Marechal Pessoa, 1954
Carta ao Ministro da Viação
Marechal José Pessoa, Carta ao Ministro da Viação
e Obras Públicas
em 8 de novembro de 1954, in Relatório anual da CLNCF,
1955, p. 15
[cf. AH3:645-647]
Após décadas de trabalhos e estudos empreendidos
por tantos brasileiros ilustres e patriotas, entre os quais podemos
citar os eficazes serviços de Vossa Excelência, como
antigo membro desta Comissão, o problema da mudança
da capital federal continua em foco digno da atenção
dos poderes públicos e dos esforços de todos nós.
Quando tive a honra de conversar pessoalmente com Vossa Excelência,
na semana passada, em audiência que me concedeu, pude lhe
expor meu pensamento sobre as primeiras e urgentes ligações
para o planalto central, para onde devemos, com brevidade, fazer
convergir todas as comunicações necessárias,
tanto para a construção da nova capital quanto para
sua posterior serventia. Urge, pois, ligar, com boas estradas, o
planalto central ao mar.
Encorajado com a decisiva cooperação do senhor Ministro
da Guerra, que acordou em que um dos Batalhões de Engenharia
do nosso Exército fosse oportunamente sediado naquelas paragens
— o que será o primeiro fato concreto para o objetivo visado
— retorno agora a Vossa Excelência para reviver o assunto
de nossa entrevista.
Pelos estudos feitos sobre as atuais e futuras redes rodo-ferroviárias
para aquele planalto, chegamos à conclusão de que
devemos tomar as providências desde já, pois estamos
na iminência da escolha do local onde deverá ser erguida
a nova capital federal.
Para esse fim, escolhemos, dentro da área onde será
construída a nova cidade, três vias de acesso, contempladas,
aliás, no Plano de Viação Nacional: a BR-14,
a EF Goiás e o trecho ferroviário, em construção,
de Pirapora (Minas Gerais) a Formosa (Goiás).
Para servir ao objetivo em marcha, a primeira rodovia a considerar
é o prolongamento de Frutal ao sítio da nova capital,
da qual só restam construir três pequenos trechos a
ser ulteriormente pavimentada.
A Estrada de Ferro Goiás, já em tráfego, obteve
substancial empréstimo e promove a duplicação
da sua atual tonelagem.
Quanto à terceira via de acesso considerada, o trecho Pirapora-Formosa,
que atravessa riquíssima região, de alto valor econômico,
penso deva merecer a atenção cuidadosa do governo.
A construção do trecho referido, de 393 quilômetros
de extensão, desenvolve-se morosamente. Por isso, encareceria
a Vossa Excelência que ela fosse acelerada e construída
em bitola larga, desde a capital a Belo Horizonte, porque essa estrada
vai se destinar, em futuro próximo, a atender às múltiplas
necessidades da capital da República e do País e,
assim, se impõe que seja uma via confortável, de grande
capacidade de tráfego e rendimento.
Devo informar a Vossa Excelência que o trecho Pirapora-Formosa
já tem atacado e locado 150 km e está projetado
para bitola de 1,00 m ou de 1,60 m, com rampa de um por cento, curvatura
de 312 m de raio mínimo e tangente de 150 m, exigindo trilhos
mais ou menos pesados, segundo o caso.
Sendo assim, pediria a Vossa Excelência que este trecho fosse
construído em bitola de 1,60 m, para o que poderemos contar
com a ajuda do referido Batalhão de Engenharia, fazendo-se
depois o alargamento da bitola entre Pirapora e Belo Horizonte.
Creio, senhor Ministro, que todo esse empreendimento poderá
ser realizado sem sobrecarregar o atual estado das nossas finanças,
uma vez que os recursos sejam obtidos da reunião das verbas
concedidas para a construção de vários trechos
dispersos pelo território nacional, os quais não resolverão
qualquer problema imediato.
Com esta providência, conseguiria o país, sem maior
esforço, chegar ao seu grande objetivo, levando a civilização
ao sertão brasileiro, desenvolvendo economicamente ricas
regiões, de clima saudável, e plantando, em local
seguro e abrigado, longe do alcance dos canhões da esquadra
de um inimigo forte, a capital do Brasil.
Aproveito a oportunidade para apresentar a Vossa Excelência
os protestos de minha estima e real consideração.
Mal. José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque.
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