Patrocínio:
O isabelismo
Cidade do Rio, 18 de maio de 1889
Previna-se o sr. Silva Jardim, enquanto é
tempo. Eles tirarão de si quanto puderem e em seguida hão
de difamá-lo com o mesmo sangue-frio com que hoje caluniam a [princesa
Isabel] [Patrocínio, José do. Respondo... ].
A profunda consideração que voto à redação
da A Rua obriga-me a acudir pressurosamente em resposta às
argüições, que ela me dirige, a respeito de uma frase
por mim proferida no dia 13 de maio:
"Enquanto houver sangue e honra abolicionistas,
ninguém tocará no trono de Isabel, a Redentora."
Lançada em circulação sem considerações,
que a precederam, semelhante frase, concordo, seria a mais terrível
ameaça à democracia; a justificação prévia
de todos os abusos do poder.
Infelizmente o meu discurso não foi estenografado e é impossível,
hoje, reproduzir integralmente quanto disse.
O meu pensamento, porém, foi acentuar, nos termos os mais precisos,
que a data de 13 de maio era a primeira de uma era nova, para a elaboração
da qual todos tínhamos concorrido: o imperador, a princesa e o
povo; que a essa nova era devia corresponder nova política, para
a qual contávamos com a magnanimidade do imperador, que havia feito
sacrifício maior que o de Abraão, trazendo ao altar da liberdade
pátria em holocausto a sua única e adorada filha; a esta
mulher heróica que estreou-se no Governo do país restituindo
às mães a dignidade materna e educando os príncipes
seus filhos no amor dos infelizes.
Partiam dessas primícias governamentais a nossa veneração
e a nossa esperança por Isabel, a Redentora; confiávamos
que o seu futuro seria a confirmação de seu passado; que
ela seria a imperatriz-opinião; a rainha-fraternidade; exortávamo-la
a perseverar nesse sistema de governar, porque enquanto houvesse honra
e sangue abolicionistas o seu trono seria sagrado.
Inferir-se daí que eu tentei fechar todas as válvulas da
democracia brasileira, que dei o futuro da pátria em hipoteca ao
13 de maio, sem levar em linha de conta o complemento necessário
da nova era nacional, é forçar a lógica para tirar
uma conclusão arbitrária.
O abolicionismo teve sempre um programa. Não discutiu coletivamente
a forma de Governo; ameaçou o trono, ontem, como o condenará
amanhã, se ele for um obstáculo à ultimação
da reforma social, iniciada em 13 de maio.
Não terá a Coroa aliado mais leal, nem mais dedicado, enquanto
se comportar, como até agora, que, ainda malferida pelo combate
à escravidão, se atira à campanha da terra e da
autonomia local.
Para que A Rua possa compreender a coerência da nossa atitude,
é preciso fazer entrar como um dos seus fatores a oposição
já levantada pelo liberalismo e pelo republicanismo ao tópico
da fala do trono relativo à re-organização territorial.
Quem pela fatalidade dos acontecimentos assumiu perante a historia da
democracia da sua terra uma grande responsabilidade não pode ficar
à mercê de rótulos, que escondem a falsificação
das idéias e a depravação dos caracteres.
O que eu não quero é escravizar o meu país a uma
palavra, que é a glória na Suíça, mas que
é a vergonha no Peru, só para não parecer contraditório,
quando, na realidade, sou coerente perante a Ciência Política
sustentando, em nome do meu amor à liberdade, a Monarquia que nos
promete a integridade e o progresso pela democracia rural, e opondo-me
a essa república, também combatida pela A Rua e de
que nos resultará a landocracia a mais audaciosa, e a oligarquia
a mais bestial.
Descanse A Rua; não fui vender-me a Isabel, a Redentora,
no dia 13 de maio; fui apenas reiterar o protesto abolicionista de fidelidade
e solidariedade com a política atual da Coroa, que, disse eu, está
hoje colocada sobre um ideal tão grande, que far-se-ia em estilhaços
se o quisesse comprimir.
|