Rebouças: Agricultura Nacional
Falta de estradas
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A quarta causa de entorpecimento da lavoura, mencionada pelo inquerito,
mandado fazer pela circular de 18 de Outubro de 1873, do ministerio da
fazenda, é:
IV. — Falta de estradas.
Agora sim: estamos de accôrdo. Neste Imperio ha carencia, ha necessidade,
ha fome, ha sêde de vias de communicação!! Ainda não
houve meio de convencer aos que nos governam de que é impossivel
dar um passo na estrada real do progresso sem uma bem planejada rêde
de vias de communicação por todo o Imperio.
Repitamos com o engenheiro Antonio Rebouças: "Abrir estradas
é colonisar", e accrescentemos que "sem estradas
é impossivel colonisar". Um exemplo, do Brazil mesmo,
para que fique bem gravado em nosso espirito esta proposição
fundamental e especialissima!! Fundaram uma colonia, em uma certa provincia,
no interior de matta virgem, sem via alguma de communicação
com os centros povoados. Por felicidade os colonos eram excellentes, morigerados,
trabalhadores, querendo sinceramente constituir um patrimonio para si
e para seus filhos. O primeiro anno foi tristissimo: todos os sacrificios;
todas as privações; todos os pesados trabalhos de derrubada;
todo o máo estar de uma época de acclimatação!
No segundo anno excesso de chuvas: colheita insufficiente. No terceiro
anno: colheita excellente; infelizmente uma peste de ratos do matto reduzio
a colheita ao estricto necessario para a alimentação dos
colonos.
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Não desanimaram; duplicaram antes de actividade, e, no quarto
anno, a prodigiosa natureza virgem do Brazil recompensou os seus esforços
exuberantemente. Os paióes ficaram cheios até aos tectos!
A produção excedia ás necessidades dos colonos durante
mais de tres annos. Era evidentemente necessario vender e exportar.
Como? Por que caminho? Por que estrada? A via de communicação
unica era uma picada, em que viajamos com a fouce na mão; que se
confundia, por vezes, com os arrastões de madeira,mesmo para os
mateiros da localidade; que tinha subidas e descidas tão ingremes,
que era necessario apear e conduzir o cavallo pela rédea!!...
Vender, exportar: impossivel absoluto! Os bravos colonos, que tinham
lutado corajosamente quatro annos, desanimaram então, e abandonaram
a colonia!!
— Comprehendeis agora? Uma estrada, mesmo de rodagem, um plank-road,
um caminho de ferro de bitola estreita, mesmo de um só trilho,
teria constituido essa colonia, hoje abandonada, um centro prospero de
immigração, um foco de attracção para os innumeros
proletarios da velha Europa! Lembrai-vos sempre destas palavras de Michel
Chevalier, incluidas em uma carta assignada por Napoleão III, aconselhando
ao general Mac-Mahon sobre o systema, que devia seguir no governo da Argelia.
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"Le plus sur moyen d'accroitre la population d'une
colonie n'est pas d'y attirer à grands frais e par des promesses,
trop souvent irréalisables, des nombreux immigrants; mais d'encourager
les efforts des colons déjà établis, de favoriser
le bien être et d'assurer leur avenir. Le spectacle de cette
prosperité est le plus magique appel, que puisse être fait
à la confiance des étrangers.
Des courants d'immigration ne tardent pas à faire
affluer tous les jours des forces nouvelles vers un pays, où les
capitaux trouvent un hereux placement et le travail un emploi lucratif".
Todos estes sabios conselhos se podem resumir em uma formula economica
e social, muito mnemonica: "O immigrante quer bem-estar; o capital
quer segurança: quer paz".
Podeis multiplicar ao infinito os esbanjamentos de capital e de tempo,
que fazeis com a malfadada colonisação official: a emigração
espontanea para o Brazil ha de invariavelmente seguir a marcha ascendente
do bem estar e do progresso n'este Imperio.
