Agricultura, 1865
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[ver "João Francisco" em Mattoon!]

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Julgo indispensaveis algumas alterações no regulamento provisorio n. 124 de 5 de fevereiro de 1842, no sentido de harmonisal-o com os preceitos constitucionaes. O recurso da decisão do ministro para o conselho de estado, instituição puramente consultiva, é uma incongruencia.

Consultando algumas secções em mais de um ministerio, não podem, sem grande sacrificio dos conselheiros de estado, e sensivel detrimento da celeridade convinhavel aos negocios, satisfazer as exigencias do interesse publico sem um secretario, que as auxilie.

Os directores das secretarias de estado pela alta posição de confiança, que occupam, podiam, talvez, preencher esta lacuna do regulamento em relação aos negocios, que correm por ellas; embora quando reunidas as quatro secções, por economia, servisse de secretario do conselho de estado um de seus membros. Seria um tirocinio, um aprendizado, o exercicio preliminar, que prepararia futuros conselheiros de estado, instruidos pela pratica administrativa, e amestrados pelo manejo diurno dos negocios publicos.

Os conselheiros de estado são tirados do senado, ou d'entre os antigos servidores do estado, uns e outros respeitaveis pela sua illustração, criterio e longa pratica, mas de ordinario fatigados pela idade, e sem aquelle vigor, que a multiplicidade dos negocios exige.

Apezar porém destas causas, apezar das exigencias dos deveres de outros cargos, que quasi todos exercem, apezar da deficiencia de seu numero, os membros da secção do conselho de estado, que consultam nos negocios do ministerio da Agricultura, nunca illudiram minha expectativa, e auxiliaram-me sempre com suas luzes franca, e lealmente todas as vezes, que recorri á sua experiencia e conselhos: tão forte é o sentimento do dever que os anima.

Pelo quadro appenso, (letra A) avaliareis a importancia dos serviços por elles prestados a este ministerio.

[criou um cargo novo, diz-que sem ônus: não entendi se "estatística" e/ou "coordenação" das 4 directorias da secretaria de estado; obteve um amante das estatísticas do min. Fazenda. Diz que neste relatório já se perceberá a melhoria dos números etc.]

gif 62 e anteriores [criação do corpo de engenheiros civis, para não depender mais do min. da Guerra]

p. 64 / gif 62... em diante

Estradas de ferro

O grande desenvolvimento que as estradas de ferro vão tendo em quasi todos os paizes, é devido principalmente á tendencia da época, á justa apreciação, que se faz do valor do tempo, objecto que por si define o gráo de adiantamento de uma nação.

De todos os beneficios que póde gozar o genero humano é sem duvida um dos maiores o uso deste meio rapido e seguro de locomoção. Encurtando as distancias, economisando o tempo, contribue elle poderosamente para civilisar, moralisar e confraternisar os povos pela permuta das idéas e dos interesses. E como auxiliar das outras industrias é um dos seus principaes elementos de prosperidade.

Nos paizes mais adiantados, que dispoem de muitos e variados meios de transporte, os caminhos de ferro tem conquistado sobre todos a supremacia, e até sustentado com vantagem a concurrencia da viação por agua.

Entre nós, porém, as vias ferreas não tem produzido iguais resultados, e fazem alguns desanimar inteiramente, e descrer do seu futuro.

Mas se attendermos a que a experiencia, sobretudo em materia desta importancia, custa sempre caro; se considerarmos a falta que havia então, e que ainda ha na maior parte do imperio, de exacto conhecimento da topographia do paiz, os immensos obstaculos, que em muitos casos a natureza antepõe á execução das obras d'arte, e finalmente a deficiencia absoluta do pessoal e material para a construcção desses instrumentos do progresso, concluiremos forçosamente que não ha motivo para desesperar de ver tambem com o tempo prosperarem entre nós as emprezas de caminhos de ferro.

O custo exagerado de umas, o traçado inconveniente dado a outras são causas verdadeiras do estado financeiro pouco satisfactorio de algumas das nossas estradas de ferro; concorrendo tambem para essa situação o pouco zelo com que em geral são administradas.

Haja severa economia nas despezas de administração e de costeio, prolonguem-se as estradas de ferro de modo a servirem á maior somma de interesses, e estou certo de que o seu futuro se tornará menos precario.

