Autobiographia de
C. B. Ottoni
VIII - 1865-1866
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Retirado da direcção da Estrada de Ferro D. Pedro 2º
continuei a ter assento na Camara dos Deputados até a ascenção
dos conservadores em Julho de 1868; nesses tres annos estive sempre em
opposição, manifestada desde a queda de Furtado e organisação
de 12 de maio.
(...)
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O ministerio Furtado devia satisfazer os verdadeiros liberaes: comquanto
os outros ministros não estivessem ao nivel do grande vulto do
Presidente do Conselho, este por si só bem representava o partido.
Não encetou reformas politicas, porque logo lhe cahio sobre a cabeça
a avalanche da guerra com o Paraguay.
Mas esteve na altura da situação. Decretou e deu impulso
á creação da nossa esquadra couraçada, já
fazendo trabalhar os nossos estaleiros e officinas, já fazendo
encommendas para a Europa. Os resultados com que outros depois se apavonarão,
maximè Affonso Celso, forão o effeito das activas e bem
pensadas providencias do Ministerio Furtado.
A sua feliz instituição de voluntarios da patria fez surgirem
numerosos batalhões, movimento que os successores (os de 12 de
Maio) estupidamente fizerão parar, o que foi uma das causas da
prolongação da lucta.
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A attitude de Furtado excitou descontentamentos e ciumes, e nas vesperas
da abertura das Camaras se pronunciarão contra elle alguns liberaes
dirigidos por Silveira Lobo e Saldanha Marinho, e animados pelo Marquez
de Olinda. Em verdade, não me lembro que motivos confessaveis allegavão:
mas chegarão a affixar a pretenção de que Furtado,
camerariamente e sem esperar pronunciamento parlamentar, lhes entregasse
as pastas; ao que se recusou com dignidade.
No decurso de Abril ainda o Visconde de Abaethé, a pedido de Th.
Ottoni, convocou para sua casa os dissidentes e pretendeu concilial-os
com os que sustentavão o Ministerio; mas nada conseguio.
Reunida a Camara, foi logo o ministerio exautorado na eleição
do Presidente, e deo a sua demissão. Lei a este respeito na memoria
inedita de Th. Ottoni:
« (...) Foi de accordo com seus melhores amigos
que o Sr. Furtado recusou peremptoriamente entregar as pastas nas antecamaras
aos ambiciosos que conspiravão para arrebatar-lh'as. »
O Conselheiro Saraiva ao desembarcar da Bahia, não se tinha pronunciado;
mas na ultima hora unio-se aos conspiradores. Disse depois que lançou
na urna uma cedula em branco, e que julgou, abandonando o ministerio,
salvar o partido.
Levada a demissão a S. Christovão, disse logo o Imperador:
"mande-me cá o Marquez de Olinda". Contra isto porém
representou o leal ministro demissionario; e interrogado sobre o que mais
convinha, indicou diversos nomes: Souza Franco, Nabuco, Visconde de Abaethé,
Th. Ottoni e não sei si algum mais. Entre elles escolheo S. M.
I. o Visconde de Abaethé, que notoriamente não acceitaria
a commissão.
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Assustados os liberaes que deixavão o poder, ao observar que parecia
o Marquez de Olinda alta mente repostus, (...) pedir-lhe que não
declinasse da organisação do novo Ministerio. A resposta
foi terminantemente negativa; e accrescentou o Visconde: "Vou indicar
o Sr. Theophilo Ottoni, porque penso que é chegada a sua vez".
E, assim parecia. O ministerio que Th. Ottoni organisasse, de puros liberaes,
agitaria fortemente o espirito publico, daria grande expansão ao
movimento dos voluntarios da patria, estimularia o patriotismo para dar
á guerra vasto impulso. Mas, Saraiva parecia animado de disposições
identicas, dizia-se o Ottoni da Bahia, e dirigia na Camara um grupo
numeroso de deputados: peço que julgou Theophilo mais politico
que organisasse elle Saraiva o gabinete, pondo-se aliás á
sua disposição. Á custo conseguio do Visconde que
indicasse o Saraiva.
Este encontrou-se com Ottoni, antes da ida a São Christovão,
mostrou grande empenho de tel-o por collega e convidou-o para co-organisador.
