Agricultura, 1866
Annexo - M
Relatorio do engenheiro Whitaker
sobre a exploração da Serra da Mantiqueira

gif 545

Relatorio do chefe da commissão encarregada dos estudos do prolongamento da Estrada de Ferro de D. Pedro II.

gif. 546

Em conformidade com as instrucções datadas de 20 de Junho de 1866, e recebidas por mim á 26 do mesmo mez, para fazer exames e explorações afim de conhecer o meio de abrir uma via de communicação commoda e barata entre a estrada de ferro de D. Pedro II e o rio S. Francisco ou qualquer dos seus affluentes, por estrada de ferro a vapor, estrada de ferro por animaes ou estrada de rodagem, immediatamente principiei a examinar a serra da Mantiqueira, sendo essa a difficuldade de vulto que primeiro se apresenta, afim de ganhar o valle do rio Grande e atravessando esse valle, chegar a serra das Vertentes, sendo este o segundo e ultimo ponto onde se poderá achar difficuldades, visto que as aguas do S. Francisco e todos seus affluentes nascem ao lado do norte dessa serra.

Existem 4 gargantas (passagens) na serra e a questão é qual a melhor, não só para desenvolver os valles deste rio e seus contingentes, mas tambem para o beneficio geral da parte do territorio que fica entre a cidade do Rio de Janeiro e as provincias do norte e oeste, por meio de um grande tronco principal donde poderão partir tantos ramaes quantos forem adequados ás necessidades e ao progresso do paiz.

Para atravessar a serra da Mantiqueira existem quatro passagens:

1ª Partindo da juncção dos rios Pomba e Parahyba e seguindo o primeiro e seus affluentes até a garganta na serra da Mantiqueira conhecida pelo nome de João Ayres Gomes: essa conduziria a continuação da estrada de ferro de D. Pedro II á um ponto muito abaixo do Porto Novo do Cunha e faria um grande rodeio.

2ª Partindo do actual termino, em Entre-Rios, e seguindo mais ou menos a estrada de União e Industria; ou do ponto em que desagua o rio Parahybuna no Parahyba, no lugar denominado Tres Barras, e seguindo aquelle rio por Juiz de Fóra ou cidade do Parahybuna até o lugar denominado Nossa Senhora das Dôres: então, atravessando uma pequena serra chamada de Moranga, que divide as aguas do Pomba e Parahybuna, para ganhar as cabeceiras do Pomba e chegar á garganta de João Ayres Gomes mencionada no primeiro paragrapho.

Esta ultima passagem, calculando as distancia de Entre-Rios, é muito mais curta para encontrar o valle do Rio-Grande, sendo apenas 100 milhas inglezas ou 25 leguas portuguezas: encontra o rio das Mortes perto de um logar chamado Registro, na actual estrada de rodagem para Barbacena, e distante desta cidade de 4 milhas. É por ella que presentemente passam a exportação dos districtos incluidos entre S. João d'El-rei, Oliveira e os lugares intermediarios á oeste de Barbacena e ao norte e nordeste de Minas-Geraes. Além disso, grande numero das tropas que vão de Goyaz passam por ahi. (Vide o relatorio do districto de Barbacena, que acompanha). Para este ponto poder-se-ha fazer um ramal com pouca despeza (sendo apenas 6 milhas) ou levar a linha principal por dentro da cidade, sendo para isso necessario augmental-a de algumas 12 milhas ou 3 leguas.

p. 2 / gif 547

Tendo encontrado o rio das Mortes, no logar acima mencionado, o tronco principal continuaria descendo o mesmo rio para oeste até o ponto chamado Barroso; dahi, tomando para norte e passando por Prados, procuraria a lagôa Dourada, onde me consta que existe uma grande depressão na serra das Vertentes; a linha encontraria, ao norte da serra, as aguas do Paraopeba, e, as acompanhando poderia ser traçada até onde esse rio desagua no rio S. Francisco; porém se fôr considerado preferivel levar a linha pelo rio das Velhas, torna-se necessario atravessar outra serra para obter as nascentes do rio.

Se a linha principal, em lugar de procurar a lagôa Dourada, via Prados, fosse continuada até S. João d'El-Rei, desse ponto procuraria o rio Carandahy, e por ahi chegaria a mesma lagôa. Qual a melhor e mais aproveitavel, é difficil dizer, até que seja feito um exame minucioso; a 1º é de 16 á 20 milhas mais curta ou de 4 á 5 leguas portuguezas. Existem duas outras depressões nesta serra, uma conhecida pelo nome de Canastras e a outra Piumhy; a 1ª encontrando as cabeceiras do proprio S. Francisco; mas ambas essas passagens ficam tanto para oeste, que causariam uma linha muito tortuosa, o que não seria tão desejavel nem mesmo benefico para o desenvolvimento futuro do paiz, como uma linha directa, donde poderiam partir ramaes no valle do Rio-Grnade para cima ou para baixo. Assim o meu parecer é, quanto ao que posso julgar, que a linha pela lagôa Dourada é preferivel para as necessidades actuaes do paiz, não só para o presente como tambem para o futuro.