Para resolver este problema está dado o primeiro passo. A estrada de D. Pedro II, propriedade hoje do estado, tem em si recursos para viver e prolongar-se indefinidamente. As economias já realisadas nas despezas de sua administração e costeio, e as que continuarão a ser feitas sem prejuiso do serviço, autorisam-me a dizer que o saldo liquido chegará para levar-se a effeito, ainda que lentamente, a construcção das obras do prolongamento desta grande via de communicação, exigido assim pelas necessidades publicas como pelo interesse do thesouro, sem onus sensivel para o estado.

Esta idéa, que me parece util, desejo ver realizada em relação não só á estrada de ferro de D. Pedro II, mas igualmente ás outras estradas garantidas pelo estado.

Convencido de que, emquanto forem estas dirigidas por companhias, será difficil senão impossivel, prolongal-as com os recursos indicados, entendo que seria vantajosa a sua acquisição, nos termos da lei n. 1,083 de 22 de agosto de 1860.

Poder-se-hia então applicar-lhes o mesmo principio que julgo conveniente adoptar para prolongamento da de D. Pedro II, e assim ficariam satisfeitas as justas aspirações das provincias, sem que houvesse razão de queixa pela preferencia que lhes fosse dada.

Mas, como sabeis, dos accionistas depende a realização deste pensamento.

O nosso aprendizado foi sobre modo dispendioso. O desejo que tinhamos de acompanhar o progresso do mundo, possuindo tambem estradas de ferro, compellio-nos a acceitar condições onerosas, quer, em relação a taxa de juros garantida pelo estado, quer em relação ao tempo da duração do privilegio.

A realisação do pensamento que acabo de enunciar, coolocaria o governo em posição de poder, quando a opportunidade se offerecesse, cedel-as sob condições menos gravosas.

Haveria ainda a vantagem de libertar-se o governo das impertinentes pretenções das actuaes companhias.

De D. Pedro II

Em maio do anno passado disse-vos o meu antecessor em seu relatorio que a companhia da estrada de ferro de D. Pedro II estava empregando os ultimos recursos da sua emissão, e podia por conseguinte considerar-se dissolvida de facto. Com effeito, no decurso desse mesmo mez dirigio-se a administração desta empreza ao governo, expondo os embaraços financeiros em que se achava, e solicitando auxilio directo do thesouro para o proseguimento das obras já contractadas, as quases na opinião da directoria poderiam ser concluidas mediante um supprimento por parte do governo de cerca de dous mil contos.

No seguinte mez insistio de novo a directoria sobre a urgencia de dinheiro para o pagamento das obras de construcção, declarando então que tinha em caixa apenas a quantia de 77:000$, restando por pagar diversas despezas avultadas pertencentes ao mez anterior. Nessa occasião ponderou tambem os inconvenientes e prejuizos que resultariam da paralysação e interrupção das obras em andamento, e finalisou seu officio dizendo, que a não ser satisfeito o pedido de fundos para a conclusão das obras, estava a companhia prompta a transferir para o dominio do estado a propriedade da estrada de ferro.

A importancia da empreza, a urgencia de fornecer-lhe os meios de cumprir as obrigações contrahidas, e o facto ainda mais significativo de pertencer aos accionistas sómente o capital de 2.559:800$, ao passo que nesta estrada estavam empregados 24.666:666$666, foram razões, a meu ver mui plausiveis, que aconselharam o acto da transferencia para o estado do resto das acções da companhia, fazendo-se a sua permuta por apolices da divida publica, como determina o art. 5º da lei nº 1,083 de 22 de agosto de 1860, visto que todos os alvitres reputados mais vantajosos pela directoria da extincta companhia, não estavam na alçada do governo e careciam de autorisação legislativa.

* [verificar se não houve tempo, e deixou-se escoar até não haver mais. Outras questões: com resultados positivos, não dava "lucro" aos acionistas? Não era possível atrair mais capital?]

O ramal de Macacos que era propriedade dos srs. Gomes, Bastos & Carvalho passou igualmente a pertencer ao estado, mediante as clausulas do contracto approvado pelo decreto nº 3,512 de 6 de setembro de 1865.

