Agricultura, 1866
Annexo - L
Relatorio do chefe da Commissão de estudos para o prolongamento da Estrada de Ferro D. Pedro II

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(...) desde a nomeação desta Commissão, decretada em 19 de Maio de 1866, pelo então Ministro das Obras Publicas predecessor de V. Ex.

(...) o Decreto com data de 10 de Julho, para o fornecimento dos fundos necessarios para as despezas, e só tendo recebido esse dinheiro do Thesouro Nacional, quasi ás 2 horas da tarde do dia 14, no dia seguinte 15 de Julho (ainda que domingo) seguimos para Petropolis, aonde nos demoramos até a manhã de 18, comprando animaes para a conducção das bagagens etc. Nessa manhã procedemos pela diligencia até Juiz de Fóra, e ahi esperamos até o dia 23 pelos animaes, ao mesmo tempo procurando e obtendo todas as informações possiveis, para nos guiar no futuro proseguimento de nosso serviço.

(...) Na manhã seguinte 5 de Agosto, seguimos para uma pequena fazenda pertencente ao sr. Carlos José Pereira, aonde obtivemos ranchos (bastante apertados e por alto preço) para nós e nossa gente.

Essa fazenda fica situada no valle conhecido por "Engenho de João Ayres Gomes" e perto das cabeceiras do rio do Pinho, depois Piáu, rio Novo e rio Pomba o ultimo dos quaes entra no rio Parahyba no lugar denominado barra do Pomba, cousa de 20 milhas acima de S. Fidelis, sendo a sua direcção geral para o S.E.

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Na direcção opposta ou lado do norte da serra nasce um pequeno ribeirão, conhecido pelo nome de Quilombinho, esse ribeirão é um dos affluentes do rio das MOrtes depois rio Grande, dahi correndo para o Paraná passa por um dos mais ferteis districtos de Minas Geraes, quando estiver bem desenvolvido com a abertura de estradas não só para os meios de communicação interna com as provincias de Goyaz e Matto-Grosso, mas tambem dando ao Imperio communicação directa com os Estados estrangeiros ao oeste do Brazil.

Esta idéa de modo nenhum intervêm com a da estrada para o rio S. Francisco, visto que uma é para a abertura da parte do Imperio que fica ao oeste, e a outra ao norte, tornando-se ambos um grande tronco, que formam a sua juncção mais ou menos perto da cidade de S. João de El-Rei.

Depois de termos arranjado o nosso acampamento e obtido trabalhadores, e pessoas bem praticas do lugar, fizemos explorações rapidas de tres differentes gargantas, á vista das quaes, decidi adoptar aquella que nos mappas está designada Garganta nº 3 por ser a que offerece maiores vantagens, ainda que não seja a mais baixa.

A elevação da garganta nº 1 é 3634 pés
A elevação da garganta nº 2 é 3627 pés
A elevação da garganta nº 3 é 3651 pés

Depois de ter adoptado a Garganta nº 3, resolvi experimentar o declive de 3% ou 1 em 33 1/3 por ter receio de não achar sufficiente distancia para desenvolver o declive de 2% ou 1 em 50, conforme as instrucções, do lado do sul, vindo com direcção para o Rio de Janeiro.

Depois de ter levado esse traço até a estação nº 169, distancia de pouco mais de 3 milhas (inglezas), mudei os ranchos para o lado do norte da serra, onde achamos o declive muito favoravel, não tendo em occasião nenhuma de exceder o declive de 1% em maior parte dos casos muito menos; com curvas de grandes raios até a estação nº 599, formando juncção com a actual estrada de rodagem entre Juiz de Fóra e Barbacena, pouco mais ou menos 4 milhas abaixo desta, no lugar chamado Registo, do qual seria muito difficil obter uma linha favoravel nessa direcção para Barbacena.

Minha opinião é que depois de encontrar o rio das Mortes, na estação 527, seguissemos o mesmo até chegar á fazenda da Ponte Nova, distante pouco mais ou menos 5 milhas, aonde desviando um pouco para o norte existe um valle muito favoravel, o qual entra póde-se assim dizer, no centro da cidade de Barbacena, e muito adaptado para um ramal, porém se fôr decidido levar a linha principal por dentro desta cidade será necessario fazer-se um tunnel de 300 pés de comprimento por baixo da rua da Boa-Morte, depois descendo um pequeno ribeirão chamado Corrego dos Nettos, encontra outra vez o ribeirão das Caieiras, que é um tributario do rio das MOrtes, distante de Barbacena cousa de 20 milhas.

