1867: Tavares Bastos
Memória sobre immigração

IX – Facilidade de communicações

(...)

A explicação da extraordinaria corrente de emigrantes para certos paizes fornece-a principalmente o seu systema de communicações.

No fim de 1864 os Estados Unidos possuiam 33.860 milhas de caminhos de ferro em effectiva exploração. As obras em andamento deviam elevar esse numero a 51.114 (Bigelow, p. 439). Para avaliar a enormidade desses algarismos, basta dizer que a Europa inteira não possue mais que 42.000 milhas. No fim de 1863 a Inglaterra contava 12.230 e a França 7.460 milhas em exploração. Os Estados Unidos tinham empregado nas suas estradas de ferro perto de 2 milhares e 400 mil contos, a França pouco menos de 2 milhares, a Inglaterra cerca de 4 milhares (Journal des Économistes, Dezembro de 1866, p. 471). Uma das estradas em construcção nos Estados Unidos é a que, atravessando os territorios e Estados occidentaes, communicará directamente o valle do Mississipi com o litoral do Pacifico. Esta linha, decretada em 1862 durante a guerra civil, concluida em parte, estará acabada em 1872; tem 1.500 milhas de extensão; o capital da respectiva companhia é 200 mil contos; o governo presta-lhe uma consideravel subvenção por milha (30 a 90 contos, conforme as condições locaes), e fez-lhe largas concessões de terras publicas. Se o projecto é audaz, não é menos energico o auxilio prestado. Assim, a tentativa será um facto, e os Estados Unidos terão a gloria de resolver o problema de um enorme caminho de ferro continuo através do deserto. Em summa, para avaliar o impulso que nesse grande paiz se tem dado aos caminhos de ferro nos ultimos tempos, comparemos estes dados: — Em 1852, a exploração abrangia 10.900 milhas; em 1862, subiu a 33.222. Mais de 22.300 milhas em 10 annos, ou cerca de 2.230 de augmento em cada anno.

A eloquencia destes algarismos, porém, é maior diante dos nossos. Eis aqui um quadro dos caminhos de ferro do Brasil:

Nomes Provincias Extensão construida em Kil. Custo em contos de réis
D. Pedro II
Rio de Janeiro
196    
27.035:000$     
(até a estação
de Entre-Rios)
Mauá
Rio de Janeiro
16 ½
1.743:764$     
Cantagallo
Rio de Janeiro
50    
2.183:155$     
Tijuca
Municipio neutro
9    
800:000$ (?)
Santos a Jundiahy
São Paulo
139    
20.000:000$ (?)
Bahia ao Joazeiro
Bahia
123 ½
16.000:000$ (?)
Recife a S. Francisco
Pernambuco
125    
16.000:000$ (?)
Apipucos
Pernambuco
8    
200:000$ (?)
Total (8 estradas de ferro)   
667    
83.961:000$     
(V. o Esboço historico das estradas de ferro do Brasil, 1866, pelo Sr. Conselheiro C. Ottoni).

O Brasil conta, portanto, cerca de 415 milhas de caminhos de ferro no valor de 84 mil contos. Que é isto perante os milhares de milhas e os milhares de contos dos grandes paizes do mundo?

Quatrocentas e dez milhas para um paiz de oito milhões de habitantes, quando a Suissa, um ponto na carta do mundo, possue mais de 680!

(...)

O Brasil deve empenhar-se desde já, sem demora, no desenvolvimento dos meios aperfeiçoados de communicação.

O rio de S. Francisco, com uma navegação de 240 leguas desembaraçada para grandes paquetes, só agora será sulcado por um vapor que o Sr. Conselheiro Dantas fizera construir no anno findo. Entretanto, é a linha central das communicações de grande parte do Brasil. A provincia do Rio Grande do Sul, situada entre as bacias da lagôa dos Patos e do rio Uruguay, tendo ao oeste e ao sul os territorios do Paraguay, da Republica Argentina e do Estado Oriental, ainda espera a sua primeira estrada de ferro. Minas Geraes igualmente não possue nenhuma. Só o Rio de Janeiro tem agora o tronco da sua rêde de communicações.