Voltando do Paço, combinarão em dous nomes, Nabuco, que
recusou, Souza Franco que acceitou; e sendo apenas 11 horas da manhã
adiou Saraiva para a noite a continuação do trabalho, em
casa de Ottoni. A este porém se dirigio de tarde Silveira Lobo,
que na rua do Ouvidor soubera do ministerio organisado por Saraiva:
erão além dos tres, o mesmo Lobo, Dantas, Martinho e Octaviano.
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Confirmou-o Saraiva á noite, apresentando a lista e dizendo: "aqui
está o nosso ministerio". O co-organisador fora eliminado
desta tarefa. Acceitou porém; e somente ponderou que elle Ottoni
e Souza Franco erão muito valetudinarios, e conviria ter outro
ministro mais vigoroso no Senado, onde se concentravão as forças
vivas do partido em opposição.
Depois de conversar um pouco sobre a substituição, o Sr.
Saraiva se retirou dizendo que ia pensar: e seguio para S. Christovão
a pedir excusa da incumbencia; mostrava-se, desde a ida ao Paço
de manhã, menos expansivo com o Ottoni de Minas. Com ou sem indicação
sua foi chamado Nabuco que tambem recusou; e surgio o eterno Marquez de
Olinda.
Este procedeu com ostentação. Voltando do Paço,
parou fardado, á porta do Senado que estava em sessão, mandou
chamar o collega T. Ottoni, metteu-o consigo no coupé e mandou
tocar para a rua do Lavradio onde residia. Fez assim saber urbi et
orbi que convidava o sugeito para Ministro. Mas em casa apresentou-lhe
uma combinação inacceitavel de nomes sem prestigio; e pedindo
Theophilo convites a Souza Franco, Nabuco e Saraiva, respondeo que com
o 1º não servia elle Marquez, e que os outros dous não
acceitavão. A vista disto recusou-se tambem o convidado do coupé;
mas accrescentou que se S. M. I. reconhecesse, o que parecia averiguado,
a necessidade de um ministerio liberal genuino, e lhe fizesse a elle Ottoni
a honra de chamal-o, em uma hora estaria prompta a organisação.
Olinda partio para S. Christovão, dizendo que ia excusar-se; mas
de lá voltou com carta branca para organisar e logo publicar
um ministerio de moderados. Organisou-o, é o 12 de Maio:
Nabuco e Saraiva acceitarão pastas, e mais tarde Silveira Lobo,
um dos homens menos moderados que tenho conhecido.
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Antes de proseguir, narrarei um incidente, que a meu ver explica todos
os misterios e complicações da crise; foi referido no Rio
da Prata pelo Duque de Caxias a F. Octaviano, por este a T. Ottoni, a
quem o ouvi eu.
Indo o Duque a S. Christovão no lendemain da famosa creação,
perguntou-lhe o Imperador:
O que me diz do novo Ministério?
V. M. permitte-me dizer livremente o meu juizo?
Pois não! diga...
Senhor! custou-me a crer que fosse aquelle o ministerio, li duas vezes;
parecia-me fabula.
Mas porque?
Depois do que eu tenho ouvido a V. M. I. a respeito do Ferraz, custava-me
a crer que elle fosse Ministro.
Pois a sua sorpreza não foi maior que a minha, quando vi a
lista nos jornaes.
Oh! não comprehendo!... V. M. é quem nomeia os ministros!...
Sim, mas hontem dei carta branca ao Marquez. Veio dizer-me que todos
julgavão necessario o Ottoni; que este recusava e só queria
ser Presidente do Conselho. Então disse-lhe eu: "Vá
Sr. Marquez, organise como puder um ministerio de moderados e publique-o
logo: livre-me do Ottoni".
A repugnancia de S. M. a este nome explica tudo.
Ninguem ha de suspeitar, que eu ou Theophilo inventasse o que fica exposto;
nem posso crer que Caxias ou Octaviano alterassem a verdade: entretanto
pareceo aquelle livre-me do Ottoni tão extraordinario,
tão odioso, tão impolitico, que resolvi fazer uma verificação.
