Autobiographia de
C. B. Ottoni
XII - Junho de 1975
p. 214
Não está terminada a primeira parte da minha empreza —
planos e orçamento da linha. — Concluira-se ha alguns mezes, os
estudos de campo e proseguem activamente os de gabinete: depois de resolvida
a adjudicação da construcção, á firma
Furquim, Ottoni & Penna ou á outra, será tempo de registrar
a minha vida desde a assignatura do contracto de 20 de Dezembro de 1873.
Entretanto, tendo por estes dias alguma folga, dedico-a a uma questão
alheia a interesses materiaes, e que muito me preoccupa: quero fallar
da lucta que se travou entre o poder civil e o ecclesiastico.
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(...) O actual Papa Pio 9º é um homem habil e ambicioso:
quando se agitou a questão da Unidade Italiana muito a favoneou
elle; e como a propaganda se fazia em nome da liberdade, da independencia,
do odio á dominação austriaca, Pio 9º era o
primeiro liberal da Europa. Evidentemente aspirava á coroa da italia
Unida, com Roma por capital. Mas tomou-lhe a dianteira o rei do Piemonte,
cahio depois o poder temporal do papado; e essas decepções
são a origem do Syllabus, documento enfesado e anachronico.
Em falta da influencia e preponderancia que lhe daria em toda a Europa
o throno e os exercitos da Italia appoiando o seu poder espiritual, já
por si consideravel, projectou ampliar o seu dominio sobre as almas dos
catholicos, contando arrastar outras nações a intervir em
seu favor contra o rei usurpador.
Ligou-se aos Jesuitas, cuidou de educar o clero pelos seus seminarios,
as sociedades, por meio das congregações docentes, preparando
a todos para uma obediencia cega aos Bispos, que fundarião a sua
dominação universal.
Da submissão dos padres são garantia as suspensões
ex informata conscientia, arma tornada mais terrivel no Brasil
depois que aboliram por lei o recurso á Coroa.
Em 1867 agitando-se esta questão na Camara dei um voto contra
o recurso, do que hoje me arrependo, e faço penitencia, confessando
o meu erro.
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Eu via por esse interior muitos padres e vigarios estupidos e immoraes:
cria os Bispos sinceramente empenhados em moralisar o clero; por isso
concordei em deixal-os armados com as suspensões sem recurso. Não
vi que a pretenção se filiava a um vasto plano de avassalamento
das consciencias.
(...) Hoje porém, que os Bispos do Syllabus desmascarão
as suas baterias, bem vejo que muitos padres lhe resistirião, se
tivessem recurso do ex informata conscientia. Em 1867 sem duvida
tive a vista curta.
Peza-me isto, porque com a guerra á maçonaria, com o augmento
da intolerancia religiosa, com a exaltação do fanatismo,
grandes desordens se preparão: arreda-se alguma immigração
util e introduz-se a zizania em grande numero de familias.
O nosso governo complica a situação, não se atrevendo
a applicar-lhe o verdadeiro remedio, que seria a decretação
da completa liberdade das consciencias e dos cultos; pallião com
processos de desobediencia, que de nada hão de servir.
Quanto mesmo não seja abolida como convém, a religião
do Estado, dos debates ultimos resalta a meu ver esta verdade: que o poder
civil estará desarmado, emquanto não estabelecer: 1º
o recurso á Coroa das suspensões episcopaes; 2º o registro
civil dos nascimentos e obitos; 3º o casamento civil; 4º a secularisação
dos cemiterios.
Porque tanto teme o nosso governo essas reformas? será porque
ellas estabelecem a liberdade das consciencias, e todas as liberdades
se ligão e se auxilião mutuamente? Deploro tudo isto.
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