Para obter este traço como mencionei acima, existem dous outros meios de atravessar a serra da Mantiqueira sem ser os dous descriptos. Um da bifurcação da 3ª e 4ª secções da estrada de ferro de D. Pedro II, na Barra do Pirahy, passa pela Conservatoria, Valença e Rio Preto, subindo o mesmo rio do ponto ultimo mencionado, até a sua juncção com o rio Pirapitanga; e, então pela estrada de Manoel Pereira, passando pelo Boqueirão dos Mineiros e depois atravessando a serra da Mantiqueira até encontrar o rio Grande, seguindo o mesmo rio até a sua juncção com o rio das MOrtes, dahi acompanhando este ultimo até S. João d'El-Rei, e assim chegando a lagôa Dourada, como na primeira linha de Juiz de Fóra.

4ª A quarta linha seria a continuação da estrada de ferro de D. Pedro II da Barra do Pirahy até os Remedios ou Rezende; sendo essa uma parte integral da 4ª secção e considerando as distancias, póde ser calculada igual á do mesmo ponto á Entre-Rios na linha de Juiz de Fóra. Partindo de Remedios ou Rezende seguiria para o norte passando por Passa-Vinte, S. Domingos da Bocanha, Bom Jardim, etc., até encontrar a outra linha no rio Grande, perto do logar denominado S. Domingos; ou em logar disso, depois de encontrar as cabeceiras do rio Preto, continuar rio abaixo até sua juncção com o rio Pirapitanga, e assim passar o Boqueirão da estrada de Manoel Pereira, unindo-se com o rio Grande, como já mencionei para o traço de Valença.

Nenhum destes traços, com excepção do de João Ayres Gomes, tem sido explorados senão á vista de olhos, porém os mappas e estatisticas que acompanham este Relatorio talvez expliquem mais claramente á V. Ex. o que deve ser feito antes de uma decisão definitiva.

p. 3 / gif 548

Concluindo este meu Relatorio com uma revista geral das diversas vantagens de cada traço, não quero ser prolixo, nem tambem quero offender nenhum dos meus collegas ou dos distinctos Mineiros que tem escripto sobre este assumpto, onde posso eu expôr qualquer erro ou informação incorrecta dada ou publicada até a presente época. Na verdade, a base sobre que nos devemos guiar é tão pequena pela falta de informações praticas que, se o governo não formar commissões debaixo da superintendencia de homens realmente praticos para desenvolver os recursos do paiz, e por este meio formar união das diversas Provincias, o Brazil nunca virá á ser o que devia, possuindo, como possue, immensas vantagens, nos productos, sobre todas as outras partes do mundo; e não só isso como um dos mais vantajosos portos. E em logar, de ser, como agora, muito maior a importação do que a exportação, poder-se-hia contar com o contrario.

Fazendo estas observações estou bem convencido das vantagens de communicações rapidas e livres entre as diversas partes de um Imperio, concentrando-o e consolidando-o por assim dizer em uma só massa; e portanto mencionando as vantagens das varias linhas, propostas para abrir o grande valle do S. Francisco e seus affluentes, desejaria que fosse bem entendido que minhas observações não devem offender qualquer outra opinião; e, considerando ao mesmo tempo que tenho tido a experiencia pratica de vinte annos ou mais nos bosques dos Estados da America do Norte, das colonias Inglezas e no Brazil, espero que estas observações mereçam a approvação de V. Ex. e de todos.

Pedindo desculpa por parecer algum tanto egoista, espero que V. Ex. ha de perceber pelos mappas e estatisticas que acompanham este relatorio, assim como pelos perfis, as difficuldades que tivemos á vencer.

Apresentando á V. Ex. os diversos traços pelos quaes é possivel abrir o valle do S. Francisco, achei bom ajuntar um mappa desses traços, em esqueleto, que talvez explique melhor e ao mesmo tempo possa supprir qualquer omissão que eu tenha commettido neste Relatorio.

Existem muitas considerações que devem ser bem estudadas e anatomisadas antes de chegar á uma decisão sobre a abertura de meios de communicação pelo interior do Imperio: entre ellas sobresahem a menor despeza possivel e dar-se as maiores vantagens futuras á um paiz tão bem adaptado para o centro da futura civilisação do continente Sul da America. Para tratar dessas considerações entrarei nos diversos traços propostos fazendo o centro na cidade do Rio de Janeiro. Sem duvida existem muitas outras cidades nas costas do Brazil que se desenvolverão ao mesmo tempo que a capital, mas como tenho que fazer sóemnte com esta, não desejo que supponha-se que, por fallar só no Rio de Janeiro, desprese as outras cidades e portos do Brazil.