Ora, uma das condições essenciaes para o bem-estar dos
povos é a abundancia de boas vias de communicação.
Nós temos ruins picadas, as mesmas que nos legaram os tristes tempos
coloniaes, e temos a velleidade de querer ter immigração
espontanea! Pretensão que de chimerica passa a ser ridicula!
Os Estados-Unidos, se quizeram ter immigrantes, principiaram por dotar
o seu vastissimo territorio de mais vias ferreas do que possue a Europa
inteira!
Tomaram em Nova-York, a posição mais estrategica
— o Castle Garden, e reduziram-no a palacio de immigrantes! Não
construiram torres, nem casamatas, nem o armaram com enormes canhões;
plantaram um lindo jardim, e decoraram caprichosamente a casa, destinada
a receber os miseraveis da Europa, bemvindos da America livre.
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— Quando teremos no Rio de Janeiro um Castle-Garden? — Um estabelecimento
proprio para a recepção, collocação e internação
dos immigrantes?
Ha no litoral desta cidade uma situação que lembra a do
Castle-Garden, em Nova-York: é tão mal occupada actualmente
pelo arsenal de guerra. Está se construindo um novo arsenal: é,
por certo, muito para desejar que os Ministerios da Guerra e da Agricultura
se entendessem para accelerar a remoção d'este arsenal,
e que, quanto antes, se tratasse de restaurar os actuaes edificios e preparal-os
no estylo do Castle-Garden.
São necessarios sacrificios reaes e muito grandes para se chegar
a alcançar o desideratum de uma importante corrente de immigração
espontanea de pessoas e de capitaes.
Nos Estados-Unidos o problema da immigração preocupa, incessantemente,
não só o governo, como toda a nação. Póde-se,
sem grande emphase, dizer que todo o territorio dos Estados-Unidos, desde
o Oceano Atlantico até ao Oceano Pacifico, é um immenso
Castle-Garden á espera de emigrantes.
Parece que todos os anglos-americanos têm gravadas na consciencia
estas propheticas palavras de Benjamin
Franklin, o mestre e o fundador dessa prodigiosa nacionalidade:
"To enjoy all the advantages of the climate, soil,
and situation, in which God and nature have placed us; is as clear a right
as that of breathing; and can never be justly taken from men but as a
punishment for some atrocious crime.
"America has only to be thankful, and to preserve,
God will finish his work, and establish their freedom: and the lovers
of liberty will flock from all parts of Europe with their fortunes to
participate with us of that freedom, as soon as peace is restored".
A predicção de Benjamin Franklin cumprio-se em toda sua
extensão. Todos os que no Velho Mundo têm sêde de Liberdade;
todos os que soffrem frio e fome, emigram aos milhares para os Estados-Unidos,
levando uns os seus recursos intellectuaes, outros a sua riqueza, outros
o seu trabalho, todos a vehemente aspiração de melhorar
a sua sorte.
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Na Europa contrariar a emigração é uma atrocidade
sem nome, é obrigar a morrer de fome quem deseja ir viver do seu
trabalho. Na America pôr obices á immigração
é verdadeiramente uma impiedade, por que é rebellar-se contra
o proprio Deus, que creou a America para asylo dos infelizes do Velho-Mundo!
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Continuemos; continuemos a pedir incessantemente caminhos de ferro para
o Brazil "Clama itaque, clama ne cesses". Não
será para nós, a mais de meio caminho de vida; será
para a geração vindoura!
Uma rêde de vias de communicação aperfeiçoadas
é um elemento indispensavel á liberdade do trabalho; é
um agente infallivel e da maxima energia para o desenvolvimento da prosperidade
nacional. Ouvi o grande mestre da sciencia do progresso neste sublime
e inteiramente novo ponto de vista do grande problema das vias de communicação:
"La liberté du travail, dont jouit un peuple,
donne, jusqu'à un certain point, la mésure de la fécondité
de son industrie, toutes les fois qu'il s'agit de populations, qui, comme
celles de l'Europe ou des Etats Unis, éprouvent vivement le désir
d'améliorer leur condition en travaillant 1[Michel
Chevalier — Introduction aux Rapports du Jury International de l'Exposition
Universelle de 1867, pag. CCCLIII].
