Rebouças: Agricultura Nacional
Contra-prova: falta de braços
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(...) Acabamos de percorrer o que ha de mais notavel no mundo civilisado:
não encontrámos paiz algum, em que houvesse falta de homens.
Vimos, pelo contrario, o homem faminto e semi-nú, tratando o cavallo
nedio e vestido de bello e confortavel estofo de lã. Vimos as crianças
núas e famintas, mergulhando nas lamas do Tamisa para apanhar os
pence, que lhes atiravam ociosos sem coração. Vimos,
bem perto dalli, cãesinhos passeando em landaws no collo
de egoistas velhas da ociosa aristocracia. (...) Vimos os meninos largarem
os livros para aprenderem o exercicio de matar homens. Vimos, por toda
a parte, o homem, a mulher, e o menino correndo, como cães famintos,
atráz do trabalho e do salario. E, em todos estes paizes, ouvimos
os parasitas do capital, cynicos e egoistas, repetirem a grita: — Ha falta
de braços; os salarios estão elevadissimos; é preciso
impedir a emigração para a America. E os governos, mais
cynicos e mais immoraes do que os parasitas do capital ocioso, apressando-se
a mandar trancar os seus portos 1[Vide
nas excellentes cartas de Alexandre Herculano a demonstração
destas verdades em relação á emigração
de Portugal para o Brazil] para que não viesse um só
homem para o Brazil!!
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(...) Neste paiz morre-se de fome por falta de trabalho. Lêde o
que publicaram, em 1874, os jornaes desta côrte:
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A fome na Diamantina
"Um viajante, residente no sul de Minas, tendo occasião
de observar o estado de miseria a que acha-se reduzida a infeliz pobreza
que habita os terrenos diamantinos, lembrou-se de abrir uma subscripção,
entre o generoso povo desta praça. a favor daquelles infelizes.
"É tal a miseria que reina na Diamantina,
que o trabalhador não acha alli serviço, nem recebendo em
recompensa tão sómente o pão, como teve occasião
de observar o dito viajante!...
"Por aqui póde-se calcular o peso de necessidades
que esmaga aquella infeliz população.
"As familias abastadas supportam com difficuldade
aquelle estado anomalo ou retiram-se, como está succedendo; os
pobres, porém, carregados de familia, não podendo arcar
com as despezas de uma mudança, lá ficam sob a pressão
de todas as privações.
"Dos brazileiros que habitam a costa, poucos comprehenderão
as difficuldades com que lutam as populações do interior,
por falta de terras ferteis.
"E nossos immensos sertões?
"Não podem ser povoados sem pontos de apoio
préviamente estabelecidos pela força publica, porque seriam
devastados pelos selvagens.
"Aqui vai um facto para exemplo:
"Ha na provincia de Minas, para não falar
em outras, uma população de mais de 60 mil homens que ficou
desempregada pela cessação de industrias locaes, e que se
não póde converter em população agricola,
porque não dispõe de terras que prestem á agricultura!
"O braço nacional, que tanto convinha que
fosse aproveitado utilmente, é uma verdadeira praga para os senhores
do solo, cuja propriedade infesta com o nome de aggregados.
"O mais vasto e despovoado paiz do mundo não
fornece terras a seus habitantes, ou pelo menos não as proporciona
nas condições em que ellas possam ser aproveitadas pelos
braços que não tem capitaes, ou que os tem em diminuta escala!
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"As mattas, que eram poucas, acabaram, e, ao passo
que tanto se falla hoje em escassez de braços, ha populações
no interior que morrem quasi de fome, e a média do salario fóra
da costa é de 12$ mensaes, menos que o representado pelo capital
e amortisação do braço escravo.
"Condoidos de um tal estado, appellamos para todos
os corações generosos, e para os nossos patricios, em particular,
afim de mitigar-se a fome daquelles infelizes, a quem serão facilitados
os meios para se retirarem para terrenos agricolas.
