Rebouças:
Programa de evolução
para depois de 13 de Maio
Verissimo, Ignacio José. André Rebouças através
de sua autobiografia.
Livraria José Olímpio Editora, Rio de Janeiro, 1939
« Entre os muitos abolicionistas, André Rebouças
é um dos raros que não se contentou com a vitória
alcançada. (...)
Agora o preocupam os problemas da economia agrária; as questões
de política imigratória, da pequena propriedade, o combate
ao latifúndio e o aproveitamento do braço disperso pela
emancipação. Estabelece então para a Confederação
Abolicionista o Programa de Evolução para depois de 13
de Maio, onde inclui todas as idéias já espalhadas em
diversos artigos, em cartas a amigos, em conferências, etc.
Diz esse documento:
I - Assegurar a todos os residentes no Brasil a mais
ampla liberdade de consciência. Promover a decretação,
em Assembléia Constituinte do Império do Brasil, que os
assuntos religiosos são superiores a qualquer poder humano, que
nem mesmo as duas casas do Parlamento reunidas em assembléia
geral poderão pôr em discussão matéria concernente
a religião.
II - Cumprir escrupulosamente o sacrossanto legado da
Confederação Abolicionista impedindo a reescravização
da raça africana; assegurando a sua libertação
pela independência e pelo bem-estar; promovendo a educação
e a instrução dos libertos; facilitando-lhes a aquisição
da propriedade da terra em que trabalham, constituindo-os lavradores
proprietários.
III - Decretar o sufrágio universal para todos
os cidadãos, só excluindo os analfabetos e os sentenciados.
IV - Promover a nacionalização
do solo pelo Imposto Territorial e pela liberdade de comércio
de terra. Facilitar a todos os nacionais e imigrantes a aquisição
de um lote de terra com propriedade garantida pelo sistema Torrens;
com apólice transmissível por endosso e livre
de litígios, demandas e complicações judiciárias
pela segurança do Registro do Cadastro Nacional.
V - Propagar a autonomia municipal, confiando às
municipalidades todos os serviços de higiene e de bem-estar das
populações urbanas, notoriamente Assistência Pública,
Escolas Maternais (Kinder Gartens), Escolas Primárias e Liceu
de Artes e Ofícios, Abastecimento de Água, Esgotos e Drainagem
Urbana Conservação de Jardins, Parques e Florestas,
Viação Urbana e Tramways Iluminação
Hospitais Asilos Banhos Públicos Lavanderias Cemitérios
e Fornos de cremação Casas de Alimentação
para Operários Armazéns Cooperativas, etc. etc.
VI - Promover a decretação, em Assembléia
Constituinte, da autonomia provincial.
VII - Propagar a democratização dos impostos
Abolição progressiva dos impostos diretos sobre a venda
e sobre a superfície de terra ocupada.
IX - Propagar a liberdade de comércio e a abolição
de todos os direitos protecionistas, a liberdade de indústria,
a liberdade bancária, a liberdade de trabalho mental.
X - Estabelecer a decisão por arbitragem para
todos os conflitos internacionais.
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Referências
-
Diário e Notas autobiográficas
- André Rebouças - Seleção e anotações:
Veríssimo, Ana Flora e Inácio José - Livraria
José Olímpio Editora, Rio de Janeiro, 1938
-
André Rebouças através
de sua autobiografia - Verissimo, Tte. Cel. Ignacio José
- Livraria José Olímpio Editora, Rio de Janeiro,
1939
-
André Rebouças - José
Louzeiro - Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1968
-
Agricultura Nacional: estudos econômicos.
Propaganda abolicionista e democrática - Setembro
de 1874 a Setembro de 1883 - André Rebouças -
A. J. Lamoureux & Co., Rio de Janeiro, 1883 - 2ª edição
fac-similar - Fundação
Joaquim Nabuco / Editora Massangana, Recife, 1988
-
O quinto século - André Rebouças
e a construção do Brasil - Maria Alice Rezende
de Carvalho - Editora
Revan: Iuperj-Ucam, Rio de Janeiro, 1998
A conferir
-
André Rebouças - Reforma
& utopia no contexto do Segundo Império - Jucá,
Joselice. Construtora Norberto Odebrecht, 2001
-
Da abolição da escravatura
à abolição da miséria - Pessanha,
Andréa Santos. Quartet,
2005
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Paralelamente a esse programa, o vemos numa série de novos trabalhos
inspirados nas mesmas idéias:
"Assino com Taunay e Wenceslau Guimarães a moção
aos fundadores do Banco de Imigração e sobre a divisão
das fazendas e localização dos imigrantes proprietários".
"Recomendo ao presidente de Goiás, Elísio
Firmo Martins, a pequena propriedade".
"No Cidade do Rio, recomendando a Manoel Pinto
Peixoto, organizador da guarda Negra, a evitar a violência, a constituir
sociedades e clubes para a educação, instrução
e aperfeiçoamento da raça negra".
(...)
"Redijo, com o amigo Taunay, um ofício de congratulações
ao deputado Delfino Cintra, que apresentou à Assembléia Provincial
de São Paulo um projeto de lei a favor da pequena propriedade".
