Rebouças: Agricultura Nacional
Contra-prova: falta de braços

p. 379

(...) Acabamos de percorrer o que ha de mais notavel no mundo civilisado: não encontrámos paiz algum, em que houvesse falta de homens.

Vimos, pelo contrario, o homem faminto e semi-nú, tratando o cavallo nedio e vestido de bello e confortavel estofo de lã. Vimos as crianças núas e famintas, mergulhando nas lamas do Tamisa para apanhar os pence, que lhes atiravam ociosos sem coração. Vimos, bem perto dalli, cãesinhos passeando em landaws no collo de egoistas velhas da ociosa aristocracia. (...) Vimos os meninos largarem os livros para aprenderem o exercicio de matar homens. Vimos, por toda a parte, o homem, a mulher, e o menino correndo, como cães famintos, atráz do trabalho e do salario. E, em todos estes paizes, ouvimos os parasitas do capital, cynicos e egoistas, repetirem a grita: — Ha falta de braços; os salarios estão elevadissimos; é preciso impedir a emigração para a America. E os governos, mais cynicos e mais immoraes do que os parasitas do capital ocioso, apressando-se a mandar trancar os seus portos 1[Vide nas excellentes cartas de Alexandre Herculano a demonstração destas verdades em relação á emigração de Portugal para o Brazil] para que não viesse um só homem para o Brazil!!

p. 380

(...) Neste paiz morre-se de fome por falta de trabalho. Lêde o que publicaram, em 1874, os jornaes desta côrte:

p. 381

A fome na Diamantina

"Um viajante, residente no sul de Minas, tendo occasião de observar o estado de miseria a que acha-se reduzida a infeliz pobreza que habita os terrenos diamantinos, lembrou-se de abrir uma subscripção, entre o generoso povo desta praça. a favor daquelles infelizes.

"É tal a miseria que reina na Diamantina, que o trabalhador não acha alli serviço, nem recebendo em recompensa tão sómente o pão, como teve occasião de observar o dito viajante!...

"Por aqui póde-se calcular o peso de necessidades que esmaga aquella infeliz população.

"As familias abastadas supportam com difficuldade aquelle estado anomalo ou retiram-se, como está succedendo; os pobres, porém, carregados de familia, não podendo arcar com as despezas de uma mudança, lá ficam sob a pressão de todas as privações.

"Dos brazileiros que habitam a costa, poucos comprehenderão as difficuldades com que lutam as populações do interior, por falta de terras ferteis.

"E nossos immensos sertões?

"Não podem ser povoados sem pontos de apoio préviamente estabelecidos pela força publica, porque seriam devastados pelos selvagens.

"Aqui vai um facto para exemplo:

"Ha na provincia de Minas, para não falar em outras, uma população de mais de 60 mil homens que ficou desempregada pela cessação de industrias locaes, e que se não póde converter em população agricola, porque não dispõe de terras que prestem á agricultura!

"O braço nacional, que tanto convinha que fosse aproveitado utilmente, é uma verdadeira praga para os senhores do solo, cuja propriedade infesta com o nome de aggregados.

"O mais vasto e despovoado paiz do mundo não fornece terras a seus habitantes, ou pelo menos não as proporciona nas condições em que ellas possam ser aproveitadas pelos braços que não tem capitaes, ou que os tem em diminuta escala!

p. 382

"As mattas, que eram poucas, acabaram, e, ao passo que tanto se falla hoje em escassez de braços, ha populações no interior que morrem quasi de fome, e a média do salario fóra da costa é de 12$ mensaes, menos que o representado pelo capital e amortisação do braço escravo.

"Condoidos de um tal estado, appellamos para todos os corações generosos, e para os nossos patricios, em particular, afim de mitigar-se a fome daquelles infelizes, a quem serão facilitados os meios para se retirarem para terrenos agricolas.

"Os Srs. Botelho Azevedo & Andrade, estabelecidos á rua dos Pescadores n. 3, generosamente encarregaram-se de receber as quantias que cada um quizer dar — Um mineiro do sul da provincia. — Rio de Janeiro, 26 de Agosto de 1874".

