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Desanca o Gabinete Cotegipe:
João Alfredo propõe revolucionar Terceiro Reinado

Cidade do Rio, 11 jun. 1888

Previna-se o sr. Silva Jardim, enquanto é tempo. Eles tirarão de si quanto puderem e em seguida hão de difamá-lo com o mesmo sangue-frio com que hoje caluniam a [princesa Isabel] [Patrocínio, José do. Respondo... ].

(...)

O sr. barão de Cotegipe não pensa na pátria; pouco tem ele com ela. Já o provou quando empregou todas as suas forças para criar uma ditadura militar, repelida em boa hora pelo bom senso e patriotismo do nosso Exército.

Chefe dessa oposição encapotada, que não mostra a cara com medo da gargalhada popular que há de enfarinhar-lhe as jogralices perversas, como já o fez ao sr. Coelho Rodrigues, quer o sr. barão de Cotegipe armar-se com o cadáver da escravidão, em falta de outra arma para a batalha.

É muito difícil, fora do campo da instituição negra, atacar o Gabinete que se propõe a realizar todas as reformas urgentes.

O Senado ouviu surpreendido o discurso pronunciado pelo sr. presidente do Conselho.

O contraste com o Governo da chocarrice, da chalaça de cocheiro, da truanice do palhaço, foi tamanho, que a própria oposição liberal emudeceu.

O sr. João Alfredo desdobrou-se em toda a extensão do seu grande espírito e do seu vasto saber, e com essa serenidade olímpica, essa altivez aborígine, que são os distintivos da pureza do seu patriotismo e da inflexibilidade de seu caráter, sem afagar condescendências, comprometeu-se a inaugurar essa política larga, científica, única bastante fecunda para alvear a evolução democrática de nossa pátria.

O país ficou sabendo que tem na direção de seus destinos um homem do talho de Gambetta, capaz de acelerar uma revolução, apesar de todos os riscos, e de aproveitar-lhe as conseqüências com inteira sabedoria.

O presidente do Conselho não acenou com uma vã miragem à popularidade para subir ao poder. Não, ele só aceitou o Governo porque em longos anos de trabalho e de meditação formou a consciência de sua idoneidade para dirigir a política nacional.

No seu discurso, a democracia fica de pé, à vontade, destacada e iluminada em todos os seus contornos, como o Moisés de Miguel Ângelo dentro do Vaticano.

Os períodos ressumam a probidade política do orador, a honradez indígena do seu patriotismo.

O sr. João Alfredo não quer ser ministro dos seus amigos, mas ministro de um povo, que tem todas as qualidades e todos os dotes para ser grande e só por falta de um braço forte, que desbarate a oligarquia, desceu ao ignominioso papel de mercador de escravos e mendigo de empregos públicos.

O escravismo perdeu a esperança desde que viu no Governo, secundado por homens de valor extraordinário, o glorioso brasileiro.

Não teve coragem de dar-lhe batalha de frente, por isso mesmo tergiversa.

Os srs. Paulino de Sousa e Cotegipe, sem talentos, sem serviços que não sejam os da escravidão, vêem ameaçados o prestígio e o pão da parentela e dos compadres.

A escravidão era a sua única força e a sua única renda política. Era por ela que S. Ex.as recolhiam nas sinecuras e pepineiras os rábulas de aldeia, os fazendeiros quebrados.

O sr. João Alfredo tira-lhes a mamadeira da boca improvisadamente e adeus leite, adeus franga e adeus ovos!

Confessemos que é uma dos diabos.

O que hão de fazer os homens senão ver se arraigam na consciência dos ex-proprietários a idéia de que se há de dar com a lei de 13 de maio o mesmo que se deu com a de 7 de novembro de 1831.

Olhem, vocês podem ter uma república ou um governo bem agitado, que, assoberbado pelas dificuldades, não lance os olhos para o tráfico de ingênuos, para o regime do calote, máscara do antigo trabalho sem salário, para os assassinatos e espancamentos de trabalhadores.

Eis o fim dos indenizadores.

Os primeiros que se julgam com direito à indenização são chefes de grei, porque os pobres diabos não valem dez réis de mel coado sem o Tesouro.

O negócio das fazendas de saúva e samambaia gorou; o presente de casas, feito pelo Estado, aos amigos do sr. conselheiro foi também um dia.

Que diabo! É preciso apanhar uma lambugem e a melhor é a república de tenentes-coronéis e barões, república que já nasce confiscada pelos indenizadores; república que é uma nova fazenda, cujo primeiro título é a dívida antes da fundação.

Ah! tartufos! como a história os há de amaldiçoar.

  

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