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Embarques de escravos
na EF D. Pedro II
Gazeta da Tarde, 13 fev. 1886
Senhor.
Diante dos traços de mármore, sagrados pelo cinzel dos
artistas, epitáfios seculares de civilizações mortas,
o viajante, que estuda e pensa, se entristece com a própria grandeza
do espetáculo que se desdobra aos seus olhos.
Nos templos vazios, sem fiéis e sem deuses, como que ele ouve
os risos e soluços dos dias de festa e de luto, das horas de regozijo
e das horas de desesperança.
Tal me acontece quando folheio a história da minha pátria,
outrora templo grandioso formado pelo civismo de gerações
fortes, que o tempo e as revoluções devoraram e de que hoje
restam somente as ossadas, santas ruínas do patriotismo vitimado.
Aprofunda-se-me o desalento tanto mais quanto vejo à flor o desinteresse
dos tempos que lá vão e o entusiasmo civilizador, que nos
conquistou lugar entre os povos independentes.
No meio da noite moral do presente, que se não fende em nenhum
raio de luz anunciando próximo alvorecer; noite em que não
sinto a incubação de uma aurora redentora do pesadelo de
humilhação, com que ela nos tortura e angustia, pergunto
a mim mesmo se não seria melhor, como as aves amigas da escuridão,
habituar-me às trevas e ao óleo da lâmpada do vosso
palácio, alimento predileto dos caracteres da nossa decadência.
Outrora as almas brasileiras nutriam-se da consciência da soberania
popular, fortaleciam-se com ela e não era raro ouvir-se do alto
da forca, como do tamborete do fuzilando, estas frases heróicas:
liberdade ainda que tarde; morrem os liberais, mas não morre a
liberdade.
Essas palavras eram adubo sagrado às convicções,
repastavam de seiva e de viço a florescência da fé.
Hoje, porém, não há mais quem pronuncie naturalmente
semelhantes frases; quem as escreva com o alfabeto da crença. O
patriotismo, é certo, ainda cria heróis, mas estes são
a reprodução do intrépido Nzambi dos palmares; desesperados
que combatem olhando para a montanha do martírio, a Tarpéia
sinistra de que se precipitarão para salvar a honra.
Vossa Majestade não tem, pois, motivo para queixar-se de quem
subscreve estas linhas.
Deve-se a verdade ao inquérito da morte.
Talvez vos pareça descabida esta última palavra; mas apresso-me
em demonstrar-vos que ela está aí porque os acontecimentos
obrigam-me a escrevê-la.
Vossa Majestade sabe que um punhado de homens jurou à sua honra
defender a causa dos escravizados, com o sacrifício da sua vida,
se tanto for necessário arriscar na sustentação de
um direito, neste país que se diz civilizado e cristão.
Durante seis longos anos esse punhado de homens tem dado provas repetidas
do espírito de conciliação, que os inspira na propaganda
da redenção dos seus semelhantes.
O Governo de Vossa Majestade mesmo o afirmou solenemente no parlamento,
quando por um momento hasteou no poder a bandeira das nossas aspirações.
Inopinadamente, muda-se a atitude governamental, e ao mesmo tempo que
a mentira oficial manda anunciar ao mundo que está decretada a
abolição da escravidão no Brasil, recomeça
a perseguição, a tortura dos escravizados.
Vossa Majestade deve ter lido as notícias envergonhadoras, publicadas
pela imprensa.
A Secretaria de Polícia converteu-se em uma casa de consignação
de fazendeiros bárbaros, que a autorizam a enviar-lhes, não
já os escravos, mas a cabeça deles, para exemplo dos outros,
lembrando assim o reinado de vossa augusta bisavó — a douda, espetando
a cabeça de Tiradentes para exemplo às impaciências
democráticas.
Todos os dias a Casa de Detenção e o xadrez da repartição
central de polícia abrem-se para despachar pelos vagões
da estrada de ferro de d. Pedro II vítimas para os açougues
dos carniceiros rurais.
Em vão temos reclamado do Governo providências contra semelhantes
embarques, que degeneram em atos de barbaria.
As notícias dos espancamentos, dos arrochos com cordas e algemas,
dos suicídios de escravizados mancham diariamente a história
do vosso reinado, mosqueando a vossa púrpura de modo a ser natural
confundi-lo com a pele de um tigre.
Entretanto, Vossa Majestade conserva-se impassível. Longe da corte,
nas alturas de Petrópolis, cercado dos entes a quem adora, podendo
espreguiçar-se como Francisco I e tiranizar como Luís XI,
Vossa Majestade lança pelo desprezo o fermento da revolta nos espíritos
dos raros que ainda entendem que a vida é pouco sem a honra.
Sabem todos que o sr. chefe de polícia da corte não será
demitido, enquanto ecoar o tremendo Aqui d’El-rei da imprensa em nome
dos escravizados.
Pergunta-se quem é este funcionário que vale mais do que
a reputação de um povo e do que a vida de brasileiros?
Os fatos respondem secamente: é um homem que foi ao parlamento
dizer que estava doente para não ir para a província do
Pará, como desembargador; é um homem que não teve
escrúpulos de pedir dinheiro ao Estado para alimentar-se durante
o tempo em que se evadiu dos seus deveres; é um funcionário
fugido das suas funções e acoutado por um Governo, que entende
que seus amigos podem viver à custa do Tesouro sem trabalhar, contanto
que finjam moléstia até que se lhes melhore a dieta.