1º A linha pelo rio Pomba, pela garganta do Sapateiro ou de João Ayres Gomes, não é considerada vantajosa por ser muito tortuosa.

2º A de Entre-Rios, passando por Juiz de Fóra, Parahybuna acima, e pela garganta de João Ayres Gomes, quanto á distancia e declividade, vide a tabella e mappas annexos.

Esta linha pode ser considerada como uma das melhores, ainda que não digo que seja a mais curta medindo-as da bifurcação das 3ª e 4ª secções da estrada de ferro de D. Pedro II, na Barra do Pirahy, tomada porém de Entre-Rios, a considero a melhor que existe para a abertura e desenvolvimento da Provincia de Minas-Geraes.

Partindo de Entre-Rios, ella não só passa pela parte norte da Provincia do Rio de Janeiro, como, ao sul de Minas a alguma distancia além de Juiz de Fóra, passa por uma das mais bem cultivadas partes do Brazil e das mais productivas: dahi por diante, seguindo para o norte até Ouro-Preto, todas as terras servem de pastos ou são sómente cultivadas para supprir aos tropeiros nos ranchos, etc., e para mantimento da população; mas para exportação não tem valor nenhum presentemente. Entretanto, quando houver meios de transporte barato e facil, acabando ao mesmo tempo com as tropas, essas terras tornar-se-hão um elemento de exportação e não sómente de uma alimentação tão limitada, suppondo que o meio de exportação seja por estrada de ferro. Dahi para leste e oeste, V. Ex. verá pelas estatisticas a quantidade de importação e exportação, a qual, em minha opinião, pelo meio acima mencionado, quadruplicará. (Vide o Relatorio de Barbacena).

p. 4 / gif 549

3º A linha de Barra do Pirahy ou bifurcação, passando pela Conservatoria, Valença, Rio-Preto, Boqueirão dos Mineiros na estrada de Manoel Pereira, e por ahi até S. João d'El-Rei á obter a lagôa Dourada. (É entendido que todo este Relatorio não é applicado á serra das Vertentes, mas sim que a Lagôa é tomada como ponto de concentração desde a passagem da Mantiqueira, por offerecer as maiores vantagens).

Esta linha de certo passaria por um dos grandes districtos de café da Provincia do Rio de Janeiro, o valle do rio Preto, e seria muito mais curta do que a outra, mas acho que não seria tão lucrativa nem satisfactoria ás necessidades do paiz, e por meio nenhum seria tão economica como a outra, pois, depois do valle do rio Preto existe muito pouca cultura e as serras são muito ingremes. Verdade é que só fórmo a minha opinião por observações a vista de olhos, tendo passado por todo esse caminho á cavallo; mas consta-me que o dr. Bulhões, actual Director das Obras Publicas, tem muito melhores informações. Ao mesmo tempo tenho convicção que tão boa linha como se póde obter pela garganta de João Ayres Gomes não se acha em nenhuma outra parte da serra da Mantiqueira, com declives de tal natureza que se possa fazer uma estrada tão boa e tão economica.

4º A linha por Passa-Vinte, Bom-Jardim, etc. As observações acima podem ser applicadas á esta, e ainda que minha opinião talvez seja antagonista á de muitas pessoas que tiveram meios de conhecer o paiz melhor do que eu, cumpre-me asseverar que, ainda que ellas possuam esta vantagem, pelo que conheço e os desse districto, não existe traço nenhum, encarado pelo lado da engenharia, mais aproveitavel do que o de João Ayres Gomes. Certamente uma linha por Remedios ou Rezende, abriria essa parte do valle do Parahyba, dahi em diante porém, até chegar á S. João d'El-Rei, nenhuma vantagem existe.

Neste Relatorio só tomo em consideração a passagem da Mantiqueira até o valle do rio Grande. Os primeiros estudos á que deve prosseguir esta commissão serão do exame da serra das Vertentes, para poder decidir sobre a linha mais apropriada para encontrar os ricos valles do S. Francisco.

Quanto á differença de custo entre uma estrada de ferro de 2ª classe com declives de 1 em 50 e curvas de raio de 600 pés, no minimo, e uma de 3ª classe (tramway) com declives de 1 em 33 1/3 ou de 3% e raios de 400 pés, não póde existir duvida que esta ultima póde ser feita por 60% do custo da outra, dando muito maior vantagem para vencer as difficuldades das serras que se tem de encontrar.

