Rebouças:
Terra e ferrovias
Diário e Notas autobiográficas - André Rebouças
[ Exílio: África: carta a
António Machado ]
« 10 de Agosto de 1894
Meu querido Amigo
Estudei, com a devida atenção, os interessantes documentos
do Caminho de Ferro do Vouga. — Todo o trabalho técnico parece-me
feito segundo os clássicos moldes do Corpo de Pontes e Calçadas
da França.
Só tenho, pois, a tratar da questão territorial, isto é,
dos elementos de prosperidade desse caminho de ferro e do seu prolongamento
que, avançando para leste, há de penetrar em terras da Espanha.
À página 10 vem: — "Il faut espérer que le
chemin de fer augmentera cette production, attendu que la surface des
communes est en grande partie inclulte".
Ora, a experiência de quase um século, que hoje temos sobre
os caminhos de ferro e seus terrenos marginais, ensina-nos a não
esperar mais pelos seus efeitos indiretos, e sim, a promover energicamente
a subdivisão em lotes, a abertura de caminhos vicinais, a venda
em leilão e o estabelecimento de pequenos proprietários
rurais em toda a zona servida pela via férrea. Toda empresa de
caminhos de ferro deve começar por ser empresa territorial, como
nos Estados Unidos, e realizar este programa:
1º - Comprar amigavelmente, ou desapropriar por força de
lei, todas as terras incultas marginais e situadas em sua bacia hidrográfica;
2º - Dividi-las em lotes alternados pelo sistema Uniako;
3º Abrir caminhos vicinais, comunicados todos os lotes com as Estações
próximas do caminho de ferro;
4º - Vender em leilão os lotes rurais para serem povoados
e cultivados ao mesmo tempo que se efetua a construção da
via férrea.
Realizado este programa, quando, no fim de 3 ou 4 anos da construção,
o caminho de ferro se inaugura, já tem uma clientela sua, criada
por si, que está povoando e fertilizando suas margens; aumentando
sempre; que forçosamente viaja, transporta, faz indústria
e comércio por intermédio do caminho de ferro.
A experiência está feita e refeita na Europa e na América.
O caminho de ferro, por si só, não resolve a momentosa questão
da terra. A despeito da locomotiva, a terra inculta, o baldio, o latifúndio,
continua sua atroz obra de esterilização, de barbaria, de
deserto e de miséria.
Os grandes senhores territoriais, os landlords, são fatalmente
inimigos dos caminhos de ferro. Principiam exigindo somas enormes nas
desapropriações; depois querem estações, paradas
e trens especiais para seus produtos, tarifas cada vez mais baixas. Como
eles são os fabricantes de ministros, de senadores e deputados;
como eles mesmos fazem as leis e regulamentos para serem executados por
seus clientes e protegidos, as companhias de caminho de ferro passam a
ser "servos da gleba" como nos hediondos tempos do feudalismo.
— Na Inglaterra não se trata hoje senão de "allotment",
isto é, de dividir a terra em pequenos lotes para estabelecer lavradores-proprietários
e corrigir o legado satânico dos conquistadores com suas inúmeras
doações da terra que reduziram essa ilha, e principalmente
a Irlanda, ao viveiro nefando do mais desgraçado pauperismo que
há no mundo.
Os horrores atuais da Sicília provêm do monopólio
territorial e do absenteísmo complicado com a ignorância
fradesca. Na Espanha, províncias inteiras foram, durante séculos,
o monopólio de duas ou três famílias. Como na Sicília,
essas infinitas e ilimitadas propriedades territoriais, desertas e improdutivas,
só serviram para valhacouto de contrabandistas, de ladrões
e de salteadores.