O unico onus a que o governo se obrigou, foi a concessão de passagem livre aos antigos proprietarios em todos os trens que transitarem pelo ramal.

Apezar do deficit que resulta da manutenção do serviço neste ramal ha vantagem em continuar o trafego, porque a despeza de conservação das estradas da — Senhorinha — e das — Jaboticabeiras — seria mais avultada, se estas não tivessem o ramal para se entroncarem com a estrada de ferro de D. Pedro II.

Dissolvida a companhia passou a administração desta empreza a ser exercida por algum tempo pelo director, de nomeação do governo, o conselheiro C. B. Ottoni, o qual pedio e obteve a sua exoneração em 13 de dezembro do anno findo, sendo nessa data nomeado para o substituir o dr. Bento José Ribeiro Sobragy.

Se a experiencia de alguns mezes póde autorisar uma opinião sobre a administração da estrada de ferro pela companhia comparada com a actual administração por conta do estado, é fóra de duvida que os resultados obtidos provam em favor desta, como se evidencia do seguinte quadro:

Semestres Custeio Renda Porcentagem

[redução de vencimentos de empregados de responsabilidade, eliminação do custo de fiscais...]

(...)

Obras. — No dia 17 de dezembro foi inaugurado o tunel grande na Augusta presença de SS. MM. II. e de S. A. I. a Serenissima Princeza a Senhora D. Isabel e S. A. o Senhor Conde d'Eu.

(...)

A renda bruta, no periodo a que me refiro, foi de 967:960$583; e a despeza correspondente montou a 552:804$101, deixando de saldo liquido no semestre a quantia de 415:156$573.

(...)

Conservação da estrada. — Incluindo o ramal de Macacos, a parte da estrada em trafego comprehende cerca de 137 kilometros de extensão. Neste serviço emprega-se avultada somma, sendo uma das verbas de despeza que demanda o mais serio estudo da administração.

O desejo, aliás louvavel até certo ponto, de prolongar a estrada o mais que fosse possivel dentro das forças do capital de que dispunha a empreza, fez com que não se attendesse tanto á necessidade de consolidar os grandes aterros e córtes que existem na 2ª secção, construindo as obras precisas para garantil-os de frequentes escorregamentos que occasionam interrupção no serviço do trafego, e onéram extraordinariamente as despezas do costeio.

(...)

Do Recife

A situação financeira desta estrada seria sem duvida mais florescente, se a sua administração, comprehendendo melhor seus interesses e as obrigações que contrahio, tratasse de habilital-a com os meios necessarios para bem servir ao publico, dando sempre transporte aos passageiros e cargas, que muitas vezes ficam nas estações por falta de material rodante sufficiente para o trafego. A directoria porém, em vez de recorrer á companhia, dirigio-se ao governo, pedindo a quantia de £ 16,000, para augmentar o trem rodante. Depois de ouvida a este respeito a secção dos negocios do imperio do conselho de estado foi esta petição promptamente indeferida.

Outrotanto succedeu ao pedido feito em relação ao prolongamento desta estrada da estação das — Cinco Pontas — até o centro da cidade do Recife, por não caber na alçada do governo semelhante concessão.

Nestes ultimos tempos a directoria, attendendo ás constantes observações do governo, tem introduzido uteis reformas na parte concernente á administração da empreza e á fiscalisação de seu trafego.

Infelizmente, porém, continúa a solicitar constantes favores que não podem ser-lhe concedidos, e na supposição de que os deve conseguir, tem-se tornado por demais impertinente em suas relações com o governo.

No intuito de convencel-a de que seguia caminho errado, aproveitei a estada em Londres do capitão J. E. Viriato de Medeiros, para incumbil-o de esclarecer a directoria desta empreza sobre os verdadeiros interesses dos accionistas, que estavam sendo prejudicados pelo seu procedimento inconveniente. Foi com este fim que aquelle engenheiro suggerio a idéa da transferencia dessa estrada ao governo na forma autorisada pela lei de 22 de agosto de 1860, se por ventura não estivessem os accionistas satisfeitos com o estado de seus negocios no Brasil.

Continuam porém, as cousas no antigo estado, e o governo resolvido a não fazer concessão alguma, que não esteja dentro da orbita da lei.

