Rebouças: Agricultura Nacional
Falta de estradas

p. 385

A quarta causa de entorpecimento da lavoura, mencionada pelo inquerito, mandado fazer pela circular de 18 de Outubro de 1873, do ministerio da fazenda, é:

IV. — Falta de estradas.

Agora sim: estamos de accôrdo. Neste Imperio ha carencia, ha necessidade, ha fome, ha sêde de vias de communicação!! Ainda não houve meio de convencer aos que nos governam de que é impossivel dar um passo na estrada real do progresso sem uma bem planejada rêde de vias de communicação por todo o Imperio.

Repitamos com o engenheiro Antonio Rebouças: "Abrir estradas é colonisar", e accrescentemos que "sem estradas é impossivel colonisar". Um exemplo, do Brazil mesmo, para que fique bem gravado em nosso espirito esta proposição fundamental e especialissima!! Fundaram uma colonia, em uma certa provincia, no interior de matta virgem, sem via alguma de communicação com os centros povoados. Por felicidade os colonos eram excellentes, morigerados, trabalhadores, querendo sinceramente constituir um patrimonio para si e para seus filhos. O primeiro anno foi tristissimo: todos os sacrificios; todas as privações; todos os pesados trabalhos de derrubada; todo o máo estar de uma época de acclimatação! No segundo anno excesso de chuvas: colheita insufficiente. No terceiro anno: colheita excellente; infelizmente uma peste de ratos do matto reduzio a colheita ao estricto necessario para a alimentação dos colonos.

p. 386

Não desanimaram; duplicaram antes de actividade, e, no quarto anno, a prodigiosa natureza virgem do Brazil recompensou os seus esforços exuberantemente. Os paióes ficaram cheios até aos tectos! A produção excedia ás necessidades dos colonos durante mais de tres annos. Era evidentemente necessario vender e exportar.

Como? Por que caminho? Por que estrada? A via de communicação unica era uma picada, em que viajamos com a fouce na mão; que se confundia, por vezes, com os arrastões de madeira,mesmo para os mateiros da localidade; que tinha subidas e descidas tão ingremes, que era necessario apear e conduzir o cavallo pela rédea!!...

Vender, exportar: impossivel absoluto! Os bravos colonos, que tinham lutado corajosamente quatro annos, desanimaram então, e abandonaram a colonia!!

— Comprehendeis agora? Uma estrada, mesmo de rodagem, um plank-road, um caminho de ferro de bitola estreita, mesmo de um só trilho, teria constituido essa colonia, hoje abandonada, um centro prospero de immigração, um foco de attracção para os innumeros proletarios da velha Europa! Lembrai-vos sempre destas palavras de Michel Chevalier, incluidas em uma carta assignada por Napoleão III, aconselhando ao general Mac-Mahon sobre o systema, que devia seguir no governo da Argelia.

p. 387

"Le plus sur moyen d'accroitre la population d'une colonie n'est pas d'y attirer à grands frais e par des promesses, trop souvent irréalisables, des nombreux immigrants; mais d'encourager les efforts des colons déjà établis, de favoriser le bien être et d'assurer leur avenir. Le spectacle de cette prosperité est le plus magique appel, que puisse être fait à la confiance des étrangers.

Des courants d'immigration ne tardent pas à faire affluer tous les jours des forces nouvelles vers un pays, où les capitaux trouvent un hereux placement et le travail un emploi lucratif".

Todos estes sabios conselhos se podem resumir em uma formula economica e social, muito mnemonica: "O immigrante quer bem-estar; o capital quer segurança: quer paz".

Podeis multiplicar ao infinito os esbanjamentos de capital e de tempo, que fazeis com a malfadada colonisação official: a emigração espontanea para o Brazil ha de invariavelmente seguir a marcha ascendente do bem estar e do progresso n'este Imperio.

Ora, uma das condições essenciaes para o bem-estar dos povos é a abundancia de boas vias de communicação. Nós temos ruins picadas, as mesmas que nos legaram os tristes tempos coloniaes, e temos a velleidade de querer ter immigração espontanea! Pretensão que de chimerica passa a ser ridicula!