No nosso Portugal primitivo houve a santíssima "Lei de Sesmarias
d'El Rey D. Fernando" desapropriando todas as terras incultas e concedendo-as
a trabalhadores rurais. Se essas leis tivessem sido cumpridas, teria hoje
Portugal 1 a 2 milhões de Pequenos-Proprietários, que competiriam
em trabalho, em parcimônia, em economia e riqueza com a prodigiosa
democracia rural francesa. — Por fatalidade o egoísmo feudal e
o parasitismo teocrático fraudaram tudo: ainda hoje está
para ser colonizado o imenso território do Além Tejo e dos
Algarves; há baldios e terras incultas nas margens de todos os
caminhos de ferro até nas vizinhanças de Lisboa, do Porto
e de Coimbra!
No ponto de vista especial do tráfego das vias férreas,
é preciso bem salientar que a base da renda está na 3ª
classe e nas mercadorias. Julgava-se a linha de London a Brighton, a 1ª
que estabeleceu palace-cars ou carros pulman, uma linha essencialmente
aristocrática; os relatórios últimos vieram demonstrar
que essa linha era tão democrática, senão mais, do
que qualquer outra; sua principal renda provém do transporte de
operários, de gente do trabalho, da indústria e do comércio.
A 1ª classe jamais termina com suas exigências de luxo e de
conforto; afinal deixa os carros vazios. Viajei na Suíça,
sozinho, em enormes carros forrados de veludo escarlate...
Todo o empenho de uma Empresa de caminho de ferro deve dirigir-se para
a inadiável questão da terra; para terminar com a fatal
praga da terra inculta, do baldio, do deserto. Toda a extensão
de terra inculta obriga a companhia a uma despesa improdutiva; não
só furta a renda, como agrava todos os produtos dos terrenos cultivados
com as despesas de quilômetros e quilômetros construídos
no deserto.
Para quem estuda atentamente os fenômenos sociais não há
crime maior do que o monopólio da terra; é o fator principal
da escravidão e da servidão da gleba, disfarçados
atualmente em "sweating" e no salariato forçado; é
o produtor satânico da miséria e de todos os horrores de
anarquismo e desespero, que ora afligem o Velho e o Novo Mundo.
A solução dos problemas das estradas de ferro, intimamente
ligados ao progresso da agricultura, deve começar pela terra. Todos
esses caminhos de ferro em penúria atingiriam a maior prosperidade
se comprassem as terras laterais, as dividissem em lotes e neles colocassem
agricultores-proprietários. Uma liga de todas as companhias de
estradas de ferro de Portugal para realizar esse programa produziria a
mais benéfica das reformas; delas deve partir a iniciativa; nada
há que esperar de ministros, senadores e deputados, grandes senhores
territoriais ou seus dependentes para as eleições ao Parlamento.
Infelizmente, não é deste hediondo "fim de século"
a coragem cívica e a abnegação patriótica
do exímio ministro reformador Mousinho da Silveira.
Pedindo ao bom Deus que conceda ao meu caríssimo amigo força
e virtude para vencer as terríveis dificuldades desta época
de crítica liquidação dos erros do passado, assino-me.
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Referências
-
Diário e Notas autobiográficas
- André Rebouças - Seleção e anotações:
Veríssimo, Ana Flora e Inácio José - Livraria
José Olímpio Editora, Rio de Janeiro, 1938
-
André Rebouças através
de sua autobiografia - Verissimo, Tte. Cel. Ignacio José
- Livraria José Olímpio Editora, Rio de Janeiro,
1939
-
André Rebouças - José
Louzeiro - Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1968
-
Agricultura Nacional: estudos econômicos.
Propaganda abolicionista e democrática - Setembro
de 1874 a Setembro de 1883 - André Rebouças -
A. J. Lamoureux & Co., Rio de Janeiro, 1883 - 2ª edição
fac-similar - Fundação
Joaquim Nabuco / Editora Massangana, Recife, 1988
-
O quinto século - André Rebouças
e a construção do Brasil - Maria Alice Rezende
de Carvalho - Editora
Revan: Iuperj-Ucam, Rio de Janeiro, 1998
A conferir
-
André Rebouças - Reforma
& utopia no contexto do Segundo Império - Jucá,
Joselice. Construtora Norberto Odebrecht, 2001
-
Da abolição da escravatura
à abolição da miséria - Pessanha,
Andréa Santos. Quartet,
2005
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