Estais agora convencidos de que, neste Imperio, como em qualquer outro paiz do mundo, falta bem-estar, falta moralidade, falta caridade, falta instrucção, falta capital, falta industria, faltam vias de communicação, faltam, emfim, todos os elementos necessarios ao bem-estar do povo — e á atração de immigração espontanea. Mas, repitamos, não faltam homens!

Eis ahi o que queria dizer o illustre Malthus, que os oligarchas, que os exploradores systematicos da infeliz humanidade, tanto calumniaram para, com as suas hypocritas lamurias, impedir que chegasse ao povo a voz da verdade!!....

..............

Se destes principios geraes da Sciencia Economica fazemos adequada applicação ás circumstancias especiaes deste Imperio, achamos que a grita falta de braços significa realmente uma aspiração retrograda pelos miserrimos tempos, em que era possivel comprar um homem por 200$ ou 300$. e tambem a resistencia estulta e rotineira para a subdivisão da grande propriedade. Ora, de um lado é absolutamente impossivel voltar aos nefandos tempos do trafico africano; e, de outro lado, todo o progresso agricola tem por principal elemento a subdivisão do sólo e a prosperidade da Democracia Rural. Eis ahi francamente a verdade.

p. 383

Só havia um argumento serio em favor da grande propriedade e da oligarchia rural: a falta de capital na Democracia Rural para comprar as grandes machinas e os caros utensilios, que exigem presentemente os novos processos de lavrar a terra e de preparar os seus productos. Ora, esse argumento unico acaba de ser victoriosamente respondido pelos novos principios de centralisação agricola e industrial.

As companhias, proprietarias de engenhos centraes e de fazendas centraes, possuem edificios, machinas e utensilios, que deixam no olvido o que de melhor tinham os mais ricos senhores ruraes. Apoiados pelas companhias, os mais pobres proprietarios ruraes pódem lavrar a terra a vapor; estruma-la com guano, com os phosphatos e com os mais caros adubos, e ter os seus productos preparados nas mais caras e nas mais primorosas machinas, fornecidas pela maravilhosa industria hodierna.

A verdadeira interpretação da phrase official — carencia de braços — é que o Imperio necessita de reformas sociaes, economicas e financeiras importantissimas, que permittam o aproveitamento de milhares e milhares de individuos, que vegetam nos nossos sertões, e, ao mesmo tempo, attraiam a immigração espontanea da população superabundante da Europa. Ora, já dissemos por vezes nestes Estudos, o principal attractivo da immigração é a propriedade facil e immediata do sólo. Serão infructiferos, e até contraproducentes, todos os esforços feitos para substituir colonos aos escravos. Só ha um desgraçado colono que se presta a essa miseranda substituição: é o infeliz Chim.

Mas, ao lado do problema agricola, está o problema social; introduzir Chins neste Imperio é anniquilar todo o futuro nacional, sem outro proveito mais do que galvanisar por alguns dias a moribunda oligarchia rural.

Para o problema da carencia de braços não ha, pois, em ultima analyse, senão estas tres soluções racionaes:

p. 384

1º. Abolição da escravidão, que aniquila o escravo e fulmina o senhor;

2º. Melhor aproveitamento da população nacional, dando-lhe vias de communicação, instrucção e industria.

3º. Reformas sociaes, economicas e financeiras, necessarias para que a immigração ache no Brazil elementos de segurança, de bem-estar e de prosperidade superiores aos dos Estados-Unidos.

Todas estas soluções são eminentemente liberaes e progressistas; e não ha duvidar são infalliveis porque o Progresso é a lei de Deus!

  

Agricultura Nacional: estudos econômicos. Propaganda abolicionista e democrática
Setembro de 1874 a Setembro de 1883
André Rebouças
A. J. Lamoureux & Co., Rio de Janeiro, 1883
2ª edição fac-similar - Fundação Joaquim Nabuco / Editora Massangana, Recife, 1988

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