Goiás (e Tocantins) antes de Brasília

Flavio R. Cavalcanti - 16 Mar. 2016
Capa da revista "Brasília" nº 27, de Março de 1959

O depoimento do Prof. Boaventura Ribeiro da Cunha, publicado na revista brasília nº 27 (Mar. 1959), percorre várias décadas da vida de Goiás e do atual estado de Tocantins, — como também da vida brasileira.

“Transbrasiliana”, em sua memória, ainda não era a Belém-Brasília sonhada por Bernardo Sayão, mas o projeto lançado na primeira década do século XX por Paulo de Frontin, de estender a ferrovia Central do Brasil até o Planalto e à Amazônia.

A Transbrasiliana, por exemplo, diziam ser uma futura estrada de ferro que deveria ligar o Norte ao Sul, passando pelo sertão de Goiás.

Na década de 1920, assistiu à passagem da Coluna Prestes em Porto Nacional.

Depois de 1934 [1924] uma coluna revolucionária comandada pelo general Miguel Costa, Carlos Prestes, Juarez Távora e Carlos Alberto [João Alberto], percorreu o Estado de Goiás de Sul a Norte passando por Porto Nacional.

Na década de 1930, voltou à região com um desafio do novo Ministério da Educação:

Certa noite, quando lecionava no Colégio Pedro II, recebi um telefonema do Ministério da Educação: "O senhor que tanto fala em mudança da Capital, em educação de sertanejo e de índios do oeste, está disposto a ir instalar 300 cursos de Educação de Adultos em todo o Estado de Goiás, a sede da futura Capital Federal?"

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(...) Como sertanejo do Oeste, filho da mesopotâmia Tocantins-Araguaia, passei minha infância a percorrer aquelas regiões ínvias do coração do Brasil, ao lado desses inimitáveis pioneiros da fé e da civilização, os missionários dominicanos, cujas escolas e conventos, instalados na antiga capital de Goiás, Formosa, Porto Nacional, Conceição do Araguaia e Marabá, muito concorreram para o progresso daquelas paragens.

Os meios de transporte eram as canoas pelos rios navegáveis e os muares, através das picadas terrestres. Em uma daquelas viagens viemos de Porto Nacional, Palma, Catalão, Araguari, Uberabinha, hoje Uberlândia para atingir Uberaba, onde deveria continuar os estudos na Escola Apostólica Dominicana. Foi então que passamos pelo planalto onde me disse Frei Francisco Bigorre: "Aqui meu filho, será construída, mais tarde, a Capital Federal; esse marco representa o ponto escolhido para o futuro Distrito Federal" (...).

Mas, perguntei eu, quem construirá nesse sertão bruto, esta cidade? — (...) um homem da têmpera de Couto de Magalhães, que para fazer a navegação do Araguaia teve de transportar um vapor desmontado, carregá-lo em carros de bois. À noite, como sempre deitado no chão, perto da enorme lareira fiquei a meditar na minha medíocre inteligência de menino sertanejo: como seria possível construir-se ali uma cidade?... No dia seguinte prosseguimos viagem para Uberaba para dois anos depois regressar a Goiás e mais uma vez dormir perto de Campinas, numa outra vasta planície, futura Goiânia, capital do Estado de Goiás, embora totalmente ignorada dos seus futuros escolhedores. Em Goiás [capital] encontrei uma juventude entusiasta procurando reviver o sonho de Couto de Magalhães que desde a guerra do Paraguai profetizara e propusera a mudança da capital do Estado para as margens do Araguaia (...); mas os antigos "coronéis", os grandes fazendeiros e políticos profissionais não admitiam sequer que se referisse à tal mudança.

Passados dois anos em Goiás tive ordem de viajar para Porto Nacional, onde se fundara um pequeno seminário. Da capital do Estado até o extremo norte, o único centro de estudo secundário era aquela modesta escola dos Frades Dominicanos de Porto Nacional, onde eu iria ser aluno e professor; médico havia apenas um, também em Porto Nacional, o Dr. Chiquinho Aires; centros de saúde, hospital, correios e telégrafos, estradas de ferro e de rodagem, tudo isso eram cousas imaginárias que só se conhecia e sabia existirem, alhures através dos livros de leitura. A Transbrasiliana, por exemplo, diziam ser uma futura estrada de ferro que deveria ligar o Norte ao Sul, passando pelo sertão de Goiás. Depois de 1934 [1924] uma coluna revolucionária comandada pelo general Miguel Costa, Carlos Prestes, Juarez Távora e Carlos Alberto [João Alberto], percorreu o Estado de Goiás de Sul a Norte passando por Porto Nacional, de onde fugiu espavorida toda a população e onde fiquei com alguns estudantes e dois frades para recebermos aqueles hóspedes: não houve distúrbios na cidade, apenas as enormes correntes de ferro da cadeia pública foram atiradas às águas do Tocantins; regressada toda a população à cidade os revolucionários prometeram-lhe em praça pública a mudança das capitais do Estado e do Brasil visando à melhoria daquela gente esquecida. E o povo cheio de novas promessas continuou a esperar.