Os Estados-Unidos, se quizeram ter immigrantes, principiaram por dotar o seu vastissimo territorio de mais vias ferreas do que possue a Europa inteira!

Tomaram em Nova-York, a posição mais estrategica — o Castle Garden, e reduziram-no a palacio de immigrantes! Não construiram torres, nem casamatas, nem o armaram com enormes canhões; plantaram um lindo jardim, e decoraram caprichosamente a casa, destinada a receber os miseraveis da Europa, bemvindos da America livre.

p. 388

— Quando teremos no Rio de Janeiro um Castle-Garden? — Um estabelecimento proprio para a recepção, collocação e internação dos immigrantes?

Ha no litoral desta cidade uma situação que lembra a do Castle-Garden, em Nova-York: é tão mal occupada actualmente pelo arsenal de guerra. Está se construindo um novo arsenal: é, por certo, muito para desejar que os Ministerios da Guerra e da Agricultura se entendessem para accelerar a remoção d'este arsenal, e que, quanto antes, se tratasse de restaurar os actuaes edificios e preparal-os no estylo do Castle-Garden.

São necessarios sacrificios reaes e muito grandes para se chegar a alcançar o desideratum de uma importante corrente de immigração espontanea de pessoas e de capitaes.

Nos Estados-Unidos o problema da immigração preocupa, incessantemente, não só o governo, como toda a nação. Póde-se, sem grande emphase, dizer que todo o territorio dos Estados-Unidos, desde o Oceano Atlantico até ao Oceano Pacifico, é um immenso Castle-Garden á espera de emigrantes.

Parece que todos os anglos-americanos têm gravadas na consciencia estas propheticas palavras de Benjamin Franklin, o mestre e o fundador dessa prodigiosa nacionalidade:

"To enjoy all the advantages of the climate, soil, and situation, in which God and nature have placed us; is as clear a right as that of breathing; and can never be justly taken from men but as a punishment for some atrocious crime.

"America has only to be thankful, and to preserve, God will finish his work, and establish their freedom: and the lovers of liberty will flock from all parts of Europe with their fortunes to participate with us of that freedom, as soon as peace is restored".

A predicção de Benjamin Franklin cumprio-se em toda sua extensão. Todos os que no Velho Mundo têm sêde de Liberdade; todos os que soffrem frio e fome, emigram aos milhares para os Estados-Unidos, levando uns os seus recursos intellectuaes, outros a sua riqueza, outros o seu trabalho, todos a vehemente aspiração de melhorar a sua sorte.

p. 389

Na Europa contrariar a emigração é uma atrocidade sem nome, é obrigar a morrer de fome quem deseja ir viver do seu trabalho. Na America pôr obices á immigração é verdadeiramente uma impiedade, por que é rebellar-se contra o proprio Deus, que creou a America para asylo dos infelizes do Velho-Mundo!

p. 391

Continuemos; continuemos a pedir incessantemente caminhos de ferro para o Brazil "Clama itaque, clama ne cesses". Não será para nós, a mais de meio caminho de vida; será para a geração vindoura!

Uma rêde de vias de communicação aperfeiçoadas é um elemento indispensavel á liberdade do trabalho; é um agente infallivel e da maxima energia para o desenvolvimento da prosperidade nacional. Ouvi o grande mestre da sciencia do progresso neste sublime e inteiramente novo ponto de vista do grande problema das vias de communicação:

"La liberté du travail, dont jouit un peuple, donne, jusqu'à un certain point, la mésure de la fécondité de son industrie, toutes les fois qu'il s'agit de populations, qui, comme celles de l'Europe ou des Etats Unis, éprouvent vivement le désir d'améliorer leur condition en travaillant 1[Michel Chevalier — Introduction aux Rapports du Jury International de l'Exposition Universelle de 1867, pag. CCCLIII].

p. 392

"Mais la liberté du travail pour qu'elle rende les fruits, qu'elle promet et qui sont virtuellement en elle, ne doit pas seulement être nominale: c'est-à-dire, simplement inscrite à l'état de principe dans les lois.

