Agricultura, 1869
Appenso U
Estrada de Ferro de D. Pedro II
Relatorio do anno de 1869 apresentado (...) por
Marianno Procopio Ferreira Lage
Rio de Janeiro - Typographia do — Diario
do Rio de Janeiro, 1890
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(...) No decurso do anno de 1869 foram remettidos ao thesouro 1,500:000$,
depois de satisfeitos todos os encargos e pagamentos dos serviços
da Estrada com reparações ordinarias e extraordinarias
e custeio do trafego no valor de 1,845:661$999.
A remessa para o thesouro serviu para fazer face á importancia
1,348:762$000, valor approximado das encommendas feitas, durante
o anno, á delegacia do thesouro em Londres.
Essas encommendas (...) foram dirigidas ao agente financeiro em
Londres, e constaram de 12 locomotivas, 100 wagons para carga, trilhos
para a 3ª secção até Porto Novo e para
a substituição de alguns da 1ª e 2ª, duas
grandes pontes de ferro para o Parahyba, machinas e utensilios destinados
ás novas officinas e para o telegrapho, um trem de wagons
de viajantes para o serviço dos suburbios, e finalmente diversos
objectos para outros serviços da Estrada de Ferro.
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(...) O balanço da receita e despeza do trafego no anno
findo demonstra que foi aquella de 4,325:816$900, maior de 1,517:474$650
do que a do anno de 1868; e a despeza com o custeio de 1,845:661$929,
maior em relação ao mesmo anno de 603:650$798, ficando
um saldo de 2,480:154$971 em favor da Estrada de Ferro.
A quota da despeza baixou a 42,66%, sendo a de 1868 de 44,22%,
apezar de ter sido muito maior a somma despendida durante o anno
de 1869 para se obter o liquido de 2,480:154$971, superior ao do
anno antecedente de 913:823$912.
Se deduzirmos da despeza de 1869 — 175:877$531, importancia das
reparações extraordinarias n'esse anno, como sejam:
substituição de pontes de madeira por pontes de ferro,
melhoramentos de atterros e taludes na linha etc., etc. ficará
para custeio ordinario 1.669:784$398, isto é: 38,60% da receita.
Empregaram-se em obras novas durante o anno:
No ramal da 3ª secção para Porto Novo 866:024$035
Na linha em trafego e estações 336:474$116
A União e Industria concorreu para a receita da Estrada
com 1,526:164$272, dos quaes, deduzidos os 300:000$, quota de 25%
dos fretes na fórma do seu contrato, ficaram para o Estado
1,226:164$272.
Se a quota de 25% não fosse limitada a 300:000$ annuaes,
a companhia União e Industria teria recebido mais 81:541$068,
equivalentes a 25% de 326:164$272, importancia que ficou na sua
totalidade pertencendo á Estrada de Ferro desde Setembro
proximo passado, época em que se completou a quota, a que
tinha direito por seu contrato.
Segundo o movimento do anno findo, e conforme assegura o sr. inspector
do trafego, ficou provado que as cargas, com que aquella companhia
concorreu sómente na estação de Entre Rios
no decurso do anno (ainda mesmo depois de abertas ao trafego em
Julho as estações de Santa Fé e Chiador), foram
sufficientes para preencher a somma de 300:000$ do contrato, donde
se infere que o mesmo contrato foi assentado em bases justas e verdadeiras.
É pois incontestavel que a Estrada de Ferro progride; e
póde-se affirmar que, quando houver concluido os prolongamentos
até Porto Novo e Cachoeira e começado a internar-se
pelo valle do Parahybuna, em demanda do rio das Velhas, abrangendo
toda a zona productora de café, a sua receita bruta não
deverá ser inferior a 6,000:000$000.
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Mas cumpre reconhecer que a prosperidade da Estrada de Ferro não
depende sómente da extensão de suas linhas; depende
tambem, e principalmente, do complemento do que ha ainda a fazer
na linha em trafego e nas suas estações, e da conservação
que deve ser mantida com todo o esmero.
Concluir as novas officinas em construcção; reconstruir
a estação do Campo até Setembro (começo
da exportação da nova safra), augmentando-a com armazens
novos, por serem os actuaes insufficientes para o movimento sempre
crescente do trafego; assentar a via dupla até Cascadura,
substituir na 1ª secção os trilhos Barlow por
Vignoles, e na serra os actuaes por outros de aço; são
trabalhos urgentes, que devem ser executados antes que o trafego
cresça, afim de não augmentar as difficuldades da
conservação e o estrago do material.
