Varnhagen, 1849
Memorial orgânico
(Paginas da 1ª parte do Memorial organico)
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Sabemos como a Bahia foi a primeira capital que teve o Brazil-Colonia;
isto quando no Rio de Janeiro ainda não havia uma casa. Até
que em 1560 Men de Sá, para desavesar dahi aos Franceses
que deitou fóra, propoz á côrte e conseguiu
que se fizesse em tão bom porto uma povoação.
A Bahia continuou sendo a capital do Brazil colonisado, e assim
era justo; pois como este se estendia pela costa, e succedia achar-se
aquella proximamente a meia distancia do littoral desde o rio do
Amazonas ao do Prata, dahi podia acudir melhor a toda a parte.
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Dividido o principado do Brazil em dois estados, ficando ao do
Gram Pará a parte do norte, e ao do Brazil (propriamente
dito) a costa oriental e capitanias do sul, tratou-se de escolher,
no littoral desde o cabo de S. Roque á colonia do Sacramento,
um ponto mais central que a Bahia. Eis a origem da transferencia
da capital para o Rio a qual teve logar em 1763.
O Sr. D. João, ainda então principe regente, e seus
ministros, ou por ignorarem estas circumstancias, ou para se verem
mais longe dos Franceses, de quem fugiam, não accederam aos
votos dos Bahianos (que tinham outra vez direitos de ser capital,
uma vez que o Brazil volvia a ser um), e se estabeleceram no Rio
quando sobre tudo depois para o reino unido, a Bahia até
ficava mais perto de Portugal e das Ilhas de Cabo Verde e das dos
Açores e Madeira.
Fez-se a independencia, e desde então não se tem
quasi pensado nisto, dando por negocio decidido que a capital do
Imperio tem de ser o Rio para sempre; e o que se lembra de tocar
neste ponto é tido por utopista, ou visionario.
Conviria porêm agora a transferencia da capital para a cidade
da Bahia? De fórma alguma: hoje para as necessidades do Imperio
essas capitaes da antiga colonia não podem bastar. São
mui deslocadas cabeças para dirigir, como cumpre, tão
grande corpo que necessita concentrar-se; e nem uma nem outra offerecem
á nação, apesar de suas aparentes fortificações,
as garantias de segurança e de inviolabilidade que ella exige
tenha o tabernaculo que guarda em si o chefe de Estado, e seus primeiros
delegados responsaveis, e o forum de seus representantes e legisladores.
E esta fraquesa de uma e outra cidade procede justamente da prerogativa
com que ambas se recommendam ao commercio, da bondade de seus
portos, os dois melhores do Brazil...
A nossa terminante afirmativa parecerá por certo ao leitor
mais fundamentada, quando se dê ao trabalho de percorrer comnosco
o catalogo das naçôens da Europa e da América,
e fizer o reparo de como as maiores dellas, e ainda as consideradas
como primeiras potencias maritimas, não tem suas capitaes
junto do mar, como se a politica ou o instinto da propria defensa
lhes dissesse que estavam, como estão, assim mais seguras...
Estão sim... á margem de rios; mas que esquadra se
atreveria a percorrer o Tamisa, com todas as suas voltas, até
chegar a Londres? Que valem os barcos que podem subir o Sena até
Paris, ou o Elba e o Sprée até Berlin? Quantos obstaculos
não offerece o Baltico e o golfo da Finlandia a uma nação
poderosa como a Russia para defender S. Petersburgo? Por ventura
pensou jamais a Austria em tirar do seio do Danubio sua côrte
afim de leval-a a Trieste ou a Veneza, embora isso a fizesse talvez
senhora do Adriatico? Ou occorreu alguma vez á Prussia
levar á foz do Oder a capital do grande Frederico, afim de
proteger a marinha do Zoll-verein, ou influir no Baltico?