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"Mais la liberté du travail pour qu'elle
rende les fruits, qu'elle promet et qui sont virtuellement en elle, ne
doit pas seulement être nominale: c'est-à-dire, simplement
inscrite à l'état de principe dans les lois.
"Il ne suffit même pas qu'en outre les lois
spéciales et les réglements évitent de lui porter
atteinte, et que le système financier du pays s'abstienne de la
paralyser par ses déréglements et ses interpérances.
Il lui faut, de plus, l'entourage des diverses mécanismes auxiliaires
doués d'une particulière énergie.
"Nous allons énumerer quelques uns de ces
mécanismes.
"Il est necessaire que le pays présente un
système de voies de communication rendant aisée l'approvisionnement
de l'industrie en combustible et en matières prémières,
rattachant les grands gisements de minereaux de fer aux puissants gîtes
de charbon, unissant les foyers des productions aux centres de communication,
et l'intérieur aux ports de mer. Ce sont des chemins de fer, des
canaux des routes de toutes sortes sans compter les fleuves et les rivières
améliorés dans leurs cours de manières à rester
navigable tant que la gelée ne vient pas les fermer. Ce sont encore
des services maritimes établissant de relations régulières,
promptes et économiques avec les autres nations. Le tout compose
une sorte de grand outillage, qui facilite extrémement aux hommes
l'éxercice de leurs facultés et l'entrée en possession
effective de la liberté du travail".
Vêde bem, excepto a navegação inter-oceanica, que
nos foi doada pela iniciativa anglo-saxonica, não possuimos elemento
algum para auxiliar, apoiar e garantir a liberdade do trabalho!
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Esses pobres colonos, que mencionamos no artigo anterior, abandonando
a sua lavoura, podiam dizer: no Brazil não ha liberdade do trabalho!
O infeliz camponio das margens do Alto S. Francisco, que não póde
exportar producto algum da sua industria, por falta de estradas e de caminhos
de ferro, póde tambem repetir: no Brazil não ha liberdade
de trabalho! Todos os habitantes do interior de Minas, de Goyaz e de Mato-Grosso
podem tambem repetir unisonos: no Brazil não ha liberdade do trabalho!
E queremos ter immigração espontanea?!! Absurdo! Chiméra!
Escarneo!
............
A desidia inqualificavel, com que tem sido neste paiz tratada a questão
vital dos caminhos de ferro, já causa assombro até á
propria Europa! Ainda ultimamente um jornal inglez escrevia em um notavel
artigo 1[O Globo, de 5 de Setembro de 1874,
reproduziu este artigo, que contém um sem-numero de epigrammas
dos mais ridiculos sobre a desidia, a pusilanimidade e a curteza do governo
deste paiz!] sobre as finanças do Brazil estas duras, mas
verdadeiras palavras:
"Á vista do estado lisongeiro das finanças
brazileiras, do facto de haver a receita duplicado no espaço de
dez annos, e haver annualmente um saldo da receita sobre a despeza, surprende-nos
de alguma fórma que o governo não applique sommas maiores
á realização da grande obra da construcção
das vias-ferreas. Não ha no mundo paiz que mais necessidade tenha
de estradas de ferro do que o Brazil. A este respeito está o Brazil
atraz, não só dos Estados Unidos, mas ainda das pequenas,
e muitas vezes mal governadas republicas da America do Sul e da America
Central.
