Autobiographia de
C. B. Ottoni

VII - 1855-1865

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§ 9º — Procedimento politico no decennio

A bemaventurança de paz domestica e sentimento de bem estar, que descrevi com alguma complacencia no cap. 6º deste livro, pags. 81 a 86, erão completos em 1855, quando me chamarão á direcção da estrada de ferro: estava então de todo separado do bulicio politico, e assim continuei até 1861, accrescendo agora mais um motivo; é que a empreza a que me dediquei absorvia toda a minha actividade. Comtudo, fóra do parlamento, não tendo tomado posição na imprensa, não tendo solidariedade nem responsabilidade politica, conservava sempre minhas opiniões democraticas e as principaes relações que cultivava na Côrte e em Minas erão liberaes.

Bastava não ter-me modificado, para me hostilisarem alguns conservadores intransigentes ferrenhos, minoria de partido, como Sayão Lobato, Manoel Felizardo e alguns outros. Dahi me provierão bastantes embaraços.

Voltei á Camara dos Deputados em 1861, eleito pelo 3º Districto de Minas, que comprehende a zona mais directamente favorecida pela estrada de ferro que eu construia: mas não foi este elemento o que mais concorreu para a minha eleição; o partido liberal acceitou e sustentou a chapa composta do meu nome, do Dr. Lima Duarte e Conde de Prados. Pelo que me julguei obrigado, como em 1848, a auxiliar os liberaes da Camara em tudo o que não contrariasse fundamentalmente as minhas opiniões.

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Governava o Gabinete de 2 de Março — Caxias, Manoel Felizardo, Sayão Lobato, etc.

A minha posição foi de opposicionista decidido, mas de linguagem cortez e moderada e pouca frequencia na tribuna: não continuei a tagarellice e as virulencias de 1848. Nunca me retirei das votações: dei o voto para a quéda do ministerio Caxias a 24 de Maio de 1862, e em sustentação de Zacarias que cahio a 29 do mesmo mez.

Annos depois um tal Silveira Lobo (principios de 1868), guerreando-me por medo de que eu entrasse com elle em uma lista triplice e fosse escolhido Senador, recordou as circumstancias que acabo de expôr e muito me injuriou a proposito de minha moderação em 1861. Mas esta critica, si não fosse de má fé, seria estulta: na posição em que me achava, com o empenho de honra da segunda secção da estrada de ferro, sustentado (era notorio, quaesquer que fossem os motivos) pelo Imperador, insultar os Ministros seria collocar-me imprudentemente no papel de valido imperial; atiladamente, si eu o fosse. Não fiz concessão de principio, não faltou aos liberaes o meu voto em questão alguma, nem a minha palavra quando necessaria: tendo assim procedido, censurar a minha cortezia e moderação de linguagem, só um tolo como Silveira Lobo! Ainda hoje creio que procedi como devia.

A crise de Maio de 1862 deu em resultado o Ministerio dos velhos (30 de Maio) Olinda, Maranguape, Abrantes, Albuquerque, presidido pelo primeiro. Os liberaes apoiarão este gabinete, unidos á dissidencia dos chamados conservadores moderados: Zacarias, Saraiva, Sá Albuquerque, Dantas, etc.

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Esta liga, formando quasi metade da Camara, tornava difficil qualquer situação; mas o Marquez de Olinda illudio a difficuldade. Mystificou os conservadores por todo o tempo de sessão com palavras banaes e promessas vagas; aproveitou o intervallo para desmontar e remontar a maquina policial que fazia as eleições, habilitando-se assim para dissolver a Camara e installar no poder a famosa liga, que afinal com a ascenção de Zacarias em Janeiro de 1864 ficou definitivamente organisada.

Fallava-se em liga ou partido progressista desde as eleições de 1860; e nós liberaes que não a repelliamos, naturalmente acceitámos o ministerio encarregado de mystificar os contrarios: os verdadeiros liberaes forão ainda mais mystificados.

Nabuco, principal fundador do mesmo partido, foirmulára o seu programma que foi discutido em grandes reuniões em casa do Senador D. Manoel Mascarenhas; mas não foi publicado, talvez porque não foi acceito por todos, sem restricções. Lembro-me de que Theophilo Ottoni queria a formula de Thiers — o rei reina, não governa; Felix da Cunha pedia a electividade dos postos subalternos da Guarda Nacional; eu combati esta nachronica declaração — o partido progressista não quer reformar a constituição. Houve outras reservas.

Comtudo, adherimos á proposta liga, e eu acompanhei os liberaes no apoio que derão aos ministerios de 30 de Maio de 1862 (Olinda), de 15 de Janeiro de 1864 (Zacarias) e de 31 de Agosto do mesmo anno (Furtado). Continuei porém cada vez menos tagarella: ministerial, tinha mais um motivo para frequentar pouco a tribuna; dizia a mim proprio: "Pas trop de zèle!".

Devo comtudo accrescentar que de todos os organizadores de ministerios por aquelle tempo, o unico que possuia a minha confiança completa e inteira era Furtado, o honesto, patriota e illustrado Conselhieor Furtado. E sendo então a questão principal a guerra com o Paraguay, a confiança que inspirava o chefe da situação e a feliz instituição dos voluntarios da patria derão grande impulso á desaffronta nacional. Mais rapida seria ella, si o seguinte ministerio não mandasse ineptamente suspender as remessas de voluntarios.

