O Brasil conta, portanto, cerca de 415 milhas de caminhos de ferro no valor de 84 mil contos. Que é isto perante os milhares de milhas e os milhares de contos dos grandes paizes do mundo? Quatrocentas e dez milhas para um paiz de oito milhões de habitantes, quando a Suissa, um ponto na carta do mundo, possue mais de 680! (...) O Brasil deve empenhar-se desde já, sem demora, no desenvolvimento dos meios aperfeiçoados de communicação. O rio de S. Francisco, com uma navegação de 240 leguas desembaraçada para grandes paquetes, só agora será sulcado por um vapor que o Sr. Conselheiro Dantas fizera construir no anno findo. Entretanto, é a linha central das communicações de grande parte do Brasil. A provincia do Rio Grande do Sul, situada entre as bacias da lagôa dos Patos e do rio Uruguay, tendo ao oeste e ao sul os territorios do Paraguay, da Republica Argentina e do Estado Oriental, ainda espera a sua primeira estrada de ferro. Minas Geraes igualmente não possue nenhuma. Só o Rio de Janeiro tem agora o tronco da sua rêde de communicações. Quando em 1864 o autor desta memoria offerecia, como relator de commissões da Camara dos Deputados, um projecto autorisando o prolongamento das actuaes linhas ferreas e a navegação a vapor do alto S. Francisco, tocaram a rebate todos os terrores que obstaram e demoraram a construcção de estradas de ferro no Brasil, como em outros paizes. Tratava-se de estabelecer regras para o systema das concessões, e permittia-se ao governo contractar as novas linhas previamente estudadas na direcção do interior. Suppunha-se que esses trabalhos consumissem 100.000 contos, e que a garantia de juros absorvesse 5.000 annualmente; como elles não ficariam concluidos antes de alguns annos, como a renda cresce e a riqueza publica é cada vez maior, não padece duvida que tal sacrificio seria inapreciavel em pouco tempo. Com effeito, ha alguns annos todos se queixavam do sacrificio imposto á nação pelas estradas de ferro da Bahia e Pernambuco. Pois bem, a segunda apenas consome hoje cerca de 500:000$ de garantias provinciaes e geraes, e a outra já começa a prometter allivio ao Estado. Entretanto, essas foram, em verdade, linhas mal traçadas e construidas sem economia. Os mais timidos dos nossos estadistas pódem, portanto, encarar sem pavor a questão das estradas de ferro. Ha cinco annos ellas ainda estavam na infancia, mal se podia augurar dos seus resultados. Pois bem, em tão pequeno periodo, a revelação (pois que é uma revelação) tem sido grande. Tomemos a estrada de ferro de D. Pedro II. A sua administração e custeio consomem cerca de 1.200:000$. O respectivo capital, representado por divida do governo, paga cerca de 1.300:000$ de juros. Total dos encargos do governo, seu proprietario, 2.500:000$. Ora, a renda já orça por 1.900.000$, e calcula-se que será maior de 2.500:000$, aberta a estação de Entre-Rios, dentro de poucos mezes. Ha quem presuma que essa receita excederá, então, de 4.000:000$, calculando o accrescimo de transporte e viajantes que a estrada absorverá da União e Industria. Em todo o caso, é certo que a receita excederá á despesa, e permittiria, se o quizessem, a amortisação do capital em um periodo curto, se não fosse mais util reservar parte della para garantias ou subvenções ás empresas que prolongarem a linha construida. Em summa, fala-se nos sacrificios occasionados pelas estradas de ferro; pois bem, o ultimo projecto de lei do orçamento apenas consignava 2.107:000$ para o serviço da garantia de juros, somma que o trafego da esperançosa estrada de São Paulo poderá reduzir consideravelmente. Mais eis o que se vê sómente: a somma paga pelo thesouro. O que se não vê, porém, é muito maior, é enorme em relação a esse sacrificio, quando mesmo fosse de 4, ou de 5, ou de 10.000:000$: é o consideravel augmento da importação e da exportação nos ultimos annos, é a economia de fretes para a lavoura e para o commercio, é o melhoramento da vida no interior, é a elevação do valor das propriedades ruraes, é a maior moralidade pela mais facil repressão do crime e mais efficacia da acção da autoridade, é a maior actividade no paiz, é a subida dos salarios, é a creação de novas industrias nas zonas das estradas de ferro, é, finalmente, a commodidade de transportes para o viajante, para o immigrante. |
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