Segundo as ultimas informações, o saldo realisado nos dez mezes do anno passado era de 146:181$500, o qual comparado com o saldo do mesmo periodo no anno de 1864, que apenas se elevou a 73:064$700, mostra as vantagens que sempre resultam de uma melhor fiscalisação nas despezas de caracter permanente como são as do costeio. É fóra de duvida, que para aquelle augmento concorreu tambem maior movimento no trafego; e, se a estrada dispuzesse, como já disse, do material rodante preciso, estaria hoje em condições ainda mais favoraveis.

Continúa em vigor a tarifa que provisoriamente fôra adoptada, e cujos resultados aconselham sua approvação definitiva mediante pequenas alterações. Ponderando porém o engenheiro fiscal a conveniencia de se aguardar a definitiva adopção do systema metrico ordenada pela lei nº 1.157 de 27 de julho de 1862, e reconhecendo que ha vantagens em demorar por mais algum tempo, a approvação desta tarifa, deliberei deixal-a no estado provisorio em que se acha.

O serviço da conservação da linha e das estações, tem sido feito com regularidade. Os estragos produzidos pelas copiosas chuvas do ultimo inverno, foram reparados com promptidão, ao que foi devido não prolongar-se a interrupção do trafego além do tempo estrictamente indispensavel para os concertos.

O máo estado da estação central das Cinco Pontas, e sua insufficiencia para o serviço da estrada, são objecto de justas representações por parte dos expedidores de mercadorias.

Dependendo porém, sua reconstrucção e augmento da solução que por ventura fôr dada á questão do prolongamento da estrada daquelle ponto ao centro da cidade do Recife, aguardarei a vossa deliberação a este respeito para attender como fôr mais conveniente aquella necessidade.

1ª Secção. — As aguas do rio Pirapama, assoberbadas com as chuvas torrenciaes do ultimo inverno, arruinaram a estrada em varios pontos e principalmente no lugar denominado — Caxito — onde foram suspensos e deslocados os carris em uma extensão de cerca de 30 metros, e estragado grande parte do lastro. As alas de pedra das pontes sobre o mesmo rio, e sobre o Jaboatão, foram destruidas, ou arruinadas.

Trabalhou-se no alargamento do grande vallado de esgoto entre a estação do Cabo e o referido sitio do Caxito; substituiram-se 222 dormentes, e 82 panellas de greaves, e empregaram-se 366 jardas cubicas de lastro.

2ª Secção. — O aterro de Olinda, em a extensão de 50 metros, e uma pequena parte do que fica junto ao tunel, ficou destruida por occasião das referidas chuvas; despendendo-se na sua reconstrucção 380 jardas cubicas de terra. Os taludes dos córtes desta secção tambem soffreram alguns esboroamentos.

Substituiram-se 4,166 dormentes, e, apezar de se lhe haver lançpado 2,316 jardas cubicas de areia, a linha preciza ainda de algum lastro.

(...) *[seguem mais estragos e consertos]

Da Bahia

Comprehendendo a final a directoria desta empreza que dependia principalmente della a execução de medidas que melhorassem o seu estado financeiro, tratou de fazer reducções no pessoal administrativo da companhia, e procurou fiscalisar mais efficazmente as despezas do respectivo costeio.

Tão acertado procedimento não podia deixar de produzir beneficos resultados. O deficit sempre crescente até o anno de 1864, no qual excedeu de 200:000$, baixou, em 1865, a 107:911$550; e as contas do ultimo mez de janeiro apresentam já um saldo de 1:495$.

É isto mais uma prova de que a lei da necessidade é o verdadeiro estimulo para promover o desenvolvimento de qualquer industria.

A companhia que a principio mostrava-se pouco zelosa na administração da estrada, confiada talvez em que o governo faria sempre bom o dividendo de 7%, mudou de proceder depois que foi indeferida em junho ultimo a petição que dirigio ao governo para ser indemnisada da quantia de £ 28.000, importancia do deficit havido no trafego durante o anno de 1864.