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Rompi com os progressistas desde 12 de Maio de 1865: mas como em Dezembro desse anno termina o periodo objecto deste capitulo, isto é os meus 10½ annos de direcção da estrada de ferro, deixarei a continuação de historias politicas e parlamentares para o capitulo seguinte. E terminarei este examinando uma imputação que me foi feita, de guerrear o ministerio de 12 de Maio e seguintes por despeito da perdida posição administrativa.

Factos e datas muito eloquentes confundem tal imputação.

Organisado o ministerio de 12 de Maio, reunirão-se os liberaes na noite de 13 em casa do Dr. Mello Franco para deliberar que posição assumirião, e alli opinei pela opposição aberta, ficando em fraca minoria. mais tarde citei este facto em polemica com Silveira Lobo que não o contestou, tendo sido presente á reunião.

Nos poucos dias que medeiarão entre a ascenção do ministerio e o adiamento das Camaras só tive uma occasião de pronunciar-me; nessa, combati o programma ministerial, externei vivas apprehensões e reservei a liberdade do meu voto. (Disc. de 1º de Junho).

Entretanto Paula e Souza, Ministro da Agricultura, tratava-me como amigo e a minha posição na estrada de ferro não era ameaçada.

Encampada a empreza em Julho, o Governo mostrava empenho em que eu continuasse na direcção; e para isso acceitou uma condição que eu impuz, e era significativa. Não tendo sido demittido o Viriato, quando forão desprezadas as suas objecções ás minhas contas de construcção, exigi para completa moralisação daquelle acto ministerial, que nas Instrucções dadas ao Director se inserisse um artigo, assim concebido:

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O methodo de medições e contas de construcções, seu processo, fiscalisação e pagamentos instituido pela extincta companhia continuará sob a responsabilidade do Director.

Assim se decidiu.

Continuarão adiadas as Camaras até o fim do anno, e até então o ministerio não pretendia expellir-me, bem que soubesse todo o mundo que eu era opposicionista e tal me apresentaria na tribuna. Ainda a 5 de Dezembro lavrarão o Decreto nomeando-me Director effectivo; era até alli interino. É verdade que com este decreto publicou-se outro que me exautorava, como expuz na pag. 151. Desfeita planejada e promovida pelo odiento e hypocrita Marquez de Olinda.

Mas, si a politica concorreo para que prosperasse a intriga, é que irritaria os ministros a minha opposição formulada a 13 de Maio na reunião Mello Franco, a 1º de Junho na tribuna da Camara, depois do adiamento em todas as palestras.

Si assim foi, a imputação que refuto tomou o effeito pela causa: Não fiz opposição por ter deixado a estrada de ferro; mas obrigarão-me a deixal-a por me ter declarado em opposição.

Mas, o que eu creio devéras é que tudo nasceu do odio do Marquez.

Não negarei que a irritação causada pela desfeita augmentasse o azedume da minha lucta contra o 12 de Maio. Mas que culpa tinha daquelle facto o seguinte gabinete (Zacarias, 3 de Agosto de 1866) que igualmente combati? Que culpa os conservadores de 16 de Julho, a quem Silveira Lobo pouco antes fingia crer-me unido, quando me hostilizava em uma eleição? Que culpa o actual ministerio S. Vicente? Estarei despeitado contra todos?

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O facto é que para mim e para todos os liberaes, depois chamados Historicos, a quéda de Furtado e as peripecias da organisação de 12 de Maio provarão que o Imperador só tinha confiança na dissidencia conservadora, denominada — os moderados —; e que estes nos alliciavão só para fazer numero e poderem derrotar os antigos correligionarios. O que determinou a nossa posição.

O periodo de tres annos, em que estiverão divergentes no parlamento os progressistas e os liberaes historicos, periodo que terminou com a ascenção dos conservadores genuinos a 16 de Julho de 1868, será o objecto do seguinte capitulo.

  

Autobiographia
de C. B. Ottoni
natural da Villa do Principe, depois cidade do Serro, na provincia de Minas Geraes
Maio 1870

Rio de Janeiro
Typographia Leuzinger
1908

A Autobiografia foi escrita entre 1870 e 1871 e permaneceu inédita, recebendo notas e apêndices nas décadas seguintes, até a morte de Ottoni, em 1896.

Índice

  1. Porque e para que escrevo
  2. A casa de meu pae
  3. Minha infancia até 1828
  4. Vida de estudante: 1828 a 1837
  5. 1837-1848
  6. 1848-1855
  7. EF D. Pedro II (1855-1865)
    1. Decretação
    2. Organisação
    3. Direcção
    4. Contracto Price (1ª secção)
    5. Serra e prolongamento
    6. Custeio e administração
    7. Moralidade da gestão
    8. A protecção imperial
    9. Procedimento politico no decennio
  8. 1865-1868
  9. 1868-1871
  10. Julho 8 de 1872
  11. Novembro 11 de 1873
  12. Junho de 1875
  13. Agosto 31 de 1876
  14. Abril de 1877
  15. Maio de 1880
  16. 1885
  17. 1886
  18. 1887
Nota G - Decretação e construcção
             de estradas de ferro

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