EF São Paulo - Rio Grande, 1911-1916
A guerra do Contestado
cf. Hugo de Castro
O drama das estradas de ferro no Brasil
LR Editores, [posterior a 1978]
Referências:
Contestado, EF São Paulo - Rio Grande (EFSPRG), José
Niepce da Silva, Paraná, Farquhar (Sindicato, Trust), Afonso
de Camargo, Salvador de Mendonça, Alberto Torres, jornalista
Oswaldo Cabral, Antônio Lúcio, senador Sampaio Correia
([Corrêa?] prof. Escola Politécnica do Rio de Janeiro)
p. 81-89
Deu-se a essa chacina antipatriótica e covarde o nome de
"Guerra do Contestado", que se desenvolou, entre 1912
e 1916, contra simples e inofensivos posseiros, cuja única
ambição era que os deixassem trabalhar e viver.
(...) os motivos que determinaram a tragédia: um contrato
de construção de estrada de ferro desonesto (...).
Uma causa importante motivou o recrudescimento da luta: um erro
grave da Constituição de 1891 (...) que, pelo seu
artigo 64, atribuiu aos Estados a posse das terras devolutas até
então pertencentes à União, possibilitando
a vinte indivíduos (...) tratarem essas terras como coisa
sua, a eles pertinentes e não ao Brasil.
(...) um certo homem público do Paraná, Afonso de
Camargo, que chegou a ser Governador daquele Estado, conseguiu,
impunemente, vender, a preço vil, uma incalculável
riqueza em matas, que não eram suas, enriquecendo chafurdado
no sangue de milhares de brasileiros trucidados por soldados estrangeiros.
Essa façanha foi confessada por Afonso de Camargo, quando
ele era vice-presidente do Estado, num discurso despudorado e mal
redigido que fez no Legislativo Estadual e que está publicado
no Diário da Tarde de Curitiba, de 21/2/1914:
"Eu, que procurava servir aos amigos políticos
nas respectivas localidades, como até hoje não tenho
feito outra coisa, atendendo às indicações
dos diretórios locais, encontrava sempre, da parte da Secretaria
de Obras Públicas, as maiores dificuldades."
Essas "dificuldades" eram a oposição que
o Secretário de Obras, engenheiro José Niepce da Silva,
fazia às negociatas de Afonso de Camargo, presenteado, posteriormente,
já muito rico, com o cargo de presidente do Estado, enquanto
Niepce era afastado para um insignificante cargo em Apucarana, um
longínquo interior.
Numa série de artigos publicados em A Tribuna, de
Curitiba, nos dias 11, 12, 13 e 14 de fevereiro de 1914, o engenheiro
Niepce cita vários casos de vultosos negócios escusos
de terras, consumados apesar de seus pareceres contrários;
conta, também, que quase diariamente comparecia, para defender
os interesses da "Lumber Colonization", os seus, e os
interesses dos "coronéis" amigos, à Secretaria
o vice-presidente Afonso de Camargo.
Depois, foi fácil fazer-se governador.
(...)
Os "coronéis", desavergonhadamente autorizados,
compravam a preço vil as terras (...); e vendiam-nas com
grande lucro a consórcios estrangeiros; a venda direta a
estes também foi realizada em grande escala.
Só no Paraná, até fins de 1914, a Estrada
de Ferro São Paulo - Rio Grande ("Brazil Railway")
demarcou a brincadeira de mais de seis bilhões de metros
quadrados ["metros quadrados"!!!???...]
(248.000 alqueires) de matas adquiridas diretamente do Estado, uma
fortuna preciosa em madeira (...).
(...) a empresa contratante receberia, em ouro, quarenta contos,
setecentos e dez mil-réis por quilômetro construído.
(...) os concessionários receberiam de presente uma faixa
de terra de trinta quilômetros de largura, ao longo da ferrovia,
podendo essa faixa variar de 9 a 21 quilômetros de cada lado
da linha.
A riqueza em madeira nobre dessa larga faixa permitiu à
Lumber montar duas importantes serrarias: uma em Calmon, estação
da São Paulo - Rio Grande, outra em Três Barras, na
margem do rio Negro, divisa do Paraná e de Santa Catarina.
(...)
A serraria de Calmon foi incendiada por sertanejos revoltados que
estavam sendo expulsos de suas "posses"; (...) o mesmo
acontecendo com o edifício da estação, cujo
chefe doi assassinado.
(...)
A serraria de Rio Negro foi, ao tempo, a maior da América
do Sul; diante dela todas as outras pequenas serrarias da região
tiveram de fechar por falta de matéria-prima, pois a Lumber
"comprara" todas as matas vizinhas ao traçado de
sua linha.
Era uma serraria totalmente mecanizada e, mesmo assim, trabalhavam
nela 800 homens.