Tem igualmente concorrido para o augmento da renda a utilidade que já prestam alguns ramaes abertos pela presidencia da provincia; e é de presumir que, terminados os trabalhos de outras estradas em construcção, o trafego tome maior incremento, e colloque a empreza em situação prospera, se a sua administração perseverar no systema de activa e zelosa fiscalisação que encetou com tão feliz exito, subordinando-se mais á justa apreciação do seu proprio interesse.

A organisação de uma tarifa conveniente é o objecto da actualidade em relação a esta estrada, que em grande parte de sua extensão luta com a concurrencia da navegação costeira.

(...) * [estradas vicinais para concentrar mercadorias etc.]

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De S. Paulo

Ao tomar a direcção dos negocios deste ministerio encontrei uma rperesentação da directoria da companhia da estrada de ferro de Santos a Jundiahy, solicitando que o governo levantasse o capital addicional a que se refere o contracto de 1859, attentos os embaraços que a empreza teria em realisar essa operação por conta propria. Respondi sem demora pelo primeiro paquete (24 de maio de 1865) que sendo a condição 1ª do dito contracto terminante, e impondo ella á companhia a obrigação de levantar por si o capital addicional de que carecesse, não podia nem devia o governo ingerir-se em semelhante operação.

Quando o sr. Aguiar de Andrade recebeu esta resposta já havia compromisso da sua parte em adiantar á companhia a quantia de £ 100.000, que elle effectivamente adiantou-lhe sob sua unica responsabilidade. Este emprestimo vence o juro de 7% ao anno e tem de ser pago com o capital addicional que a companhia levantar.

Não tendo até então sido examinadas as contas da companhia, e cumprindo saber quanto se despendêra com as obras construidas, afim de se discriminar a parte do capital empregado no pagamento de juros aos accionistas, resolvi mandar a Londres eo capitão de engenheiros J. E. Viriato de Medeiros, incumbido especialmente do exame dos livros da companhia, afim de dar-se execução ás disposições da condição 19 do contracto de 26 de abril de 1856, e habilitar-se o governo com dados seguros para fixar o quantum do capital addicional, que tem direito á garantia, como determina o contracto de 29 de outubro de 1859.

Ao mesmo tempo encarreguei aquelle engenheiro de convencer á directoria da necessidade de certas obras addicionaes na via ferrea de S. Paulo, e declarar-lhe positivamente que o governo não aceitaria a estrada sem a execução das referidas obras, sobre as quaes por vezes se havia reclamado, sem que houvesse a companhia dado providencia alguma a esse respeito. E como a estes objectos ligava-se a questão do momento, — o levantamento do capital addicional —, autorisei o sr. Viriato de Medeiros a dizer á directoria que para o governo se incumbir desta operação financeira era preciso que a companhia declarasse quaes as vantagens que concederia ao governo em troca do unico onus que o contracto de 1859 lhe havia imposto, e que desta fórma passava para o estado.

A commissão, de que se trata, exigia conhecimentos profissionaes, e por isso ninguem estava mais habilitado para bem desempenhal-a do que o sr. Viriato de Medeiros, que reunia ainda a vantagem de ter inspecionado esta estrada por ordem do governo, de conhecer os seus defeitos, e ter proposto a construcção de diversas obras addicionaes indispensaveis para manter regularmente seu trafego.

Naturalmente com o louvavel fim de terminar a questão, e a consciencia de que fazia um bom serviço, em 21 de outubro ultimo celebrou o sr. Viriato de Medeiros um acordo, com a directoria da companhia, concebido nos seguintes termos:

«1º. O tempo de garantia que pelas concessões era de 90 annos, fica reduzido a 50.

2º. A companhia passará ao governo imperial uma obrigação ou qualquer outro documento que melhor nome tenha, que assegure ao governo o pagamento do principal, todas as vantagens que possam provir aos accionistas, e o juro de 7% ao anno, ficando o governo isempto de qualquer onus que como accionista aos mesmos possa o futuro provir.

3º. O governo imperial que pelo art. 33 das concessões participava dos dividendos sómente depois que elles excedessem a 8%, participará delles depois que excederem a 7%.»

Esta proposta não podia ser aceita pelo governo, porque não determinando a épocha e o modo do reembolso do capital emprestado, collocava-o na posição de associado á empreza, o que reputo inconvenientissimo.