Perunte-se aos mesmos Russos, se acaso ganharam em trocar a respeitavel
Moscou com seu Kremlin pela afrancezada cidade do Neiva. Os Czares
ganharam sim em tomar mais influencia nos destinos da Europa; mas
a Russia no seu interior perdeu. Apezar de não ser capital,
tal é a influencia de Moscou, que Napoleão concebeu
o plano de occupal-a para que S. Petersburgo com isso se lhe entregasse,
o que chegaria talvez a realisar se Moscou não se achasse
tão internada pelo sertão.
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Ainda no seculo passado um dos principes mais esclarecidos da Italia,
o fundador do.. reino de Napoles, ao depois Carlos 3º de Hespanha,
conhecendo a fraqueza do seu reino quando em 1742 os Ingleses ameaçaram
de lhe bombardear a capital, concebeu o plano de levar esta para
Caserta no interior, e na execução desse plano se
achava, quando a sorte o chamou a maiores destinos.
E o grande politico, o senhor de quasi toda a terra, Filippe 2º,
vemo-lo seculo e meio antes fixando sua capital em Madrid, e com
tão formidavel marinha como a que tinha, desprezando o magnífico
porto de Lisboa (de que estava senhor) e a foz do Tejo, para se
estabelecer nas cabeceiras deste rio.
E aqui temos na América novos exemplos. Alem das capitaes
do Mexico, Nova Granada, Venezuela, Ecuador, etc. como teria a república
Argentina resistido com tanta audacia á França, á
Inglaterra e a mais alguem, se a sua capital estivesse situada como
Montevideo, e nâo á beira de um rio, cujo pouco fundo,
que permitte rodarem nelle carros para fazerem o serviço,
nâo consente que uma esquadra possa estender-se em linha diante
de Buenos Ayres, abrir as portinholas e de morroens accezos impôr
as condiçoens, como se tem visto em outras partes... Na Europa
que digam Copenhagen, Lisboa, Nápoles, e a mesma Constantinopla
se é agradavel se quer o simples cheiro dos morroens accesos,
e se a vista de uma deliciosa bahia e dos navios que entram e saem,
compensa ao homem político essas crises, em que uma naçâo
inteira soffre um vexame, que vai á historia, só porque
a situação da capital e o respeito que esta teve ao
imponente bombardêo, obrigáram o governo a capitular...;
por quanto o remedio da retirada no momento de crise daria logar
ao desembarque, e se não ao saque, pelo menos a um forte
tributo, como impoz Duguay Trouin quando se assenhoreou do Rio de
Janeiro. E nem se diga que este porto está hoje mais defendido
qu entâo: que qualquer official d'armada sabe que a marinha
de guerra tem feito taes progressos em proporção da
defensa das fortalezas, que hoje não ha porto do mundo que
com bom vento não possa ser forçado por uma esquadra,
que va depois defronte da cidade indeminisar-se das despezas que
fez com o bloqueio, mettendo em conta gastos de botica, segundo
se conta que fez em Lisboa o almirante Roussin, sem haver tido ferido
algum na sua esquadra vencedora da foz do Tejo. Quanto ao actual
estado defensavel do Rio, e á possibilidade de resistencia
mais haveria que dizer; mas poupemo-nos a mencionar exemplos de
triste recordação para todo o bom cidadâo, embora
podessem fazer argumentos em nosso favor.
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Ora pois, hoje que já nâo somos colonias; que nâo
necessitamos de estar em dependencia de Lisboa, e que as vantagens
de termos a capital sobre o mar, nâo compensam a fraqueza
e compromettimentos que dahi podem resultar para a naçâo,
e outras muitas vantagens que se colheriam de a transferir para
o interior, segundo adiante mostraremos, assentamos por principio
que a capital do Imperio (ainda quando fossemos primeira potencia
maritima, eventualidade que podia destruir um simples temporal)
não deve ser em porto de mar, sobre tudo actualmente, em
que graças á invenção dos caminhos de
ferro, podemos fazer em algumas horas communicar com a beiramar
qualquer ponto do sertão...
Qual é o local mais conveniente para fixar a séde
do governo imperial?
