Rebouças: Agricultura Nacional
Rio Grande: gado, expatriação

p. 93

Sob o ponto de vista da chimica agricola, a raça bovina funcciona como uma retorna natural, que converte admiravelmente a grama dos prados em fibrina e nos principios azotados e phosphorados, mais necessarios á alimentação do homem.

Os ossos queimados, além de terem muitas applicações industriaes, dão excelente estrume para todos os vegetaes, que necessitam de phosphato e de cal.

p. 94

O Dr. José de Saldanha da Gama, no seu excellente relatorio sobre a Botanica Applicada na Exposição Universal de Vienna, em 1873, aconselha a importação do oleo de betula, Oleum betulinum ou Balsamum lithavicum para o cortume de couros.

É com esse oleo, batido com gemmas de ovos, que os Russos dão ao couro o perfume tão caracteristico, que distingue e dá alto preço ao couro da Russia.

Será talvez possivel acclimatar nas montanhas e nas regiões mais frias de Minas e do Rio Grande do Sul a Betula alba, que produz o precioso e perfumado oleo.

p. 95

O inquerito sobre o estado da lavoura na provincia do Rio Grande do Sul revelou um facto gravissimo. A Municipalidade de Uruguayana informou:

"Esta Camara falla em absoluto, 2[Vide a brochura, mandada publicar pelo Ministerio da Fazenda com o titulo Informações sobre o Estado da Lavoura a pg. 102] sem querer fazer recriminações, e inspira-se na expressão da verdade; porque vê o Estado Oriental e a Provincia Argentina de Corrientes extensamente povoada de brazileiros, que na sua maioria alli se refugiam, escapando ás tropelias, que soffrem no seu paiz, levando comsigo o producto do seu trabalho e de sua riqueza. Uma prova evidente do que diz está em que aquelles mesmos, que se empregam no serviço das estancias, esperam que a idade os ponha ao abrigo do duro serviço da guarda nacional, para entregarem-se a similhante trabalho. Estes braços, que de alguma forma estão enriquecendo os paizes vizinhos, poderiam entreter a pequena lavoura do Municipio, que não é mais do que um tributario d'aquelas regiões de productos d'agricultura!!

p. 96

Attendei bem: cada uma destas tres phrases é uma tristissima revelação, que nos inunda de vergonha!!

— Brazileiros, que se refugiam no Estado Oriental e em Corrientes;

— Brazileiros, que escapam às tropelias, que soffrem em sua terra natal;

— Brazileiros, que levam comsigo o producto do seu trabalho e de sua riqueza;

— Brazileiros tributarios (para se allimentarem!!) das Republicas visinhas!!...

Nós sabiamos que um systema aduaneiro, obsoleto e absurdo, mantinha em Uruguayana um contrabando enorme, desenfreado!

Nós sabiamos que a suprina ignorancia da nossa enfatuada oligarchia, principalmente em Sciencia Economica, povoava de contrabandistas, de bocaneiros e flibusteiros, o Alto-Uruguay, o magestoso rio 1[Devem jazer, debaixo das montanhas de pó, nos escuros archivos das nossas Secretarias, os interessantissimos trabalhos feitos pelo Dr. Carlos Pereira Pinto, de 1860 a 1880, para a navegação a vapor do Alto-Uruguay!!] que corre sobre amethystas e coralinas, creado por Deus para servir ao commercio e á prosperidade dos predestinados habitantes desta deliciosa região!!

(...)

Os allemães abandonam todos os annos aos cem mil a cara patria: — a Germania — tão amada!

p. 97

Sabeis porque atravessam 1[Lê-se no "Scientific American" de 22 de Agosto de 1874 — "Dr. E. P. S. writes from Pskow (Russia) to inform our readers that the Mennontites, who are coming to this country in such large numbers, are not leaving home on account of any religious intolerance, but merely to avvoid compulsory military service, from which they were exempt till the emancipations of the serfs abolished the inequality!" Esta pobre gente foge da Russia para os Estados-Unidos e fica simultaneamente livre do militarismo e da igreja official!! Ah! Se houvesse uma ponte sobre o Oceano Atlantico os reis da Europa em breve teriam de ir a guerra com suas raposas e com seus javalis!!] mais de trez mil milhas de Oceano Atlantico?

— Sabeis porque percorrem, pobres peregrinos, centenares de leguas no Continente Norte-Americano?

Vão em busca do "Far-West"; vão em busca da "terra promettida", da terra "Livre", — onde é "permittido viver sem ser obrigado a matar".

Nós queremos... Não: nós phantasiamos a immigração espontanea, e mantemos no Brazil a igreja official e um militarismo bastardo e ridiculo!!

E, em logar de immigração, vemos os brazileiros que emigram, abandonam a mãe-patria, fugindo ao recrutamento e á guarda nacional!!

A guarda nacional! — Quem diria que, em tão poucos annos, degeneraria em fatal arma da oligarchia e do governismo a instituição, democratica e livre, que nossos paes fundaram em 1831, digna de Washington e de Lafayette?!...

— Quem diria que essa nobre instituição ficaria reduzida a uma humilde peça desse hediondo machinismo eleitoral, com o qual o governismo póde fazer, hoje ou amanhan, á vontade, uma camara unanime vermelha, branca ou amarella, conforme lhe dér o capricho?

— E o recrutamento?

— Já viajastes pelo sertão do Brazil?

Perguntai aos filhos do interior do Maranhão, do Piauhy, do Ceará, da Parahyba, de Pernambuco, das Alagôas e da Bahia — o que é o recrutamento?

A só palavra — Re-cru-ta-men-to:

— Os paes abandonam filhos e filhas;

— Os maridos abandonam as mulheres;

p. 98

— Os filhos abandonam as mães;

— Os lavradores abandonam as colheitas;

Todos fogem para as grotas, para os mattos mais cerrados, para os picos das montanhas mais inacessiveis!

E então começa uma verdadeira caçada, a fuzil e a cães, como outr'ora, antes de Charles Summer, de Harriet Beecher Stowe e de Abraham Lincoln, se caçavam escravos fugidos nos pantanos do Mississipi!!...

Não são senhores perseguindo escravos!

São homens livres perseguindo homens livres!

São brazileiros caçando brazileiros!!

São irmãos caçando irmãos!!

Dizei-nos sinceramente: — não é, na realidade, uma phantasia, uma utopia, uma chiméra, uma loucura rematada que um paiz, onde se dão taes horrores, pretenda ter immigração espontanea?!!

  

Agricultura Nacional: estudos econômicos. Propaganda abolicionista e democrática
Setembro de 1874 a Setembro de 1883
André Rebouças
A. J. Lamoureux & Co., Rio de Janeiro, 1883
2ª edição fac-similar - Fundação Joaquim Nabuco / Editora Massangana, Recife, 1988

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