Autobiographia de
C. B. Ottoni
XI - 11 de Novembro de 1873
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Nos dous annos decorridos depois dos acontecimentos até aqui expostos
conservei-me na posição de que já dei idéa:
sem compromisso com partido algum, sem assumir responsabilidades de Jornalista,
sem affixar a pretenção de salvar a patria, mas sempre interessando-me
pela causa publica e externando pela imprensa o meu parecer, quando isso
me parece necessario ou conveniente. Não tenho podido sujeitar-me
á abstenção completa a que estava resolvido em 1868.
Neste periodo assumi algumas responsabilidades politicas que pretendo
registrar, tendo hoje um motivo especial para por em dia estas memorias.
O motivo é que julgo-me em vesperas de assignar com o governo imperial
um contracto para estudos e construcção de uma estrada de
ferro no Rio Grande do Sul.
Esta empreza, se se realizar, me imporá grande responsabilidade
moral e pecuniaria: póde comprometter ou consolidar a pequena reputação
que tenho de homem energico e cumpridor de seus deveres; e póde
diminuir ou augmentar a minha modesta fortuna. Em todo o caso crear-me-ha
uma existencia differente da actual, habitos de actividade, necessidade
de viagens, novas relações.
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A minha posição entre os monarchistas e os republicanos
é a mesma que descrevi nas pags. 175 a 177. A Republica dirigida
hoje por Francisco Cunha, do Rio Grande, que só conheço
de nome, e por Quintino Bocayuva, mais de uma vez tentou attrahir-me á
sua solidariedade, ao que constantemente me esquivei, sem todavia collocar-me
em hostilidade com ella. Esta attitude, eu a desejava definir em publico,
e para isso deparou-me occasião um republicano dissidente dos seus,
que na Reforma de 3 de Julho deste anno disse ter-me eu despedido do Directorio,
porque o partido ia mal. Respondi pela mesma folha no dia 4 nos seguintes
termos:
« Peço licença á redacção
da Reforma para rectificar em suas columnas um engano de facto que nellas
hoje notei com referencia ao meu nome.
« Diz o artigo a que alludo:
« "A principio o Sr. C. Ottoni fez parte
do directorio republicano. As cousas andarão ruins e o Sr. Ottoni
não quiz mais ser director."
« Nunca fiz parte do directorio a que se allude;
e julgo não dever auctorisar com o meu silencio a illação
que deduzem da minha supposta retirada.
« O engano provem talvez de ter eu assignado o
manifesto; mas então não havia directorio nem partido organizado.
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« Fui membro do Club Radical que depois resolveu
declarar-se Club Republicano. Ainda o era quando a commissão encarregada
de redigir o manifesto o apresentou e a reunião deliberou que assignassem
todos os presentes.
« Não hesitei, porque tendo-me sido mostrado
préviamente o manuscripto, reconheci, depois de uma leitura muito
reflectida, que nos pontos capitaes estava elle em harmonia com as minhas
opiniões e impressões.
« Do directorio, que depois nomearão, repito,
nunca fui membro. — C. B. Ottoni. »
Respondeu a Republica no dia 5, fazendo-me muitos cumprimentos e allegando
que eu fôra membro da commissão redactora do Manifesto. Ao
que repliquei, como se vê do seguinte artigo que sahio no dia 6
na mesma Republica:
(...)
« Agradecendo á redacção da
Republica as palavras obsequiosas com que hoje me honra, peço-lhe
licença para rectificar um engano que noto no pequeno artigo a
mim relativo. Não fui, como se diz, um dos membros da commissão
redactora do Manifesto: tinha sido nomeado, é certo; mas, não
estando então presente, declarei logo que soube da nomeação
que não a acceitava.
« Esta declaração foi feita verbalmente
e por escripto ao Sr. Conselheiro Saldanha Marinho, relator da commissão.
— Julho, 5. — C. B. Ottoni. »
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Houve ainda tiroteio entre a Republica e seu correligionario dissidente,
que não sei quem era: mas eu não voltei a carga porque pareceu-me
que em relação a mim a questão estava bem posta.
Os cumprimentos da Republica, compromettem-me quantum satis para que saiba
a Monarchia que não deve contar commigo: as minhas resalvas limitam
a minha responsabilidade e conservão-me fóra da milicia
politica.
A democracia ganha terreno; mas... chame amanhã S. M. I. ao poder
os liberaes, fação elles ou não fação
alguma reforma, abram a cornucopia das commendas, baronatos e patentes
da G. N. ... e adeus mesquita republicana. Para assistir depois a um espectaculo
semelhante, não devo afadigar-me.