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O Visconde de Sapucahy é um homem illustrado, sisudo, de caracter
fraco mas cheio de bondade, dedicadissimo ao Imperador, de quem tem recebido
notaveis signaes de apreço. Dizendo-me um dia em conversa, que
se achava no Paço na tarde de 12 de Maio de 1865 (não sei
si de visita, ou como Camarista de semana) narrei-lhe minuciosamente o
incidente, para ouvil-o; e eis a resposta que obtive: "Não,
Sr. Ottoni, seu mano n´~ao era homem impossivel no reinado: quando
o Marquez trouxe a carta branca para formar o ministerio, o Imperador
passeava pensativo, e dizia Si o Marquez não organisa, não
tenho remedio se não chamar o Taumaturgo".
Contestação que equivale a uma confirmação.
Como, a vista de tudo isto, seriamos ministeriaes?
O gabinete não representava pensamento politico; elles o confessavão,
exhibindo o seguinte programma, a que aliás não forão
fieis: "Conservarião o status quo; cuidarião de debellar
a guerra; depois ajustariamos as nossas contas". Governarão
ou desgovernarão até o fim de Julho de 1866.
O futuro historiador do nosso chamado systema representativo, estudando
nos Annaes do Parlamento as circumstancias da subida e da descida dos
Gabinetes, ha de ler com assombro os incidentes da crise ministerial solvida
no dia 3 de Agosto.
Dos demissionarios, um disse que sahia por doente, outro porque um collega
teimou em sahir.
O da Fazenda, Conselheiro Carrão: "Srs., eu navegava em um
golpho inçado de torpedos de todas as procedencias".
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E o da Agricultura Paula e Souza: "... não sei o que mais
deva admirar, si o milagre da duração até agora do
ministerio, se a longaminidade da Camara que o sustentava".
Anarchia de idéas, consequencia logica do capricho imperial que
inspirára a organisação.
A de 3 de Agosto foi presidida por Zacarias, que não é
um cortezão como o Olinda, mas não era chefe de partido
nem dispunha na occasião de elementos precisos para bem servir.
Suas declarações que constão dos Annaes se resumem
no seguinte: "Por tres vezes pediu escusa, fazendo ver a S. M. I.
que não estava em posição de organisar um ministerio
duradouro; mas o Imperador insistiu e convenceu-o que devia acceitar".
Este discurso foi criticado, porque descobria a coroa, e eu mesmo
colloquei a censura nesse terreno; hoje estou persuadido que Zacarias
quiz de proposito deixar sobre a cabeça do Imperador a responsabilidade
moral pela esterilidade que previa de seu gabinete.
Este, em relação á guerra, prestou melhores serviços
que o anterior; na politica interna a anarchia de idéas continuou,
e juntarão-se muitos actos de vingança e perseguição
a uns, de nepotismo e abusos em favor de outros. Houve verdadeiro escandalo
com a compra de escravos para assentar praça: foi por vezes meio
de premiar capangas eleitoraes, principalmente nas compras para a marinha.
A queda deste ministerio, que em Julho de 1868 entregou o poder aos conservadores,
teve motivos que as chronicas não registrarão: registro-os
eu, testemunha e um tanto actor na scena. Silveira Lobo que até
então tinha hostilisado todos os ministerios, excepto unicamente
o de que foi membro, começou por sustentar Zacarias, mas em 1868
estava em conspiração. Contava derribal-o e herdar a presidencia
do Conselho; chegou a mandar consultar pelo Dr. Macedo, ao Martinho, ao
Tavares Bastos e a mim, si appoiariamos um ministerio novo, composto exclusivamente
de liberaes puros. A conspiração prosperou e parece que
tinha cumplices na praça; o que sabendo Zacarias aproveitou o pretexto
da escolha de Salles Torres Homem para o Senado, dissolveu o ministerio
e recusando aconselhar o Imperador sobre successor, fez que fosse chamado
o Visconde de Itaborahy, que dissolveo a Camara.
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Silveira Lobo, o chefe desta conspiração, é um personagem
curioso de observar-se. Catão inculcando sempre as proprias virtudes,
vendo a roda de si somente corrupções; censor eterno atrabiliario
e virulento, não sabendo criticar sem unjurias e desaforos; entretanto,
em 10 ou 12 annos que foi Deputado, até a escolha de Senador, nunca
lhe escapou uma palavra que podesse soar mal aos ouvidos imperiaes; os
Annaes da Camara o provão. Em 1868, seguro da cadeira no Senado,
e sendo-lhe frustrada a nova ambição da presidencia do Conselho,
escreveo contra o Governo Pessoal a mais violenta philipica e assignou
com todas as lettras Francisco de Paula Silveira Lobo 1[Nota
em 1883. Declarou-se republicano no Senado; o que foi objeto de risota].