"Preparo elementos sobre uma Nota sobre Imposto
Territorial e Cadastro Municipal".
"O Jornal do Comércio publica a Ata da
Sociedade Central de Imigração com a minha Nota sobre Hospedarias
de Imigrantes veemente libelo contra o monopólio territorial".
"Converso com o Imperador sobre a abolição
do latifúndio complemento indispensável da abolição
do escravo".
"Converso com o Imperador sobre as vantagens
da Lei Torrens,
Registro da Propriedade Territorial e extinção dos litígios
de terras".
"Dou ao amigo Taunay o trabalho terminado ontem sobre
Imposto Territorial".
"Escrevo para o Cidade do Rio algumas Notas
sobre a elevação do negro pela propriedade territorial único
meio de impedir sua reescravização".
"O Cidade do Rio publica sob a rubrica Solidariedade
de Abolicionista as declarações de J. Clapp, J. Nabuco e
André Rebouças contra os escravocratas republicanizantes".
"Conversando com o Imperador sobre o artigo escrito
hoje pela manhã na propaganda da Democracia Rural e aproveitamento
das fazendas dos conventos".
"Na Sociedade Central de Imigração redigindo
uma reclamação ao ministro da Justiça contra o emprego
de força armada nos conflitos entre imigrantes e fazendeiros".
"Na Sociedade Central de Imigração com
os amigos Taunay e Zozimo Barroso trabalhando na subdivisão das fazendas
hipotecadas aos bancos do Brasil e Predial".
"Trabalhando em um projeto de Cadastro e Estatística
Rural dos Núcleos Imigrantistas e Colônias Emancipadas".
"Redijo para a Revista de Engenharia o capítulo
VI e VII do Imposto Territorial e Elementos para o Cadastro Nacional".
"Na Confederação Abolicionista em conferência
com J. Clapp e José do Patrocínio sobre a reação
escravocrata atual dirigida pela oligarquia do Senado" [Referia-se
à eleição, para presidente do Senado, de Paulino José
de Souza].
(...)
"Redijo, a pedido do amigo J. A. Santos, a cláusula
de imigração para o contrato do C. F. do Rio Grande ao Paraná
e a São Paulo".
"Na Confederação Abolicionista providenciaqndo
em favor dos libertos de Guareí" [100
libertos haviam ocupado certo terreno numa fazenda no município de
Guareí. À requisição do juiz de direito, seguram
forças policiais para executar o despejo desses libertos. Houve luta
e duas mortes entre os ocupantes].
"Redijo, para a Sociedade Central de Imigração,
o artigo Homestead, a propósito da bárbara evicção
dos libertos de Guareí".
(...)
"Esboço um projeto de Cadastro do território
brasileiro pelas escrituras dos tabeliães e declarações
dos proprietários".
"Redijo um ofício da Sociedade Central de Imigração
ao ministro da Agricultura sobre colonização das fazendas das
ordens religiosas".
"Preparo os modelos dos títulos de propriedade
territorial provisórios e definitivos para os imigrantes".
"Faço cálculos para a divisão,
em lotes, para imigrantes e colonos nacionais, das fazendas hipotecadas aos
bancos".
"A Gazeta de Notícias publica o ofício
que redigi, em nome da Sociedade Central de Imigração, sobre
Pequena propriedade tarifas de estradas de ferro, e que foi dirigido ao
ministro da Agricultura".
"Redijo para o barão de Parnapiacaba um projeto
de lei para o Cadastro e Imposto Territorial".
"Tiro cópia, para o imperador, do Projeto de
Aditivo à Lei de Orçamento de 1890, mandando encetar o Cadastro
do Território Nacional".
A Democracia Rural era já uma velha preocupação sua. Todas
as sugestões para resolver o problema econômico das populações
atingidas pelas secas do Nordeste, feitas em 1877, têm para base a pequena
propriedade, a organização do trabalho do homem do campo, a facilidade
de suas comunicações, a colocação de seus produtos,
a melhoria de sua instrução geral e técnica, de sua higiene,
etc.
"Será fácil adquirir, por preços
insignificantes, boas terras situadas ao longo das vias de comunicações,
subdividi-las em lotes e distribuí-las pelas famílias dos imigrantes,
dando-lhes instrumentos agrícolas e sementes, exatamente como faz o
governo imperial com os colonos estrangeiros.
"Vede pois que chegamos assim ao grande desideratum da
Colonização Nacional, com a subdivisão do solo, pequena
propriedade, cultura intensiva, estabulação, e com todos os
benefícios que os socionistas resumem nas sublimes palavras Democracia
Rural.
"Simultaneamente se irão estabelecendo as bases
de operação para reconquistar o sertão em um futuro próximo,
com rios açudados e canalisados, com vastíssimos e inúmeros
açudes, com exuberante arboricultura, com vias férreas econômicas
e plank roads, com poços indianos e artesianos, com cisternas
venezianas, com todos os meios, enfim, que a arte do engenheiro sugerir para
a riqueza e prosperidade da vastíssima região situada entre
o Parnaíba e o São Francisco". »