Vitoriosa a revolução de 1930, foi nomeado interventor em Goiás o jovem médico Dr. Pedro Ludovico, um dos maiores sonhadores com a mudança da Capital do Estado; convidou o engenheiro Coimbra Bueno, mandou fazer a planta e executá-la; escolheu não a margem do Araguaia, mas uma campina mais próxima do Rio [de Janeiro] e preparou-se para a mudança inacreditável até então. Mandou construir um palacete de dois andares, pintá-lo de verde e denominou-o de Palácio das Esmeraldas; na mesma praça, por medida de segurança ergueu a chefatura de polícia, e as secretarrias de Estado, Correios e Telégrafos, não marcou data para a mudança, mas executou-a antes que se esperasse, dizendo: "Eu sou o Governador; quem me acompanhar, governará comigo, terá terreno para a construção de sua casa própria em prestações módicas"; e assim, num golpe de audácia e quase de aventura, surgiu uma nova cidade para o Brasil (...).

(...) em 1936, eu então já me achava como professor em Belém e resolvi rever o meu sertão; saindo pelo leste para voltar pelo oeste, passando pelas capitais da costa, prosseguindo pelo Rio, S. Paulo, Minas, Goiás, indo direito à velha capital, onde disseram: "mataram nossa velha capital, enterraram-nos vivos depois de cem anos de existência"; todavia, eu me lembrava daquela campina onde dormira anos atrás e sabia que nascera uma cidade. Os políticos profissionais do Estado praguejavam e diziam que aquela criança haveria de morrer no nascedouro; no entanto, não morrera e a sua velha mãe, minha saudosa Goiás, com alguns anos após passou a ter água encanada (...).

Fui ao Araguaia; desci de canoa a remo até Conceição e Marabá de onde, em barco-motor, rumei para Belém (...); ali permaneci de 1927 a 1937; mas, eu não era um bom político, como ainda não sou, pois sempre advertia os governos estaduais e federal, sobre fatos atinentes ao sertão: escolas, postos de saúde, proteção aos índios, e isto nem sempre agradava.

Em 1938 vim fixar residência no Rio, de onde prossegui no mesmo roteiro através de livros, conferências, entrevistas e palestras (...).

Certa noite, quando lecionava no Colégio Pedro II, recebi um telefonema do Ministério da Educação: "O senhor que tanto fala em mudança da Capital, em educação de sertanejo e de índios do oeste, está disposto a ir instalar 300 cursos de Educação de Adultos em todo o Estado de Goiás, a sede da futura Capital Federal?" Pensei que fosse um trote, mas quem falava era o professor Lourenço Filho. Pois não, respondi-lhe. Quando devo embarcar? Depois de amanhã. No dia seguinte, entre o professor Lourenço Filho, o Dr. Clemente Mariante e o Dr. Coimbra Bueno, então Governador de Goiás, tratou-se do meu embarque. Dois dias depois estava em Goiânia, de onde, em um teco-teco, rumava para o extremo norte percorrendo todo o Estado, e de avião, a cavalo, a pé, em canoa, para no fim de vinte e seis dias, ver instalados não 300, mas 380 cursos de Educação de Adultos (...).

(...) O jovem sertanejo que por ali passou outrora continuou a fazer suas loucuras; mas atingiu os quarenta anos e chegou à conclusão de que: problemas de menores abandonados, secas do nordeste, educação de índios, educação de adultos, mudança da capital, para o Governo não passava de novelas, cujos autores, pelas leis faziam chorar e sorrir os ouvintes, mas, na realidade, não passavam de recursos teatrais (...).

Daí achar que, dos salões de ar condicionado, do palácio do Catete, ninguém poderia sair para despertar um gigante adormecido há 4 séculos entre a montanha e o mar.

Quando aqui a febre imobiliária se queixasse dos quarenta graus de calor à sombra, bastava mandar deglutir mais uma praia, como já foram a do Caju, a das Virtudes e agora a do Flamengo, conservando-se a de Copacabana, nada mais é necessário, visto que a Capital Federal começa depois desse magnífico Túnel Novo.

Além disso, para que plantar e para que criar se hoje da Argentina, da América do Norte nos vem o trigo (...); para que criar galinhas, se durante a guerra comemos aves da Argentina e temos leite em pó que nos vem dos Estados Unidos?

(...)

Fui ao escritório da Novacap; ali não encontrei um dos meus ex-alunos e escoteiros, o deputado Epílogo de Campos, mas encontrei o prólogo de minha crença no Governo, já mumificada por tantas decepções; esse prólogo foi o Dr. José Faria, assistente do Dr. Israel Pinheiro; ele nos recebeu prontamente e para mostrar que estávamos apenas abrindo o livro da história da nova cidade, mandou chamar o professor Nonato Silva, que nos presenteou com uma coleção completa da revista "brasília". Revista magnífica, em forma e conteúdo; apenas com um defeito à vista; o título, com letras minúsculas (...).

À noite, na biblioteca do meu modesto Instituto Brasilíndio, entre livros e cocares, entre imagens e recordações, eu vi, através de documentos, fotografias, relatórios, comentários, visitas e plantas de construções gigantescas, elevando-se por entre o mato raso, por onde outrora cavalguei, surgir uma cidade ciclópica, um oásis de civilização naquele deserto imenso, rico, fértil, mas esquecido pelo Brasil supercivilizado.

(...)

Livros sobre Brasília
Plano Piloto de Brasília | Nas asas de Brasília | História de Brasília | A mudança da capital
No tempo da GEB (O outro lado da utopia) | Brasília: a construção da nacionalidade
Brasil, Brasília e os brasileiros | Brasília: Memória da construção
A questão da capital: marítima ou no interior? | revista brasília
JK: Memorial do Exílio | Quanto custou Brasília
Brasília: história de uma ideia | Brasília: antecedentes históricos
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