Desejoso, porém, de auxiliar a companhia na situação difficil em que ella dizia achar-se, declarei ao sr. Medeiros que aceitaria aquella proposta modificada do modo seguinte:

1º. Praso de garantia 50 annos, se não fosse possivel obter maior reducção.

2º. O governo teria todas as vantagens de accionsita, isempto porém dos onus, isto é, perceberia sempre 7% do capital adiantado, embora os accionistas recebessem menos, quando a receita do trafego não cobrisse a despeza; ficando assim simplesmente na posição de emprestador de capital a juro de 7%.

3º. Todos os lucros excedentes a 7% seriam entregues ao governo para amortisação do capital emprestado. Verificado isto perceberia o governo sómente as vantagens estipuladas na condição 33ª, do contracto de 1856.

Comparadas as duas propostas vê-se que o governo pela primeira, não havendo época marcada para o reembolso do capital adiantado, nem indicação do modo de realisal-o, só seria indemnisado deste capital, quando por ventura tivesse lugar a encampação da empreza; entretanto que a segunda estabelece logo um fundo de amortisação formado de toda a renda liquida excedente de 7 por %, e assim mais promptamente receberia o governo o capital emprestado. Se naquella proposta ha a vantagem, apparentemente seductora, de repartir-se com o governo o excesso dos lucros sobre 7 por %, nesta ha a vantagem ainda maior, vantagem real, de reduzir-se em pouco tempo a garantia de juros unicamente ao capital primitivo.

Assim as modificações propostas collocaram o governo na sua verdadeira posição perante a companhia. Esta porém, não aceitou-as, porque o sr. Viriato de Medeiros deu-lhes uma interpretação tal que tornou-as innaceitaveis tanto para a companhia como para o proprio governo. A companhia ficava sujeita a pagar duas vezes o mesmo capital, o governo representava o papel de emprehendedor de industria.

Á vista do exposto não podia o sr. Viriado de Medeiros continuar a servir em Londres, e retirei-lhe immediatamente a commissão que lhe havia confiado.

Devo porém communicar-vos que o fim principal desta commissão preencheu-se: porquanto o sr. Medeiros já remetteu-me os trabalhos concernentes ao exame das contas desta empreza, de accordo com as disposições dos contractos.

A companhia, segundo me consta, trata de levantar o capital de que necessita e parece emfim resolvida a dispensar neste assumpto o auxilio do governo.

———

p. 82 / gif 80 [trata-se de nada menos que a inauguração da linha até São Paulo!]

No dia 6 de setembro do anno passado, na parte desta estrada que da Tabatinguera se dirige a estação da Luz, na cidade de S. Paulo, teve lugar um accidente dos mais graves, que, além de ferir muitas pessoas gradas da capital da provincia, matou o machinista de uma locomotiva.

Os trabalhos do assentamento dos trilhos até a mencionada estação estavam concluidos, e marcado o dia 6 de setembro para, pela primeira vez, percorrel-os a locomotiva, conduzindo um trem de materiaes.

Á instancias da camara municipal da capital da provincia, que pretendeu dar a esta estréa uma certa solemnidade, os emprezarios permittiram que o trem recebesse na estação da Moóca as pessoas convidadas pela mesma camara para assistirem na estação da Luz ao acto da benção das locomotivas em serviço.

O estado da via permanente era ainda muito imperfeito; e a circumstancia de ser o trem puchado por duas locomotivas, a curva que fazia o caminho no lugar do sinistro, as difficuldades que havia a vencer em razão de uma pequena subida, e principalmente a imprudente velocidade empregada para uma primeira experiencia e contra disposição expressa, terminante do regulamento de 1857 (art. 95), foram as causas deste accidente, que tão rapidamente trocou por lagrimas e luto as alegrias e o enthusiasmo do povo.

Não eram porém estas do numero das que não podessem ser previstas com um pouco de prudencia e reflexão; e como o engenheiro do governo, que devia comprehender o alcance de tão mal dirigida experiencia, permittio a infracção do regulamento citado, e não empregou todos os meios de prevenil-a, ou ainda de impedil-a, julguei indispensavel exoneral-o desse cargo.

———

(...) * [e já que os norte-americanos gostam tanto de SP, e já que trabalho exploratório nunca é perdido, contractei o engenheiro Newton Bennaton para explorar em todos os rumos, cf. instrucções constantes na letra G (gif243)]

(...)

