Rebouças:
A última Fala do Trono
Carvalho, Maria Alice Rezende de. O quinto século - André
Rebouças e a construção do Brasil. - Revan:
Iuperj-Ucam, Rio de Janeiro, 1998
« (...) no início dos anos 80 a discussão
sobre a imigração incorporaria um quadro analítico
mais sofisticado, derivado da experiência norte-americana
de atração de colonos para as terras do "último
Oeste", após a Guerra de Secessão. Portanto,
o documento de lançamento da Sociedade
Central de Imigração resumia, em um certo sentido,
a trajetória da reflexão brasileira sobre a questão
agrária, cujos passos compreendiam uma legislação
aprovada pelos Saquaremas — a Lei
de Terras de 1850 —, a crítica que Tavares
Bastos fizera a ela e, afinal, a contribuição
de Rebouças, retomando, em muitos aspectos, a obra do seu
antecessor e enfatizando a legislação derivada do
esforço de reconstrução
nacional empreendido pelos EUA.
Assim, no decorrer da campanha abolicionista, notadamente em seu momento
menos emocional e panfletário, Rebouças associaria a miséria
brasileira à vigência, por três séculos, do
estatuto colonial da terra e esboçaria uma superação
das condições de vida dos trabalhadores nacionais e estrangeiros,
isto é, de emancipados e colonos, mediante a instituição
de uma nova lei agrária. Nesse sentido, pode-se dizer que progressivamente
as preocupações de Rebouças evoluíram de um
diagnóstico referido aos malefícios sociais produzidos pela
escravidão na direção da caracterização
dos impasses à construção da autonomia do homem comum,
em um contexto de monopólio da terra. Sua perspectiva seria dominada,
doravante, pelo tema da emancipação social.
[ Após a Abolição
]
Para Rebouças, contudo, a questão da emancipação
do trabalho estava apenas iniciando. A substância da sua luta pela
"democracia rural brasileira" consistia na promoção
da iniciativa e da liberdade individuais pela extinção de
monopólio da terra — esse, o tema constante dos seus encontros
com D. Pedro II no período compreendido entre a abolição
da escravidão e a queda da monarquia, em "passeios higiênicos"
diários, ao final da tarde na estação ferroviária
de Petrópolis. A Rebouças ainda seriam conferidas algumas
missões — dentre elas, os termos da negociação entre
o Brasil e a Argentina a propósito de suas fronteiras e a redação
de um projeto completo de recadastramento das terras nacionais —, no desempenho
das quais o imperador passara a ter no engenheiro o seu confidente e auxiliar
mais próximo.
A conjuntura política, entretanto, se adensara desde a
votação da lei de 13 de maio. Os senhores, agora
tornados patrões, investiam contra os trabalhadores recém-libertos,
expulsando-os de suas propriedades. A Sociedade Central de Imigração
protestava, mas apenas contribuía, com os seus protestos,
para que o clima de tensão se espraiasse por todo o Império.
No Diário de Rebouças
encontra-se o seguinte texto, provavelmente uma minuta de uma
das atas daquela entidade: "O sr. André Rebouças,
tomando a palavra, expôs o caso da expulsão pela
força, a tiros e bala, de muitos libertos estabelecidos
em acanhadas roças na Fazenda de Capela Velha, junto de
Guarehy, província de São Paulo, quando, entretanto,
o longuíssimo prazo de 50 anos que eles aí haviam
residido e se mantido a poder da pequena cultura, deveria ter-lhes
garantido o direito à posse de algumas nesgas do imenso
solo brasileiro. Semelhantes cenas seriam impossíveis nos
Estados Unidos, pois a lei santa e humanitária do Homestead
estende a sua proteção sobre os pobres e fracos,
não podendo a prepotência dos ricos e poderosos expulsá-los
da casinha e do cantinho de terra necessários ao seu abrigo
e à sua nutrição. Resolveu a diretoria [da
Sociedade Central de Imigração] oficiar ao
sr. ministro da Justiça sobre esse doloroso fato que entrega
à vagabundagem e ao crime muitos cidadãos ocupados
até agora no moralizador cultivo da terra" [O
Homestead Act,
a que Rebouças faz menção, foi adotado nos
Estados Unidos em 1862, mediante o qual eram garantidos 160 acres
(65 hectares) a qualquer pessoa apta a ocupar e cultivar a terra
por cinco anos. De acordo com a concepção que norteou
a formulação do Homestead Act, dado que os domínios
públicos pertencem ao povo, cada chefe de família
deveria ter direito a um lar e a um pedaço de terra, garantidos
contra tudo, inclusive contra dívidas contraídas].