Veja-se o Jornal do Commercio de 17 de Agosto de 1868.
Naquelle tempo, em que o governo fazia sempre as eleições,
o ministerio achou meio de punir a minha opposição.
Morto o Marquez de Itanhaem, como já Theophilo era Senador, fui
pela primeira vez candidato, guerreado por Silveira Lobo, manifestamente
por medo que eu o preterisse na escolha. Entregarão-lhe a provincia;
o Catão designou Presidente ad hoc, que empregou contra
mim todos os recursos, sem a minima escolha: ainda assim tive 1.015 votos
de cerca de 2.400 eleitores.
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Esta eleição deu causa a muitas miserias que não
merecem aqui menção. (...) Excluido, não me queixei,
mas continuei em opposição: não havia porque mudasse.
Os assumptos politicos, de que por vezes occupei-me agora, como á
respeito das minhas tagarelices de 1848, acho que não vale a pena
expol-os: mas o que melhor podia discutir era a questão das vias
de communicação; e nesse terreno assestei as minhas principaes
baterias.
Respondião-me que eu fallava por despeito. Exporei uma das questões
que me preoccupava e preoccupa e que a meu ver está recebendo uma
solução viciada. Calei-me desde que deixei o parlamento,
cançado de ouvir articular a minha suspeição.
A estrada de ferro de D. Pedro 2º tendo gasto mais de vinte mil
contos com os 108 kilometros até o barranco do Parahyba, e tendo
decretados cerca de 300 kilometros margeando este rio (cerca de metade
construidos até o presente anno, 1871) estava e está pedindo,
para realizar seus destinos, prolongar-se e ramificar-se pelos valles
do interior, do Rio Grande e mais aguas do Oeste, tributarias do Rio da
Prata, do S. Francisco que correo ao Norte banhando extensos territorios
de cinco provincias. Entre estas vastas regiões e os 300 kilometros
marginaes do Parahyba se interpõe em toda a extensão a serra
da Mantiqueira e suas dependencias.
Resulta destas disposições topographicas, que o problema
das communicações projectadas era indeterminado; tendo o
ponto de partida de ser escolhido nos 300 kilometros, de Cachoeira a Porto
Novo do Cunha. O obstaculo a transpor desenvolve-se por toda essa extensão;
os valles demandados igualmente: qual seria a direcção preferivel,
e qual o ponto de partida? eis o problema.
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Considerações de distancias, de orçamentos, de serviço
dos centros existentes, de augmento de producção, de navegações
interiores, de communicações internas com o Norte do Imperio,
taes os dados complexos da questão.
Nos estudos necessarios para resolvel-a devia esperar-se grande choque
de interesses territoriaes, parciaes, de localidades, de partidos, de
influencias pessoaes. Fôra pois necessario collocar na direcção
destes estudos uma intelligencia e caracter capaz de erguer-se acima de
todas as parcialidades para consultar o maximo interesse geral.
Podia eu, pois, e cheguei a apresentar ao ministerio um memorial neste
sentido, que se nomeasse uma commissão de estudos, visto que não
temos um corpo de pontes e calçadas ao nivel das grandes necessidades
da nossa viação. Não me derão attenção;
pensaram talvez que eu ageitava posição para mim; e tenho
motivos para suspeitar que o Imperador foi desse parecer.
É certo que eu me considerava ao nivel da tarefa, e estimaria
prestar ao meu paiz tão grande serviço; mas nada pedi e
não era o unico apto. Podião adoptar a idéa e nomear
quem melhor a fosse executar.
Sem estudos especiaes, e julgando somente pelas cartas e pelas distancias
entre alguns centros, a linha preferivel parece ser a que ligasse a Barra
do Pirahy á povoação do Bom Jardim em Minas,
e dahi demandasse, quer as vertentes do Rio Grande, quer o valle do Rio
das Velhas, confluente navegavel do S. Francisco.
Mas a direcção em que, segundo parece, vão construir
a linha do centro, de Entre Rios por Juiz de Fóra e Barbacena,
imporá ao transito geral um augmento de mais de cem kilometros
e atravessará até muito além de Ouro Preto terras
esterilissimas.