Nenhuma das secções em que está dividida esta estrada, se póde considerar concluida á vista dos contractos celebrados, e do regulamento geral de 26 de abril de 1857.

A primeira secção, que pouco mais ou menos mede 13 milhas inglezas, comprehende as estações de Santos e do Cubatão. Esta ultima construida de taipa, além de mui pequenas dimensões, carece de armazem para mercadorias.

A de Santos resente-se do mesmo defeito de insufficiencia, principalmente attendendo-se ao grande trafego que esta estrada ha de ter; precisa além disso de muitas obras complementares para se considerar concluida.

Poucas são as obras d'arte desta secção, e estas mesmas de uma construcção menos perfeita, como por exemplo as pontes do Cubatão e do Casqueiro, cujos encontros são feitos de columnas de ferro fundido, o que por certo não devia figurar em uma estrada de 1ª classe, senão quando fosse absolutamente impossivel encontrar-se pedra de boa qualidade.

Via permanente e lastro. — O systema adoptado para a via permanente não é dos mais convenientes, visto que exige grande dispendio para sua conservação. Esta parte da linha ressente-se de falta de conservação, e em alguns pontos os trilhos mal assentados apresentam algumas sinuosidades nos alinhamentos.

O lastro nella empregado não é o mais proprio para o systema de dormentes (de Greaves) adoptado, convindo que seja substituido por uma camada de pedras quebradas, e por cima desta uma outra de areia.

Planos inclinados. — Os planos inclinados desta estrada constituem as obras mais importantes della, quer se considerem as difficuldades que se tinham de vencer, quer a execução das obras d'arte. Tem de comprimento 5.5 milhas, de declive maximo 1.0, e curvas de grandes raios.

Estão concluidas tres das quatro casas destinadas ao serviço das machinas; e a ultima acha-se muito adiantada. São construidas de boa alvenaria, e as machinas parecem excellentes.

No 4º plano inclinado está tambem em construcção o viaducto de ferro, que mede 720 pés de comprimento. Esta importante obra que tem sido construida com perfeição, e com actividade, acha-se quasi concluida.

Do alto da Serra a S. Paulo está concluido todo o trabalho do movimento de terras faltando sómente dar-se mais talude a alguns córtes e alongar e grammar alguns aterros.

O assentamento porém dos trilhos não é muito regular, notando-se uma serie de alterações e de depressões.

Ha em geral pouco cuidado no serviço do lastro, no qual é empregado o barro em vez de areia, que seria mais custosa; entretanto este trabalho é de summo interesse, por quanto de sua perfeição dependem a conservação do leito e a estabilidade dos trilhos.

Acha-se em construcção, em S. Paulo, a estação para os passageiros, e quasi concluido o armazem de mercadorias, bem assim os edificios destinados para officinas, depositos, etc.

Á excepção dos edificios das officinas, cuja construcção é pessima, as outras obras relativas á estação e armazem têm sido feitas regularmente.

(...)

Apezar de elevar-se a 137 o numero dos accidentes que tiveram lugar nos trabalhos desta estrada, e dos quaes 9 foram mortaes; attendendo-se ao grande numero dos trabalhadores nella empregados, e mórmente ao pouco cuidado que elles têm á sua conservação, não parece muito elevado este numero.

(...)

O capital dispendido no imperio até 31 de dezembro ultimo importa em £ 1,214,607 ou 10.795:427$016 de nossa moeda, e em Inglaterra orça por £ 480,960, ou 4.274:852$472, quantia que reunida á de £ 5,000, ou 44.440$000, pagos na Inglaterra pelas casas provisorias para os empreiteiros, somma um total igual a 1,700,576 £ ou 15.114:719$488.

Pelo contracto celebrado entre a companhia e os empreiteiros, obrigaram-se estes a construir a estrada, e a fornecer todo o material fixo e rodante pela somma de 15.509:560$, comprehendendo-se nella a quantia de 488:840$000 para acquisição de terrenos destinados a estradas e estações, e a premiar os trabalhadores que se quizerem estabelecer como colonos; resta-lhes portanto para receber sómente o saldo de 394:850$512.

