Autobiographia de
C. B. Ottoni

VII - 1855-1865

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§ 8º — A protecção imperial

Eu não costumo visitar o imperador; esquivo-me do Paço o mais que posso. Antes de assumir a direcção da estrada de ferro nunca lá tinha ido, sinão em desempenho de algum dever official, como as deputações da Camara. Ao contrario, no decennio da estrada de ferro o tive de procurar repetidas vezes, não só quando circumstancias do serviço ou de cortezia a isso me obrigavão, mas algumas vezes espontaneamente; devia fazel-o, porque era notorio quanto o Imperador favorecia e fazia auxiliar o desenvolvimento da empreza.

Nesses numerosos encontros, S. M. I. tratou-me sempre com tantas distincções, que talvez hoje a minha esquivança será considerada lá no Paço — uma ingratidão. — O Imperador foi quem fez nomearem-me Presidente da companhia; sustentou-me nas minhas crises que não forão poucas; em minhas divergencias com seus ministros, obrigou-os mais de uma vez a ceder. Veja-se o § 6º deste capitulo, episodios A, B, D e E. Era Elle quem fazia tudo: reina, governa e administra, declarou ha pouco no Senado o Visconde de Itaborahy.

Estas circumstancias honrão-me, até porque na politica as minhas opiniões democraticas, nunca renegadas, não podem agradar-lhe.

Mas tinha elle a peito a construcção da estrada de ferro para a qual não tinhamos então pessoal preparado, nbem para dirigir, nem para planejar, nem para executar: e a minha especial applicação a este estudo, a analyse que fiz do contracto de Londres para a primeira secção, a minha eleição quasi em triumpho pelos accionistas, a dedicação com que encetei o trabalho, tudo isto me constituio, como já disse, o torto em terra de cegos; e não é immodestia affirmar que S. M. I. me considerava o homem necessario. A protecção, pois, que reconheço ter recebido, não era dictada por sympathia á minha pessoa, mas por motivo mais alto e mais digno do Imperador, e de mim.

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Em 1859, tendo as luctas dos especuladores inglezes e seus alliados produzido geral incredulidade, quanto á subida da Serra, um cortezão, querendo mostrar-me quanto S. M. I. confiava em mim, referiu-me o seguinte incidente. Em palestras com os Semanarios, observou um destes que era pena deixarem-me enterrar tão grandes capitaes, para depois confessar a inexequibilidade da construcção. "Deixem-n'o, respondeu o Imperador, si não fizer a estrada é homem perdido". Dilemma que define a situação 1[Nota em Março de 1885. — Acabo de ouvir ao ex-ministro Thomaz Coelho estas palavras: "O Imperador apreciando o desenvolvimento da estrada de ferro, disse-me um dia: «Satisfaz-me, até porque eu era dos incredulos: pensava que a estrada esbarraria na Serra»"].

Entretanto, uma occurencia politica foi causa de muito se refinarem nas demonstrações de apreço com que eu era honrado: refiro-me á lucta que se travou por esse tempo e durou até 1864 entre a provincia de Minas e o Imperador; ella, apresentando em todas as eleições para o Senado Theophilo Ottoni, primeiro da lista, com suffragios de ambos os partidos; elle, caprichando em não o escolher. Contava-se então muita anedocta, fazendo parallelo entre os dois irmãos: o Imperador, dizião os cortezãos, honrava sempre o meu nome; a cada eleição de Senador, si fallavão em candidatura minha, dizia: "é muito digno". Era claro que si eu viesse em lista triplice com Theophilo, seria escolhido, para servir-lhe de figa: por isso, emquanto meu irmão não tomou assento no Senado, nunca fui candidato.

N'isto e em tudo, evitei sempre o papel de Valido Imperial. Regra geral: quando me achava em divergencia com o Ministro, não punha os pés em S. Cristovão.

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A 2 de Fevereiro de 1862 o Jornal do Commercio, alludindo na "Chronica da Semana" a um pequeno debate entre mim e o Barão de Mauá, escreveu: "quando se pode impôr ao governo uma vontade ha razão para rir-se dos arrancos dos pequeninos". Reclamei, exigindo da lealdade da redacção declarasse quaes os meios de que julgava que eu dispunha para impôr ao governo a minha vontade. A minha reclamação não teve resposta pela imprensa: em carta, o gerente da folha Adet declinou da solidariedade com o folhetim — Chronica da Semana, — e esta não voltou aos prélos. Tanto se temia qualquer allusão ao governo pessoal do Imperador! Está junta a correspondencia com o Adet.

No mesmo anno, 1862, sendo o Theophilo contemplado em uma lista triplice por Matto-Grosso, resolvido o Imperador a escolher Paranhos, mas parecendo começar a ceder ao capricho para o candidato de Minas, resolveu conceder-lhe uma Carta do Conselho, que elle recusou. Por esta occasião tive com o Visconde de Albuquerque, Ministro da Fazenda, uma conferencia que, não escreveria si elle fosse vivo, porque foi confidencial: é muito significativa.

Mandou-me chamar-me e disse: "Você (havia entre nós alguma intimidade) ha de me ajudar a convencer o Theophilo que é uma asneira esta recusa da Carta do Conselho.

— Não, Sr. Visconde, dispense-me de intervir neste negocio.

— Porque então?

— Porque eu não darei a meu irmão o conselho que V. Ex. deseja.

— Essa não está má! E o Sr. não é Conselheiro?