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Por esse tempo, quebrei mais uma vez a minha abstenção
da imprensa, publicando na Reforma uma serie de artigos, vingando a memoria
do sympathico Tiradentes deprimida por Joaquim Norberto em um livro que
publicou com investigações historicas da conspiração
mineira de 1789. Fôra elle, com relação ao illustre
enforcado, de escandalosa parcialidade, que tenho consciencia de haver
confundido. Este trabalho de critica não soffreu contestação.
No escripto publicado limitei-me a tratar de Tiradentes, mas impressionou-me
outra observação que aqui consignarei como episodio de certo
interesse.
Claudio Manoel da Costa, um dos conspiradores, talvez o mais illustrado,
foi encontrado morto na prisão em Ouro Preto, e officialmente declarado
suicida. Certa voz publica ou tradição passou de um seculo
a outro denunciando assassinato, e a historia não tinha bem esclarecido
este ponto. J. Norberto declara tel-o resolvido verificando o suicidio:
mas a sua demonstração parece, contraproducente, provar
o assassinato.
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Basêa-se no corpo de delicto feito sobre o cadaver, e publica textualmente
esse documento. Descreve a posição do corpo, pendurado de
uma estante que não tinha altura sufficiente, os pés tocando
o chão (...).
(...) A mentira do corpo de delicto é manifesta, e não
vejo que pudesse ter outro fim senão o de encobrir o crime.
Se Claudio Manoel da Costa foi assassinado, como creio em vista do exposto,
os auctores do crime foram agentes da Justiça d'El-rei: outra auctoria
não seria occultada ou disfarçada; mas os fabricantes do
corpo de delicto foram ineptos.
Era a melhor intelligencia d'entre os conjurados, poeta, economista,
jurisconsulto: diziam-n'o encarregado de redigir o codigo das leis da
projectada republica; teriam receio do que elle poderia escrever na prisão
ou no degredo? (...)
Antes de se me deparar a opportunidade da empreza do Rio Grande, fiz
outra tentativa industrial, que não produzio effeito: não
a omitto porque assumi a responsabilidade de uma proposta.
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Em Janeiro deste anno, 1873, tres capitalistas, Mesquita, Dr. Marques
de Sá e F. Figueiredo, convidarão-me para associado a elles
fazermos uma proposta, em concurrencia com outra do B. de Mauá,
para contractar o usofructo da estrada de ferro de D. Pedro II, e conclusão
dos prolongamentos decretados.
Tomava então corpo o descredito da gestão da empreza por
agentes do governo; ia-se generalisando a convicção da necessidade
alli do interesse e acção individual. Dahi a proposta do
B. de Mauá, de cujas bases, suspeito eu, tiverão noticia
os meus tres socios capitalistas por um meio pouco curial. Disserão
elles conhecer as feições geraes, não os algarismos
da proposta, com a qual iamos concorrer.
Propuz que associassemos tambem o engenheiro Herculano Penna, e depois
de alguns estudos, propuzemos os cinco as bases seguintes:
Usufructo da estrada de ferro. Emprego da renda liquida nas construcções.
Emissão em acções do mais capital necessario. Prazo
de nove annos para ligar os trilhos á navegação do
rio S. Francisco. Continuação do usofructo até amortizar
a emissão com o juro de 7%. Entrega afinal ao governo.
Pediamos 16 annos: segundo nossos calculos, esperavamos que a renda liquida
do 16º e parte da do 15º seria lucro liquida.
Como se vê era uma empreza vastissima de grandes esperanças
e não menores perigos. Eu e o meu amigo Penna contavamos poder
melhorar a administração, reduzir a despeza de custeio,
desenvolver a renda, dar grande impulso á construcção,
fundar gloria e fortuna. Mas o quadro tinha reverso: muitas previsões
pdoaim falhar e a producção decahir na crise da transformação
do trabalho. Assumir taes responsabilidades na minha idade já avançada
era talvez temeridade; não estou longe de crer que desprezando
a proposta, o governo obsequiou-me.
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Quanto a apresentámos, dizia-se que a do Mauá estava acceita;
mas ou fosse o boato falso, ou as nossas condições mais
vantajosas embaraçassem a adjudicação, o governo
guardou silencio.
As medidas do novo Director parecem indicar a intenção
de conservar na empreza o statu quo.
Até a presente data, a ultima responsabilidade que assumi, quer
em fórma de proposta ao governo, quer por meio de manifestação
pela imprensa, refere-se ao assumpto a que alludi no principio deste capitulo,
estradas de ferro no Rio Grande do Sul.
O poder legislativo votou Rs. 40.000:000$000 para duas grandes linhas,
communicando com a fronteira argentina as duas cidades de Porto Alegre
e Rio Grande, com ramaes de ligação entre as duas, cerca
de 1.500 kilometros. No debate parlamentar ficou averiguado que os recursos
commerciaes destas linhas serião por poucos annos escassissimos;
e por serem os seus principaes fins administrativos, politicos, estrategicos,
foi preferida a construcção a expensas do Estado.