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A solução está viciada, porque a submetterão
ao Commendador M. P. Ferreira Lage: a estrada União e Industria,
a fazenda Normal alli perto, as dos seus accionistas e parentes, o collegio
de Barbacena que sempre lhe dá votos, taes os seus pontos objectivos.
Os engenheiros hão de subordinar tudo ás suas vistas.
Peza-me tudo isto; mas calo-me; para que fallar si sou suspeito? Julgão
que tenho saudades da direcção da estrada de ferro, á
qual entretanto, como já disse, não pretendo voltar, ainda
que me chamem.
Fallando deste meu thema de opposição em 1865 a 1868 estendi-me
até a actualidade. O desproposito da nomeação de
Ferreira Lage é dos conservadores: os coitados de 12 de maio nada
fizerão senão mandar um engenheiro, e esse mal escolhido,
começar alguns reconhecimentos technicos.
Sem sahir do assumpto estradas de ferro mencionarei um pequeno
serviço extra parlamentar que prestei por esse tempo á estrada
de ferro de D. Pedro 2º e ao paiz, em 1866.
Estavão concluindo as construções que eu deixára
adjudicadas, adiantadas, e com o leito prompto, cerca de 202 kilometros
até Entre-Rios, e manifestamente não tinhão intenção
de dar um passo além. Fallavão das linhas decretadas, 61½
kilometros de Entre-Rios a Porto Novo do Cunha, e 150 kil. da Barra do
Pirahy á Cachoeira; linhas estudadas, traçadas, orçadas
pelos engenheiros da companhia a que eu presidira.
A inercia do Governo era da maior notoriedade, e o meu successor na direcção
da empreza escrevia em seus relatorios que o Brazil ainda não
tinha creado necessidades que exigissem tão dispendiosas vias de
communicação.
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Nestes termos convidei pela imprensa os interessados para levantarem
os capitaes precisos e organisar duas companhias que se encarregassem
das construcções, mediante contracto com o Governo. Uma
que denominei Companhia Mineira se incumbiria dos 61½
kilometros de Entre-Rios a Porto Novo; a outra Companhia de Campo
Bello dos primeiros 90 kilometros da Barra do Pirahy para cima a
terminar em Campo Bello, estrada para o Sul de Minas Geraes.
Frustrou-se a 2ª tentativa; mas a 1ª deu um bello resultado
e muito honroso a mim: os negociantes, fazendeiros, capitalistas, commissarios
de café, todos os interessados na projectada via de communicação,
ligarão-se; e o capital emittio-se com facilidade, sendo a condição
de todos os subscriptores que fosse eu gerir a empreza.
O Governo Imperial, depois de alguns mezes das costumadas procrastinações
authorisou a encorporação, mas com clausulas impertinentes,
e tendo o Director da estrada de ferro Dr. Sobragy, de quem muito dependeriamos,
manifestado a mais estulta má vontade. Entretanto, as discussões
da imprensa e da Camara e o facil levantamento do capital tornarão
tão clara a necessidade do prolongamento, que o Ministro (Dantas)
por vezes affirmou na tribuna fal-o-hia á custa do Estado, si a
companhia não se encorporasse. Em vista do que, e dos embaraços
que me suscitavão mesquinhas animosidades, dissolvi a companhia,
e com effeito pouco depois encetarão-se os trabalhos por conta
do Thesouro.
Foi, sem duvida alguma, resultado das minhas diligencias, e do debate
que iniciei na Camara dos Deputados.
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Mais tarde encetou-se tambem a construcção da quarta secção,
da Barra do Pirahy, por Campo Bello, para Cachoeira.
Basta correr a vista pelas discussões da epocha para ver que não
sou visionario quanto aos effeitos da minha Companhia Mineira.
Os accionistas nada despenderão, sahindo do meu bolso as despezas
com impressões, publicações, circulares, etc. Tinha
tambem declarado que quaesquer concessões do Governo serião
feitas directamente á companhia, não a mim para ceder-lh'as
como costumão os encorporadores.
Com a dissolução da Camara em 1868 terminou a minha vida
parlamentar, que segundo me parece, não recomeçará
1[Nota em 1880. Enganei-me: acabo de tomar
assento no Senado].
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