Cremos haver deixado demonstrada a conveniente da exclusão
de todos os portos de mar. E agora accrescentaremos a capital do
imperio deve estar n'alguma paragem bastante no interior que reuna
mais circumstancias favoraveis, não só para satisfazer
ao principio essencial do clima..., como pelas razoens siguintes:
1ª Qualquer ponto delle, por distante que
o imaginemos, nunca será tanto que não possa no intervallo
de horas communicar-se com o porto mais proximo do litoral, por
um caminho de ferro que proporemos como indispensavel de se construir.
2ª Convem, para proteger as communicaçoens,
levar ás nossas provincias do sertão, e ahi empregar,
a maior somma possivel de capitaes productivos, os quaes augmentando
sua cultura e riqueza, e depois sua população, reverterão
em favor das cidades maritimas, já recebendo dali generos
de consummo ou de exportação, já enviando-lhes
os generos ultramarinos, que ellas mais ricas e povoadas consuymirão
em muito maior quantidade.
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3ª Como as cidades visinhas ao mar se civilisam
e criam as necessidades dos commodos da vida e do luxo, estimulo
da riqueza, pela simples frequencia dos navios e trato do commercio
maritimo, aos longos sertoens é necessario, para que elles
se animem a sair do estado quasi natural, levar como tonicos grandes
focos de civilisação, e não o pode haver melhor
do que o de assentar ahi a propria capital, que em todos os reinos
é o centro do luxo...
4ª Os governos cuja séde está
no interior do paiz tratam mais que os outros em cuidar de facilitar
as communicaçoens, que são as veias e arterias do
Estado, que sem ellas definha e morre.
5ª Ao mesmo tempo uma capital central pode
destribuir com mais igualdade, em differentes raios, sua sollicitude.
6ª Quanto mais central esteja a capital, mais
obstaculos se poderiam crear para não chegar a ella qualquer
inimigo que ousasse invadir o paiz; e ainda, sem imaginar-se esse
caso extremo, qualquer exigente negociador não se ulgaria
ahi tão forte para dictar condiçoens como tendo á
vista suas esquadras.
7ª Sendo certo que as capitaes, quando crescidas,
são o centro do luxo, ou dos artigos que não são
de primeira necessidade, e por tanto os maiores consumidores dos
productos do commercio maritimo, esses chegarão ao interior
já meio convertidos em trafico interno pelos preços
dos transportes, do que resultarão valores criados em beneficio
do paiz.
8ª Um centro de civilisação
nos elevadissimos chapadoens do interior, e em clima ja não
tropical, faria que promptamente ahi se cultivassem artigos de commercio
que não cultiva a beiramar e a permuta seria em beneficio
do paiz, que além disso ficaria mais rico de meios proprios;
e n'esses chapadoens a população que hoje é
quasi apenas pastoril, passaria a ser agricultora, e até
com o tempo, a ensaiar-se em outros ramos d'industria.
9ª Sendo nesses chapadoens elevados os ares
mais finos, e correspondentes aos da Europa, e legislando-se desde
ja que na capital e seus arredores não haveria escravatura,
estas verdades constariam logo, e afluiria ali expontaneamente muita
colonisação estrangeira, que hoje não vai ou
por desconhecerem taes circumstancias de clima ou por não
se atreverem a internar pelo far west, onde nâo tem consules
nem representantes, n'uma terra cuja lingua desconhecem, ou por
preferirem paizes onde nâo ha escravos...
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10ª Augmentando em todo o caso, ainda sem
esta colonisação, a população no interior
com a formaçâo da capital, e começando nos arredores
desta a desenvolver-se... certa industria fabril e manifactureira,
se colheria a vantagem de poupar mais os mattos cujas madeiras de
poderâo para o futuro utilisar para a construcção
naval ou para exportar, em vez de serem queimadas nas fabricas,
e nas roças e no uso domestico.
11ª Em uma posição adequada
do interior estará o governo mais em circumstancias de attender
aos ricos destrictos de Goyáz e Cuiabá, onde ha tanto
por criar, e dar providencias á cerca dos indios, a respeito
dos quaes muito pouco, ainda mal, se tem fallado no Rio de Janeiro.