Apelamos para a honra de Vossa Majestade neste momento: e vos emprazamos
a que nos desmintais.
Vossa Majestade não pode negar que tem como chefe de polícia
um funcionário que faltou a verdade à Câmara dos Deputados,
que fez junto dela a chantagem da moléstia e que se curou com o
decreto que o nomeou para o cargo que exerce.
E é esse homem que faz da sua autoridade a capa dos crimes que
nos horrorizam.
Um dia, na casa do sr. presidente do Conselho, estava o sr. chefe de
polícia e disse alegremente:
— Acabo de mandar mais um vagão deles.
— E não há perigo? — perguntou-lhe o presidente do Conselho.
— Não; vão em carro fechado.
— Com este calor?! pode sobrevir algum acidente.
— Qual calor: esta gente lá sente cousa alguma...
E o sr. chefe de polícia tinha a fisionomia dilatada, quando proferia
estas palavras.
Mais ainda, senhor.
Um empregado da Estrada de Ferro, que tem o vosso nome, coincidência
tristíssima, referiu-nos este suicídio:
Um escravizado, que estava amarrado de pés e mãos, conseguiu
sentar-se, e, depois de espedaçar a vidraça com uma cabeçada,
cortou a carótida num fragmento de vidro, que ficou preso ao caixilho
e morreu esvaído em sangue.
O Paiz, órgão que Vossa Majestade deve conhecer, referiu
o caso de um escravo, em que embarcando na estrada do vosso nome, em Juiz
de Fora, precipitou-se entre os trilhos, deixando-se esmagar pelos vagões.
Consta a Vossa Majestade que se tenha aberto inquérito a respeito?
Quer isto dizer, senhor, que não há esperar do poder público
uma providência, um pouco de piedade para os míseros escravizados.
Levado pelo desespero, o punhado de homens que se comprometem a defender
esses desventurados, não pode querer um dia protestar em pessoa
contra esses abusos?
O que lhes acontecerá? Serão assassinados legalmente, porque
vão resistir a uma ordem da autoridade.
Eis por que escrevi a palavra morte. Vossa Majestade parece haver decidido
a nossa imolação, pois que outra significação
não pode ter a conservação de uma autoridade, que
faz timbre em se mostrar desumana.
De par com estas barbaridades contra vítimas indefesas, a difamação
dos abolicionistas, por todos os meios: o assalto contra os seus corações
e contra os seus meios de vida.
A Caixa Econômica Perseverança Brasileira é uma instituição
que faz honra ao país, honrando ao seu fundador; a polícia
a manda difamar e até a ameaça de pedir ao Governo a sua
supressão, e isto só porque o cidadão João
Clapp não quer alistar-se no batalhão dos capitães-do-mato.
E o mais doloroso, senhor, é que o dinheiro que nós pagamos
para ser despendido com a garantia oficial da nossa honra e da nossa vida
de cidadãos, é esse dinheiro sagrado que a polícia
desvia para empregar criminosamente em difamar-nos.
A conseqüência de tais atos é a recrudescência
da perversidade dos senhores contra os escravizados.
Ainda anteontem, duas menores foram exibidas ao público e à
imprensa e só não o foram a Vossa Majestade, porque estava
em Petrópolis. Eduarda e Joana atestaram pelos seus corpos chagados,
pelos rostos desfigurados, pelos gilvazes do relho infamante, a hediondez
da instituição fatal, que nós combatemos.
Joana está às portas da morte; é uma tuberculosa;
o seu leito de moribunda não bastou para servir de anteparo à
perversidade do algoz.
Quer agora Vossa Majestade saber até onde tem descido este país?
Tem havido dificuldade em fazer o corpo de delito nas supliciadas.
Vossa Majestade pode medir por esta revelação qual o abismo
a que temos descido e qual a sua profundidade.
Senhor, estas linhas, que pretensiosamente aspiram a um olhar vosso,
têm por fim somente uma súplica e entretanto não encerram
nem queixa, nem pedido de piedade.
Sei que na polícia da corte se estão forjando processos
contra todos os abolicionistas.
Sou um deles.
Nesses processos visa-se a nossa dignidade. A lei manda punir o açoutador
de escravos, mas não é a este que os processos se dirigem;
é à honra dos audazes que se afoutaram a perturbar o sono
e a tranqüilidade dos piratas e seus herdeiros, vossos protegidos,
comensais e sustentadores.
Vossa Majestade ordene à polícia que no meu processo, ao
inquérito siga-se imediatamente a prisão preventiva, e ordem
de execução clandestinamente na Casa de Detenção.
Vossa Majestade vê que eu não me dirijo mais a ninguém.
É com Vossa Majestade somente que eu me entendo.
Sei que só vivo, porque Vossa Majestade não tem consentido
no meu assassinato.
Correspondo a esse favor fazendo-vos a súplica que aí fica.
Eu não quero viver desonrado e Vossa Majestade sabe que no esterquilínio
da polícia secreta há elementos para fazer pairar a dúvida
sobre a reputação mais firmada.
É só, imperial senhor.
No mais desejo que Vossa Majestade viva feliz e que nunca, nem por si,
pelos seus, sofra as torturas infligidas à raça, de que
Vossa Majestade bebe o sangue e as lágrimas sob a forma de lista
civil.
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