Autobiographia de
C. B. Ottoni

IX - 1868-1871

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Apeado Zacarias, annunciando-se o gabinete Itaborahy, reunirão-se na tarde de 17 de Julho os progressistas no escriptorio de Silveira Lobo, os historicos em casa de Tavares Bastos, resolvendo sobre a attitude a assumir na Camara. Á esta ultima reunião apresentou-se uma deputação da 1ª, orador Saldanha Marinho, pedindo que nos unissemos todos em manifestação parlamentar contra o inimigo commum: assim foi acordado (...).

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Poucos dias depois, a 25, si bem me lembro, celebrou-se em casa de Nabuco uma reunião magna, para a qual convidarão liberaes de todos os matizes: querião combinar os meios de opposição.

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Pela minha parte, tomando a palavra, procurei mostrar a inefficacia de todos os programmas apresentados: e sustentei que a unica bandeira capaz de concentrar os esforços de todos os matizes liberaes seria a guerra ao Poder Moderador, cujas exorbitancias erão a meu ver a principal causa da anarchia das idéas e dissolução dos partidos: eu pediria abolição daquelle poder, ou pelo menos grandes restricções de suas attribuições. E accrescentei que, desprezada esta idéa, me consideraria desligado de todo o compromisso partidario e livre para seguir no futuro o caminho que me parecesse direito.

Combaterão-me Sinimbú e Macedo; e a minha voz não encontrou echo: devo confessar que o proprio Theophilo não me approvou completamente; disse-me: "si antes tivessemos conversado, você não iria tão longe".

É que Theophilo estava resignado a contemporisar com Zacarias, Nabuco e Saraiva, aos quaes com effeito se unio no Senado, em 1869. Eu, porém, não estava resolvido a acompanhal-o: pela 1ª vez deixei de seguir as suas inspirações. Nesta sessão de 1869 transigio com o ministerio conservador a opposição liberal para deixar passar o orçamento que ia sendo votado quasi sem debate.

Por esta transacção felicitei sarcasticamente o Theophilo, que me respendeu, abanando tristemente a cabeça: "parece que com effeito se entenderão: e quer você saber qual foi a concessão feita pelos ministros? foi separar do orçamento o artigo relativo aos bens dos Frades!" Theophilo não adherio á transacção.

Voltando a 1868. Emquanto os liberaes organisavão a sua opposição governamental, fui dar um gyro pela Europa e Egypto, visitar as grandes obras então em construcção, canal de Suez e tunnel do Monte Cenis, e achei-me aqui de volta a 31 de Janeiro de 1869.

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Nessa excursão muito reflecti sobre a minha posição e procedimento futuro (...).

Dos partidos monarchicos estava e estou desilludido, separado, livre de compromissos. Partido republicano não havia e menos um chefe prestigioso capaz de dirigil-o para evitar desatinos. Seria eu esse chefe? devia hastear a bandeira? Evidentemente não possuo as aptidões, o geito, o tino que a posição exige.

Mas, caso me julgasse eu, ou julgasse a outrem na altura de crear e dirigir o novo partido, convinha precipitar a propaganda? Creio que não, por tres razões: 1ª a população tem tendencias aristocraticas e monarchistas: no partido em opposição por alguns annos, começão a formigar as declarações de republicanismo; mas logo que sobe e chovem titulos, fitas, empregos e postos da Guarda Nacional desapparecem os democratas; 2ª a mudança brusca da forma de governo traria a divisão do Imperio, pela qual não desejo ser responsavel; 3ª não comprehendo republica com escravidão domestica, é preciso começar por libertar os negros.

A consequencia destas reflexões devia ser recolher-me á vida privada e só tratar de educar meus filhos: tal era a minha disposição; mas não me concentrei no meu lar tanto quanto devia. O desejo de não ostentar divergencia com Theophilo Ottoni, e o meu scribendi cacoethes por vezes me arrastarão a ligeras manifestações e a collaborar para a Reforma, orgão do Centro Liberal.

Era esta a minha attitude, quando alguns moços sinceros uns, outros especuladores, distinguindo-se entre os primeiros H. Limpo de Abreu, filho do Visconde de Abaethé, promoverão em fins de 1870 a fundação de um club radical e andarão com uma lista promovendo assignaturas: dei a minha. O radicalismo parecia-me a formula conveniente para propagar idéas democraticas, sem nada precipitar.

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Na 1ª reunião propoz alguem que o Club se declarasse republicano; que publicasse um manifesto; que creasse um jornal com o titulo — A Republica. Procurei embaraçar esta deliberação; mas achando-me em fraquissima minoria, retirei-me resolvido a lá não voltar.

Ausente, fui nomeado membro da commissão redactora do Manifesto Republicano: recusando, por carta dirigida ao relator Saldanha Marinho, redigirão o documento e vierão á minha casa ler-m'o, teimarão impertinentemente em solicitar a minha assignatura, que recusei com firmeza.

Pedirão então com forte empenho e grandes palavras de consideração e de amizade que eu fosse assistir no Club á leitura do Manifesto; e eu commetti o erro de annuir a este pedido.

Acabada a leitura, verificou-se que não estava assignado o Manifesto; propuzerão que assignassem todos os presentes, não só os membros da Commissão.

Ou estes tinhão medo da responsabilidade e pedião capotes; ou armavão um guet-apens para extorquir a minha assignatura, ou tinhão ambos os intuitos.

Resolvido que assignassem todos, acudio-me logo a idéa que a recusa e solemne retirada produziria um certo escandalo, que havia de parecer uma cortezia a S. Christovão; apenas me occorreu este escrupulo, peguei na penna e assignei.