O material rodante que existe actualmente consta de:

(...)

Tem ultimamente chegado de Inglaterra grande parte do material rodante, que ao engenheiro fiscal parecem de boa qualidade, notando-se sómente nos carros de 1ª classe e nos mixtos de 1ª e 2ª classes o defeito de serem pouco arejados.

A companhia prepara-se para dar começo ao trafego, para o que já nomeou um inspector deste ramo de serviço, e um superintendente das locomotivas.

De Cantagallo

Segundo me informou a respectiva directoria esta linha ferrea acha-se em boas condições; e seu trem, comquanto careça de alguns reparos, tem funccionado com regularidade.

O seu prolongamento do Porto das Caixas para Villa NOva, com uma extensão de cerca de seis milhas, tem tido o conveniente progresso, sendo provavel que até julho proximo futuro esteja concluido, e aberto ao trafego.

(...)

De Mauá

A regularidade com que é feito o serviço de que está incumbida esta empreza, o bom estado de sua via ferrea, de suas estações, de seu trem rodante e locomotivas abonam a intelligencia, o zelo e a actividade de sua administração, e são prova evidente do que é capaz a iniciativa particular, quando só tem de contar com suas proprias forças, e com os meios de que dispõe.

O balanço desta empreza particular, fechado no anno passado, apresenta o seguinte resultado.

Renda bruta 556:265$182
Despeza 294:188$333
Saldo 262:076$849

(...)

O saldo liquido do anno passado representa 13% do capital da companhia.

(...)

Percorreram a linha 52,044 passageiros, dos quaes 2,261 voluntarios, por cujo transporte a companhia nada quiz receber.

(...)

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Estradas de Rodagem

União e Industria

(...)

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Estrada da Boa-Vista da Tijuca ao Jardim Botanico

Reclamando o emprezario desta estrada o integral pagamento do seu custo, e de uma só vez, apezar de não haver, em minha opinião, cumprido a condição que lhe dava direito a isso, julguei dever ouvir a secção do conselho d'estado, que opinou favoravelmente ao supplicante e foi resolvida nesse sentido a consulta. Mas como a verba votada para obras publicas não comportava tamanho desfalque sem prejuizo dos interesses publicos, entendi dever submetter á vossa resolução a designação do quantum preciso para esse pagamento. Peço-vos, pois, que me habiliteis á satisfazer esse compromisso, votando verba especial com esse destino.

(...)

gif 177 anexos relatorio Directoria EF D. Pedro II

* [mandou fabricar na praça peças que officinas da ferrovia faziam por custo maior; e se não houver urgencia, encomendar no estrangeiro; ramal de Macacos melhor estaria fechado; critica que na 2ª secção não haviam sido feitos trabalhos de consolidação, esgotação etc. Em seguida, longa e prolixa peroração tipo "está brigando contra quem?"... Ferrovias criadas artificialmente... ferrovias de estufa... açodamento... Uma grande máquina não emancipa um paíz... Dê-se instrução ao povo, e então ele sentirá necessidade de trabalhar etc., surgirão as cargas e as economias, etc. Imigar paizes que em nada se parecem com o nosso... oh... Quanta illussão... Instruir e moralisar... (e isso é o relatório de um presidente, nomeado, de uma ferrovia recém-estatizada. Pelo visto, corresponde bem ao boquirrotismo do ministro)]

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Relatorio do primeiro engenheiro da ef etc.

* [ode à abandonada linha provisória: ponte de madeira que dava aos nervos dos viajantes; características técnicas detalhadas do trecho, rampa, raio, extensão etc. Nenhum único acidente durante sua curta vida. ass) W. S. Ellison]

 

Agricultura, 1865
Relatorio apresentado á Assembléa Geral Legislativa (...) pelo Ministro e Secretario de Estado dos Negocios da Agricultura, Commercio e Obras Publicas
Dr. Antonio Francisco de Paula Sousa
Rio de Janeiro - Typographia Perseverançat, 1866

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Planos ferroviários | Linhas concedidas do plano de 1890 | EF Tocantins | Cia. Mogiana | Linha Angra-Catalão | EF Goiás | Ramal de Pires do Rio | O prolongamento da Central do Brasil | A linha da Cia. Paulista
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