— Sou; mas assevero que posto na posição de meu irmão recusaria como elle; portanto não devo aconselhar-lhe a acceitação. A minha posição, quando me fizerão Conselheiro, era muito differente.

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— Sem duvida, quer vm. me dizer como o Theophilo que o Imperador é inimigo delle: é uma injustiça. Olhe: eu quizera que vocês ouvissem uma conversa que tive com elle hontem. Dizia-me: "Queixa-se o Ottoni que eu sou seu inimigo!... eu não sou inimigo de ninguem: o irmão, que não anda com essas cousas, ainda ha de prestar ao seu paiz grandes serviços".

— Sr. Visconde, attenda-me: si alguem, seja quem fôr, pensar em erguer-me para servir de figa a Theophilo Ottoni, vejão bem o que fazem: na hora da figa, se acharão enganados commigo.

Foi demorada a conversação que extracto: mas a ultima declaração foi textual e pareceu espantar o Visconde que terminou dizendo-me: "bem, bem; mande-me cá o Theophilo".

Mas tinha o velho um espirito tão recto que no dia seguinte dizia a Theophilo estas palavras: "Você não tem amigo como seu irmão".

Procedendo com esta sobranceria, era-me claro, e a posteriori ficou demonstrado, que a minha posição na estrada de ferro havia de ser inexpugnavel, emquanto durasse o dilemma — ou faz a obra ou é homem perdido: resolvido o problema S. M. I. seria um rei constitucional, deixando toda a acção aos ministros responsaveis. Posição, esta ultima, cuja orthodoxia é incontestavel.

Em principio de 1865, Maio, subio de novo ao ministerio o Marquez de Olinda, que não me tinha perdoado a desobediencia de que fallei na pag. 126. Começou logo a prevenir contra mim o espirito do Ministro da Agricultura Paula e Souza e tanto intrigou que em Dezembro, já encampada a empreza, e administrando-a eu em nome do governo, praticou o Ministro um acto que de todo me exautorou; nomear para meu primeiro auxiliar e substituto legal um homem que eu informára não possuir as habilitações necessarias ao cargo. Dei a minha demissão.

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O negocio foi objecto de correspondencia que durou mais de um mez: sem duvida alguma S. M. I. via bem o alcance da nomeação em que aliás não lhe fui fallar. Mas o tunnel grande estava concluido, e o Imperador Constitucional reina, não governa. Não ha que dizer a isto.

Minha demissão foi dada a 8 ou 9 de Dezembro, e a 17 teve logar a inauguração do tunnel grande e das estações de Ypiranga, Vassouras e Desengano, á qual ainda assisti por não ter tomado posse o meu successor. Para a festa, pretendi convidar o Major Ellison Junior, verdadeiro autor da obra, e foi-me isso vedado pelo Ministro. Ellison tinha-se demittido, depois de triumphar do Viriato, e fôra substituido pelo irmão William Ellison.

Consistindo a inauguração em organizar-se um trem imperial á disposição do Imperador, que era quem designava os convidados, appellei para S. M. I.; não lhe tendo nunca pedido favor algum, pedi este (verbalmente): um logar no trem imperial para o auctor da notavel obra que se ia inaugurar. Respondeu-me: "Ah! isso é do Ministro!"

Inaugurou-se o tunnel a 17; a 18 mandei para o jornal e sahiu a 19, uma correspondencia em que expuz com referencia ao ministerio esta pequenina questão de convite do engenheiro; e terminei por estas palavras: "Obedeci, mas desejo se saiba que na recusa não teve parte o ex-Director; isto é do Ministro".

As palavras sublinhadas levavão sobrescripto, mas o publico não entrou na confidencia.

A desfeita que me obrigou a retirar-me, o indeferimento á ultima hora de um pedido tão simples, e alguns outros signaes do tempo que observei na mesma occasião tudo prova só estas duas cousas, a saber: que o tunnel grande estava acabado e que o rei é constitucional.

Contraste curioso! O mesmo Ministro que me exautorou e quasi enxotou-me, assignou um aviso louvando meus grandes serviços; e o mesmo ministerio presidido pelo grande actor Marquez de Olinda, fez-me por Decreto, Dignitario da Ordem do Cruzeiro!!!

  

Autobiographia
de C. B. Ottoni
natural da Villa do Principe, depois cidade do Serro, na provincia de Minas Geraes
Maio 1870

Rio de Janeiro
Typographia Leuzinger
1908

A Autobiografia foi escrita entre 1870 e 1871 e permaneceu inédita, recebendo notas e apêndices nas décadas seguintes, até a morte de Ottoni, em 1896.

Índice

  1. Porque e para que escrevo
  2. A casa de meu pae
  3. Minha infancia até 1828
  4. Vida de estudante: 1828 a 1837
  5. 1837-1848
  6. 1848-1855
  7. EF D. Pedro II (1855-1865)
    1. Decretação
    2. Organisação
    3. Direcção
    4. Contracto Price (1ª secção)
    5. Serra e prolongamento
    6. Custeio e administração
    7. Moralidade da gestão
    8. A protecção imperial
    9. Procedimento politico no decennio
  8. 1865-1868
  9. 1868-1871
  10. Julho 8 de 1872
  11. Novembro 11 de 1873
  12. Junho de 1875
  13. Agosto 31 de 1876
  14. Abril de 1877
  15. Maio de 1880
  16. 1885
  17. 1886
  18. 1887
Nota G - Decretação e construcção
             de estradas de ferro

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O futuro das estradas de ferro do Brasil

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Discurso ao imperador

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