Está orçada em 1,500:000$000 a somma indispensavel
para taes melhoramentos. A demora, porém, que houver na sua
execução, não só fará com que
essa quantia seja insufficiente para executal-as, como tambem acarretará
prejuizos e transtornos ao serviço da estrada e do publico.
Convicto, como estou, de quanto é prejudicial ao Estado
a demora na satisfação de taes necessidades, me permittirá
V. Ex. que continúe a insistir sobre este assumpto. E não
escapa, por certo, á illustração de V. Ex.,
que, se por um lado é util ir abrindo novas linhas ao trafego
afim de augmentar a receita e servir o publico em mais vasta escala,
não convem, por outro lado, em uma Estrada de Ferro de tão
grande extensão, deixar tudo incompleto, e considerar permanente
um estado de cousas que deveria ser muito transitorio.
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(...) Nas novas tarifas, que tive a honra de submetter á
consideração de V. Ex., procurou-se sanar as desigualdades
e defeitos de que se resentem as actuaes.
Desde 1868, em que a Estrada começou o trafego nas condições
as mais economicas, aproveitando uma já extensa zona do valle
do Parahyba, ficou provado o defeito de suas tarifas, pelas quaes
se cobrava em uns pontos menos e em outros mais do que é
razoavel, com manifesto prejuizo da renda da Estrada, que ficou
muito áquem da somma a que devia attingir.
Taes defeitos são corrigidos nas novas tarifas. Não
só o que os productores têm de pagar de mais pelo café,
desde Rodeio até Entre-Rios, ficará largamente compensado
pela barateza de transporte dos outros generos de producção
e dos que interessão ao consumo da lavoura, como tambem serão
proporcionalmente menores os fretes além da serra nas zonas
mais longinquas, por onde a estrada tem de prolongar-se.
Esta reforma desagradará naturalmente a alguns freguezes
da Estrada de Ferro, que estão habituados a pagar preços
demasiadamente baratos, que não guardão proporção
com o custo da 2ª secção e com as despezas de
custeio na Serra; mas será muito agradavel aos productores
que demorão na grande zona que a Estrada de Ferro vae servir,
e que não podem de tão longe concorrer, do mesmo modo
que os do valle do Parahyba, mais proximos da Côrte, para
a renda de que a Estrada necessita, afim de manter-se e realisar
a grande idéa consagrada na lei de 1852.
Esta lei e as condições do contrato com a extincta
companhia derão ao governo a faculdade de rever e reformar
as tarifas, no sentido em que tive a honra de propôr, podendo
considerar-se definitiva a tarifa dos transportes proposta até
á Barra do Pirahy, e susceptiveis de alterações
no futuro as da 3ª e 4ª secções.
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Tomando conta da direcção da Estrada de Ferro encontrei
os trabalhos novos em construcção de Entre Rios para
Porto Novo no seguinte estado:
Concluida a 1ª legua da estação de Entre Rios
á margem do Parahybuna, em construcção a ponte
sobre esse rio, sómente encetada em diversos pontos a execução
dos trabalhos de terra e de obras d'arte do Parahybuna ao Chiador,
e quasi concluida a pequena estação de Santa Fé.
Cerca de 300 operarios empregavão-se n'estes trabalhos,
achando-se todos os serviços da Estrada a cargo de um empreiteiro.
Os trabalhos marchavão com lentidão; convinha pois
desde logo, como fiz, dar-lhes impulso mais vigoroso.
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Em 1º de Maio de 1869 bateu-se a primeira cavilha que fixava
os trilhos na margem esquerda do Parahybuna, na provincia de Minas,
e no dia 12 de Julho do mesmo anno abrirão-se ao trafego
mais 18 kilometros 600m de Estrada de Ferro.
A estação do Chiador foi feita em quatro mezes, á
excepção de algumas pequenas obras, o que não
deixou de causar embaraços ao serviço de expedição
de mercadorias, quando foi aberta ao trafego.
Em 24 de Fevereiro o engenheiro chefe de secção Francisco
Pereira Passos foi encarregado de começar a revisão
da linha até Porto Novo, ponto terminal da 3ª secção.
Em 12 de Maio apresentei ao digno antecessor de V. Ex. os planos
com as modificações propostas pelo engenheiro em chefe.
Em 24 de Maio forão elles approvados por S. Ex., e em 12
de Abril as condições e series de preços, por
que deverião ser executados os serviços da Estrada
nas diversas secções.
