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À ponta de pena
Cidade do Rio, 5 jan. 1889
No artigo Rangel-Quintino há um trecho que reservei para largos
comentários: reclama-se para o editor das calúnias d’A Província
de S. Paulo a gratidão dos libertos em nome do seu abolicionismo.
Rangel pergunta:
« Quem mais fez que o insigne jornalista e notável
orador, na imprensa e na tribuna, batendo-se dia e noite contra todos,
Governo, partidos e capangagem a soldo da polícia?
Quando os abolicionistas fluminenses precisaram de um
brasileiro com autoridade e querido do povo para falar nos meetings celebrados
nas praças públicas e dispersados à força,
a quem procuraram? »
Estes dous períodos dão a medida exata da justiça
republicana destes tempos.
O sr. Quintino Bocaiúva não se imiscuiu na propaganda abolicionista
senão depois que estava patente o seu próximo triunfo, e
quando o sr. visconde de S. Salvador de Matosinhos assegurou-lhe um salário
para defender no O Paiz a causa dos cativos.
Até assumir a chefia da redação desse jornal, o
sr. Quintino Bocaiúva não passava de um inimigo dissimulado
do abolicionismo; entendia que esta propaganda era um mergulho no abismo.
Quando comprei o jornal que hoje desonra a memória de Ferreira
de Meneses, o sr. Quintino Bocaiúva lá havia escrito dous
artigos, que eram a negação absoluta do programa que o seu
fundador havia traçado. O chefe do jornalismo não trepidou
profanar as idéias do batalhador recentemente morto.
Escolhido candidato pelo Partido Republicano, para representá-lo
na Assembléia-Geral, em vão interpelei o sr. Quintino Bocaiúva
acerca de suas idéias abolicionistas; tergiversou e dissimulou
no ruído de sua claque a resposta, que devia a mim e aos honrados
chefes do positivismo brasileiro.
Redigindo o Globo da tarde, fundado com os capitais do sr. comendador
Mayrinck, o sr. Quintino Bocaiúva limitou-se a não romper
com o abolicionismo, porém nunca o auxiliou. Não podia proceder
de outro modo; o patrão pagava para defender um banco de crédito
real, tendo por base a hipoteca de escravos, e com garantia do Governo.
Além disso, associado a uma empresa que devia comprar a estrada
de ferro de Cantagalo, dando à província o dinheiro para
comprá-la e mais o juro de 8% — e sendo negreira a assembléia
e a administração da província, o sr. Quintino Bocaiúva
não podia defender os cativos.
Primeiro os seus negócios, depois as suas idéias.
O Globo nasceu e morreu sem nunca ter demonstrado que lá dentro
estava um chefe republicano, isto é, um homem que, tendo por dever
defender a liberdade, a igualdade e a fraternidade, tinha a obrigação
de hipotecar-se por inteiro à causa dos enjeitados da lei.
Estes fatos são de ontem; não podem ser contestados.
Para se ver bem qual era o abolicionismo do sr. Quintino Bocaiúva,
é preciso recordar um fato, passado muito tempo depois de suas
manifestações em prol da confederação.
O Ministério Cotegipe vinha fazer votar o projeto Saraiva, que
era a reação contra as idéias do Ministério
Dantas.
Não podia haver engano quanto às vistas do Gabinete 20
de Agosto: os seus principais ministros tinham sido os sustentáculos
ostensivos do Ministério que se retirava.
O sr. Quintino Bocaiúva, porém, não hesitou em receber
o Gabinete Cotegipe de modo tal que eu vi-me obrigado a refrear-lhe o
entusiasmo pela transcrição do artigo: mais um esquife que
passa.
Durante todo o combate desesperado do abolicionismo ao sr. Cotegipe,
o sr. Quintino Bocaiúva apenas falou em conferências e meetings
umas seis vezes e para fazê-lo era necessário que os abolicionistas
o importunassem com rogativas.
Quanto aos seus artigos, eram o negócio da folha que ele redigia.
Nos últimos tempos os jornais negreiros não faziam carreira,
e demais disso, o sr. visconde de S. Salvador de Matosinhos era abolicionista
e não se jogam as peras com o amo.
Quando o proprietário do jornal libertava, à sua custa,
escravos para que o número de libertos fosse igual ao dos anos
do Imperador, o que havia de fazer o sr. Quintino?
Acresce que o Ministério 20 de Agosto incumbira-se do reclame
d’O Paiz, como abolicionista, e seria rematada parvoice não aproveitar
o propício concurso da cegueira ministerial.
Não é ingratidão contar as cousas como se deram.
Reconheço que O Paiz foi um dos poderosos fatores para o desenlace
de 13 de maio, mas o trabalho abolicionista, propriamente dito, não
era do sr. Quintino Bocaiúva, e sim de Joaquim Nabuco, que chegou
com o prestígio extraordinário da sua eleição
inesperada, e sobretudo de Joaquim Serra, nos seus Tópicos do Dia.
