Rebouças: Agricultura Nacional
Café, beneficiamento, escravidão
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— Não tem o Espirito Santo o excellente porto da Victoria?! Porque
não ha de exportar directamente o seu café para a Europa
e para os Estados-Unidos?
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Não é verdadeiramente iniquo arrancar dos infelizes agricultores
dessa pobre provincia todas as despezas de transporte do Rio de Janeiro,
de armazenagens, de commissões e de mais alcavalas até o
momento da exportação?
Se em um paiz, como este, sem vias de communicação, a rotina
fiscal obriga os productos da infeliz lavoura a idas e vindas, sem necessidade
alguma, é que na verdade quer, de plano ou por desidia, levar ao
extremo da penuria os principaes agentes da riqueza nacional!
Oxalá que, quanto antes, um caminho de ferro, ligando o excellente
porto da Victoria ao interior da provincia de Minas Geraes, pelo valle
do Rio-Doce; o commercio directo e os bons principios de centralisação
agricola e industrial, realizem plenamente a emancipação
commercial da fertilissima provincia do Espirito-Santo, e a colloquem
entre as mais prosperas desta Nação!
A provincia do Rio de Janeiro é a primeira productora do café
do Imperio.
A exportação do anno de 1867 foi a maior de todas: alcançou
o importante algarismo de 2,659,753 saccas de 5 arrobas ou mais de 194,000
toneladas metricas de café!
Por isso mesmo que a provincia do Rio de Janeiro é a mais importante
productora de café, é evidentemente nella que os novos principios
de centralisação agricola e industrial tem de produzir os
mais importantes resultados.
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O café, cuidadosamente limpo e joeirado, para ter os grãos
todos o mesmo tamanho; brunido, depois de ter sido preparado, descascado
ou despolpado, nas melhores machinas, obtem sempre o maximo preço
(...).
Supponhamos que dos 150,000,000 kilogrammas de café, que se póde
considerar a colheita média da provincia do Rio de Janeiro, 50,000,000
kilogrammas tão sómente sejam preparados pelas fazendas
centraes, e que ellas consigam dar um accrescimo de valor de 1$500 em
10 kilogrammas ou de 150 réis em kilogramma: ter-se-ha para os
50 milhões de kilogrammas um accrescimo de 7,500:000$000!
Ultimamente fundáram-se, no Rio de Janeiro, tres companhias para
o commercio de café:
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Estas companhias representam um progresso real no commercio do café:
é a applicação do fertilissimo principio da associação
ao mais importante artigo de exportação do Imperio.
No emtanto, mesmo no limitado circulo de sua acção, ainda
muito resta a fazer. Nenhuma dessas companhias ainda estabeleceu machinismos
e apparelhos 1[Ha no Rio de Janeiro apenas
dous estabelecimentos particulares para brunir o café, movido a
vapor; os apparelhos são, porém, ainda muito imperfeitos,
e dão uma fraca idéa do que a industria moderna póde
fazer nesta especialidade] para escolher, limpar, joeirar, brunir
e ensaccar o café.
Continuam a fazer este serviço muito rotineiramente, a braço
de escravos, escandalisando o estrangeiro, que visita o Rio de Janeiro,
com scenas de barbaria, que não podem mais ser vistas, sem muita
dôr, no anno de 1874!
Bastava que o governo imperial tivesse imposto, na approvação
dos estatutos destas companhias, a obrigação, geral e commum
a outras companhias, de não possuir escravos e de só empregar
braços livres, para ter conseguido limpar o Rio de Janeiro dessas
immundas tarimbas de escravos, no centro da capital; destes empoeirados
e velhos armazens! Teria assim obrigado estas companhias a reformar um
systema de trabalho, que não é mais do seculo do vapor e
da electricidade!
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É preciso que o progresso penetre em todas as praticas commerciaes
e agricolas. Têr telegraphos e locomotivas, lavrando a terra e exportando
os seus productos como ha cem annos atraz, é fazer, pelo menos,
um papel ridiculo perante o mundo civilisado, que hoje ouve cada uma das
nossas palavras, vê cada um de nossos actos e sente cada uma de
nossas pulsações, sob a acção magica da electricidade!...
Logo nos primeiros dias da propaganda para organisação
das companhias de commercio de café, nós tivemos occasião
de manifestar graves receios de que essa innovação viesse
produzir no Rio de Janeiro, como na Hollanda, no systema dos leilões
de café de Rotterdam, altas artificiaes e crises incessantes no
commercio deste precioso producto.
Em cada alta de preço do café, este producto perde um certo
numero de consumidores; quando o preço baixa, quasi sempre só
uma parte insignificante dos antigos consumidores volta ao uso do café.
Ha, portanto, sempre perda de consumidores, e consequentemente, baixa
real do producto em cada alta artificial, que se promove e se consegue
realizar!
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O interesse, verdadeiro e real dos negociantes de café consiste
em tornar este producto de consumo tão universal como o trigo.
Encarecel-o artificialmente é restringir o numero de consumidores
(...).
O escôpo, que devem proseguir todos, agriculores e commerciantes,
é augmentar no exterior o numero de consumidores e no interior
a potencia productiva.
"La puissance productive, disse Michel Chevalier,
se revèle par le bon marché des produits et dérive
elle même du savoir et du capital, sous l'impulsion de la liberté
humaine appliquée à l'industrie".
É, pois, necessario applicar á industria da producção
e preparação do café a liberdade humana, o
primeiro e o mais energico agente de progresso; dar sciencia e capital
á essa industria, afim de que ella augmente a sua potencia productiva,
e possa concorrer, efficaz e activamente, para a riqueza e prosperidade
do Brazil, e, simultaneamente, augmentar a somma de bem-estar de toda
a humanidade.
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