A respeito de estrada macadamisada, não pensaria nella por um instante, porque a considero muito mais dispendiosa, e ao mesmo tempo não dão as vantagens que estradas de 2ª e 3ª classes, emquanto a differença entre estas, como acima menciono, é sómente questão de economia. Talvez, que a ultima das duas seja mais adaptada até que o paiz seja mais cultivado e os seus recursos mais desenvolvidos.

Seria impossivel, com os estudos presentemente feitos, fallar com confiança do custo das duas classes de estradas, porém aproximadamente, pela experiencia do passado, calculo que, depois de re-examinada a linha e todas as [notas?] tiradas de um traço actualmente marcado, uma estrada de 2ª classe póde ser construida pelo termo medio de 80:000$000 por milha, de Entre-Rios até o valle do rio Grande, pelo caminho de Juiz de Fóra e garganta de João Ayres Gomes. Nisto incluo estações, trilhos, etc., em escala economica assim como incluo os campos do valle do rio Grande para poder tomar o termo medio com a linha da serra, na qual, depois de re-examinada e traçada de novo, não deve existir córte algum de mais de 50 a 80 pés de altura, nem tunnel algum; os aterros tambem não devem exceder as alturas dos córtes. (Vide mappas, etc.)

p. 5 / gif 550

Uma linha de 3ª classe (tramway), como já disse antes, poderá ser construida por 60% com as condições acima.

Uma linha intermediaria, combinando as duas, trabalhada por locomotiva, poderia ser construida por pouco mais ou menos 80% da de 2ª classe; mas, emquanto não fôr decidido definitivamente pelo governo imperial qual o traço mais adaptado e qual a classe de estrada que se deve construir, não é possivel fazer calculos definitivos.

Obras de arte. — Nada se póde dizer a esse respeito, nem se póde preparar plantas até que se faça a designação definitiva.

Como em cada um dos mappas existem as observações, etc., não me é necessario entrar em mais detalhes, e portanto, esperando [?] serviços desta commissão sejam apreciados como tendo feito todo o possivel para cumprir com as instrucções, acredite V. Ex., em meu nome, assim como de meus ajudantes, que nada mais nos dará maior prazer e satisfação do que ter a approvação de V. Ex. e receber as suas ordens.

Deus Guarde a V. Ex.

Excriptorio da commissão de estudos para o prolongamento da Estrada de Ferro de D. Pedro II, em [22?] de Março de 1867.

Illmº Exm. Sr. Conselheiro Dr. Manoel Pinto de Souza Dantas, Ministro e Secretario de Estado dos Negocios da Agricultura Commercio e Obras Publicas. — John Whitaker, chefe da commissão.

 

Agricultura, 1866
Relatorio apresentado a Assembléa Geral Legislativa pelo ministro e secretario de Estado dos Negocios da Agricultura, Commercio e Obras Publicas
Manoel Pinto de Souza Dantas
Rio de Janeiro - Typographia Perseverançat, 1867

EF de D. Pedro II
• Annexo - L
• Relatorio do chefe da Commissão de estudos para o prolongamento da Estrada de Ferro D. Pedro II
• Annexo - M
• Relatorio do chefe da commissão encarregada dos estudos do prolongamento da Estrada de Ferro de D. Pedro II
• Relatorio e estatistica de Barbacena
• Distancias e elevações approximativas entre Pirahy e S. João d'El-Rei

Relatórios

1851 | 1852 | 1853 | 1856 | 1860 | 1861 | 1862 | 1864 | 1865 | 1866 | 1868 | 1869 | 1870 | 1873 | 1874 | 1876 | 1877 | 1881 | 1886 | 1888 | 1889 | 1890 | 1891 | 1892 | 1893 | 1894 | 1895 | 1896 | 1897 | 1900 | 1908 | 1922 | 1925 | 1926 | 1937 | 1954 | 1955 | 1958 | 1960 | 1961 | 1962 | 1963 | 1964 | 1965 | 1966 | 1967 | 1968 | 1969 | 1970 | 1974

Legislação

Lei Feijó
Lei da Garantia de Juros
Lei da subvenção quilométrica
  Regulamentação
Lei de Terras
  Regulamentação
Sistema Métrico Decimal

Padrões

Padrões monetários
Pesos e medidas
Longitudes

xxx


Clique para ampliar
Planos ferroviários | Linhas concedidas do plano de 1890 | EF Tocantins | Cia. Mogiana | Linha Angra-Catalão | EF Goiás | Ramal de Pires do Rio | O prolongamento da Central do Brasil | A linha da Cia. Paulista
A idéia mudancista | Hipólito | Bonifácio | Independência | Império | Varnhagen | República | Cruls | Café-com-leite | Marcha para oeste | Constitucionalismo | Mineiros | Goianos | Projetos de Brasil | Ferrovias para o Planalto Central
 
  
 
    
 
Sobre o site Centro-Oeste | Contato | Publicidade | Política de privacidade