"Il ne suffit même pas qu'en outre les lois spéciales et les réglements évitent de lui porter atteinte, et que le système financier du pays s'abstienne de la paralyser par ses déréglements et ses interpérances. Il lui faut, de plus, l'entourage des diverses mécanismes auxiliaires doués d'une particulière énergie.

"Nous allons énumerer quelques uns de ces mécanismes.

"Il est necessaire que le pays présente un système de voies de communication rendant aisée l'approvisionnement de l'industrie en combustible et en matières prémières, rattachant les grands gisements de minereaux de fer aux puissants gîtes de charbon, unissant les foyers des productions aux centres de communication, et l'intérieur aux ports de mer. Ce sont des chemins de fer, des canaux des routes de toutes sortes sans compter les fleuves et les rivières améliorés dans leurs cours de manières à rester navigable tant que la gelée ne vient pas les fermer. Ce sont encore des services maritimes établissant de relations régulières, promptes et économiques avec les autres nations. Le tout compose une sorte de grand outillage, qui facilite extrémement aux hommes l'éxercice de leurs facultés et l'entrée en possession effective de la liberté du travail".

Vêde bem, excepto a navegação inter-oceanica, que nos foi doada pela iniciativa anglo-saxonica, não possuimos elemento algum para auxiliar, apoiar e garantir a liberdade do trabalho!

p. 393

Esses pobres colonos, que mencionamos no artigo anterior, abandonando a sua lavoura, podiam dizer: no Brazil não ha liberdade do trabalho! O infeliz camponio das margens do Alto S. Francisco, que não póde exportar producto algum da sua industria, por falta de estradas e de caminhos de ferro, póde tambem repetir: no Brazil não ha liberdade de trabalho! Todos os habitantes do interior de Minas, de Goyaz e de Mato-Grosso podem tambem repetir unisonos: no Brazil não ha liberdade do trabalho!

E queremos ter immigração espontanea?!! Absurdo! Chiméra! Escarneo!

............

A desidia inqualificavel, com que tem sido neste paiz tratada a questão vital dos caminhos de ferro, já causa assombro até á propria Europa! Ainda ultimamente um jornal inglez escrevia em um notavel artigo 1[O Globo, de 5 de Setembro de 1874, reproduziu este artigo, que contém um sem-numero de epigrammas dos mais ridiculos sobre a desidia, a pusilanimidade e a curteza do governo deste paiz!] sobre as finanças do Brazil estas duras, mas verdadeiras palavras:

"Á vista do estado lisongeiro das finanças brazileiras, do facto de haver a receita duplicado no espaço de dez annos, e haver annualmente um saldo da receita sobre a despeza, surprende-nos de alguma fórma que o governo não applique sommas maiores á realização da grande obra da construcção das vias-ferreas. Não ha no mundo paiz que mais necessidade tenha de estradas de ferro do que o Brazil. A este respeito está o Brazil atraz, não só dos Estados Unidos, mas ainda das pequenas, e muitas vezes mal governadas republicas da America do Sul e da America Central.

"Nos Estados Unidos ha uma milha de estrada de ferro para 56 milhas quadradas de territorio; no Canadá, uma para 148 milhas quadradas, no Chile, uma para 298; em Costa Rica, uma para 318; e Honduras, uma para 638; na Confederação Argentina, uma para 955; no Uruguay, uma para 1,290, no Perú, uma para 1,340; o mesmo pobre Paraguay, (o nosso pupillo!!) tem uma milha de via ferrea para 2,334 milhas quadradas de superficie, e o anarchico Mexico, uma milha para 3.435 milhas quadradas!! Mas o Brazil, rico e florescente, tem apenas uma milha de estrada de ferro para 7.573 milhas quadradas de territorio!"

p. 394

E o articulista inglez não disse que estas republiquetas, como na sua estultice sóem dizer os nossos oligarchas, construiram caminhos de ferro em pampas, como a Republica Argentina, em desertos infestados de salteadores, como o Mexico, nos altos e estereis pincaros dos Andes, como o Perú! Não disse que nós brazileiros titubeamos em construir caminhos de ferro nos valles do Tocantins, do Parnahyba, do Paraguassú, do S. Francisco, do Jequitinhonha, do Rio Doce, do Tieté, do Ivahy, do Ribeira, do Iguassú e do Tubarão! Não disse que cada um destes rios encerra cabedaes para enriquecer um imperio!