A differença entre este traço e o traço descendo o rio das Mortes, da sobredita estação nº 527, seria de mais de 12 milhas em comprimento, porém emquanto não fôr isso examinado e medido minuciosamente, não posso positivamente assegurar o resultado. Em qualquer dos casos, a linha teria de acompanhar o rio das Mortes, na direcção do Barroso, S. José de El-Rei e S. João de El-Rei, com direcção quasi para o oeste.

Antes de chegar aos dous ultimos lugares, a linha principal teria talvez de desviar para um lugar chamado Prados, de modo a obter a direcção da lagôa Dourada aonde, conforme as informações que tive, existe a maior probabilidade de passar a serra das Vertentes.

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Tendo completado essa parte da exploração, mudou-se o rancho para o lado do sul da serra, e continuamos da estação 169, aonde tinhamos parado até a estação 445 (Fazenda Velha da Mantiqueira).

Durante o tempo occupado por meus ajudantes nesse serviço, segundo minhas instrucções, eu tendo algumas duvidas a respeito das informações que me foram dadas por diversos proprietarios, cada um dos quaes tinham suas vistas e interesses particulares, e ao mesmo tempo desejoso de cumprir com as instrucções recebidas do predecessor de V. Ex., isto é, quanto a declives de 1 em 50 ou 2%, comecei immediatamente um novo exame da serra, muito cuidadosamente, ás vezes a pé, outras a cavallo, e tendo combinado minhas observações, com as informações recebidas de outras pessoas, resolvi abandonar a linha até a Fazenda Velha, e regressando á estação nº 152 subir com angulo recto, desta estação para poder levantar o declive no cume da serra reduzindo-o a 2 em lugar de 3%, e assim cumprindo com a primeira parte das minhas instrucções, e ao mesmo tempod ando muito melhor desenvolvimento a linha da serra, da estação até o ultimo ponto mencionado aonde novamente começamos.

Em conformidade com essa resolução, no dia 9 de Outubro principiou-se o novo traço, porém no dia 13 do mesmo mez, um dos meus principaes ajudantes pedio sua demissão, e os trabalhos na serra pararam por consequencia, obrigando-me a vir ao Rio de Janeiro pedir a V. Ex. a nomeação de mais ajudantes; voltei para o rancho no dia 25 (...) assim tracei a linha até ás margens do rio do Pinho perto da fazenda que toma o nome do mesmo rio, pertencente á viuva D. Maria Candida, distante pelo traço, pouco mais ou menos 5 milhas inglezas, e tenho muito prazer em dizer que consegui um traço em conformidade com as instrucções que recebi; assim desenvolvendo uma linha sobre a serra da Mantiqueira, com declives de 2% e curvas de raios não menores de 600 pés, ao mesmo tempo que comparativamente o custo deve ser muito rasoavel como V. Ex. poderá ver pela estatistica, mappas, perfis, etc., que acompanham este relatorio.

Devo aqui mencionar que durante a minha ausencia no Rio, os ajudantes que me restavam, não estiveram parados, o sr. R. Hayden a quem deixei encarregado o serviço continuou os estudos da linha abaixo da serra, e depois de traçada a linha da serra, elle tomando conta da turma, continuou o traço para fazer juncção com a linha que tinha traçado, e dahi continuar para o rio Parahybuna, em quanto eu estudava approximadamente o terreno nas margens do rio das Mortes até encontrar o rio Grande, nesse estudo, depois de partir de Barbacena, passei pelos districtos de Barroso, S. José e S. João de El-Rei, Turvo, Bom Jardim, Livramento, Bocanha dos Mineiros, Passa Vinte, estrada de Manoel Pereira, rio Preto, Santa Barbara e Juiz de Fóra, voltando dahi ao rancho, percorrendo assim a distancia de 300 milhas inglezas, quasi um circulo cujo diametro era de 100 milhas.