Para poder exportar toda a madeira que descobrava (...) a Lumber
construiu uma estrada de ferro que ia de Três Barras até
o porto catarinense de São Francisco e vários ramais
provisórios para ir buscar toras nas matas mais distantes.
(...)
Primeiro a Lumber distribuía editais dando prazo aos brasileiros
para que abandonassem suas glebas, pequenos sítios onde trabalhavam,
às vezes hereditariamente, havia mais de cem anos; párias
na própria pátria, alguns afundavam mais no sertão;
outros lutavam.
(...)
E então o Corpo de Segurança da empresa estrangeira
passava a destruir e incendiar os casebres (...).
Não há exagero no que estamos contando; o que há,
e chega a ser misterioso, é a subtração da
verdade que só aparece em livros especializados e raros.
(...)
A situação internacional do Brasil, editado
em Paris, em 1913, escrito por Salvador de Mendonça, Enviado
Extraordinário e Ministro Plenipotenciário do Brasil
nos Estados Unidos e O problema nacional brasileiro, de Alberto
Torres.
Resta citar o magnífico compêndio do professor Maurício
Vinhas de Queirós, Messianismo e conflito social (...).
Salvador de Mendonça denuncia que o Sindicato Farquhar vinha
se apoderando de enormes zonas do Brasil, territórios maiores
do que a Bélgica e a Holanda, além de extensas redes
de estradas de ferro, portos (...).
São de Alberto Torres (pág. 21, obra citada, MEC),
as seguintes palavras:
"Compreende-se que não tivéssemos
consciência da falsa orientação social e econômica
do país, enquanto a realidade se não tinha apresentado
como um fato indiscutível da nossa progressiva e crescente
desnacionalização; enquanto a fome, a miséria,
a superstição se não haviam mostrado como fenômenos
comuns e extensos por vastas regiões do país; enquanto
a verdade flagrante da lenta viória dos colonizadores e comerciantes
estrangeiros, na vagarosa conquista social da fortuna e do bem-estar
não havia progredido até o caso assombroso da quase
instantânea invasão do país por uma organização
financeira, talvez a mais poderosa do mundo: uma ocupação
imperialista por escalada e por assalto, a realização
de um sonho expansionista diante do qual a ambição
de Cecil Rhodes pareceria o inócuo projeto de uma partida
de esporte".
(...)
Essa luta cruel se iniciava em 1911, quando os posseiros que se
mantinham na faixa concedida à São Paulo - Rio Grande
começaram a ser expulsos pelo Corpo de Segurança da
Lumber integrado, na época, por duzentos homens comandados
por um antigo oficial da Força Pública do Paraná.
A respeito dessas expulsões escreveu o jornalista Oswaldo
Cabral:
"O caboclo da região (...). Sobre o
vale do rio do Peixe, em terras devolutas, instalara, aqui e além,
o seu rancho, a sua pequena roça. Vivia rudimentarmente esquecido
no meio do mato. Lembraram-se dele, entretanto, para expulsá-lo
das terras que ocupava. A concessão feita à São
Paulo - Rio Grande, de 15 quilômetros de cada lado da linha,
desalojou os intrusos, posseiros de muitos anos, das terras marginais".
Antônio Lúcio, em tese apresentada em 1952 à
Conferência das Classes Produtoras de Santa Catarina, atribuiu
a essas expulsões a causa principal da revolta daqueles homens
do sertão. Diz ele:
"Nós sabemos como são feitos
os despejos em nosso país. Tudo se resolve com a polícia.
Esta chega e vai deitando fogo aos humildes casebres do elemento
nacional e se este tenta reagir vão massacrando até
suas famílias".
(...) (EFSPRG — Estrada Feita só Para Roubar o Governo —,
na graciosa interpretação que o povo fez de sua sigla),
um emérito professor da Escola Politécnica do Rio
de Janeiro, o senador Sampaio Correia, contou, um dia em aula, o
seguinte:
Convidado para a inauguração do trecho que vai de
Itararé a Ponta Grossa, o presidente Afonso Pena comunicou
que não poderia ir, mas surgiu inesperadamente, cedo, no
dia, em Itararé.
Aquela presença repentina do presidente foi como que uma
pedra num formigueiro.
(...)
Os responsáveis pela construção, uma oitava
maravilha do mundo, confabulavam e corriam como baratas espantadas,
pois temiam observações não elogiosas do presidente.
Acharam, entretanto, uma solução:
Seguraram o velho Afonso Pena em Itararé com Missa em Ação
de Graças, banquete, discursos e outras cerimônias,
até o anoitecer, e a inauguração foi feita
em plena escuridão de uma noite de quarto minguante, com
o carro presidencial ligado à cauda do trem...
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