Tambem não disse que o Brazil tem vinte provincias e que doze — as provincias do Amazonas, do Pará, do Maranhão, do Piauhy, do Rio-Grande do Norte, da Parahyba do Norte, de Sergipe, do Espírito-Santo, do Paraná, de Santa Catharina, de Goyaz e de Mato-Grosso — ainda não viram uma locomotiva no anno de 1875, 53 annos depois da nossa emancipação politica, 23 annos depois da introducção dos caminhos de ferro no Imperio!

..........

— Que juizo fará de nós a geração vindoura? Que dirá, lendo os innumeros escriptos de propaganda para o desenvolvimento dos caminhos de ferro no Brazil, quando vir que nos tempos, que correm, não se faz um discurso, hnão se escreve um periodo, qualquer que seja o assumpto, sem repetir o motte, já ridiculo por sediço: — Vias de communicação para o Brazil — !!! e que no emtanto cruzamos os braços e deixamos as locomotivas argentinas e orientaes irem beber ovantes as aguas do nosso Uruguay; que deixamos os Argentinos e os Chilenos completarem o primeiro caminho de ferro interoceanico da America do Sul; que consentimos que as locomotivas peruanas ridicularisem, do alto dos Andes, nossas miseraveis locomotivas espreguiçando-se, envergonhadas e timidas, pelas praias, como se fossem tartarugas?!!..

p. 395

Ah a geração vindoura ha de perguntar envergonhada: — Eram homens ou mulheres velhas os que governavam então este rotineiro paiz?

p. 397-403

[excesso de impostos; militarismo; desocupar o Paraguai e retirar esquadra do Prata; telégrafo submarino permite que de Santa Catarina esquadra acorra a qualquer vento no Prata em poucas horas; única redução útil que se pode fazer no orçamento; em 1835 quando Tocqueville visitou os Estados Unidos, este "Paiz-Prodigio" tinha 15 milhões de habitantes e 6 mil soldados; Brasil tem 8 milhões de habitantes (7 milhões livres), e no entanto a lei n. 2,430 de 9 de Setembro de 1875 fixou 10 mil soldados em tempo de paz e 32 mil soldados em tempo de guerra; grande amor dos EUA à paz e à arbitragem]

p. 408

Disse Montesquieu: "Les pays ne sont pas cultivés en raison de leur fertilité, mais en raison de leur liberté".

André Rebouças
Rio, 30 de Julho de 1875

  

Agricultura Nacional: estudos econômicos. Propaganda abolicionista e democrática
Setembro de 1874 a Setembro de 1883
André Rebouças
A. J. Lamoureux & Co., Rio de Janeiro, 1883
2ª edição fac-similar - Fundação Joaquim Nabuco / Editora Massangana, Recife, 1988

Rebouças | Programa para depois da Abolição | A última Fala do Trono | Terra e ferrovias | Bibliografia
Imigração | Reforma da terra | Crédito territorial | Companhias abertas | Plano Rebouças
Terra: Hipólito | Bonifácio | Tavares Bastos| Rebouças | Rui Barbosa | Glicério | Township à brasileira | O exemplo americano
A idéia mudancista | Hipólito | Bonifácio | Independência | Império | Varnhagen | República | Cruls | Café-com-leite | Marcha para oeste | Constitucionalismo | Mineiros | Goianos | Projetos de Brasil | Ferrovias para o Planalto Central
 
 
    
 
Sobre o site Centro-Oeste | Contato | Publicidade | Política de privacidade