Agricultura, 1861
Parecer de C. B. Ottoni

Anexos / gif. 316

Rio de Janeiro, em 25 de Julho de 1861

Illm. e Exm. Sr. — O Director da Companhia Commendador João Baptista da Fonseca apresentou em sessão da Directoria a proposta inclusa por cópia que na fórma do desejo manifestado em suas ultimas palavras, a Directoria tem a honra de apresentar a V. Ex. E julga de seu dever declarar perante V. Ex. a opinião que formou sobre a materia sujeita, depois de bem ponderado. As razões produzidas para a suspensão dos trabalhos da estrada de ferro, na margem do Parahyba, pelo que toca ao braço do Norte, rio abaixo, não offerecem na opinião da Directoria concludencia alguma; e julga ella de sua rigorosa obrigação, lugar de propôr como se indica um adiamento da construcção requerer novamente a V. Ex. a approvação dos planos da 3ª secção para que se trate de adiantar a execução sem perda de tempo. É uma distancia de 94 milhas, comprehendendo pontes importantes sobre o Parahyba, e a prompta adjudicação d'essas obras se faz necessario para que chegando os trilhos á Barra do Pirahy possa rapidamente lançar-se pela continuação rio abaixo, evitando-se novas delongas, além das que impõem ao paiz as obras gigantescas da passagem da cordilheira.

Não procedem em relação a esta linha as objecções da proposta porque: 1º As proprias opiniões citadas em nada pretendião affectar o traço da 3ª secção, senão nas ultimas leguas abaixo das Tres-Barras. 2º Por essas mesmas leguas não se verifica o risco de fazer concurrencia á estrada de Cantagallo, porque esta não transpõe a serra, e acaba de declarar a Companhia que sómente a poderia subir com um caminho em zig-zag; sendo aliás manifesto que as finanças da Provincia não podem garantir capitaes avultados para uma obra tão defeituosa, onerosa e inefficaz. 3º A distancia do Porto Novo do Cunha a S. Fidelis he consideravel (mais de 20 leguas) ao contrario do que affirmou o autor do opusculo citado, como elle mesmo teve depois occasião de verificar. 4º O traço da 3ª secção, ou braço do Norte, e os ultimos estudos do valle do Parahyba nesta parte tornão patente que a mesma 3ª secção em nada prejudica o pensamento de se dirigirem os trilhos para a zona de matas virgens de que trata a proposta, e que pelo contrario he o começo da realização d'esse fecundo pensamento. 5º O risco de fazer concurrencia á estrada União e Industria não merece attenção alguma, sendo certo que a de ferro póde trazer os productos da lavoura por metade ou menos do preço daquella, e que ante tão grande beneficio á producção, devem cahir quaesquer outras considerações. 6º Na 3ª secção estão depositadas as esperanças da estrada de ferro, de realizar uma grande renda, alliviando o Thesouro. A 1ª secção custou á Companhia talvez o duplo do que vale, e atravessa terrenos quasi de todo infecundos. A 2ª transpõe a serra com grandes sacrificios e apenas penetra nos centros de producção. A 3ª porém, sendo muito menos dispendiosa, percorre em toda a sua extensão o centro da zona eminentemente productora de café.

E assim a estrada de ferro, que, se parasse na barra do Pirahy, continuaria indefinidamente a ser onerosa ao Estado, proseguindo o rio abaixo, verá avultar consideravelmente os seus recursos, e trará ao Thesouro e ao paiz vantagens de tal ordem, que não supportão comparação com a estrada União e Industria na parte d'aquem Parahyba que ficará inutilisada.

A respeito da linha Parahyba ácima á Directoria parecem attendiveis as razões deduzidas na proposta inclusa; e pede a V. Ex. se digne examinar a questão e resolver o melhor, não duvidando a mesma Directoria solicitar dos Accionistas autorisação para a novação do contracto, se o Governo Imperial julgar conveniente reconsiderar a direcção da 4ª secção da linha decretada.

Deus guarde a V. Exª. — Illm. e Exm. Sr. Conselheiro Manoel Felizardo de Sousa e Mello, Dignissimo Ministro e Secretario de Estado dos Negocios da Agricultura, Commercio e Obras Publicas. — Christiano benedicto Ottoni, Presidente da Directoria.

Confere. — Manoel da Cunha Galvão.

 

Agricultura, 1861
Relatorio da Repartição dos Negocios da Agricultura, Commercio e Obras Publicas apresentado á Assembléa Geral Legislativa na segunda sessão da decima primeira legislatura pelo respectivo ministro e secretario de Estado
Manoel Felizardo de Souza e Mello
Rio de Janeiro - Typographia Universal de Laemmert, 1862

EF de D. Pedro II
• Proposta de J. B. da Fonseca (dir.)
   • Trechos citados
• Parecer de C. B. Ottoni (pres.)
• Parecer de Veriato de Medeiros (engº fiscal)
• "Inglezas"

A correspondência gerada pela proposta do diretor J. B. da Fonseca traz à tona o livreto publicado dois anos antes por Christiano Ottoni sobre O futuro das estradas de ferro no Brasil. Em seu parecer Ottoni discorda de suspender a construção do ramal para Porto Novo do Cunha; mas subscreve que se estude a linha de Passa Vinte, rumo ao Oeste de Minas.

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