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A luz triunfa
Gazeta da Tarde, 21 fev. 1885
Já há no horizonte vermelhidões precursoras do dia
de fraternidade, que emancipará o trabalho e a pátria, congraçará
os cidadãos pelo mais fecundo dos sentimentos — o de solidariedade.
Em vão os profetas de ruínas pregaram o juízo final
da pátria para o dia em que os ecos repetissem, pela vastidão
de nosso território, a proclamação criadora da redenção
total dos cativos.
A lavoura, a quem se queria catequizar para a religião ensangüentada
da destruição da alma de uma raça, religião
fatal que exige para o seu culto holocaustos humanos, parecendo a princípio
querer prestar-lhe ouvidos, começa a desconfiar dos evangelistas,
e a reclamar para si o livre exame das suas necessidades e dos remédios
que lhe aproveitem.
A lavoura de Campos se fez o Lutero contra esse catolicismo das catacumbas
da civilização econômica, e que, só trazendo
ao espírito desconfortos, idéia de morte, tinha como cântico
religioso o gemido dos mártires, que o confessavam, e das vítimas
que a sua intolerância brutal sacrificava.
Está quebrada a unidade da fé negra. Enquanto uns se abraçam
à cruz inquisitorial do trabalho escravo, outros se voltam para
essa religião do espírito, em que a razão pontifica,
a consciência é altar, e os ensinamentos do século
o Evangelho sagrado.
A manifestação da lavoura de Campos há de ser posta
à margem pela massa esclavagista, como perigosa heresia.
Os argumentos são felizmente conhecidos; dir-se-á de Campos
o mesmo que se diz do Norte: a qualidade da sua lavoura dispensa o braço
escravo.
Mas o que fica desde já acentuado é o princípio
da indenização da suposta propriedade pela própria
renda da propriedade, ou o que é o mesmo, o reconhecimento de que
na lavoura, como em qualquer indústria, todo o capital que se indeniza
tem em si mesmo o meio de resgatar-se. Houve, entretanto, quem negasse
este princípio comezinho, espécie de conclusão de
Calino, e foi contrariando-o e é refutando-o pelo absurdo que se
mantém no país um partido esclavagista, com grande prejuízo
da honra e da riqueza nacional.
A lavoura campista será incluída na excomunhão geral
imposta a todos os que afirmam a possibilidade da transformação
do trabalho sem indenização pecuniária do Estado
ao senhor de escravo, mas é também incluída na classe
dos pensadores sérios, que cuidam mais do dia de amanhã
da pátria, que é o patrimônio de muitas gerações,
do que dos interesses de hoje que podem ser mal julgados pelos preconceitos
e pelas paixões.
O que a lavoura de Campos pede não é o que o país
lhe pode dar; sente-se o erro econômico através da boa vontade
dos representantes, mas as suas palavras são repassadas de um sabor
de patriotismo, que arrebata e inebria.
Prevendo as acusações, que hão de ser feitas aos
patrióticos lavradores, pressentimos também a revolução
que as suas palavras vão causar no espírito dos seus pares
na indústria.
Não tardará muito que os fazendeiros do Brasil compreendam
que os seus inimigos não são os abolicionistas, mas os seus
supostos advogados.
Haverá ocasião de traçar o paralelo, em pleno calor
dos acontecimentos.
E que diferença?
Enquanto os abolicionistas se limitavam pela imprensa e pela tribuna
a formar opinião, para dar uma solução legal por
meio do parlamento ao problema inflamável da liberdade pessoal;
os comissários de café e os seus assalariados políticos
aconselhavam aos lavradores que se reunissem em clubes de lavoura, com
estatutos secretos, com polícia especial, e aplaudiam a lei das
causas perdidas ou das situações desesperadas — a Lei de
Lynch.
A conseqüência do emprego desses recursos era revelar nos
centros rurais aos escravos o abalo da instituição servil,
a fraqueza dos seus mantenedores, o que importava animar a insubordinação,
incitar à desordem.
Nas fazendas, os escravos estão hoje convencidos de que tudo depende
de um pouco de esforço da parte deles; que podem escrever com as
suas próprias mãos sua carta de emancipação.
Os abolicionistas falavam ao espírito e ao coração
dos senhores, apelando para a solidariedade na manutenção
da honra nacional; os esclavagistas falavam ao escravo, esporeando-lhes
o desespero com a alucinação da esperança.
Os abolicionistas advogaram sempre os meios de aumentar o valor da riqueza
rural, pela divisão do solo, a imigração, a criação
de mercados no interior, a concentração comercial nas regiões
agrícolas. Com estas medidas eles concorriam para melhorar as tarifas,
pelo aumento da renda das estradas de ferro, e por conseqüência
dar maior valor à produção, quer pela abundância
de trabalhadores, quer pela economia realizada na diferença dos
fretes.
Os esclavagistas procediam de um modo contrário. A pretexto do
perigo da instituição servil, perturbaram o trabalho pela
negação de crédito aos fazendeiros pela mudança
brusca no regime de cobrança, e pela conversão da hipoteca
em fábrica de miséria.
Em vez de encorajar, intimidaram, em vez de remediar, agravaram o mal
da lavoura.
Protetores não diminuíram o juro, aumentaram-no; em vez
de promover a criação de novos produtos, fizeram a convicção
de que só o café é que acha comprador e só
ele é capaz de indenizar o capital rural.
Tendo preso em suas mãos o fazendeiro, deram maior desenvolvimento
à especulação vergonhosa das contas correntes e da
falsificação das qualidades do café.
Felizmente o paralelo, que vamos fazer, há de deixar bem claro
que tudo quanto pedimos redunda em benefício para a lavoura e tudo
quanto os nossos adversários — comissários e políticos,
estrangeiros e oligarcas — aconselharam é uma série de males
para os fatores da riqueza pública.
A História preparou-se para tomar vingança dos difamadores
da pátria.
Um espetáculo curioso está prestes a ser representado.
Os procuradores da lavoura estão reunidos em grande número
na Câmara temporária e, pelos seus primeiros atos, podemos
inferir já que eles dirão — continue-se, quando a lavoura
disser, como começou a dizer- acabe-se; que eles aconselharão
guerra, quando a lavoura aconselha paz.
Será curioso um país inteiro a condenar uma instituição
e alguns negociantes estrangeiros e seus advogados a querer mantê-la.
Esperamos por este momento, para repetir a frase do povo francês
aos trintanários parlamentares de Carlos X quando os enxotou da
Câmara: para fora, bandidos, este lugar é do povo.
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