Mas o caso desses trabalhadores de São Paulo seria apenas um exemplo
da violência rural que ameaçou a paz social no país,
levando a que, entre 1888 e 1889, a luta de André Rebouças
contra o "fazendeirismo escravocrata e republicanizante" se
tornasse mais intensa. Desde março de 1889 Rebouças passara
a se dedicar à elaboração de um censo rural, considerando-o
o primeiro passo para a divisão e venda de lotes acessíveis
a imigrantes e brasileiros pobres, amparados por um sistema de crédito
especial, concebido para essa finalidade. A "Fala do Trono"
naquele ano, proferida pelo imperador em 3 de maio de 1889, viera marcada
pela discussão do tema agrário, abordando aspectos como
a divisão da terra, a pequena propriedade, o imigrante proprietário,
a democracia rural, entre outros. E, em julho, Rebouças provocaria
o então chefe de Gabinete, visconde de Ouro Preto, que assumira
também o Ministério das Finanças, acusando-o de "[...]
omniosa derrama de dinheiro que está fazendo o presidente
do Conselho, visconde de Ouro Preto, para comprar votos dos fazendeiros
e comissários do café". Porém o que talvez
demonstre, não apenas o prestígio de Rebouças junto
ao imperador, mas também a imprevisibilidade do golpe republicano,
malgrado o clima de tensão promovido pelos fazendeiros, foi a autorização
pessoal de D. Pedro II para que Rebouças preparasse um aditivo
à Lei de Orçamento de 1890, prevendo a cobertura dos gastos
a serem efetuados com o censo rural, então chamado "Cadastro
do Território Nacional", e a regularização das
terras do Império, a que o engenheiro vinha dedicando todo o seu
tempo, um mês antes da queda da monarquia.
Portanto, ao tempo em que Rebouças preparava as condições
para a vigência de um tempo de reformas em prol da "democracia
rural brasileira", todas as demonstrações de insatisfação
procedentes, principalmente, de São Paulo e Minas Gerais eram por
ele consideradas "atos de inconformismo daqueles que perderam os
seus escravos" ou "eventos patrocinados pela conspiração
militar dos republicanistas escravocratas de Benjamin Constant",
como se a sua percepção da crise do Império não
atinasse com o descontentamento dos fazendeiros com a forma pela
qual o governo vinha encaminhando — ou pensava encaminhar — a questão
da terra. As perdas sofridas pelos plantadores com a abolição
do trabalho escravo não os afetavam tanto quanto o que supunham
resultar de uma diminuição da sua base de poder econômico
e prestígio político, o que explica a facilidade com
que aderiram ao golpe militar de 15 de novembro.
Ao que parece, a continuidade do regime monárquico, naquele contexto,
levaria o imperador a assumir
as reformas propugnadas por Rebouças. Muitos dos temas apresentados
e discutidos pelo engenheiro na Sociedade
Central de Imigração, entidade que acabou reunindo o
núcleo dos reformadores pós-abolicionistas, haviam passado,
antes, pelo crivo de D. Pedro II, nos já mencionados "passeios
higiênicos" a que se entregavam em Petrópolis. Questões
como taxação das terras improdutivas, registro de propriedade
e abolição do latifúndio foram consideradas "por
ambos" como "um indispensável complemento para a abolição
da escravidão". Pedro II passara, inclusive, a freqüentar
as reuniões da sociedade e tomava parte nas discussões em
que se comentavam "os horrores da imigração para as
fazendas dos landlords que ufanam-se de terem atrozmente lançado
os africanos na estrada", ou naquelas em que se condenava "o
que ele [o imperador] chamava de
'refratários' " ».
SilvaHélio1889:90
[dúvida, se Deodoro
teria exclamado "Viva o Imperador" ou "Viva a República"]
Pelo relato dos contemporâneos, neste Brasil, descoberto
por engano, a República foi proclamada por equívoco...
Generalizara-se a crença de que o Império
estava no seu ocaso. (...) Pedro II, naqueles dias duvidosos, interpelara
Saraiva sobre as possibilidades da ascensão ao trono da princesa
Isabel. O parlamentar baiano respondeu com espírito e verdade,
aplicando o texto evangélico à bondade da princesa:
— "O reino de Sua Alteza não é o deste
mundo..."
|
|
Referências
-
Diário e Notas autobiográficas
- André Rebouças - Seleção e anotações:
Veríssimo, Ana Flora e Inácio José - Livraria
José Olímpio Editora, Rio de Janeiro, 1938
-
André Rebouças através
de sua autobiografia - Verissimo, Tte. Cel. Ignacio José
- Livraria José Olímpio Editora, Rio de Janeiro,
1939
-
André Rebouças - José
Louzeiro - Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1968
-
Agricultura Nacional: estudos econômicos.
Propaganda abolicionista e democrática - Setembro
de 1874 a Setembro de 1883 - André Rebouças -
A. J. Lamoureux & Co., Rio de Janeiro, 1883 - 2ª edição
fac-similar - Fundação
Joaquim Nabuco / Editora Massangana, Recife, 1988
-
O quinto século - André Rebouças
e a construção do Brasil - Maria Alice Rezende
de Carvalho - Editora
Revan: Iuperj-Ucam, Rio de Janeiro, 1998
A conferir
-
André Rebouças - Reforma
& utopia no contexto do Segundo Império - Jucá,
Joselice. Construtora Norberto Odebrecht, 2001
-
Da abolição da escravatura
à abolição da miséria - Pessanha,
Andréa Santos. Quartet,
2005
|
|