Barros Fournier, 1924
A mudança da capital

Barros Fournier, in A Pátria, 18 de janeiro de 1924
[cf. AH2:152-154]

Um brilhante vespertino, dos que se publicam nesta cidade, pretendeu fazer crer que é por espírito de vingança que se pretende tornar efetiva a mudança da capital da União, para o planalto central, como taxativamente estatui a Constituição federal, em seu artigo 3º, demonstrando seu maior interesse por tão magno assunto, quando, em seu artigo 34, número 13, atribui privativamente, ao Congresso Nacional — « mudar a capital da União ».

Certo, porém, de que dessa mudança depende o mais rápido surto do Brasil, para a prosperidade, desejo aqui significar que a necessidade da mudança da capital para « uma paragem mais central, mais segura, mais sã e própria a ligar entre si os três grandes vales do Amazonas, do Prata e do S. Francisco », já em 1808 era posta em evidência pelo Correio Braziliense; foi assunto que mereceu cuidadoso interesse dos nossos constituintes de 1822, foi idéia vitoriosa em 24 de fevereiro de 1891 e teve a consagração dessa vitória em Decreto Legislativo nº 4.494, de 18 de janeiro de 1922, muito antes, portanto, do atual período governamental.

Conhecidíssimos são os motivos clássicos pelos quais Londres, Paris, Berlim, Roma, Washington, etc., são capitais de grandes Estados que poderiam tê-las marítimas, mas que preferem tê-las centrais.

Por esses mesmos motivos, é que na capital de um Estado que tem a vastidão territorial, a riqueza e o futuro do Brasil não deve ser marítima.

Em cada Estado, porém, além de outras menos capitais, integram-se a esses motivos universais outras razões de ordem política, de ordem econômica e de ordem moral e, no Brasil, as razões dessas três ordens são tão poderosamente predominantes que não escapam, sem dúvida, a qualquer inteligência despida da parcialidade e de interesses outros, que não sejam os da felicidade nacional.

Foi politicamente falando que disse João do Rio, "o sonhador do Brasil maior": « A vontade que nos ligará ao solo, fazendo com que deixemos o entusiasmo de beira de praia à espera do transatlântico portador das idéias e da voracidade do estrangeiro, o divino egoismo que nos forçará a erguer ao nível das grandes potências os 8 milhões e meio de quilômetros de nossa superfície, requer a permanente noção do nosso fim patriótico, a obrigação generalizada de fazer a pátria grande, e defendê-la como nos defendemos a nós mesmos. É possível fazer o Brasil enorme. Temos exemplos diante dos olhos: a Norte-América que se fez em 100 anos, a Alemanha que se tornou formidável em menos de metade desse tempo ».

E o Brasil cuja evolução, somente com os recursos do litoral e o concurso estrangeiro, se vem patenteando dia a dia, quando quiser recorrer aos formidáveis tesouros de seu hinterland terá, dentro de 50 anos, conquistado a situação de prosperidade que o imporá ao respeito de quem atualmente o considera "pedinte".

A mudança da capital da União para o planalto central será o início desse Brasil novo e maior, porque restringirá as distâncias que dão lugar à existência de "Estados longínquos", e essa restrição evitará o esquecimento, o abandono e o desprezo em que eles são vistos agora, elevando o espírito de coesão e da forte solidariedade que argamassará, irredutivelmente, a integridade nacional.

Não devemos, pois, abordar essa questão, aliás já vencida, quer como cariocas, quer como mineiros, paulistas, pernambucanos ou gaúchos, mas como brasileiros, inspirados daquele divino egoísmo ao qual se refere João do Rio, porque não é de tão desprezível alcance político prevenir veleidades separatistas que, de quando em quando, sussurram por aí além envoltas em aparentes interesses patrióticos regionais.

Ligada a futura capital, por estradas de ferro, a Belém, a Cuiabá, a S. Salvador e ao Rio de Janeiro, como me proponho fazê-lo, dentro de dez anos, sem que seja preciso tirar-se um real dos cofres públicos, como demonstrarei publicamente, quando for preciso, e sem que seja preciso penhorar-se tudo quanto por ali possuímos e venhamos a possuir, a quem quer que seja; ligada por estradas de ferro, dizíamos, facultará o aproveitamento de milhões de braços que andam atualmente quase inativos e disseminados através tão grandes tratos dos mais extraordinários ricos, dos mais fabulosamente férteis, dos mais evidentemente promissores de todo o nosso enorme território.

Isso entende com as razões econômicas e abrange razões políticas e razões morais, porque aqueles braços são desse "Jeca Tatu", formidável no trabalho que encontra, amigo do torrão que o viu nascer e devotado à família até a morte que, para ele, não é lá grande coisa. E essa entidade de chacota, que tanto tem concorrido para enriquecer particulares, — que não morre, porque não vive e não chora, porque não sabe — pode tornar-se melhor, quando se lhe ofereçam possibilidades de elevar-se a si próprio, mediante a extraordinária capacidade de assimilação que tem latente, para concorrer para o engrandecimento do Brasil inteiro.

Não fica, porém, aí, somente, o que entende com a moral, porque cumprir-se o que estatui o pacto político fundamental de um povo, é mostrar-se que esse povo sabe respeitar-se a si próprio e, por isso mesmo, digno é do respeito da comunhão internacional.

Assim, pois, não é de crer que o povo carioca pense em sacrificar o Brasil inteiro a mesquinhas questões de mal fundada vaidade, porque grande o Brasil, maior será o Rio de Janeiro e, assim como Nova York nada perdeu com o advento de Washington, esta bela e heróica Sebastianópolis nada perderá com o advento da cidade Redentora. Ao contrário, o atual Distrito Federal só terá de lucrar, porque passará a ser autônomo como qualquer outro Estado da União, terá sua política e seus negócios mais desembaraçados e esta grande cidade, em sua situação privilegiadíssima, deixará de ser a capital do Brasil, mas para ser, dentro de alguns lustros, a metrópole da América do Sul.

Rio, janeiro de 1924. — Barros Fournier, Tte. Cel.

   

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Referências

Brasília nos planos ferroviários (DF)
Ferrovias concedidas do plano de 1890 | EF Tocantins | Cia. Mogiana | Ferrovia Angra-Catalão | EF Goiás | Ferrovia Santos - Brasília
O prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil | A ferrovia da Cia. Paulista | Ferrovias para o Planalto Central | Documentação
A idéia mudancista | Hipólito | Bonifácio | Independência | Império | Varnhagen | República | Cruls | Café-com-leite | Marcha para oeste | Constitucionalismo | Mineiros | Goianos | Projetos de Brasil | Ferrovias para o Planalto Central
 
  
    
 
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