Não foi o sr. Quintino Bocaiúva quem deu orientação
abolicionista ao O Paiz, mas Rui Barbosa que, por ser demasiado colorido,
só se demorou poucos dias à frente da redação.
Confesso que o sr. Quintino Bocaiúva mostrou-se abolicionista
nos dous últimos anos de propaganda, mas contesto que ele se tivesse
preocupado seriamente com a sorte dos escravizados.
A prova deu-a ele na eleição do sr. Ferreira Viana. Quando
a confederação procurava fazer da reeleição
do ex-ministro da Justiça um plebiscito abolicionista, o sr. Quintino
Bocaiúva prestou-se a ser candidato, para recolher 108 votos, sem
se lembrar que deste modo quebrava a unidade, até então
nunca violada, do abolicionismo.
A propaganda abolicionista não precisava do prestígio do
sr. Quintino Bocaiúva; pelo contrário, repartiu com ele
o seu, que era enorme.
Quando o sr. Quintino Bocaiúva se dignou de baixar o seu republicanismo
até a propaganda da abolição, já esta havia
forçado as portas do parlamento e tinha tornado obrigatório
o respeito pelos seus principais representantes.
As conferências e meetings abolicionistas já haviam sido
honrados com a presidência e a palavra dos senadores, deputados
e cidadãos os mais notáveis.
Não precisava do sr. Quintino Bocaiúva, para se impor à
consideração pública, a tribuna em que já
haviam falado Nicolau Moreira, Joaquim Nabuco, José Mariano, Antônio
Pinto, Severino Ribeiro, Ennes de Sousa, Silveira Martins, Rui Barbosa,
Getúlio das Neves, Frontin, Silveira da Mota, Otaviano e Dantas.
Desde o princípio as conferências foram sempre presididas
por homens de grande merecimento e prestígio, e para não
causar extensa nomenclatura lembrarei que elas foram honradas quase sempre
pela presidência de Nicolau Moreira, de Muniz Barreto, o cego, e
do senador Silveira da Mota, quando ainda o sr. Quintino Bocaiúva
não se atrevia a dizer na sua circular se era negreiro ou abolicionista.
Toda a gente sabia, além disso, que estavam conosco e que nos
emprestavam a força moral da solidariedade André Rebouças,
Beaurepaire Rohan, Jaguaribe, José Maria do Amaral, Álvaro
de Oliveira, Benjamin Constant, Acioli de Brito, Monteiro de Azevedo,
Macedo Soares, Muniz de Aragão, toda a flor do talento, do saber
e do caráter nacional.
Para que precisávamos nós de prestígio do sr. Quintino?
Antes que ele houvesse proferido uma palavra sobre o abolicionismo, a
confederação abolicionista havia feito aceitar pelo parlamento
o seu manifesto, e tinha produzido a solenidade comemorativa da libertação
do Ceará, que abalou festivamente toda a população
desta cidade.
O sr. Quintino Bocaiúva não nos trouxe nenhuma força,
foi mais um e nada mais.
Resta-me, por hoje, fazer ressaltar a contradição com que
os períodos de Rangel justificam a atitude da raça negra.
Quer o homem que os serviços do sr. Quintino Bocaiúva prendam
para sempre a gratidão dos ex-escravizados e dos que são
o sangue do sangue das vítimas, ainda agora cobiçadas pela
pirataria Sans-coulotte.
Muito bem. Mas, se ao sr. Quintino Bocaiúva, que recebia ordenado
do sr. visconde de S. Salvador de Matosinhos, para ser abolicionista,
que não arriscou senão a queimadura de uma bicha chinesa,
devem os escravizados tamanha gratidão; o que devem eles à
Princesa, que arriscou o trono para libertá-los?
Se o sr. Quintino deve ser sagrado para os negros, e o tem sido, como
devem eles considerar a Senhora que, ao ter a notícia do grande
movimento revolucionário contra a sua inofensiva personalidade,
exclamou:
Não faz mal; ao menos deixei a minha pátria livre!
Eu sou um ingrato, porque a Guarda Negra, que supõem dirigida
exclusivamente por mim, é gratuitamente responsabilizada pela agressão
ao sr. Quintino Bocaiúva; eu não seria um ingrato se ensinasse
os negros a odiar a princesa!
Para os meus detratores eu devo ter duas qualidades de moral: uma para
adulá-los, outra para aplicar aos que não pertencem ao credo
ensangüentado da república da calúnia e da forca.
O que são mais: parvos ou perversos?
A abolição deve canonizar o sr. Quintino Bocaiúva
e condenar ao exílio ou à pena última Isabel, a Redentora?
E não se lembram de que o bom senso público vai ler o que
eles escrevem e se esquecem de que tudo quanto está impresso será
depoimento perante a história!
Concluindo: devo declarar que não me entristece ver o primeiro
lugar do abolicionismo dado ao sr. Quintino Bocaiúva.
Dos personagens da fábula do imortal La Fontaine A carruagem atolada,
a mosca tinha o primeiro plano, e se não fazia força para
safar o veículo o seu zumbir era ouvido e o seu peso sentido pelas
orelhas das cavalgaduras.
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