Café Filho, 1955
Tarefa para vários governos

Presidente Café Filho, Mensagem ao Congresso Nacional,
em 15 de março de 1955, p. 41 [cf. AH3:651-653]

O problema da mudança da capital federal vem acompanhando todo o curso da nossa evolução histórica. A partir do advento da República, adquiriu maior relevo, sendo objeto de dispositivo constitucional expresso. Não apenas estadistas, mas ainda estrategistas, geógrafos e economistas dele se têm ocupado, considerando sua solução como elemento essencial ao progresso do País. Embora as razões e vantagens da mudança da capital tenham sido revistas, em face dos modernos meios de transportes e de novas concepções no tocante à defesa do País, o problema ainda se reveste de atualidade, tanto assim que continua objeto específico de dispositivo constitucional.

Dentre os vários fatores que impõem uma ação coordenada dos poderes públicos, no sentido de encontrar uma solução e dar assim realidade ao imperativo da Constituição, ressalta a necessidade de implantar, no interior do País, um eixo vital de irradiação de progresso, capaz de promover não só melhor inter-ligação do litoral com o centro, senão também, e sobretudo, estimular a interiorização crescente da civilização brasileira.

A mudança da capital, porém, ainda continua na fase de planejamento. Não se pode admitir que empreendimento de tal magnitude, que tem sido objeto de pesquisas continuadas das administrações anteriores, seja tentado como uma improvisação, de vez que a capital de um país não exige apenas a limitação de área ou execução de gigantescos planos de engenharia e obras, mas ainda a criação de uma consciência de metrópole, que é tão importante como todo o mecanismo administrativo que constitui uma sede de governo.

Com suas atividades limitadas a um período de pouco mais de um ano, o atual governo não poderia ter a iniciativa de grandes realizações. Mas é verdade que uma de suas principais preocupações foi assegurar a continuidade das obras administrativas que já estavam programadas ou em execução.

Dos empreendimentos que o governo encontrou em andamento, um não poderia deixar de merecer especial atenção, tendo em vista o que ele representa para o progresso e o futuro do Brasil [*].

Trata-se da interiorização da capital federal, velha e legítima aspiração nacional. Essa obra, pela sua importância e indiscutível oportunidade, não pode sofrer solução de continuidade. Pelo contrário, o seu prosseguimento deve ser encarado com realismo e objetividade, de modo que, em futuro próximo, esse anseio de tantas gerações de brasileiros se possa transformar em realidade.

Por considerar a mudança da capital um dos problemas de maior relevância e que, por isso mesmo, deve figurar em posição destacada na ordem de prioridade, o atual governo, logo no início de sua gestão, providenciou a imediata recomposição da respectiva Comissão, dotando-a, ainda, dos elementos materiais de que necessita para o perfeito desempenho de sua difícil e importante missão.

Uma vez recomposta, a Comissão de Localização da Nova Capital [Federal – CLNCF] não só deu imediato prosseguimento a todas as medidas até então encetadas, mas ainda determinou providências capazes de garantir a consecução do objetivo que tem em vista realizar.

Problema de alta relevância, que exige enormes recursos financeiros, a mudança não poderá ser obra de uma administração. Terá de ser, forçosamente, o resultado do trabalho contínuo e persistente de várias administrações. Mas, em face das repercussões e conseqüências relativas à expansão e desenvolvimento geral do país, a interiorização da capital é um desses empreendimentos que não podem sofrer maior dilação.

A transferência da capital requer, preliminarmente, a adoção de uma série de providências, visando a criar no futuro Distrito Federal condições sociais e econômicas propícias ao desenvolvimento regular e satisfatório de uma cidade moderna.

Fiel a essa orientação, a Comissão de Localização da Nova Capital Federal elaborou, para execução no corrente ano, o seguinte plano de trabalho: estudo dos problemas peculiares a uma grande cidade; serviços de água, energia elétrica, esgotos, abastecimento etc.; transferência para o local destinado à futura capital, de batalhões de engenharia, com o fim de colaborarem nas obras iniciais; conclusão de três estradas de ferro incumbidas de estabelecer ligação com a nova capital.

Para o estudo dos problemas de natureza local, peculiares a toda cidade, já foram designadas subcomissões.

A possibilidade da criação de um batalhão de engenharia no futuro Distrito Federal está sendo devidamente estudada pelo Ministério da Guerra.

Por outro lado, o Ministério da Viação adotou a orientação de dar rápido andamento às obras das estradas de ferro que farão a ligação da nova capital com os outros pontos do País.

   

Documento

Referências

[*]. A verificar no original da Presidência da República. Este parágrafo sugere uma quebra no texto da mensagem, um novo início da referência ao tema. Não há indicação em AH3 de supressão de qualquer trecho intermediário, ou junção de trechos originalmente isolados. Pelo contrário, a indicação é de que todo o texto seria da página 41 da mensagem presidencial. Resta a possibilidade de transição mal costurada entre blocos de texto originalmente produzidos por diferentes órgãos e assessorias.

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