Dahi nasceu-me a idéa de uma proposta de empreitada, associando-me
a um engenheiro e a um capitalista; cujas bases deviam ser e foram:
Fixação pelo governo dos pontos obrigados. Apresentação
de planos e orçamentos, demonstrando o custo medio kilometrico.
Adjudicação por esse preço, se não preferir
o governo construir por administração ou abrir hasta publica,
garantindo-nos no ultimo caso preferencia tanto por tanto. Pagamento dos
estudos, por preço kilometrico fixado no contracto.
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Eis os motivos de minha deliberação. Estou ha cinco annos
ocioso, e sinto alguma disposição para o trabalho, que póde
ainda aproveitar á minha familia. Nos meus dez annos de estrada
de ferro de D. Pedro II pouco me occupei com o custeio: estudos, adjudicação,
construcção e questões connexas, foram a lição
que me ficou melhor estudada.
Não faço esforço para voltar á milicia politica;
não quero ser empregado publico; não acceito posição
dependente de caprichos ministeriaes ou imperiaes; não tenho geito
para negociante ou fazendeiro: em que hei de empregar uns restos de actividade,
a não ser em uma empreitada de caminho de ferro?
Demais, tenho fé que poderei fazer alguma cousa que seja util
ao meu paiz, que augmente alguma cousita os meus recursos pecuniarios
e ao mesmo tempo o valor moral do nome que deixo a meus filhos. Não
hesitei pois.
Meus socios são dous amigos, em cuja lealdade confio: Dr. Caetano
Furquim de Almeida e Engenheiro Herculano Velloso Ferreira Penna.
Não approvo, em principio, os estudos por empreitada; penso que,
em regra, devem ser feitos por administração, á cargo
do capital. Mas o governo tem estabelecido precedentes de adjudicação,
e tive razão de saber que pretendia recorrer, no caso presente,
ao mesmo expediente, como fez para os prolongamentos da Bahia e Pernambuco.
Apresentada a nossa proposta, e tendo eu conferenciado com o Ministro
da Agricultura e com o Visconde do Rio Branco, Presidente do Conselho,
verifiquei que reinavam nos espiritos grandes duvidas e idéas incorrectas
a respeito da bitola preferida. A propaganda americana da bitola estreita,
repercutindo no Rio de Janeiro tem pregado grandes exaggerações:
chegou a sustentar um engenheiro que a de 1m,00 applicada ao mesmo leito
da de 1m,60 pouparia mais de metade do custo; o que é perfeito
desproposito. A verdade é que a bitola larga e a estreita tem cada
uma a sua missão, conforme os accidentes do terreno, o destino
da estrada, e a massa de transportes esperada.
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Nestas circumstancias entendi que prestaria serviço á causa
publica e á minha empreza, esclarecendo a questão e corrigindo
os erros em voga. Se o fizesse em conferencias verbaes com os ministros,
as minhas palavras poderiam ser disvirtuadas e alvo de intrigas: entendi
pois moralisar a minha acção por meio da publicidade.
Na gaveta, em que guardo um exemplar de cada uma das minhas publicações,
está o meu folheto — Bitola dos caminhos de ferro —, que inserto
na Reforma e impresso em avulso ha dous mezes, não soffreu a minima
contestação.
O successo deste pamphleto foi notavel: attribuo em parte a elle o decidido
empenho que mostra o governo em reduzir a contracto a minha proposta,
ainda em discussão, hoje 24 de Novembro de 1873.
— Dezembro 29. Vou fechar este capitulo. No dia 20 foi assignado o meu
contracto, o qual se lê no Diario Official de 24. Tenciono dedicar-me
em corpo e alma ao desempenho das obrigações contrahidas;
mas não é fóra de proposito consignar aqui as minhas
impressões acerca do espirito deste acto do governo, em relação
a minha pessôa.
Que o Imperador continúa a reinar, governar e administrar, não
ha a menor duvida: portanto S. M. I. Quiz que tratassem commigo.
Porque? Não por affeição pessoal: não lhe
podem agradar as minhas opiniões politicas, nem o meu pronunciamento
sobre a lei dos ventres livres, nem a minha ausencia do Paço. Ha
mais de quatro annos não lhe appareço, nem o procurei nas
vesperas do contracto, como o fazem a maior parte dos proponentes. Por
isso, e visto o grande empenho de adiantar o projecto, posso concluir
sem immodestia que foi preferida a minha proposta, porque nas altas regiões
foi julgada a mais garantidora de uma prompta acção. Motivo
honroso para ambas as partes.
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Recebendo tal demonstração de apreço, abandono o
proposito que tinha formado de nunca mais ir a São Christovão,
e irei despedir-me, partindo para o Rio Grande. Pretendo embarcar no dia
20 de Janeiro de 1874.
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