Patrocínio:
Produção aumenta, receita cresce, BB volta
a emprestar, bolsa sobe
Cidade do Rio, 6 ago. 1888
Previna-se o sr. Silva Jardim, enquanto é
tempo. Eles tirarão de si quanto puderem e em seguida hão
de difamá-lo com o mesmo sangue-frio com que hoje caluniam a [princesa
Isabel] [Patrocínio, José do. Respondo... ].
(...)
Todas as profecias de terror foram desmentidas.
Não haveria colheita, disseram eles; a estatística demonstra
que a diferença das entradas de café entre os anos de 1887
e 1888 é de mais de 245 mil sacas a favor deste ano.
Perdia-se todo o café, não havia meio de colhê-lo
e, entretanto, a diferença para mais, este ano, é espantosa.
Sim, dizem eles, mas seria o dobro se não fosse perturbado o trabalho.
Admitamos, porém não nos esqueçamos de que o argumento
foi outro. Não se falou na perda do excesso, falou-se no aniquilamento
da colheita, o que faz com que tenhamos direito em não acreditar
na alegação posterior.
Diziam os escravistas que a renda diminuiria, que todos os capitais
se retrairiam. A Alfândega rendeu no mês de julho, mais
do que em julho de 1887, a quantia de 1.240:810$400! O algarismo da renda
foi o maior conhecido até hoje, 4.811:886$287. O movimento da Bolsa
do Rio de Janeiro tem sido vertiginoso. É verdade que se tem misturado
muita intriga à verdade, mas o fato é que os capitais se
agitam e se expandem.
O câmbio já esteve quase ao par e, apesar de todos os manejos,
de todas as negaças imaginadas pela judiaria esterlina, conserva
o mais alto nível a que nestes últimos tempos era possível
imaginar. Os 24 d. do sr. Belisário, o ministro da conta corrente,
ficaram já a perder de vista.
O testemunho do comércio imparcial é que a cifra de
vendas das mercadorias essenciais à vida do trabalhador é
o quádruplo da que se conhecia até antes de 13 de maio.
A roupa feita, os chapéus, os sapatos e chinelos, os morins
e algodões vendem-se vertiginosamente, o que quer dizer que
os novos cidadãos têm feito os enxovais da liberdade.
O número de casamentos é prodigioso. Os corações,
que se imobilizavam no cativeiro, começam a bater e apinhar-se,
como um pássaro que, longo tempo engaiolado, voa, voa, até
ir repousar bem longe, num ninho desde muito ambicionado.
O desmentido ao escravismo não podia ser mais completo. Onde ele
fantasiava o deserto, surge um oásis; onde ele assentava a desolação,
esplendem a alegria e o movimento vivaz. Que fazer? Cruzar os braços?
Não, porque o impenitente morre vociferando.
Explicam-se pelo desespero os manejos empregados para falsificar as eleições
de mesa parlamentar e a opinião pública.
É assim que se quis fazer crer que, da parte do Governo, havia
a maior fraqueza, que se dera uma submissão indireta no contrato
com o Banco do Brasil.
Entretanto, a singeleza mesma da operação basta para demonstrar
que ainda uma vez o sr. presidente do Conselho manteve os seus créditos
de prudência e de energia, de inflexibilidade e segurança
de vistas.
O Banco do Brasil pagava a multa de oito por cento (8%) por não
querer completar a sua carteira hipotecária.
Não há quem não compreenda logo que se o Banco do
Brasil se negava a emprestar à lavoura era por motivo de interesse
do estabelecimento, isto é, por julgar que o negócio não
era bom.
É, pois, uma vitória, quando se anuncia a ruína
total da lavoura, conseguir do estabelecimento que melhor a conhece volver
de novo ao negócio, por ele considerado tão mau, que preferia
a fazê-lo pagar a multa de 8% de amortização da sua
emissão de papel-moeda.