Esta modificação do antigo traçado, aliás
muito bem fundada e justificada, trouxe da parte dos interessados
em sustental-o algumas reclamações, como é
natural sempre que o interesse privado se considera offendido; mas
não podia ser de outro modo, por quanto interesses de ordem
mais elevada ficavão melhor consultados, taes como: economia
de tempo e de custo na construcção desse importante
ramal, e maior commodidade para a lavoura de ambas as margens do
Parahyba.
No dia 31 de Julho de 1869 assignou o primeiro empreiteiro, sob
as novas bases e series de preços, o contracto para a execução
dos primeiros 6 kilometros, desde o Chiador até a futura
Ponte d'Anta sobre o Parahyba.
D'este ponto a Estrada deixa o territorio mineiro para entrar no
da Provincia do Rio até Sapucaia, onde se construe uma estação,
e, tornando atravessar o rio Parahyba, segue por territorio mineiro
até Porto Novo, estação terminal; construindo-se
uma intermedia na Conceição.
Os trabalhos dos primeiros 6 kilometros são muito pesados;
os das duas pontes o são igualmente, mas em compensação
evitão-se os tuneis. Construe-se o ramal em metade do tempo
calculado, e o sr. engenheiro em chefe espera ficar áquem
do orçamento.
Depois de 31 de Julho outros empreiteiros contratárão
diversas secções da linha, e hoje executão-se
os trabalhos em toda a extensão do ramal, empregando-se n'elles
cerca de 2100 operarios.
Se não houver força maior que venha retardar a marcha
regular dos serviços, a estação de Sapucaia
poderá ser aberta até fins de Agosto do corrente anno,
e as duas da Conceição e Porto Novo em Abril de 1871,
depois de terminada a estação chuvosa, por não
convir abrir ao trafego em Janeiro (como seria possivel) tão
extensa linha com enormes atterros e cortes, antes de estarem elles
consolidados pela acção do tempo.
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Pelo que toca aos trabalhos na 4ª secção, direi
a V. Ex. que o engenheiro, chefe de secção, João
Gomes do Val foi encarregado em Maio do anno transacto de rever
a linha já approvada para a construcção desse
ramal, e verificando-a até a Barra Mansa, sem apresentar
outras modificações senão no sentido de mais
economia de construcção e melhoramento de traço,
em 19 de Agosto recebi ordem do digno antecessor de V. Ex. para
dar começo á obra pelas mesmas condições
e series de preços já approvadas.
Em 9 de Outubro forão inaugurados os serviços a partir
da Barra do Pirahy, sendo dadas as empreitadas pela maior parte
aos fazendeiros possuidores das testadas por onde atravessa a estrada,
ou a pessoas por elles apresentadas.
Estes trabalhos achão-se em execução até
proximo da Barra Mansa com cerca de 400 trabalhadores, distribuidos
por nove empreiteiros, não tendo tido o impulso que seria
para dezejar, porque, contando a Estrada de Ferro com o auxilio
de um emprestimo de 600:000$000 por parte da provincia do Rio, não
pôde ser elle votado na reunião da ultima sessão
da assembléa provincial.
É de esperar, porém, que na proxima reunião,
em 2 de Abril, ficará o governo provincial habilitado para
conceder o auxilio promettido, com o qual daremos mais vigoroso
impulso ás obras, afim de serem abertas as quatro estaçõies
até Barra Mansa, no mesmo tempo em que se terminarem os trabalhos
até Porto Novo.
No começo dos trabalhos receiámos luctar com difficuldades
provenientes da falta de trabalhadores e da carestia dos salarios.
Hoje este receio está desvanecido e poderemos, sem grande
esforço, elevar a 4000 ou 4500 o numero de operarios, que,
segundo os calculo do sr. engenheiro em chefe, são sufficientes
para realisar dentro de 6 annos o ramal até a Cachoeira,
e dentro de 8, contados desta data, a conclusão do prolongamento
ao rio das Velhas até Macahubas.
Permitta V. Ex. que me demore mais sobre este importante assumpto
do prolongamento da Estrada de Ferro, pelo interior de Minas, em
demanda do rio das Velhas.
Parece fóra de duvida que o ponto terminada Estrada de Ferro
de D. Pedro II, unica arteria ligada á capital do imperio,
não deve ser nas margens do Parahyba. Hoje que a guerra com
o Paraguay tocou o seu termo; hoje que os esforços vivos
da nação devem todos concorrer para as obras da paz,
que engrandecem os povos enriquecendo-os, não é licito
demorar a solução desta importantissima questão,
cabendo a V. Ex. a gloria de imprimir á Estrada de Ferro
o impulso vigoroso, de que necessita, para levar ao cabo a mais
rica e grandiosa empreza que se tem commettido n'este Imperio.