"Nos Estados Unidos ha uma milha de estrada de ferro
para 56 milhas quadradas de territorio; no Canadá, uma para 148
milhas quadradas, no Chile, uma para 298; em Costa Rica, uma para 318;
e Honduras, uma para 638; na Confederação Argentina, uma
para 955; no Uruguay, uma para 1,290, no Perú, uma para 1,340;
o mesmo pobre Paraguay, (o nosso pupillo!!) tem uma milha de via
ferrea para 2,334 milhas quadradas de superficie, e o anarchico Mexico,
uma milha para 3.435 milhas quadradas!! Mas o Brazil, rico e florescente,
tem apenas uma milha de estrada de ferro para 7.573 milhas quadradas de
territorio!"
p. 394
E o articulista inglez não disse que estas republiquetas,
como na sua estultice sóem dizer os nossos oligarchas, construiram
caminhos de ferro em pampas, como a Republica Argentina, em desertos infestados
de salteadores, como o Mexico, nos altos e estereis pincaros dos Andes,
como o Perú! Não disse que nós brazileiros titubeamos
em construir caminhos de ferro nos valles do Tocantins, do Parnahyba,
do Paraguassú, do S. Francisco, do Jequitinhonha, do Rio Doce,
do Tieté, do Ivahy, do Ribeira, do Iguassú e do Tubarão!
Não disse que cada um destes rios encerra cabedaes para enriquecer
um imperio!
Tambem não disse que o Brazil tem vinte provincias e que doze
— as provincias do Amazonas, do Pará, do Maranhão, do Piauhy,
do Rio-Grande do Norte, da Parahyba do Norte, de Sergipe, do Espírito-Santo,
do Paraná, de Santa Catharina, de Goyaz e de Mato-Grosso — ainda
não viram uma locomotiva no anno de 1875, 53 annos depois da nossa
emancipação politica, 23 annos depois da introducção
dos caminhos de ferro no Imperio!
..........
— Que juizo fará de nós a geração vindoura?
Que dirá, lendo os innumeros escriptos de propaganda para o desenvolvimento
dos caminhos de ferro no Brazil, quando vir que nos tempos, que correm,
não se faz um discurso, hnão se escreve um periodo, qualquer
que seja o assumpto, sem repetir o motte, já ridiculo por sediço:
— Vias de communicação para o Brazil — !!! e que no emtanto
cruzamos os braços e deixamos as locomotivas argentinas e orientaes
irem beber ovantes as aguas do nosso Uruguay; que deixamos os Argentinos
e os Chilenos completarem o primeiro caminho de ferro interoceanico da
America do Sul; que consentimos que as locomotivas peruanas ridicularisem,
do alto dos Andes, nossas miseraveis locomotivas espreguiçando-se,
envergonhadas e timidas, pelas praias, como se fossem tartarugas?!!..
p. 395
Ah a geração vindoura ha de perguntar envergonhada: — Eram
homens ou mulheres velhas os que governavam então este rotineiro
paiz?
p. 397-403
[excesso de impostos;
militarismo; desocupar o Paraguai e retirar esquadra do Prata; telégrafo
submarino permite que de Santa Catarina esquadra acorra a qualquer vento
no Prata em poucas horas; única redução útil
que se pode fazer no orçamento; em 1835 quando Tocqueville visitou
os Estados Unidos, este "Paiz-Prodigio" tinha 15 milhões
de habitantes e 6 mil soldados; Brasil tem 8 milhões de habitantes
(7 milhões livres), e no entanto a lei n. 2,430 de 9 de Setembro
de 1875 fixou 10 mil soldados em tempo de paz e 32 mil soldados em tempo
de guerra; grande amor dos EUA à paz e à arbitragem]
p. 408
Disse Montesquieu: "Les pays ne sont pas cultivés en raison
de leur fertilité, mais en raison de leur liberté".
André Rebouças
Rio, 30 de Julho de 1875
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Agricultura Nacional: estudos econômicos.
Propaganda abolicionista e democrática
Setembro de 1874 a Setembro de 1883
André Rebouças
A. J. Lamoureux & Co., Rio de Janeiro, 1883
2ª edição fac-similar - Fundação
Joaquim Nabuco / Editora Massangana, Recife, 1988
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