Assim, pois, se o sr. presidente do Conselho obtivesse do Banco do Brasil
somente a volta ao negócio, neste momento, já era um triunfo
extraordinário, visto como, em tempos considerados lisonjeiros,
aquele estabelecimento se negou, apesar da coação da multa.
Mas S. Ex.ª obteve muito mais. O Governo empresta, é certo,
ao Banco do Brasil seis mil contos, mas o banco, por sua vez, entra para
a carteira hipotecária com a quantia de seis mil contos.
Quer isto dizer, primeiro, que o sr. presidente do Conselho conseguiu
que o Banco do Brasil realizasse o capital a que se obrigou emprestar
à lavoura e mais uma responsabilidade de seis mil contos para com
o Estado; segundo, que o sr. presidente do Conselho conseguiu a declaração
pública, o depoimento prestigioso do primeiro estabelecimento de
crédito do país, de que o estado da lavoura não é
o que o pessimismo partidário e alucinado assoalha, com perigo
do crédito do Estado.
Ressalta, à simples vista, que obter pelo empréstimo de
seis mil contos o desmentido solene de uma crise, conjurar o mais formidável
abalo de que podíamos ser vítimas, por tão insignificante
soma, é dar prova do mais profundo tino.
Está na memória de todos que o Estado fez muito maior sacrifício
quando teve que dominar a crise bancária na praça do Rio
de Janeiro e, entretanto, não se havia dado uma transformação
radical na sociedade.
Mas o empréstimo foi sem juros; é exato, porém é
muito menos oneroso que se fosse emitido papel-moeda, que deprecia o meio
circulante e perturba todas as relações econômicas
do país e vós outros, em circunstâncias menos graves,
lançastes mão desse recurso desesperado.
O favor é grande para o Banco do Brasil e a prova é a alta
das suas ações.
É preciso distinguir o lucro direto e o lucro proveniente do aumento
de confiança pela sabedoria da operação.
O Banco do Brasil, entrando com seis mil contos de sua carteira comercial
para a hipotecária, priva-se de lucros certos e prontos, e muito
maiores. Quer os tivesse colocado em apólices, com o juro de 5%
certo, capitalizado de seis em seis meses; quer em letras comerciais,
já pela segurança do empréstimo, já pela facilidade
de liquidação, o banco tinha lucros que ele considerava
superiores a 8% do valor do capital retirado das transações
hipotecárias. A razão é óbvia, ninguém
evita sob pena de multa um negócio lucrativo.
Se é verdade que o Tesouro empresta sem juros, é também
verdade que o banco se priva de lucros imediatos e se aventura a transações
em que ele já não confiava, e em que reentra por ter uma
base certa, um cálculo seguro, para cobrir-se no futuro.
O fim do Governo não é ter casa bancária; não
é negociar em dinheiro; é aplicá-lo de modo útil
ao Estado.
Desde que o Tesouro não perde, desde que o estado não se
priva de nenhum serviço necessário, não há
que estranhar que ele aplique uma soma qualquer, que vai conjurar uma
crise, com inteira segurança de reembolso.
Acresce que a quantia emprestada não pode sofrer nenhum desvio
do fim especial a que é destinada, pois que será feita à
proporção que o banco a for distribuindo pela lavoura.
A cotação das ações subiu e era lógico.
Desde que a carteira hipotecária, sobre a qual pairavam as nuvens
agoureiras do pânico teatral do escravismo, teve o horizonte desanuviado,
os capitalistas, renascida a confiança, deviam voltar à
procura das ações do banco.
A bolha de sabão do empréstimo espocou por si mesma no
ar e não há, portanto, que admirar se ela não serviu
para o balão de ensaio.
Qualquer que seja o ponto de vista, sob o qual encaremos a oposição,
vemos que ela não tem nenhuma razão patriótica para
combater o Ministério.
É necessário fazer barulho e a oposição agita-se;
nada mais.
A verdade é que o Ministério da Redenção
continua a bem merecer da pátria e consolidando pela sabedoria
administrativa o nome e a fortuna nacionais no exterior e no interior.
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