Agricultura, 1866
Estrada de Ferro de D. Pedro II

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O paiz aprecia devidamente os importantes serviços que esta estrada presta ao commercio e á lavoura nacional.

O incremento progressivo de sua renda liquida é um facto que attesta o desenvolvimento constante das forças productivas das localidades, por onde passa.

A estatistica dos transportes por ella effectuados ahi está demonstrando a prosperidade de sua situação economica, sem que semelhante resultado possa ser attribuido exclusivamente ao augmento da extensão da linha, ou ao desenvolvimento natural da riqueza publica, senão tambem em grande parte á natureza peculiar destes meios de transporte, caracterisados pela esphera de acção de que são dotados, muito mais extensa do que a de qualquer outro; porquanto elles não só attrahem, como excitam e promovem a producção, dentro de zonas muito mais vastas.

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Á medida que a estrada de ferro de D. Pedro II vence o espaço, os horizontes alargam-se, e a vida circula ao seu contacto; fazendo tudo presumir que, desde que o trafego se estender á estação de Entre-Rios, sua renda crescerá consideravelmente.

As medidas economicas, que presidem á construcção e custeio desta estrada, e cujos effeitos, como reflecte seu director, não se circumscreverão á respectiva empreza, tem concorrido tambem muito para o progressivo augmento de sua renda liquida; facto que, devidamente apreciado, confirma o acerto da medida tomada pelo governo de a fazer gerir por conta do estado.

Indicar-vos desde já e com toda a precisão os futuros destinos desta grande arteria de circulação da riqueza e civilisação do paiz não cabe nas minhas faculdades; para isso seria mister que estivessem concluidos os estudos e exames para o seu prolongamento, aos quaes, como acima vos disse, se está procedendo.

Entretanto, a julgar pelas informações já ministradas pela commissão incumbida de taes explorações, é fóra de duvida que o magestoso rio S. Francisco é o ponto para onde convergem por ora suas legitimas aspirações, sendo que para realisação desta idéa não ha felizmente as grandes difficuldades que logo no comêço ella teve de vencer.

(...)

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Proseguem os exames e explorações technicas para o prolongamento da estrada de ferro de D. Pedro II.

A uma commissão de professionaes, tendo por chefe o engenheiro John Witaker, foi incumbida exta exploração.

Os resultados obtidos dos primeiros trabalhos, a que procedeu, constam do relatorio que me apresentou, e que offereço á vossa leitura no annexo —M—

Foi explorada a serra da Mantiqueira, a primeira difficuldade de mais importancia que se offerece. A commissão verificou nella a existencia de tres passagens ou gargantas, cuja elevação é a seguinte: a 1ª de 3,634 pés, a 2ª de 3,627, e a 3ª de 3,651.

Apezar de ser mais elevada o engenheiro Witaker prefere a ultima, por onde a linha póde alcançar o declive de 2% ou 1:50.

Quatro são as linhas exploradas para o prolongamento da estrada de ferro de D. Pedro II, segundo o engenheiro Witaker.

A primeira, cuja linha segue o rio Pomba em direcção á garganta do Sapateiro ou de João Ayres Gomes, na serra da Mantiqueira, não parece ao engenheiro Witaker acceitavel por ser muito tortuosa.

A segunda, que de Entre-Rios busca a mesma garganta pelos pontos do Juiz de Fora e do Parahybuna acima, é a que elle julga mais conveniente em razão de atravessar uma das zonas melhor cultivadas e mais productivas do paiz, e terrenos de extrema fertilidade, mas cujos productos não podem, na carencia de meios de transporte facil e barato, ser aproveitados, o que entretanto se fará rapidamente desde que a estrada de ferro lhes proporcionar mercados.

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A terceira linha é tirada da barra do Pirahy, e aproveita em seu trajecto á Conservatoria, Valença, Rio Preto e Bouqueirão dos Mineiros, na estrada de Manoel Pereira, seguindo por S. João d'El-Rei, em busca da lagôa Dourada.

Esta linha, que tem a seu favor a importante vantagem de servir a um dos grandes districtos productores de café da provincia do Rio de Janeiro, o — valle do rio Preto —, e ainda a circumstancia de ser mais curta, entretanto não deve, na opinião do engenheiro em chefe, ser adoptada tanto porque não seria tão lucrativa como a anterior, nem tão conveniente ás necessidades do paiz, como por ser menos economica.

Além do valle do rio Preto poucos terrenos, por onde ella se estende, são cultivados; e além disso a continuação da estrada encontraria, nas serras muito ingremes que seria mister atravessar, obstaculos serios, sómente venciveis mediante grandes despezas.

As mesmas considerações se podem applicar ao 4º traço explorado, cuja direcção seria por Passa Vinte, Bom-Jardim, etc.

Estes estudos, porém, que apenas se limitaram á passagem da serra da Mantiqueira até o valle do rio Grande, não são definitivos, e podem ser alterados desde que a commissão, proseguindo em seus trabalhos, tiver de explorar a serra das Vertentes, ultimo reducto natural que mais difficuldades oppõe ao prolongamento da estrada de ferro de D. Pedro II até o magnifico valle do rio de S. Francisco.

Sobre a questão do custo pensa o engenheiro em chefe que entre uma estrada de ferro de 2ª classe com declives de 1 em 50 e curvas de raio de 600 pés no minimo, e outra de 3ª classe (tramway) com declives de 1 em 33 1/3 ou de 3%, e raios de 400 pés, não padece duvida que esta póde ser feita por 60% do custo da primeira, e permittiria vencerem-se com mais vantagem as difficuldades que oppõe as serras.

Rejeita elle totalmente a idéa de uma estrada macadamisada, não só por mais dispendiosa, como por não offerecer a mesma utilidade das estradas de ferro de 2ª ou de 3ª classe.

Calcula em 80:000$000 approximadamente, incluindo o custo das estações, trilhos, etc., o preço de cada milha de uma estrada de 2ª classe pela linha de Entre-Rios por elle preferida, na qual suppõe que não deverá haver córte de mais de 50 a 60 pés de altura, tunel, e nem aterros que excedam a altura dos córtes.

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A estrada de 3ª classe (tramway) poderá ser feita, nas condições acima expostas, por 48:000$000, isto é, 60% menos do preço da 1ª.

Uma linha intermediaria, em que aquelles dous systemas fossem combinados, servida por locomotiva, poderá custar 80% do preço da primeira, isto é, cerca de 64:000$000 por milha.

O conselheiro Christiano Benedicto Ottoni propôz-se a construir um ramal entre a estação terminal de Entre-Rios ao Porto Novo do Cunha por meio de uma associação que denominou —Companhia Mineira.—

O projecto do contracto para este prolongamento e bem assim os estatutos, por que se deve reger a companhia, já me foram apresentados, e depois de informados pelo director da estrada de ferro de D. Pedro II, foram submettidos á consulta da secção reunida dos negocios do imperio e da fazenda do conselho de estado, das quaes pendem.

 

Agricultura, 1866
Relatorio apresentado a Assembléa Geral Legislativa pelo ministro e secretario de Estado dos Negocios da Agricultura, Commercio e Obras Publicas
Manoel Pinto de Souza Dantas
Rio de Janeiro - Typographia Perseverançat, 1867

EF de D. Pedro II
Annexo - L
Relatorio do chefe da Commissão de estudos para o prolongamento da Estrada de Ferro D. Pedro II
Annexo - M
Relatorio do chefe da commissão encarregada dos estudos do prolongamento da Estrada de Ferro de D. Pedro II
Relatorio e estatistica de Barbacena
Distancias e elevações approximativas entre Pirahy e S. João d'El-Rei

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