"Os Srs. Botelho Azevedo & Andrade, estabelecidos
á rua dos Pescadores n. 3, generosamente encarregaram-se de receber
as quantias que cada um quizer dar — Um mineiro do sul da provincia.
— Rio de Janeiro, 26 de Agosto de 1874".
Estais agora convencidos de que, neste Imperio, como em qualquer outro
paiz do mundo, falta bem-estar, falta moralidade, falta caridade, falta
instrucção, falta capital, falta industria, faltam vias
de communicação, faltam, emfim, todos os elementos necessarios
ao bem-estar do povo — e á atração de immigração
espontanea. Mas, repitamos, não faltam homens!
Eis ahi o que queria dizer o illustre Malthus, que os oligarchas, que
os exploradores systematicos da infeliz humanidade, tanto calumniaram
para, com as suas hypocritas lamurias, impedir que chegasse ao povo a
voz da verdade!!....
..............
Se destes principios geraes da Sciencia Economica fazemos adequada applicação
ás circumstancias especiaes deste Imperio, achamos que a grita
falta de braços significa realmente uma aspiração
retrograda pelos miserrimos tempos, em que era possivel comprar um homem
por 200$ ou 300$. e tambem a resistencia estulta e rotineira para a subdivisão
da grande propriedade. Ora, de um lado é absolutamente impossivel
voltar aos nefandos tempos do trafico africano; e, de outro lado, todo
o progresso agricola tem por principal elemento a subdivisão do
sólo e a prosperidade da Democracia Rural. Eis ahi francamente
a verdade.
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Só havia um argumento serio em favor da grande propriedade e da
oligarchia rural: a falta de capital na Democracia Rural para comprar
as grandes machinas e os caros utensilios, que exigem presentemente os
novos processos de lavrar a terra e de preparar os seus productos. Ora,
esse argumento unico acaba de ser victoriosamente respondido pelos novos
principios de centralisação agricola e industrial.
As companhias, proprietarias de engenhos centraes e de fazendas centraes,
possuem edificios, machinas e utensilios, que deixam no olvido o que de
melhor tinham os mais ricos senhores ruraes. Apoiados pelas companhias,
os mais pobres proprietarios ruraes pódem lavrar a terra a vapor;
estruma-la com guano, com os phosphatos e com os mais caros adubos, e
ter os seus productos preparados nas mais caras e nas mais primorosas
machinas, fornecidas pela maravilhosa industria hodierna.
A verdadeira interpretação da phrase official — carencia
de braços — é que o Imperio necessita de reformas sociaes,
economicas e financeiras importantissimas, que permittam o aproveitamento
de milhares e milhares de individuos, que vegetam nos nossos sertões,
e, ao mesmo tempo, attraiam a immigração espontanea da população
superabundante da Europa. Ora, já dissemos por vezes nestes Estudos,
o principal attractivo da immigração é a propriedade
facil e immediata do sólo. Serão infructiferos, e até
contraproducentes, todos os esforços feitos para substituir colonos
aos escravos. Só ha um desgraçado colono que se presta a
essa miseranda substituição: é o infeliz Chim.
Mas, ao lado do problema agricola, está o problema social; introduzir
Chins neste Imperio é anniquilar todo o futuro nacional, sem outro
proveito mais do que galvanisar por alguns dias a moribunda oligarchia
rural.
Para o problema da carencia de braços não ha, pois,
em ultima analyse, senão estas tres soluções racionaes:
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1º. Abolição da escravidão, que aniquila o
escravo e fulmina o senhor;
2º. Melhor aproveitamento da população nacional, dando-lhe
vias de communicação, instrucção e industria.
3º. Reformas sociaes, economicas e financeiras, necessarias para
que a immigração ache no Brazil elementos de segurança,
de bem-estar e de prosperidade superiores aos dos Estados-Unidos.
Todas estas soluções são eminentemente liberaes
e progressistas; e não ha duvidar são infalliveis porque
o Progresso é a lei de Deus!
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