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Todos os elementos estão preparados: pessoal organisado
e adextrado, material conveniente e recursos financeiros, que a
propria renda da Estrada póde fornecer.
A commissão incumbida dos estudos do prolongamento da linha
foi dissolvido pelo digno antecessor de V. Ex., que reuniu á
Estrada de Ferro o pessoal de que ella se compunha; mas para completar
os estudos feitos pelo chefe da dita commissão, o engenheiro
Francisco Pereira Passos, alguns engenheiros estão estudando
as margens do rio Parahybuna, para se determinar qual a direcção
mais conveniente que de Entre-Rios se deva dar á Estrada
de Ferro, visto estar reconhecido que, para galgar a cordilheira
da Mantiqueira, o ponto de depressão mais pronunciado nessa
cordilheira é o denominado João Ayres, e que estendendo-se
o valle do Parahybuna em direcção quasi recta a este
ponto, é por conseguinte esse o caminho mais curto para o
rio das Velhas, atravessando o centro mais povoado e industrioso
da provincia de Minas.
Nessa direcção, transposta a serra da Mantiqueira,
nascem proximamente os grandes rios das Mortes, vertendo para o
Sul, os da Paraopeba e das Velhas para o centro, indo desaguar no
S. Francisco, e para o norte o rio Doce nas vertentes do Chopotó.
A Estrada de Ferro, seguindo o traço já estudado
até o Paraopeba pelo engenheiro Passos, e dirigindo-se para
o rio das Velhas até o ponto que ligar a navegação
desse rio para o S. Francisco, terá atravessado a provincia
de Minas pelo centro, e irá desde logo beneficiar uma população
de mais de 500,000 almas, laboriosa e industriosa, que sómente
espera pela grande via de communicação para tirar
todo o proveito de seu trabalho.
As grandes fabricas não se farão esperar nesse centro
productor de algodão, e onde sobejão braços
baratos e aproveitaveis para a industria fabril e agricola.
Serão 500,000 colonos brasileiros já estabelecidos,
que não custarão ao Estado senão o dispendio
de 26.000:000$000 com a Estrada de Ferro; ao passo que 500,000 colonos
introduzidos do estrangeiro, pelo systema até hoje seguido,
custarião mais de 200.000:000$000 e não dariam, desde
logo, o resultado de trabalho e de augmento da riqueza publica,
como os estabelecidos e aclimados na zona que atravessar a Estrada
de Ferro.
Para o futuro poderá a Estrada, das alturas além
da Mantiqueira, prolongar um ramo pelo rio das Mortes ao rio Grande
até além de Lavras do Funil, aproveitando mais de
30 leguas de navegação deste rio, e outro para as
cabeceiras do rio Doce na direcção do Chopotó,
desenvolvendo-se por esse lado, até onde puder aproveitar
a exportação dos productos do fertilissimo valle do
rio Doce.
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A Estrada de Ferro está destinada a servir grandes interesses
nas zonas do interior, por onde deverá prolongar-se sem prejuizo
da conclusão da 4ª secção; e se mais tarde,
terminada a linha do rio das Velhas, fôr levado o ramal da
3ª secção do Porto Novo até S. Fidelis,
ter-se-ha completado a mais bella rede de communicações,
tanto para servir a zona da producção do café,
como para levar ao centro a vida, animação, e riqueza
que, só com communicações aperfeiçoadas,
se póde conseguir.
Os meios para tão gigantesco commettimento podem, como disse,
ser fornecidos pela renda da propria Estrada de Ferro.
Para apresentar a V. Ex. o desenvolvimento desta idéa, incumbi
ao engenheiro em chefe de formular os calculos sobre a base da renda
da Estrada e da emissão de obrigações de 100$000,
200$000 e 500$000, a 80%, uros de 6% resgataveis ao par, tendo em
consideração o que dessa renda deve ser applicado
á satisfação dos encargos provenientes do emprestimo
de Londres.
O sr. engenheiro apresenta dous calculos (...).
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(...)
Directoria da Estrada de Ferro D. Pedro II, em 31 de Março
de 1870.
Deus guarde a V. Ex. — Illm. Sr. conselheiro Diogo Velho Cavalcanti
de Albuquerque, digno Ministro e Secretario de Estado dos Negocios
da Agricultura, Commercio e Obras Publicas.
M. P. Ferreira Lage
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