12ª Os pretendentes a negocios de todas as
provincias, bem longe de passar o mar (como se habitassem n'uma
ilha), terão que percorrer o imperio, o que os fará
conhecer melhor o paiz e suas necessidades; e o que gastem na jornada
ou na residencia da capital, será mais em favor do paiz do
que se o gastassem nos vapores, ou n'uma cidade maritima.
Mas qual cidade ou villa do sertão nos deve merecer a preferencia?
Em nossa opinião nenhuma. Para nós todas tem o vicio
da origem, proveniente de uma riqueza que já não possuem.
A sua situação, assento e criação procederam
de uma mina em que se trabalhou mais tempo a tirar oiro, e junto
á qual os mineiros irregularmente edificaram suas primeiras
barracas, perto dos escombros de cascalho e desmonte da cata que
abriam.
Mas se, abandonando a idea de achar já feita e acabada a
cidade que tanto nos convem, nos resolvermos a fundar uma, segundo
as condiçoens que se requerem a toda a capital de paiz civilisado
hoje em dia, a verdadeira paragem para ella é a mesma natureza
quem aponta, e de modo mui terminante... É a em que se encontram
as cabeceiras dos afluentes Tocantins e Paraná dos dois
grandes rios que abraçam o imperio; i. é, o Amazonas
e o Prata, com as dos do S. Francisco, que depois de o atravessar
pelo meio desemboca a meia distancia de toda a extensão do
nosso littoral, e de mais a mais a meia distancia da cidade da Bahia
á de Pernambuco. É nessa paragem bastante central
e elevada, donde partem tantas veias e arterias que vão circular
por todo o corpo do Estado, que imaginamos estar o seu verdadeiro
coração; e ahi que julgamos deve fixar-se a séde
do governo.
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Mas vamos restringir o territorio dentro do qual, nessa paragem,
haveria que escolher a mais conveniente posição para
o assento da cidade.
Os seus limites devem ser offerecidos pelos mesmos tres rios que
fazem a posição tam vantajosa: deve ser o comprehendido
no triangulo formado pelos tres portos de canoas de cada um delles
que mais se aproximem entre si; ou se se quizer pelo circulo que
passar por esses tres pontos. A situação procurada
terá sempre que ficar, proximamente, a distancia igual dos
cinco pontos, Rio, Bahia, cidade de Oeiras, Cuiabá... no
caso de haver por ahi uma localidade que satisfaça ás
condiçoens:
1ª Uma chapada pouco elevada e sem muitas
irregularidades na extensão de mais d'uma legua quadrada,
sendo situada á borda de um rio, que embora ja ahi não
seja navegavel, tenha no tempo seco bastante agua para lavagens
de roupas, banhos, bebida de gados etc.
2ª Deve ser lavada de bons ares, e ter escoante
sufficiente para que seus canos possam sahir no rio uma legua abaixo:
não deve ter perto pantanos, nem aguas encharcadas.
3ª Será a dita chapada naturalmente
defensavel, e sem padrastos a alcance da artilheria. Mas a duas
ou tres leguas convirá que haja montanhas com mananciaes
que a todo o tempo se possam encanar.
4ª Sendo possivel preferir-se-ha a localidade
em que o rio, torneando uma igual chapada, a deixe como em peninsula,
ou se não onde o mesmo rio faça uma lagoa; com tanto
que esta não seja causa de serem os ares menos saudaveis.
5ª Deve haver a distancia rasoavel, v. gr.
até 3 leguas, bastante matto, pedra de construcção,
e sendo possivel tambem calcarea.
6ª Como a localidade que se deverá
preferir tem de estar em 15º ou 16º de latitude, comvêm
que fique elevada sobre o mar pelo menos 3.000 pés, a fim
de que sejam... puros e saudaveis os ares... Seria facil achar posição
favoravel talvez junto ás lagôas de Felis da Costa,
Formoso etc....
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