Chegando ao rancho no dia 10 de Dezembro, achei que em consequencia da transferencia de um de meus ajudantes (...), achei-me com um só ajudante o sr. R. Hayden, o qual sem duvida fez o possivel, durante a minha ausencia para continuar os estudos, afim de chegar ao rio Parahybuna, porém em consequencia da chuva e impossibilidade de trabalhar, resolvi largar o rancho, por causa de economia, porque tendo numeroso pessoal para abrir picadas e para o mais serviço, e pago por mez, (o unico meio de obter trabalhadores permanentemente) fazia-se uma grande e inutil despeza, e tambem tendo de fazer o meu relatorio, planos etc., conforme as ordens de V. Ex. despedi os trabalhadores e fiz os arranjos necessarios para deixar os animaes, instrumentos, etc., em lugar seguro, e voltamos ao Rio de Janeiro, aonde chegamos no dia 23 de Dezembro, e temo-nos empregado desde então (com excepção de 10 dias, nos quaes esperamos os nossos livros de notas, etc., etc.,) em preparar os necessarios planos etc., para appresentar a V. Ex. esperando que sejam satisfactorios.

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(...) Foi perfeitamente entendido entre o sr. Ministro das Obras Publicas, predecessor de V. Ex. e eu, que eu seria acompanhado de quatro ajudantes, para poder formar duas turmas, de modo a fazer-se o dobro do serviço debaixo da mesma inspecção, o que teria sido muito vantajoso e muito mais economico; em lugar do que, nunca tive mais do que 3 ajudantes, sendo por certo um de mais para uma turma, e um de menos para duas turmas, e isso só até o dia 13 de Outubro, quando um de meus ajudantes pedio a sua demissão (...); verdade é que dous outros tinham sido nomeados para substituir os que tinham largado, porém não se apresentaram senão depois de debandada a turma, o sr. Vieira Ferreira no dia 16 de Dezembro quando apromptavamos para partir para o Rio, e o sr. Oscar Barrandou depois da nossa chegada ao Rio. (...) como mostram as estatisticas que acompanham, desde que partimos do Rio de Janeiro, e o numero de milhas realmente traçadas e niveladas, com os dias de diversas occupações desde essa data 15 de Julho de 1866, assim como os terrenos examinados para futuras explorações:

Dias de trabalho 64
Dias de chuva 25
Dias de viagens e demoras 23
Dias Santos e Domingos 25
Dias de mudanças 4
Dias no escriptorio 15
Dias em que faltaram trabalhadores 4
160

Estudos
Linhas estudadas e adoptadas 22 milhas
Ditas lateraes, caminhos, etc. 17 milhas
Ditas abandonadas 15 milhas
Ditas de prova 3 milhas
Terrenos examinados 400 milhas

Fazendo assim um termo medio de 4,702 pés por cada dia de serviço de linhas actualmente traçadas e niveladas.

Outra circumstancia V. Ex. deve ter em consideração, que é a difficuldade que se encontra na formação de turmas para uma exploração como esta, e o tempo que se leva a ensinar aos empregados as suas diversas occupações (...).

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Tendo, porém, já conseguido isso, e contando achar essa gente prompta na nossa volta para Minas, espero para o futuro poder apresentar a V. Ex. muito melhor resultado do que o presente. (...)

Illmº Exm. Sr. Conselheiro Dr. Manoel Pinto de Souza Dantas, Ministro e Secretario de Estado dos Negocios da Agricultura Commercio e Obras Publicas.

John Whitaker, chefe da commissão.

 

Agricultura, 1866
Relatorio apresentado a Assembléa Geral Legislativa pelo ministro e secretario de Estado dos Negocios da Agricultura, Commercio e Obras Publicas
Manoel Pinto de Souza Dantas
Rio de Janeiro - Typographia Perseverançat, 1867

EF de D. Pedro II
Annexo - L
Relatorio do chefe da Commissão de estudos para o prolongamento da Estrada de Ferro D. Pedro II
Annexo - M
Relatorio do chefe da commissão encarregada dos estudos do prolongamento da Estrada de Ferro de D. Pedro II
Relatorio e estatistica de Barbacena
Distancias e elevações approximativas entre Pirahy e S. João d'El-Rei

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