Patrocínio:
Previsões otimistas para 3 de Maio
Cidade do Rio, 30 abr. 1888
Previna-se o sr. Silva Jardim, enquanto é tempo.
Eles tirarão de si quanto puderem e em seguida hão de
difamá-lo com o mesmo sangue-frio com que hoje caluniam a [princesa
Isabel] [Patrocínio, José do. Respondo... ].
Estamos em plena aurora.
Dentro em três dias vai começar a História Moderna
do Brasil e fechar-se a triste história dos tempos bárbaros
da nossa terra.
Não é possível imaginar de um lance de pensamento
o que será todo esse iluminado futuro, não obstante o presente
fornecer-nos o esboço do que ele será nos largos traços
dos acontecimentos, que nos surpreendem.
O que está por trás do dia 3 de maio não cabe na
previsão dos políticos, e não é demasiado
otimismo profetizar que a nossa evolução nacional será
feita com a mesma rapidez da dos Estados Unidos.
As estrelas do Sul dentro em um quarto de século não invejarão
o fulgor da constelação do Norte.
Já podemos acentuar orgulhosamente um contraste.
A maior revolução social de nossa terra está sendo
feita entre bênçãos e flores. Nada mais extraordinário:
bastaram o atrito da imprensa e o calor da palavra para limar e fundir
os grilhões de três séculos de cativeiro.
A alma nacional mostrou-se preparada, em todas as camadas sociais, para
praticar e receber a liberdade.
Em nenhuma história do mundo se encontram páginas como
as que se têm escrito ultimamente em nossa terra. A esses fazendeiros
pródigos, que atiram pela janela fora a carne tarifada de seus
cativos, carne que era a sua fortuna legal, porque era gênero de
valor no mercado da desumanidade antiga e da afronta à moral e
à civilização; a esses fazendeiros, que precedem
a lei para afirmar que nunca, em nossa pátria, o interesse se colocará
diante da Justiça, a rebeldia diante da razão, correspondem
os libertos que, tendo parecido acumular ódios de três séculos,
demonstram que nunca souberam senão sofrer resignados, que não
viram, no seu martírio, um crime de opressores, mas uma tremenda
e inexplicável fatalidade; os libertos que devendo ter aprendido
na escravidão a anarquia, provam ao contrário que lá
mesmo conservaram intactos o patriotismo e o amor da ordem, e saem do
cativeiro para cooperar na obra do bem-estar geral, tanto que se iniciam
na vida cedendo em favor da produção uma parte dos direitos
da sua liberdade: — o salário.
Os poucos que, sinceramente, se arreceiam de que os primeiros fenômenos
resultantes da revolução social, que se está operando,
sejam perturbações da ordem, abandono do trabalho, desassombrem
os espíritos.
Há de reproduzir-se em todo o Brasil o que se deu no Ceará.
Em vez de guerra fratricida, paz patriarcal; em vez da estagnação
da produção, aumento de riqueza e progresso.
As epopéias de Itu e de Friburgo aí estão.
Esses negros que atravessam povoações com a cabeça
baixa, depois de um combate em que haviam revelado a coragem dos companheiros
de Leônidas; e apesar de famintos, maltrapilhos e sangrando feridas
do tiroteio e da luta corpo-a-corpo, conduzindo crianças extenuadas,
não atacam a população aterrorizada, não abusam
da sua força nem para satisfazer às mais urgentes necessidades
da vida; esses outros negros que respondem aos senhores no dia da libertação:
descansai quanto à organização da vossa nova existência
industrial - nós não queremos salário nos primeiros
tempos: esses negros falam por uma raça, são os endossantes
da letra de amor à ordem e à probidade, que eles pretendem
descontar no regime da liberdade e da igualdade nacional.
O que há de mais admirável na nova fase de nossa vida de
povo civilizado é a uniformidade de pensamento, desde o Governo
até ao último liberto.
O Ministério restaura a segurança pública em todas
as manifestações.