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O planosinho foi combinado entre Saldanha Marinho, Quintino Bocayuva e Aristides Lobo; fique-lhes a gloria.

Não voltei ao Club, cessei de pagar as mensalidades, não sou collaborador da Republica, não compareço a reunião alguma de republicanos, não sou da politica militante.

E a assignatura do manifesto não deixa de concorrer para moralisar a minha abstenção: pelo menos, ninguem poderá suppor que eu estou calado, á espera de um aceno imperial.

No decorrer do triennio, que estou recordando, concluio-se com a morte do Dictador Lopes a guerra do Paraguay (...).

Não acompanho os enthusiasmos pelas nossas glorias (...).

O 1º elemento do nosso triumpho foi o pezo bruto do numero; alem do auxilio dos alliados, recrutavamos em uma população de 9 a 10 milhões de almas, emquanto o inimigo representava cerca de meio milhão. Exhaurio a população viril e no fim da campanha só armava meninos: por força havião de sucumbir.

Um 2º elemento foi a inhabilidade de Lopes, grande scelerado, que mostrou na resistencia suprema energia, mas não era cabo de guerra, ao nivel da vasta empreza que tentou. Tinha largos recursos militares, accumulados de longa mão, mas enfraqueceu-se dividindo-os e mandando invadir, de um lado o Rio Grande do Sul, de outro Matto Grosso, sem possibilidade de appoio reciproco entre estas alas e o centro.

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Generaes, tinhamos bem sufficientes para fazer frente aos de Lopes: entre elles, o honesto, o patriota, o valorosissimo Osorio, que a monarchia chrismou Marquez do Herval. Os soldados o adoravão; mas a officialidade, entristece-me dizel-o, não o auxiliou com a mesma dedicação, como depois ao Duque de Caxias. Este era Ajudante de Campo do Imperador, muito seu querido, um dos chefes do partido conservador!...

A campanha recebeu grande impulso da instituição dos voluntarios da patria: houve por algum tempo verdadeiro enthusiasmo. Cortou-o o ministerio de 1865 e não soube reerguel-o o de 1866, de sorte que no fim de 2 ou 2½ annos de lucta a aspiração pela paz se foi tornando geral, havia quasi desanimo. O Visconde de Itaborahy, voltando da Europa em 1867, não fazia misterio de suas tendencias pacificas: e estou certo que, subindo ao poder em 1868, tentaria pôr termo á lucta por algum arranjo diplomatico, si não a cortasse bruscamente a morte do Dictador Lopes.

Passou por certo, no tempo, que o nosso inimigo, uma ou duas vezes, em seguida a serios revezes, esteve disposto a negociar a paz: disse-se mesmo que então não seria difficil obter as condições — arrazamento de Humaytá — livre navegação dos rios — solução das questões de limites — pagamento das despezas da guerra. E que a grande difficuldade era a pretenção de depol-o a elle Lopes, estipulada pelos alliados e á que não se resignava o Dictador.

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Esta guerra pessoal pareceo a principio, apezar de pouco regular, necessaria. Mas era contra o direito das gentes, logo que se vio a nação paraguaya identificada com o seu tirano, e logo que os revezes o enfraquecerão, tornou-se, creio, aspiração impolitica.

Ninguem conta sériamente no Brazil com a amizade da Confederação Argentina, e fôra elemento de segurança para nós deixar-lhe na rectaguarda o Lopes.

A idéa de proseguir até exterminal-o, afinal era só do Imperador: disse elle ao Dr. Macedo e depois ao B. de Penedo (ouvi a ambos) que mais quizera abdicar, do que ratificar ajuste com Lopes, quaesquer que fossem as condições. Por servilismo, os partidos monarchicos cantavão em prosa e verso a gloriosa tenacidade do patriotismo imperial.

Ao ouvido, porém, muitos dizião que S. M. I. era levado por um motivo pessoal dynastico; Lopes ousára pedir em casamento a princeza Leopoldina. Não posso dar por averiguado este facto, mas foi affirmado por varias pessoas que parecião ter razão de saber.

Eis em resumo o meu juizo sobre a guerra: Em factos parciaes, de parte de soldados e officiaes, tivemos numerosos rasgos de valor, de dedicação, de patriotismo; mas a campanha nos foi enorme calamidade, não compensada por gloria militar equivalente, nem por augmento de segurança em nossa fronteira.

(...)

Novembro 10 de 1871

  

Autobiographia
de C. B. Ottoni
natural da Villa do Principe, depois cidade do Serro, na provincia de Minas Geraes
Maio 1870

Rio de Janeiro
Typographia Leuzinger
1908

A Autobiografia foi escrita entre 1870 e 1871 e permaneceu inédita, recebendo notas e apêndices nas décadas seguintes, até a morte de Ottoni, em 1896.

Índice

  1. Porque e para que escrevo
  2. A casa de meu pae
  3. Minha infancia até 1828
  4. Vida de estudante: 1828 a 1837
  5. 1837-1848
  6. 1848-1855
  7. EF D. Pedro II (1855-1865)
    1. Decretação
    2. Organisação
    3. Direcção
    4. Contracto Price (1ª secção)
    5. Serra e prolongamento
    6. Custeio e administração
    7. Moralidade da gestão
    8. A protecção imperial
    9. Procedimento politico no decennio
  8. 1865-1868
  9. 1868-1871
  10. Julho 8 de 1872
  11. Novembro 11 de 1873
  12. Junho de 1875
  13. Agosto 31 de 1876
  14. Abril de 1877
  15. Maio de 1880
  16. 1885
  17. 1886
  18. 1887
Nota G - Decretação e construcção
             de estradas de ferro

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O futuro das estradas de ferro do Brasil

Parecer

Discurso ao imperador

Despedida aos acionistas

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