Quando em 1864 o autor desta memoria offerecia, como relator de commissões da Camara dos Deputados, um projecto autorisando o prolongamento das actuaes linhas ferreas e a navegação a vapor do alto S. Francisco, tocaram a rebate todos os terrores que obstaram e demoraram a construcção de estradas de ferro no Brasil, como em outros paizes.

Tratava-se de estabelecer regras para o systema das concessões, e permittia-se ao governo contractar as novas linhas previamente estudadas na direcção do interior.

Suppunha-se que esses trabalhos consumissem 100.000 contos, e que a garantia de juros absorvesse 5.000 annualmente; como elles não ficariam concluidos antes de alguns annos, como a renda cresce e a riqueza publica é cada vez maior, não padece duvida que tal sacrificio seria inapreciavel em pouco tempo.

Com effeito, ha alguns annos todos se queixavam do sacrificio imposto á nação pelas estradas de ferro da Bahia e Pernambuco. Pois bem, a segunda apenas consome hoje cerca de 500:000$ de garantias provinciaes e geraes, e a outra já começa a prometter allivio ao Estado. Entretanto, essas foram, em verdade, linhas mal traçadas e construidas sem economia.

Os mais timidos dos nossos estadistas pódem, portanto, encarar sem pavor a questão das estradas de ferro. Ha cinco annos ellas ainda estavam na infancia, mal se podia augurar dos seus resultados. Pois bem, em tão pequeno periodo, a revelação (pois que é uma revelação) tem sido grande. Tomemos a estrada de ferro de D. Pedro II. A sua administração e custeio consomem cerca de 1.200:000$. O respectivo capital, representado por divida do governo, paga cerca de 1.300:000$ de juros. Total dos encargos do governo, seu proprietario, 2.500:000$. Ora, a renda já orça por 1.900.000$, e calcula-se que será maior de 2.500:000$, aberta a estação de Entre-Rios, dentro de poucos mezes. Ha quem presuma que essa receita excederá, então, de 4.000:000$, calculando o accrescimo de transporte e viajantes que a estrada absorverá da União e Industria. Em todo o caso, é certo que a receita excederá á despesa, e permittiria, se o quizessem, a amortisação do capital em um periodo curto, se não fosse mais util reservar parte della para garantias ou subvenções ás empresas que prolongarem a linha construida.

Em summa, fala-se nos sacrificios occasionados pelas estradas de ferro; pois bem, o ultimo projecto de lei do orçamento apenas consignava 2.107:000$ para o serviço da garantia de juros, somma que o trafego da esperançosa estrada de São Paulo poderá reduzir consideravelmente.

Mais eis o que se vê sómente: a somma paga pelo thesouro. O que se não vê, porém, é muito maior, é enorme em relação a esse sacrificio, quando mesmo fosse de 4, ou de 5, ou de 10.000:000$: é o consideravel augmento da importação e da exportação nos ultimos annos, é a economia de fretes para a lavoura e para o commercio, é o melhoramento da vida no interior, é a elevação do valor das propriedades ruraes, é a maior moralidade pela mais facil repressão do crime e mais efficacia da acção da autoridade, é a maior actividade no paiz, é a subida dos salarios, é a creação de novas industrias nas zonas das estradas de ferro, é, finalmente, a commodidade de transportes para o viajante, para o immigrante.

  

Aureliano Cândido
Tavares Bastos.
Memoria sobre immigração
1867
in Os males do presente e as esperanças do futuro.
Cia. Editora Nacional, 1939

Índice

  1. Movimento da immigração
  2. ...
  3. ...
  4. A questão das terras
    1. Discriminação do dominio nacional
    2. Divulgação das terras devolutas
    3. Alienação das terras publicas
    4. Imposto territorial
  5. Nucleos coloniaes
  6. Contractos de parceria e de locação de serviços
  7. Naturalisação
  8. Liberdade religiosa – Casamento civil
  9. Facilidade de communicações
  10. Considerações geraes
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