Rebouças: Agricultura Nacional
Bancos territoriais
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Tem-se preconisado geralmente a creação de bancos territoriaes
como o unico expediente financeiro capaz de salvar a lavoura nacional
da crise por que passa actualmente. Cabe-nos o triste dever de demonstrar
que esta proposição é um erro. Os bancos territoriaes
dignos desse nome, são impossiveis com a escravidão, com
papel-moeda e sem cadastro ou estatistica territorial.
Em primeiro lugar:
O escravo annulla o valor do solo. É uma lei economica fatal:
(...) Esta lei verificou-se perfeitamente nos estados esclavagistas da
União Norte-Americana. Uma fazenda, um engenho vale pelo numero
de escravos que possue.
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Os bancos não seriam territoriaes: seriam esclavocratas!
É uma utopia; é uma chimera suppôr que um capitalista
estrangeiro seja capaz de confiar um ceitil a taes bancos! No Imperio,
está praticamente demonstrado, não ha capital para a creação
de bancos.
Os bancos são instituições excellentes, sublimes,
se o quereis; mas é preciso, é indispensavel que tenham
fundo em ouro. Banco emittindo papel e com fundo em papel, é, rigorosamente,
uma instituição de papelão!
Quanto á estatistica territorial, quanto a cadastro, é
cousa que mal conhecemos de nome! Indagai do Banco do Brazil as torturas
por que passa para realizar as hypothecas, a que é forçado
pelos seus contratos com o governo, sem plantas, sem medições,
obrigado a fiar-se em escripturas e em demarcações, feitas
por pilotos dos tempos coloniaes! Devemos dizer, é triste, é
humilhante, não agradará; mas é a pura verdade.
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Está, pois, bem claro que a agricultura da França de 1867
soffria privações por falta de bancos territoriaes. Ora
a Escocia tinha no mesmo anno de 1867 doze bancos de emmissão com
700 bancos filiaes! Guardando a proporção das populações,
a Escossia, calculou Michel Chevalier, tinha 120 vezes o numero de bancos,
que possuia a França de 1867! Mas o governamentismo e o militarismo,
em lugar de se occuparem dos lavradores da França, sonhavam dar
reis á Hespanha! Esse sonho converteu-se em triste pesadêlo,
e teve um miserrimo despertar... em Sédan!
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Abolida a escravidão, resgatado o papel-moeda, nós poderemos
entrar francamente no systema de liberdade dos bancos. Então veremos,
entre as florestas do Brazil, como vio Michel Chevalier nas dos Estados-Unidos,
bancos de emissão de depositos e de desconto, funccionando perfeitamente!
Vêde bem que não somos inimigos dos bancos de emissão.
Combatemos hoje esta instituição como inopportuna, e ainda
infelizmente fóra do circulo das cousas possiveis, no Brazil! Mas
pedimos de todo coração a Deus, que aproxime o dia em que
não haja no Brazil uma aldeia que não tenha uma escola,
uma estação de caminho de ferro e um banco territorial!
[usura agrícola:
empréstimos de curto prazo, a juros de até 72% ao ano]
Isto passa-se no Brazil! E mantemos (1875) exercitos de occupação
no Paraguay e esquadras no Paraná, no Paraguay e no Uruguay e no
Prata!
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No inquerito sobre a colonisação particular em S. Paulo,
feito pelo Dr. João Pedro Carvalho de Moraes em 1870, ha interessantes
exemplos destas contas correntes entre os fazendeiros e os colonos ou
pequenos lavradores. Citaremos sómente para fixar as idéas
a colonia Senador Vergueiro, onde, em 1870, a taxa dos juros, pelos
adiantamentos assim como pelos saldos, era de 12%.
A aristocracia ingleza (...) tinha por base o monopolio do sólo!
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Richard Cobden, á frente da Anti-Corn-Law-League, arrancou-lhes
esse monopolio. Deste dia data a serie de reformas democraticas e liberaes,
que espantam o mundo e transformam pela base esta velha republica aristocratica
(...).
Quem fundou a democracia na Inglaterra não foi Oliver Cromwell,
foi Richard Cobden! (...).
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A segunda observação do senador Cruz Machado é do
maior alcance.
Se, obrigado por força de um contrato com o governo imperial,
um banco rural chegasse a emprestar a juros de 6% 20,000:000$ aos lavradores
da Bahia, o effeito pratico seria simplesmente a conversão para
essa taxa de outros tantos mil contos da divida da lavoura, que hoje pagam
12% a 15% Talvez não se comprasse nem um só arado! Talvez
não se importasse um só colono! Talvez não se emancipasse
um só escravo! Eram 20,000:000$ sacrificados em pura perda á
rotina, á ignorancia, e á aristocracia rural!
Ah! não nos atordoem as fanfarras da oligarchia rural; não
nos illudam os lugubres discursos dos druidas do esclavagismo! Façamos
lei para auxiliar efficazmente a agricultura brazileira a caminhar segura
e firme na estrada do progresso, e não para galvanisar o que está
condemnado e o que deve morrer.
"Não posso entrar neste exame, continúa
o senador Cruz Machado, mas não seria difficil provar que nos 20,000:000$
que pezam sobre a lavoura mui pequena parte é derivada de melhoramentos,
convenientemente dirigidos, que tenham procurado introduzir os proprietarios
em seus estabelecimentos ruraes; mui pouco lhe pertence directamente."
Sim, é verdade; quanto dinheiro, que figura como divida da lavoura,
foi esbanjado no jogo, em eleições, em bailes, em banquetes
e em toda a sorte de dissipações? Quem não sabe que
houve senhor de engenho que cortava a canna ainda verde, reduzia-a a aguardente,
para poder occorrer immediatamente ás dividas do jogo?... [Os
agricultores francezes exprimem estes desvarios pelo conhecido rifão:
"Manger son grain en herbe"; os criadores inglezes dizem tambem:
"To eat the calf on the cow's belly"]
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