O presidente do Conselho garante a fortuna do país, esforçando-se
para restituir à moeda, representação do trabalho,
o seu valor exato na cotação universal. Bate-se, como um
duelista tão inimigo de luta, como terrível no combate,
e, em menos de um mês de administração, derrota
a horda dos especuladores do câmbio.
Este glorioso trabalho de valor inestimável é feito sem
estrépito, com a modéstia do dever cumprido.
O empréstimo foi o mais solene desmentido ao escravismo, que nos
dava como o único título de crédito europeu o sermos
o último país, cuja fortuna se baseava no tráfico
das almas, no roubo do trabalho.
O ministro da Fazenda provou que o país podia comparecer perante
o mercado do ouro levando como valores a hipotecar a sabedoria de seu
procedimento, resolvendo sem perturbação da ordem o mais
temeroso dos problemas, e a certeza de que este país foi dotado
pela natureza de tesouros que nem mil séculos de prodigalidade
poderão gastar.
O ministro da Justiça garante a liberdade do cidadão com
a letra cega da lei e com a lucidez humanitária do seu espírito.
Quebra-lhe o punhal da vingança, para dar-lhe a balança
das reparações e da correção.
Põe o código à cabeceira de cada cidadão,
por mais humilde que ele seja; todos podem dormir tranqüilos dentro
de seus limites legais.
A autoridade perdeu a carranca de Medusa com que petrificava o
Direito.
Ela não pode mais espalhar caprichosamente pânico e lágrimas,
violências e calúnias.
E porque veio da imprensa, e porque veio da desilusão popular,
esse ministro extraordinário, compreendendo que para pregar a boa
nova da regeneração governamental é preciso, como
Jesus, freqüentar as multidões, dar vinho às suas bodas,
distribuir com as próprias mãos pão e peixe aos famintos,
parar junto das sepulturas para ressuscitar os mortos; esse ministro está
em todas as festas para que é convidado, distribuindo o vinho generoso,
o cordial de sua palavra, que é banho de nardo no corpo do mendigo,
o agno do Cenáculo ao espírito das crianças.
O ministro da Guerra faz recolher a quartéis o Exército,
que se viu obrigado a vir à praça pública reclamar
como cidadão o que o seu patriotismo lhe impediu que exigisse como
soldado: respeito pelo seu brio e pelo seu direito.
Certo de que está salvando a pátria e de que ela bem merece
o sacrifício de conveniências efêmeras, o ministro
enche a fé de ofício dos heróis com as repetidas
provas de confiança do Governo; faz-se no poder o órgão
da opinião, que cercou com o seu prestígio os perseguidos
da véspera.
O que será este país amanhã, quando o que hoje surpreende
for a norma do procedimento dos Governos e do povo? Quando, extinta a
recordação do cativeiro, cada cidadão entender que
ele é tanto maior, quanto mais respeitar, no direito de outrem,
o seu direito e o direito de todos?
Temos o olhar alongado sobre esse amanhã que vem rápido,
vertiginosamente, e que, entretanto, afigura-se, à nossa ansiedade,
lento como o desdobrar de um século.
Bate-nos novamente o coração, perguntando-nos ao pensamento
se é com efeito verdade que, dentro em poucos dias, uma senhora
vai comparecer perante a assembléia de um povo, não para
impor, mas para pedir e conquistar, como a tímida Ester, piedade
para os milhares de desgraçados, os filhos de uma raça que
foi degradada por haver contribuído tanto como qualquer outra para
a grandeza de sua pátria.
Sabemos que a promessa de homens de bem é a antecipação
da realidade e, entretanto, temos ainda essa incredulidade fugitiva que
nos provoca o bem muito maior do que esperávamos.
E por isso mesmo, perdoamos aos que não acreditam de todo, aos
que julgam que amanhã havemos de chorar de despeito.
Não há negá-lo: a corrupção havia
minado tanto o país, que é quase impossível acreditar
que se conservasse intacta uma porção do caráter
completamente refratário ao contágio.
Demais, é melhor não esperar muito, para morrer de alegria
recebendo tudo.
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