conselheiro; mas não posso acceitar a commissão,
porque não sei redigir o sim e o não.
— Como o sim e o não?
— Pois de que se trata? denunciou Viriato uma grande ladroeira. Provou-a?
porque ha de ser sacrificado? Não provou-a? Com que direito se
ha de punir o accusado? O favor que peço a V. Ex. é eliminar-me
de toda a communicação confidencial sobre este negocio:
espero as ordens do governo imperial. Ficou bem claro que eu me demittiria,
si não dessem por justificado o meu engenheiro.
Dias depois cahi das nuvens, encontrando-me com Furtado, Presidente do
Conselho e Dias Vieira, Ministro da Justiça. Narrando-lhes, porque
me interrogarão, a minha conversa com Marcondes, responderão
que nada estava resolvido; que aquella idéa exquisita era só
do Ministro da Agricultura; e por se opporem a ella os collegas, ficára
a questão por decidir.
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Instei então por um despacho, que algumas semanas depois foi dado,
nestes termos em transumpto: "Não tendo o accusador provado
a accusação são approvadas as contas apresentadas".
Julgo conhecer a explicação dos mysteriosos dislates que
proferiram Leite Ribeiro e Marcondes, aliás um bom talento o primeiro,
e o segundo um homem sensato, e de intelligencia regular. Tinha eu, em
conversação com o Imperador exposto francamente as impressões
que resumi á pag. 143 e 144: creio que S. M. I. presumindo que
eu tivesse sómente meia franqueza e crendo tirar domingos dos dias
santos, ficou com má idéa do Ellison; e como por outra parte
a accusação era estulta, aconselhou a demissão de
ambos. Orgão da idéa imperial, talvez Marcondes attibuio
a opposição de Furtado á amisade que me tinha; e
quiz, apresentando a minuta do aviso por minha lettra, dizer-lhe: "Veja
que o nosso amigo concorda".
O que em tudo isso me espanta é que Leite Ribeiro, Marcondes,
o Imperador, qualquer dos tres, acreditasse um momento que eu me havia
de sujeitar áquella sublime idéa de fulminar o accusador
e o accusado.
A decisão foi justissima; e quem mais pugnou por ella no Gabinete
foi o Presidente Conselheiro Furtado, homem honesto, illustrado, um dos
caracteres mais puros que têm figurado em nossa politica: amigos
e adversarios o reconhecem.
Tendo assim cahido a unica imputação de improbidade que
foi levantada contra um alto funccionario da estrada de ferro, posso gabar-me
que nos dez annos de minha vida que ora passo em revista, presidi a uma
administração moralisada. Observação que muito
me lisongea.
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